terça-feira, 29 de janeiro de 2013

E o Sertanejo entrou na Universidade. E na de Brasília, na UNB.

Esta história é, no mínimo, engraçada. Eu a ouvi num programa de rádio. É a seguinte. Entre as exigências para prestar o vestibular na famosa universidade de Brasília, aquela concebida pelo Darcy Ribeiro, está relacionada a música da dupla sertaneja Munhoz e Mariano, Camaro Amarelo. Quando eu ouvi isso, falei comigo: "Isso não pode ser verdade". Pesquisei e constatei, não somente a sua indicação, mas também, todas as justificativas em torno.

Como eu tenho muitos pecados para pagar, resolvi expiar alguns deles e, ouvi a música: Eu to do...do...do... doce....caramelo..... Camaro amarelo. A rima não é rima pobre! É fantástica! Amarelo com caramelo.         "Agora eu fiquei doce igual a caramelo - Tô tirando onda de Camaro amarelo".

 A história é a seguinte: O rapaz namorava a moça e ele era pobre. Só tinha uma CG, uma moto. E ela não dava bola. Depois os pais dele morreram e, lhe deixaram uma herança, e então ele se desfez da CG e comprou um Camaro amarelo e ficou doce como um caramelo e passou a esnobar a moça, pois, estava assim... assim de moça atrás dele.

Entre as justificativas da universidade, está a de que os jovens tem que ter um real contato com a sua cultura e a partir dela fazer uma análise crítica da realidade em que eles vivem. Até aí eu até concordo. Eu posso fazer uma análise da sociedade a partir dessa letra. A minha dúvida reside, se eu de fato tenho que chegar a esse nível para ter contato com a realidade. Posso levantar temas sobre valores, sobre o amor, sobre a herança e até flagrar a contradição de que ele não precisaria esperar os pais morrerem, para comprar o Camaro amarelo. Mas a academia sempre teve uma clima sério e de austeridade necessária. A academia tem as suas liturgias.

Poderia evocar os estudos de Adorno sobre a indústria cultural, o famoso capítulo da Dialética do Esclarecimento, onde aparece o tema da indústria cultural, ela como mistificação das massas e é lançado o conceito de que a arte virou entretenimento e que não mais é o veículo para as ideias e para o pensar, mas um puro produto para o consumo de massa... A arte obedece a mesma lógica da produção de mercadorias para o consumo imediato.
A indústria Cultural - A dialética como mistificação das massas. Seria válido! E se Adorno ressuscitasse?

Poderia evocar Bauman e seus estudos sobre a pós-modernidade. Discutir o seu livro Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos laços humanos, ou o último de seus livros - Danos colaterais - Desigualdades sociais numa era global, mas creio que tudo isso seria um forçar a barra, que não sei se faria muito sentido. Sempre que existe uma contradição, dá para fazer uma contextualização, mas a academia sempre prezou um certo nível. O nível acadêmico.
Os laços líquidos e os efeitos colaterais da sociedade capitalista global. Os tempos pós-modernos. Camaro amarelo no vestibular! Ah! Isso é pós-moderno.

Da minha parte, já que agora temos a certeza de que o sertanejo efetivamente entrou na universidade, e numa universidade de boa qualidade, fico aqui na torcida de que ele se forme rapidamente e encontre uma boa colocação no mercado de trabalho. E fico aqui a imaginar o que estariam pensando sobre isso os nossos grandes formuladores sobre o significado e o papel da universidade e sobre essa própria excrescência sua, que é a instituição do vestibular. Enfim, o que estaria a pensar Darcy Ribeiro, idealizador e fundador dessa universidade, que, assim como a própria cidade de Brasília, era o símbolo do novo neste Brasil.

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