sexta-feira, 22 de março de 2013

Compras em Miami. A Nova Doença da Classe Média Brasileira.

Muito se tem falado da nova classe média no Brasil. Aqui mesmo, já comentamos sobre o caráter conservador em sua formação. Ela não surge de movimentos coletivos, da organização social, mas em cima do discurso do empreendedorismo, do indivíduo como construtor de seu sucesso, de seu êxito. É óbvio que isso gera consequências. O seu comportamento como consumidor é a maior prova disso. É praticamente um consumidor compulsivo, o que facilmente pode ser verificado pelo grau de endividamento, a tal ponto, que está inviabilizando a continuidade do modelo, que os alçou ao mundo do consumo.
A matéria sobre a febre de consumo dos brasileiros em Miami.

Mas não é a nova classe média que faz compras em Miami. São as classes já consolidadas em suas estruturas, que diante de uma série conjugada de fatores, que elegeram a cidade de Miami, como a sua nova catedral de consumo. O principal desses fatores, sem dúvida, é a questão cambial. Para o que eu quisesse comprar em janeiro de 2003, tendo que desembolsar em torno de R$ 350,00, agora eu posso fazer essa aquisição por algo, em torno de R$ 200,00. É uma festa. Acrescente-se ainda um decréscimo no custo das mercadorias em função da evolução tecnológica.

Isso modificou hábitos. Isso gerou uma nova maneira de ser, com a inflamação do ego, por um novo status social adquirido: ser um consumidor que faz as suas compras em Miami. Este status aumenta enormemente se eu puder então, ter um segundo endereço, uma segunda residência para ostentar, - não em alguma praia brasileira, ou com alguma chácara de lazer, - em Miami. A crise imobiliária americana em muito ajudou na realização desses novos sonhos. Pelo ato de fazer compras em Miami se celebra um rito de passagem para um novo status.

Lembro muito de uma cena de infância. Geralmente meus pais, especialmente os meus faziam todas as compras em Harmonia, no Rio Grande do Sul, na cooperativa ou em alguma outra loja que teimosamente insistia em aparecer. Em Harmonia só se falava alemão. O que não era encontrado em Harmonia, minha mãe buscava em São Sebastião do Caí. Me lembro até do nome da loja. Casa Velten, para as coisas mais simples ou na Casa Adams, quando era uma mercadoria de uma qualidade um pouco superior. Raramente meus pais iam para Montenegro ou Novo Hamburgo. Mas em todos esses lugares havia algo em comum. Tinham que ser atendidos por balconistas que falassem alemão. E isso jamais foi um problema. Sim, minha mãe também fazia as consultas médicas no Caí, com o Dr. Cassel. Os sintomas e as dores, todas sempre foram ditas e ouvidas em alemão, até mesmo a medição da pressão e da compra dos remédios.

Bem, em Miami ocorre algo semelhante. Na loja L'Ocitane 85% dos clientes falam o português e, é óbvio, que as lojas se preparam para receber estes clientes, atendendo-os em sua língua. Miami é a mais brasileira das cidades americanas.

Me lembro da recente viagem à Itália, quando o guia, um basco muito divertido, nos dava números do turismo mundial. A Itália é o país que tem o maior número de prédios históricos tombados pelo Patrimônio Histórico cultural, mas não é o país que recebe o maior número de turistas. Este país é hoje os Estados Unidos e, nos dizia ele, especialmente, por um novo tipo de turista, o de menor tempo de permanência no país. Chega de manhã, faz as compras e vai embora à noite. Muitos são sacoleiros, elevados à condição de turistas. O número de brasileiros que vão a Miami, anualmente chega à casa de 1,5 milhão de pessoas.

Estes turistas tem características em comum, tanto na chegada em Miami, quanto na volta ao Brasil. Quando chegam carregam enormes malas, sempre muito leves e, no bolso, carregam muito dinheiro (Opa, - essa expressão não dá mais para usar. O cartão a tornou obsoleta, ou sem sentido). Na volta continuam as enormes malas e se inverte uma das situações. Agora as malas estão cheias e os bolsos vazios. Este novo turista não passou despercebido pelas agências de viagem, que preparam pacotes especiais para este paraíso. Só não alertam para um tipo de problema que pode acontecer na volta. As compras se limitam a U$ 500,00 por pessoa. Raramente alguém declara ter feito uma compra de valor superior a esse.

Na alfândega de Miami não há problemas. Mercadorias saindo e divisas entrando. O problema então ocorre, quando já de volta ao Brasil. Mas a alfândega reconhece que não tem estrutura para controlar tudo. Fazemos uma seleção visual, pela desproporcionalidade do número e volume das malas, conta um dos agentes, que também fala que os turistas vindos de Miami, são o alvo preferido deles.No famoso black Friday, 40% dos passageiros vindos de Miami foram fiscalizados. O agente ainda conta que que nestas ocasiões ocorre uma gritaria generalizada entre os turistas.

afonso-pena.JPG
Aeroporto Afonso Pena. Finalmente um aeroporto com linhas internacionais, melhor, uma só! Para Miami!

Sim, antes de terminar, eu me lembro. O aeroporto de Curitiba (Afonso Pena - São José dos Pinhais) é um aeroporto internacional, mas não tem vôos internacionais, mas poderá passar a ter. Mas qual é a rota? Para Miami, é óbvio. Está em estudos, um voo da American Airlines, saindo direto de Curitiba para Miami. Muitos devem estar respirando aliviados! Ufa. Até que enfim!

Esta matéria foi feita a partir de um artigo da revista Le monde Diplomatique de fevereiro de 2013. Ano 6. nº 67. Febre de consumo dos brasileiros em Miami. 


2 comentários:

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.