terça-feira, 26 de março de 2013

31 de Março. Para não esquecer a "Redentora".

O próximo domingo será o dia da Páscoa, mas será também o 31 de março, que no país foi uma triste data, quando voltamos para o ano de 1964. Na verdade, os fatos aconteceram no primeiro dia de abril, mas como o dia é consagrado ao dia da mentira, não dava para anunciar golpe militar transformado em revolução, fato que por si só, já se constituía numa mentira deslavada. Golpe militar travestido em revolução no dia da mentira, não dá, por isso a "redentora" foi antecipada para o dia 31 de março. O 31 de março, ou o primeiro de abril de 1964 é aquela data em que se amarraram milhares de toneladas de chumbo nos pés da nossa história para impedir o avanço de seu curso democrático e de reformas populares, incorporando o povo ao conceito de uma nação. Dia de triste memória, que, no entanto, não pode ser esquecido, para que ele nunca mais se repita.

Não quero fazer análises econômicas do período que a autopropaganda classificou de milagre econômico, nem entrar na dura repressão, que não ousou torturar e matar, para impor o poder, fora dos parâmetros legais. Quero apenas dar voz a Zélia Gattai, - para o seu belo livro de memórias A Casa do Rio vermelho, - para que ela fale de alguns personagens muito queridos de nossa história, tolhidos em sua liberdade e em sua arte pelos militares e civis golpistas, para interromperem uma sociedade em trânsito, na busca de sua identidade.
Rua Alagoinhas 33. O famoso endereço de A Casa do Rio Vermelho.

Na primeira passagem  Zélia narra um encontro, em Salvador, dos poetas Pablo Neruda e Vinícius de Moraes. A imprensa presente queria arrancar de Vinícius declarações comprometedoras, neste período de vigilância repressora. Vinícius fora afastado de seu cargo de diplomata por ação direta do general presidente, com a seguinte ordem: Afaste-se esse vagabundo. Assinado: Artur da Costa e Silva. Lembro de uma frase de Neruda  a respeito da Guerra Civil espanhola, após o assassinato do poeta Garcia Lorca. O que esperar de movimentos que começam sufocando a poesia. Essa descrição da demissão desse doce vagabundo está na página 130-1 de seu livro.

Mais adiante Zélia volta a carga, nas páginas 140-1, sob um título Festival de cassações. Por bem mostrar o ambiente cultural, ou de terror contra as manifestações culturais o transcrevo na íntegra.

"O embaixador Di Cavalcanti fora cassado, como muita gente boa, naquela época de regime militar, quando se vivia num verdadeiro festival de cassações.

Uma série de atos institucionais a partir de 1964, culminou, em 1968, com o célebre AI-5, dando poderes totais ao regime militar, carta branca para cometer, impunemente os maiores crimes: prender e torturar, cassar os direitos do homem, sobretudo de cientistas, compositores, cantores, artistas plásticos, jornalistas.

O renomado cientista Haity Moussatché, professor e pesquisador do Instituto Osvaldo Cruz, no Rio de Janeiro, foi cassado e passou quinze anos trabalhando no Conselho de Pesquisas, na Venezuela, até voltar ao Instituto de Manguinhos em 1985. Moustaché costumava dizer: Não fui eu quem foi cassado, foi toda uma geração de jovens em formação.

Dos compositores, os mais visados e atingidos foram caetano Veloso e Chico Buarque de Holanda.

Com a cabeça raspada pelos esbirros da polícia, num ato de violência e selvageria, perseguido Caetano Veloso deixou o país, foi procurar um teto em Londres.

A vez de Gilberto Gil não tardou a chegar, não era mais possível viver no Brasil. Como deixar de criar livremente suas músicas? O clima de restrições, de censura, tornava-se insuportável. Despedindo-se do Brasil e da Bahia, Gil foi encontrar-se com Caetano em Londres, partiu deixando aquele abraço. 

Chico Buarque sobreviveu muito tempo com a censura em seus calcanhares proibindo tudo e ele teimando, prosseguindo, camuflando: Apesar de você amanhã há de ser outro dia..., cantou ele, cantou o povo até que a censura maliciou, cassou, prosseguiu na tocaia à espera de novas composições para novas cassações. Chico partiu, continuou a compor na Itália, onde viveu vários anos. Debaixo dos caracóis de seus cabelos, cantou Roberto Carlos para Caetano Veloso, no exílio.

Di Cavalcanti voltou para o Brasil, para a sua pintura, aguardando dias melhores para seu país. Agora ele seria recebido com as pompas merecidas, na Bahia".

Que o nosso esforço político maior seja o do zelo pelas liberdades e dos direitos garantidos em lei. Sem exceções. E, direitos cada vez mais ampliados. Renovam-se também as esperanças de que toda a verdade deste período seja estabelecida pelo trabalho da Comissão da Verdade. 

2 comentários:

  1. Até me entristece, Pedro Elói, constatar que os jovens pelos quais lutamos, demos exemplos estejam reproduzindo o ódio da competência dos meios de comunicação. O mais assustador, no entanto, é perceber a real intenção dos verdadeiros pilantras sendo premiada pela mídia tendenciosa e dissimulada. Tendenciosa quando só mostra as montagens das notícias com apenas uma versão, dissimulada porque não esclarece os jovens (e demais cidadãos) que o Brasil não é só Lava Rato e futebol. Escondem o óbvio e isso vira verdade.

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  2. Ely, nós não esmorecemos. Isso me traz muito conforto perante a minha consciência. Mas a situação está realmente caótica. O pessimismo momentâneo se justifica. Agradeço o comentário, Ely.

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