segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Tempo e o Vento.

Não é feio confessar que a parte mais deficiente em minha formação foi a literatura. Na base de minha formação, nos anos do ginásio e do ensino médio, no Seminário São José em Gravataí, RS. - a literatura não fazia parte. Muito latim e muita gramática era a nossa rotina de aulas e de estudos sérios e controlados. Algumas vezes tínhamos os chamados estudos livres. Nestes espaços líamos, mas quase sempre histórias piedosas das vidas de santos. Ler Érico Veríssimo seria algo inimaginável. Érico travou épicas batalhas com os padres e é compreensível que não se entendessem. A maior crítica de Érico recaía sobre a formação dos seminaristas.
O cena do casamento do capitão Rodrigo com Bibiana. O amor rompendo costumes e tradições.

Assim, conheci Érico Veríssimo por leituras esparsas de seus principais personagens e mais precisamente um livro seu que é Incidente em Antares. Tomei conhecimento de O Tempo e o Vento, de forma sistemática, quando a Companhia das Letras reeditou a obra de Érico Veríssimo e aí sim, li de um fôlego só, os seus sete volumes e com um grande lamento ao seu final, de a obra ter acabado. É das coisas mais lindas que li em minha vida. Érico se ombreia com os maiores nomes da literatura mundial, sem sombra de dúvidas. Os dois primeiros volumes de O Tempo e o Vento, - O Continente, foram melhor recebidos do que os outros cinco que o compõem: o Retrato (2 volumes) e o Arquipélago (três volumes). Não consigo concordar com isso.
Os dois volumes de O Tempo e o Vento, dos quais saiu o filme.

Agora fui ver no cinema o filme de Jaime Monjardim. É impossível não fazer um bom filme com os ricos personagens que Érico nos deixou. São personagens fabulosos e que encerram dentro de si toda uma mística da forma de ser gaúcho, este ser humano mesclado pela herança indígena, portuguesa e espanhola e, ao menos neste período, em menor influência, da cultura negra. A saga missioneira foi uma herança, que até hoje marca fortemente o Rio Grande do Sul. Assim os grandes personagens são os iniciais do livro, como Pedro Missioneiro e Ana Terra e de Bibiana Terra, a neta de Ana, que se casa com o personagem mais fantástico da literatura do Rio Grande do Sul, que Rodrigo Cambará, ou o um certo Capitão Rodrigo, que aparece ao final do primeiro volume. Assim se forma a origem da família Terra Cambará, que será a inimiga mortal dos Amaral.

Os dois volumes de O Continente se centram no Sobrado. O Sobrado é o casarão dos Terra Cambará na cidade de Santa Fé, já nos idos dos anos 1895, ao final da chamada Revolução Federalista, uma guerra muito mais entre as tradicionais famílias do Rio Grande do Sul, do que por causas de maior profundidade. Por uma cena no sobrado sitiado, Érico começa a contar a sua história e também Jaime Monjardim, o seu filme. Na Revolução Federalista a família Terra Cambará está ao lado do governador Júlio de Castilhos e do presidente Marechal Floriano Peixoto, enquanto que os Amaral estavam ao lado das forças de Gaspar Silveira Martins, que foram os revoltosos derrotados. De todas as guerras existentes no Rio Grande do Sul, esta foi a mais violenta e na qual ficaram famosas as degolas.
O mapa do Rio Grande, da forma como ele está traçado nas páginas de abertura de O Continente.

Do sobrado sitiado, Érico volta aos anos de 1745, buscando os seus personagens nas guerras de demarcação de fronteiras entre Portugal e Espanha, que só terminaram com o Tratado de Madri, em 1750, quando houve a troca dos Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento. Mesmo assim as rixas continuaram. Os primeiros grandes personagens que aparecem tanto no livro quanto no filme, são os de Pedro Missioneiro, índio oriundo das missões e que é acudido pela família Terra. Costumes, valores e a força da tradição são aí retratados. Pela figura de Pedro Missioneiro, fruto das missões jesuíticas, Érico mostra o que significaram as Missões na formação histórica do Rio grande do Sul. Do amor proibido e punido nasce Pedro, que fica sob os cuidados da mãe, a grande figura de Ana Terra. Ana terra e o menino Pedro serão os únicos sobreviventes de um massacre praticado pelos espanhois.

Forasteiros os socorrem e os levam a Santa Fé, uma cidade fundada e comandada pelos Amaral, onde de repente chega o forasteiro - um certo capitão Rodrigo, seguramente o personagem destes dois primeiros volumes. Rodrigo se enamora de Bibiana Terra, neta de Ana Terra. Aí ocorrem as melhores páginas do livro e as melhores cenas do filme, com retratos fabulosos de valores e costumes da época. Os diálogos do capitão com o padre são cenas de humor e ironia refinadíssimas. É assim que se forma a família Terra Cambará e começa a rivalidade entre o Capitão Rodrigo, que não teme ousar desafiar o poder dos Amaral. Rodrigo, porém, morre na guerra e Bibiana com os seus familiares continuam a saga da briga contra os Amaral, que vão terminar nas lutas narradas e vistas nas páginas iniciais do livro ou vistas no filme, do sobrado sitiado, numa situação de limites, que, no entanto, não são rompidos pela força da rivalidade e da tradição.
A árvore genealógica da família Terra Cambará. Este quadro ajuda muito para que ninguém se perca na longa história de mais de 200 anos. 

O filme optou por um reencontro entre Bibiana e o seu grande amor, o capitão Rodrigo, que vem encontrá-la no sobrado e, na memória, fazem a reconstituição de toda a história. De uma maneira geral o público recebeu bem o filme. A crítica nem tanto. É muita história. É para mini série, dizem as críticas. As interpretações são quase uma unanimidade de elogios. Os maiores são para Fernanda Montenegro, a Bibiana, que em sua velhice recebe o Capitão para as rememorações, para Thiago Lacerda, o Capitão Rodrigo, para Marjorie Estiano, a Bibiana jovem, linda e maravilhosa, que se enamora do Capitão e também para Cléo Pire que faz o papel de Ana Terra.

Se me permitirem um conselho, lhes direi: Não percam. O filme é muito lindo. Embora seja uma adaptação livre da obra do Érico Veríssimo, é impossível não fazer um belo trabalho com personagens tão fantásticos como Ana Terra, Bibiana e o capitão Rodrigo. Mas se eu puder mesmo dar um conselho, eu pediria que lessem o livro, ou os sete livros. que compõem toda a obra. A grandeza dos personagens, a riqueza dos diálogos, as contextualizações são fortes e envolventes demais para serem levadas para as telas com a mesma perfeição do que as letras e a escrita do livro. Na continuidade do livro aparece outro personagem, que já aparece fantasticamente numa das cenas finais do filme,ainda menino, que é Rodrigo Terra Cambará. Por este personagem a história, os valores e os costumes do Rio Grande serão trazidos até 1945. Obra fantástica e maravilhosa.




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