sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Diário de uma Viagem. Grândola - Vila Morena. Uma Canção Revolucionária.

Uma das coisas que muito me marcou nesta viagem foi um comentário do nosso guia, quando já tínhamos saído de Lisboa há um bom tempo. Ele falou: "Estamos passando por Grândola, uma cidade ligada a música, à liberdade e à democracia. Foi uma das músicas que inspirou a redemocratização do país, marcando a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974". A autoria desta música é do compositor e cantor Zeca Afonso. Apenas isso.
José Afonso
O cantor e compositor português, autor de Grândola - Vila Morena.

Na volta, encontro o meu amigo português, o Eduardo, que mora em Santa Felicidade. Contei-lhe da música e ele simplesmente a cantou. Estávamos em uma festa na chácara, onde também compareceu o meu colega, o professor Rafael, que atualmente leciona em Florianópolis. O Rafael puxou do violão e, em dupla com o Eduardo, cantaram a música, do jeito como a cantam em Portugal, a moda dos coros masculinos alentejanos. Isso me despertou a curiosidade e quis saber mais. Fiz uma busca, que quero compartilhar com vocês. É uma música revolucionária e que, ainda recentemente, interrompeu um discurso do primeiro ministro português, o conservador Pedro Passos Coelho, quando dava loas aos programas de austeridade postos em prática na crise econômica que abala o país.

Fiz uma busca e encontrei muita coisa. Grândola é uma pequena cidade no litoral alentejano. Possui hoje 15.000 habitantes. Sempre esteve ligada a industrialização da cortiça. Afinal, o Alentejo produz os melhores vinhos de Portugal. O vinho do Porto é aperitivo e digestivo. Outras riquezas de Grândola foram e são a mineração, o cultivo do trigo e do arroz, uma vez que a região do rio Sado é a grande produtora deste alimento em Portugal. Diríamos hoje, uma pacata cidade interiorana.
Monumento em Grândola, em homenagem a Zeca Afonso. O povo é quem mais ordena.

A sua história mudou com a chegada de um músico popular de nome José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, o popular José Afonso ou Zeca Afonso. Isso aconteceu no dia 17 de maio de 1964, quando a convite da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolanense, se apresentou nos festejos do aniversário da cidade. Foi apresentado como um cantor e compositor inovador. A empatia com o público foi tão grande, que quatro dias depois envia uma composição sua aos dirigentes da Comunidade da cidade. Esta composição enaltece a fraternidade existente entre os trabalhadores desta cidade. Pronto, estava aí o poema canção - Grândola - Vila Morena.

A música se transformou em grande sucesso popular. Quando em 1974 ocorre a Revolução dos Cravos, ela foi usada como senha para o Movimento das Forças Armadas, rebeladas contra a ditadura salazarista que comandava o país. Ela foi tocada aos 20 minutos do dia 25 de abril na Rádio Clube Português, indicando aos diferentes comandos, que todas as operações da deflagração da insurreição estavam indo bem. A música era a senha. Com isso a sua popularidade estoura e a liga para sempre à liberdade, à rebeldia, à democracia e à fraternidade. Se constitui por excelência numa música revolucionária. Seria uma marselhesa ou uma "para não dizer que não falei de flores", nossa, brasileira. A interligação que se fez entre a música, a ditadura e a revolução é a de que, com a ditadura salazarista, o espírito de fraternidade tinha desaparecido em Grândola e em Portugal.
O cravo vermelho, a flor da liberdade em Portugal.

A denominação "Revolução dos Cravos" se deve a uma florista que começou a distribuir cravos vermelhos para a população e a população os fez chegar aos soldados, que por sua vez os colocavam nos canos de suas espingardas. Uma simbologia muito forte. Um cravo triunfando sobre o poder armado.

Grândola hoje homenageia José Afonso em monumento dedicado à música e a sua história ficou ligada à da canção. É a Vila Morena, da fraternidade, da rebelião,da liberdade e da democracia, onde o povo é quem mais ordena.. Veja a letra:

Grândola Vila Morena

Zeca Afonso

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

4 comentários:

  1. Um dia volto a Portugal para, entre outras coisas, visitar esta cidade de Grândola. Muito obrigado pelo seu elogio.

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  2. Gostei, do que li, só tenho um pequeno senão: Grândola como muitas outras terras alentejanas sentiram na pele os grilhões da ditadura Salazarenta, mas foi o grande músico José (Zeca) Afonso que a colocou na boca do povo. Zeca um nome maior da nossa cultura, um ser sem dono na luta por melhores condições de vida para todo humanidade.

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  3. GiaSantos, gostei do Salazarento. Também vivi sob uma longa ditadura militar. Nós também temos a nossa música revolucionária, do Geraldo Vandré, Prá não dizer que não falei das flores (Caminhando). Grande Zeca Afonso. muito obrigado pelo seu comentário.

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