quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Nobel da Paz para a União Européia.

Não houve maiores repercussões quanto à concessão do Prêmio Nobel da Paz, versão 2012, para a União Europeia. O Prêmio, segundo o seu comitê, foi concedido em virtude da estabilização que a União deu à Europa, o que teria proporcionado sessenta anos sem guerras na região, o que é inédito. As dúvidas com relação à concessão, além das antigas - relacionadas ao fato de Menahen Begin, Henry Kissinger e o próprio Obama já terem sido agraciados, se somam também as atuais. Estas estão relacionadas com a grave crise econômica que envolve a maioria de seus países membros e também o fato de o primeiro ministro inglês, David Cameron, não ter comparecido na cerimônia de entrega do prêmio, não passou despercebido.

Diante da autoridade moral de alguns agraciados com o prêmio, comos os citados acima, é que um outro Nobel, o de literatura, o escritor colombiano Gabriel Garcia Marques sugeriu que o prêmio fosse rebatizado. Em vez de continuar sendo chamado de prêmio Nobel da Paz, ele deveria  passar a se chamar de prêmio Nobel da Guerra.

Mas creio que este seja um bom momento de passar um olhar e ver o que se passa nos países membros dessa União. Eu tenho em Perry Anderson um dos meus autores de referência. Ele comparece neste mês ao Le Monde Diplomatique-Brasil (edição de dezembro 2012 - nº 65) com um artigo sobre o tema, com o título de  A Europa diante da hegemonia alemã. O título já evidencia o domínio que os alemães exercem sobre a Europa, especialmente aqueles mais desprotegidos e, portanto, as vítimas dessa dominação. Agora transformar essa dominação em hegemonia, já é demais.

O texto não é de fácil assimilação. Vou tentar pinçar algumas idéias. Perry Anderson gasta um longo espaço em seu texto, se estranhando com Habermas, sobre as suas visões sobre o futuro da União Eueropeia. Estranha o seu caráter otimista e especialmente o seu conformismo com os grupos políticos dirigentes. Depois é que o autor mergulha na análise da perspectiva econômica, que é onde se localiza o cerne da questão, a crise que já é a de maior tempo de duração, após a segunda guerra mundial.

Considera que a raiz da crise está na superfinanceirização da economia, sob o comando do Banco Central Europeu. Agora esta economia está voltando ao seu plano real e o que é levado em conta é a questão do dinheiro, do econômico e não o das pessoas, o seu lado social. Aponta que a Alemanha é a grande beneficiada desta situação, - sua superioridade é absoluta - por uma série de fatores, especialmente porque a sua economia ganhou condições de competitividade sem paralelo, com a permanente ameaça aos seus trabalhadores, de levar suas fábricas para o leste europeu.

Hoje, em conjunto com os países nórdicos, aplica aos países periféricos (Irlanda, Grécia, Espanha, Portugal e Itália) programas de austeridade tão draconianos, que ela jamais teria coragem, ou condições políticas de aplicá-las aos seus cidadãos. Por outro lado, estes países, amarrados à moeda comum, não têm autonomia para desvalorizarem suas moedas para trabalharem em novos níveis de competitividade. As soluções políticas perdem cada vez mais o seu espaço, em favor de soluções da tecnoburocracia.

Sob a ordem "é preciso restaurar a confiança dos credores" se promove o que nós vimos aqui na América Latina e no Brasil ao longo dos anos noventa. O corte nos gastos sociais e a privatização dos bens públicos. O único resultado, por enquanto, é a produção de mais desigualdade. Mais acumulação de um lado e a extensão da pobreza no outro, junto com as desestabilizações sociais e políticas que acompanham estas crises, como a história nos ensina.

As coisas são apresentadas com tanta naturalidade, que passam a ser vistas como alternativa única e por tácita aceitação do inevitável e, assim, a dominação vai se transformando em hegemonia, algo que é muito perigoso. Perry Anderson termina o seu texto citando o precedente histórico do ocorrido por ocasião da Unificação alemã, sob o comando de Bismarck, em que a Prússia submeteu por completo a Baviera.

Existe na Alemanha uma ideia de Grossmacht (Gross = grande e Macht = poder), a ideia de um grande poder, ideia com a qual muitos políticos estão flertando, de uma grande potência e o autor exorta a França para que ela não seja a Baviera da vez. Pelo visto muitas coisas não foram levadas em conta, por ocasião da escolha da União Europeia para o prêmio Nobel da Paz, na sua versão 2012. A história quando se repete...


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