quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

AMOR - Um retrato seu na velhice. O Filme de Haneke.

Fevereiro está chegando e com ele o dia 24. Neste dia saberemos quem serão os grandes vencedores do Oscar 2013. A agitação cultural, cada vez mais fortemente, estará centrada em torno deste fato. Nesta semana saíram mais dois prêmios. As indicações dos atores e dos produtores de cinema foram para Argo, de Ben Affleck. Estes prêmios o creditam como o principal favorito ao Oscar. Será? Eu assisti a este filme, ainda em dezembro e, sobre ele publiquei post, no dia 03.12.2012. Comentei que era um filme bem ao gosto dos americanos. Ele retrata a retirada heroica de membros da embaixada americana no Irã, em 1979, quando da revolução islâmica.

Na terça feira (29), fui assistir ao filme sobre o qual, eu particularmente, tinha as maiores expectativas. Amor, sob a direção de Michael Haneke. A Fita Branca tinha me impressionado demais. Amor já recebeu a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro, como o melhor filme estrangeiro.
Cartaz do Filme Amor. O semblante de Anne. Um retrato dos problemas da velhice, da doença e da morte.

Talvez o ponto culminante deste filme seja a cena em que Georges, recebendo a visita da filha Eva, tranca o quarto de Anne, para que Eva não veja o sofrimento da mãe. "Nada disso deve ser mostrado", fala Georges para a sua filha. O sofrimento de Anne é o tema do filme, que concorre, inclusive, aos prêmios de melhor roteiro original e de melhor atriz.

Georges e Anne formam um casal de músicos aposentados que levam uma vida aparentemente maravilhosa. As dificuldades chegam com a velhice e a doença. Anne sofre um primeiro e um segunde derrame e a sua situação vai se deteriorando a cada dia, com a paralisia do lado direito, a perda da fala, de toda a autonomia física e a total descoordenação psíquica. Uma situação de total desconforto. Se sucedem cenas lentas, muito lentas, de ternura, de carinho, de comprometimento cúmplice, de suportabilidade e insuportabilidade, de paciência e de impaciência, de veemência e de ternura. Uma situação vivida a dois e que, ao que parece, era absolutamente indesejada para ela. Dessa situação vem o título do filme: Amor. Amor acima de tudo como comprometimento. Uma situação, à qual não se contrapõe outra situação.

Esta inevitabilidade gera os atritos com Eva, a filha. Ela pertence a uma outra geração. Ela não sabe viver no desconforto. Tem que haver outra solução..., um outro médico..., um internamento em uma clínica..., mais uma enfermeira. Tem que haver uma solução que, no entanto, não é vislumbrada por Georges. Eva consegue até discutir aplicações financeiras, em meio a essa situação. As relações se tornam ásperas.

Muita ternura no filme Amor. Em cena Georges (Jean Louis Trintignat) e Anne (Emmanuelle Riva).

Anne, depois de uma crise muito forte, é acalmada por Georges, numa cena de ternura e encanto ímpar e, quando consegue o seu intento, deixando Anne em repouso completo e absoluto recorre a uma solução fatal, inesperada, ao menos neste momento do filme.

O filme é um retrato real da velhice, das restrições que ela impõe ao ser humano, de seus limites físicos e psíquicos e da total perda da autonomia, ou em outras palavras, fica-se na dependência total. Paralelo a este drama se desenrola o de como as pessoas lidam com isso e o desconforte que isso causa. Uma cena forte é o descaso e o desprezo com que uma enfermeira trata de Anne, e a reação indignada de Georges.

Amor é uma produção francesa, austríaca e alemã. Pertence ao cinema de "diretor", ou ao cinema "cabeça". Durante o filme e, ele dá espaços para isso, lembrei-me do documentário de João Jardim - A Janela da Alma. Nele existe uma fala monumental de Wim Wenders, falando sobre o cinema, o cinema lento de antigamente, que era lento e pausado, para que sobrassem espaços para a tua imaginação, para a tua reflexão. Não era tudo show, tudo espetáculo, tudo entretenimento. Amor é isso. Um filme que causa desconforto e reflexão, diante de um dos mais graves temas que a humanidade sempre enfrentou, mas que hoje enfrenta de uma maneira muito particular: a doença, a velhice, a perda da autonomia e a morte.O filme tem cinco indicações para o Oscar.

Melhor filme.
Melhor filme estrangeiro.
Melhor direção. - Michael Haneke
Melhor atriz: Emmanuelle Riva, no papel de Anne. A atriz recebe esta indicação aos 85 anos de idade.
Melhor roteiro original.- Michael Haneke.

O filme nasce de uma experiência particular de seu roteirista e diretor, a partir de uma tia sua, de 92 anos, que lhe teria pedido ajuda para morrer e, como ele não a deu, ela foi encontrar a morte com o suicídio.

O filme que concorre às cinco indicações acima apontadas para o Oscar, representa uma reverência e um reconhecimento a uma outra forma de fazer cinema. Que bonito. Fiquei muito intrigado, quando li o comentário de Luiz Zanin, do Estadão blogs, quando ele fala de críticas que Michael Haneke, seu diretor, recebeu do Cahiers du Cinéma, em função do teor moral que o filme envolve. Assim se manifesta Luiz Zanin: "Seria incrível o filme ser reconhecido pela Academia de Hollywood e não pelo Cahiers, uma revista fundada, nos anos 50, pelo grande intelectual católico André Bazin. O paradoxo dos paradoxos".

Aos moralistas, a esta gente arrogante, que simultaneamente pregam o livre arbítrio, bem como a sua negação, pela obrigatoriedade de seguir ao monopólio de suas determinações, recomendo Nietzsche. Dois de seus livrinhos em particular: Genealogia da Moral - Uma polêmica e Além do Bem e do Mal - Prelúdio a uma filosofia do futuro.

Uma recomendação importante. Como o filme foi revestido de um certo glamour, com as suas indicações para o Oscar, muita gente o está assistindo. Em meio a todo o silêncio que o filme tem e exige para ser visto, ouviam-se ruídos dos sacos de pipoca, do mastigar das pipocas, de chamadas no celular e até, por incrível que pareça, risadas. Também teve gente, estes inteligentes, que saíram durante o filme. Por muito pouco eu não me retirei (eu fui numa sessão das 18:30hs.), para voltar a assisti-lo numa sessão por volta de 14:00 hs., quando não tem quase ninguém no cinema. E olha que o filme não está passando nos cinemas do circuito comercial.

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