quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ELA. Um Namoro com um Sistema Operacional.

O ser humano é universal, finito e atemporal, para não adjetivar mais... Terminei de ler Angústia, de Graciliano Ramos. O Luís da Silva, das angústias do presente se refugia em dois passados, um mais longínquo, que reconstitui a sua infância sob a dominação do sistema coronel e outro mais próximo, de ano e meio, em sua desenraizada vida na cidade. Tanto as angústias mais antigas, quanta as mais novas, são angústias que se situam na esfera da consciência e provocadas pelas relações humanas. A ambientação destas angústias está temporalizada pelos anos 1930, mais especificamente, na Maceió de 1936 de Graciliano Ramos.

ELA é um filme que envolve romance, drama e ficção científica. A relação humana é o seu ponto central. O presente de Theodore é dominado pela angústia de uma recente separação de Catherine, ainda não, ou mal assimilada por ele. Theodore é escritor. Escreve cartas que são enviadas por quem as encomenda. O seu instrumento de trabalho é o computador. Envolvido e refugiado na sua solidão, compra um novo Sistema Operacional (SO), por quem se apaixona. Mais precisamente, ele se apaixona pela voz deste sistema, que é a voz de Samantha no artificial e, de Scarleth  Johansson no real. O filme é de uma sensibilidade rara.

A relação de Theodore não se estabelece pelo passado, embora as suas angústias sejam provocadas pelo seu passado recente. A sua separação. Afinal de contas, a psicanálise... Mas quem determina, ou quem dá orientações para a sua vida, é o futuro, o futuro da tecnologia, o futuro do Sistema Operacional já levado à perfeição, o futuro determinado por uma inteligência artificial e não de uma inteligência da racionalidade técnica e instrumental que determina o contemporâneo e que gera as aflições de Theodore. Embora sejamos universais, carregamos as marcas da temporalidade e da historicidade. Um dia dia nos defrontamos com a vida urbana, outro, com as novas tecnologias. Quem diria que isto daria um romance e até um filme.

E o que determina ou estabelece este Sistema Operacional, ou esta inteligência artificial? É aí que reside toda a beleza e criatividade deste filme. É uma recuperação das coisas simples,do cotidiano, da sensibilidade e do humano, perdidas no atribulado complexo de relações do mundo presente. E o que é este simples e humano? Se apaixonar por uma voz que te sussurra ao ouvido, que não tem pressa e se estende nos carinhos, que contempla com ternura, que desvela os mistérios do corpo, num jogo de sedução que supera o cotidiano, rejuvenescendo o tempo e tornando o desejo um imperativo permanente. Uma relação mediada pelo cuidado e pelos seus aparentados.

Theodore é praticamente um ator solo, neste filme. Não teria merecido a indicação para melhor ator, não?

O que dificulta a relação de Theodore com o Sistema Operacional?  Ele não se conforma com as milhares de relações que Samantha tem com todos aqueles, com quem ela se relaciona. Afinal de contas, ela é um sistema. Entram em cena os vícios da cultura em que Theodore foi formado e que provocaram a sua separação. Ter a mulher como uma propriedade sua, lhe ditar as suas formas de conduta, lhe corrigir e censurar constantemente, mergulhar nas angústias dos ciúme, enfim tolher a sua individualidade e singularidade, moldando-a à sua maneira e visão. Deixar se envolver na mesmice e repetição da monotonia do cotidiano. Perder o desejo que alimenta a vida.

Gosto destes filmes em que o diretor é também o roteirista do filme. Isto se chama dominar a situação e se envolver completamente, cuidar de tudo. É trabalho que junta, que soma, concepção e execução. Spike Jonze é simultaneamente o diretor e o roteirista do filme. A primeira coisa que eu pensei sobre o filme foi a de que eu não iria gostar. Ficção científica, o mundo da tecnologia e coisas do gênero. Uma surpresa mais do que agradável. Não é um filme espetáculo. É um filme cacetada. Um filme que te faz refletir. Um filme que tem como tema a felicidade humana, que só se estabelece no tecer das relações humanas. O outro é a maior necessidade que temos em  nossas vidas.

Vai aí ainda um cartaz brasileiro de ELA.

E como comecei com Graciliano, também termino com ele. Esta é de São Bernardo e não de Angústia. "Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só". Um filme que abre para o campo dos questionamentos neste terreno tão sensível, que é o das relações humanas. "Eu sou o vínculo que vou tecendo com os outros", aprendi numa certa ocasião.

O filme é indicado para cinco estatuetas: melhor filme; melhor roteiro original (Spike Jonze, que é também o diretor); melhor trilha sonora (romantismo combina com boa música); melhor canção original e melhor desenho de produção. Tanto a crítica, quanto o público estão recebendo muito bem este filme. O maior mérito está no roteiro, na sua criatividade e nos geniais questionamentos que ele faz sobre a cultura contemporânea, na sua questão mais sensível, que é o mundo dos relacionamentos. Recomendo demais.


2 comentários:

  1. Sou eu de novo, Pedro, também comentei o filme no meu blog. Você curtiu o post. Obrigado.

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  2. Obrigado, Sérgio. O filme tem, no mínimo duas coisas fabulosas. A criatividade e a sensibilidade. O tema das relações humanas é um universo fantástico.

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