segunda-feira, 3 de março de 2014

Doze Anos de Escravidão. Solomon Northup. O livro.

Na minha infância e juventude, mesmo sendo os anos de minha formação escolar, pouco ouvi falar sobre a escravidão. Esse tema não fazia parte do currículo escolar dos seminários em que eu estudei. Nem os lamentos e clamores de Castro Alves chegaram até nós. Em compensação, dê-lhe declinações de latim e de grego e leitura de vida de santos. Currículo é uma questão de escolhas, de seleção.

Depois, ao longo de minha vida militante e acadêmica, vieram as aproximações. A leitura mais significativa que eu fiz foi o livro de Joaquim Nabuco, O Abolicionismo e os comentários sobre a obra de Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes. Até escrevi a respeito. Obviamente que também passei pelo magnífico Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre e por Darcy Ribeiro e seu maravilhoso O povo brasileiro - a formação e o sentido de Brasil. Recentemente Antônio Cândido me pôs em contato com Kátia de Queirós Mattoso  e o seu imprescindível livro sobre o tema, Ser Escravo no Brasil. 

Solomon Northup e o livro Doze anos de escravidão, com sobrecapa promocional, lançado pela Penguin&Companhia das Letras.

Agora, com o lançamento do filme e a sua indicação para o Oscar de melhor filme, e mais outras oito indicações e a parceria firmada entre o meu blog e a Companhia das letras, assisti ao filme e li o livro, narrado por Solomon Northup, Doze Anos de Escravidão. Como já comentei o filme, fico agora com o livro. O que ele tem de único e particular? Ele é um livro narrado, não por quem estudou e pesquisou sobre o tema, ele é uma narrativa de quem viveu e sofreu os horrores da escravidão em sua pele, principalmente, as dores provocadas pelas chibatadas, além, evidentemente, das dores morais e simbólicas provocadas pela privação da liberdade e do sentimento de impotência na luta pela libertação. Neste sentido, é obra única.

Logo após a introdução ao livro, ao original publicado em 1853, aparece uma espécie de subtítulo, nos seguintes termos: Narrativa de um cidadão de nova York sequestrado em Washington em 1841 e resgatado em 1853 de uma plantação de algodão perto do rio Vermelho, na Louisiana. Este cidadão nascido livre, sequestrado em Washington, às sombras da Casa Branca, e resgatado em Louisiana é Solomon Northup. O período entre o seu sequestro e a sua venda  para o sul escravista, em 1841 e o seu resgate em janeiro de 1853, são os doze anos pelos quais ele passou pela escravidão. E esta é a narrativa do livro, contada em 22 capítulos. Cada capítulo é um pouco da desventura de um homem, nascido livre e transformado em escravo.
A capa do livro Doze anos de Escravidão, o testemunho vivo de Solomon Northup, sobre os anos em que ficou escravizado.

Como homem livre Solomon teve formação escolar. Portanto, sabia ler e escrever. Era casado com Anne e tinha duas filhas e um filho. Caiu numa armadilha, quando buscava trabalho. Relacionava-se bem, nos locais em que trabalhava e isso foi fator decisivo para o seu resgate. A grande preocupação de Solomon é relatar a verdade, com absoluta precisão. A sua capacidade de observar e descrever o observado faz com o livro seja uma magnífica descrição da terrível realidade. A história é dominada pelas chibatadas que esfolavam as carnes de Solomon e dos outros negros. A escrita obedece a uma linearidade sucessiva dos tempos, o que facilita a compreensão.

Solomon, na sua vida de escravo, ganha uma nova identidade sob o nome de Platt Hamilton. Este Platt tinha que ser analfabeto e jamais ter experimentado a liberdade, se um dia quisesse voltar a ser livre. Muito cedo entendeu esta triste realidade. Trabalhou para diversos proprietários, especialmente nos primeiros anos. O primeiro foi W. Ford, um pastor batista, que o tratava bem. Foi vendido para Tibeats, um brutamonte, com quem trava horríveis batalhas. os últimos dez anos ele trabalha para Edwin Epps, um bêbado temperamental, conhecido como "domador de negros". Cada bebedeira, uma irracional desavença, não só com ele, mas com todos os escravos. A vítima maior de seu destempero, no entanto, era Patsey, uma bela e ágil escrava, vítima dupla, tanto da insânia de Epps, quanto dos ciúmes de sua esposa. A maior de todas vítimas.

As descrições são preciosas. As fazendas de algodão, do preparo da terra à colheita, o mesmo acontece  também, com a cana de açúcar. Da mesma forma as casas de escravos, sobre as impossibilidades de fugas e sobre as festividades de natal, em que eram dados de três a seis dias de folga, dependendo do proprietário. Com o mesmo vigor que afirma haver diferença entre diversos proprietários, também se posiciona contra o sistema da escravidão, que a todos embrutece. Impossível entender a escravidão como um sistema amparado tanto pela lei, quanto pela religião. Recusa terminantemente qualquer tipo de justificativa para a escravidão e lamenta que ela tenha ocorrido, exatamente no país que proclama o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.
12 Anos de Escravidão : Foto Chiwetel Ejiofor
A musicalidade africana e o violino lhe abrandaram alguns sofrimentos.

Um tributo especial é prestado a Bass, o carpinteiro que trabalhou para Epps e que era abolicionista. Por intermédio dele e da sua postagem de cartas para o norte é que a libertação se tornou possível, com a ajuda do próprio poder do Estado. Depois da libertação, Northup dedicou sua vida às campanhas abolicionistas, especialmente dando palestras, mas os anos finais de sua vida permaneceram desconhecidos. Este e outros dados preciosos são encontrados no posfácio do livro. Ele é de autoria de Henry Lois Gates Jr., que durante a vida inteira pesquisou histórias de afro-americanos, e foi consultor na realização da adaptação desta história para o cinema, sob a direção de Steve McQueen.

Se ao menos a leitura do posfácio pudesse ser feita antes de assistir ao filme, a sua compreensão ficaria extremamente facilitada. Mas o filme e o livro se complementam. O filme tem recursos mais impactantes que a simples escrita mas, da escrita nunca escapam os detalhes, por mínimos que sejam. Esta é a primeira resenha que faço para a Companhia das Letras e vai aí a ficha do Livro: NORTHUP, Solomon. Doze anos de escravidão. São Paulo: Companhia das Letras. 2014. O maior mérito do livro é, só para destacar, o seu caráter testemunhal, vivo, triste, dolorido, vibrante e ternamente significativo. Nem a lei e, muito menos Deus, podem servir de justificativa para o sistema escravidão. O livro tem uma bela dedicatória: "A presente narrativa, que corrobora A Cabana do Pai Tomás, é respeitosamente dedicada a Harriet Beecher Stowe, cujo nome é identificado em todo o mundo com a abolição da escravatura".






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