segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Doze Anos de Escravidão.

Você tem uma grande história, mas uma grande história ao contrário. A grande história ao contrário é a vida de Salomão Northup, um homem livre, músico de profissão, que, ao receber uma proposta de trabalho, é sequestrado e vendido como escravo para trabalhar nas lavouras de algodão da Louisiana, no escravista sul dos Estados Unidos. Salomão levava uma vida razoavelmente boa, junto a sua família, quando a infelicidade total se abate sobre a sua vida.

Em cena, Edvin Epps e o escravizado Platt. Interpretações maravilhosas.

Os horrores da escravidão praticados nos Estados Unidos são quase um lugar comum na literatura e no cinema americano. Quem quiser abordar o tema tem que inovar, sob pena de ser apenas mais um filme sobre a escravidão. O filme tem como grande destaque as cenas fortes sobre o tratamento que era dado aos escravos. Algumas cenas são particularmente fortes, como a do enforcamento e os açoitamentos que provocavam feridas abertas em suas vítimas. As cenas de tortura moral, em que os escravos, além do trabalho servil, são submetidos à  humilhações são inimagináveis.

A estruturação da história tem três personagens principais: Salomão Northup, rebatizado de Platt em sua vida de escravo; o senhor de escravos, Edvin Epps, bárbaro e cruel ao extremo e Patsey, a linda escrava por quem Epps tem uma verdadeira obsessão. Northup é interpretado por Chivetel Ejiofor e é candidato ao Oscar de melhor ator. Epps tem a interpretação de Michael Fassbender e tem indicação para melhor ator coadjuvante e Patsey tem a segura interpretação de  Lupita Nyongo'o e indicação de melhor atriz coadjuvante. O trio tem desempenho maravilhoso.
Cartaz promocional do filme, destacando Salomão Northup, o escravizado Platt. Uma grande história ao contrário.

A crítica à religião também ganha muita força. Como Deus serve para justificar toda a maldade humana! Epps, o proprietário de escravos, é a pura representação e encarnação do mal. É inimaginável tanta maldade num ser humano só. Sempre age em nome de Deus e Nele encontra plena justificativa para os seus execráveis atos. Quando uma praga atinge os algodoais do senhor Northup, a causa é atribuída à constante desobediência dos escravos, o que lhes vale chibatadas, que tem como resultado, feridas abertas em carne viva. Em nome de Deus justifica toda a sua violência e poder de vida e morte sobre os seus escravos, pelo único motivo de serem sua propriedade. Coisas do pensamento conservador e de uma religiosidade muito peculiar aos estados unidenses, especialmente aos do sul.

Northup tenta várias fugas, procura se comunicar com amigos do norte por cartas que tenta escrever, mas sempre prontamente interceptadas. A desconfiança do letramento do escravo atrai sobre ele especial vigilância. A recuperação de sua liberdade lhe vem através de um abolicionista que vem executar um trabalho para Epps, e este leva a história ao conhecimento de amigos do norte, que vem promover a sua libertação. 

O filme é baseado em fato real, relatado em livro de 1853, escrito após a sua libertação do cativeiro. Como ele ficara escravizado por doze anos, a história retrocede até 1841. Para melhor situar, a abolição só viria a acontecer em 1863 e o fato irá desencadear a Guerra da Secessão. Isso explica a impotência de Northup em não poder vir em socorro de Patsey, que a história, ao menos em sua parte romântica, parece exigir.

A escrava Patsey, a obsessão do proprietário. Humilhações e mais humilhações.

O filme não é de fácil assimilação e, ao menos na sessão em que eu fui, com a presença de umas trinta pessoas, houve três casais que se retiraram. Outras pessoas estavam irrequietas e não tão concentradas no filme. Este é um filme para ir além. Vou ler o livro para não perder os detalhes. Este também é um filme para ser trabalhado em sala de aula, especialmente para mostrar o que é uma mentalidade escravagista e profundamente anti humana, porque muitas destas mentes cheias de maldades ainda persistem.

Doze anos de escravidão concorre ao OSCAR em nove quesitos: melhor filme; melhor ator (Chivetel Ejiofor como Salomão Northup ou Platt); melhor ator coadjuvante (Michael Fassbender, como Edvin Epps); melhor atriz coadjuvante (Lupita Nyongo'o, como Patsey); melhor diretor (Steve McQueen); melhor roteiro adaptado; melhor figurino; melhor edição e ainda ao melhor desenho de produção. Fortíssimo candidato para ser o melhor filme.

5 comentários:

  1. Grande Pedro. Tua resenha não esgota o assunto; ao contrario, empurra a gente para o filme e para o livro. Você é um bruxo com as palavras.

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  2. Oi Romeu, assim você me torna vaidoso! Muito obrigado pelo seu comentário.

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  3. Parabéns pela crítica.
    Uma das coisas que mais me fez refletir nessa obra foi a questão da religião.

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  4. Acredito que a questão da religião fica até mais evidente no filme do que no livro. O livro que faz uma abordagem fantástica entre o catolicismo e a escravidão é o livro de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil. Obrigado pelo comentário.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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