segunda-feira, 10 de março de 2014

O Ateneu. Raul Pompeia

Seguramente uma obra prima incômoda, escrita por um homem atormentado. Creio que esta seria uma forte caracterização em torno desta obra de Raul Pompeia, O Ateneu. Algumas coisas tem que ser ditas para a compreensão da obra. Se tem uma coisa que eu aprendi, é esta, de sempre diante de uma situação ou fato, procurar se situar. Se situar implica fundamentalmente em ver quando este fato - situação, ou no caso, o livro - ocorreu e qual era o contexto histórico deste mesmo período. Segue então a primeira informação. O romance ou "a crônica das saudades" foi escrito em 1888 e o Ateneu era um colégio particular, em que estudavam os filhos da elite do Rio de Janeiro.
O Ateneu, da Penguin&Companhia das Letras. Edição de 2013.

1888, aqui no Brasil, lembra o conturbado período histórico do fim do império, da abolição da escravidão e da proclamação da República. Mundo afora, imperavam as ideias decorrentes da ilustração, do avanço das ciências, do progresso indefinido e da impossibilidade de não surgir um mundo melhor, embora vivêssemos em diferentes estágios deste processo civilizatório. Aqui, a República praticamente foi uma continuidade das mazelas do império. Se a escravidão foi abolida, não foi abolida a sua obra e a mentalidade escravocrata impregnava a mente de, praticamente, todos os pais dos alunos do colégio. No mundo, se anteviam as tragédias do "século breve", que estava por começar. 

O colégio, a escola ou a educação, de uma maneira mais geral, seria a grande propulsora a anunciar os tempos de prosperidade e progresso material e a modeladora do homem moral para este novo e promissor tempo. Imbuído desse espírito um pai leva Sérgio, o narrador, para o colégio. Aristarco o recebe. Aristarco será a figura que encerrará todas as contradições vividas neste período. Um homem simultaneamente gentil e afável, moralista e autoritário, conforme exigia a ocasião. Em Aristarco estão contidas todas as contradições de uma pedagogia bruta.
Cópia da edição da Moderna. A primeira edição data de 1888.

"A crônica das saudades" é um rito de passagem, de um tempo em que se rompe o escudo protetor da família e um tempo de provações, de temperar, moldar e forjar o caráter do futuro homem, necessário ao presente estágio civilizatório. O romance é uma obra prima incômoda, pois, todo ele é uma brutal rejeição à chamada instituição escolar. É um rito de passagem de um sujeito em formação. Se o mundo do final do século XIX era um mundo de certezas, sobre ele também se abre um novo mundo de dúvidas e, perante elas, as certezas se esvaem.

Estão presentes no romance interrogações muito significativas. Pedro Meira Monteiro, na introdução ao livro, assim as manifesta: "[...] 1888, quando O Ateneu veio a público na forma de folhetim, havia uma grande interrogação no ar: quanto o homem deve ao meio? A questão se desdobrava em outras: somos o produto inconsciente de forças que nos ultrapassam? Mas de onde  viriam então essas forças? Da paisagem que nos cerca? Do próprio corpo que carregamos? Seríamos apenas joguetes impotentes nas mãos da natureza"?


Capa de uma edição portuguesa de O Ateneu.

O livro é estruturado em doze capítulos, que seguem uma lógica do tempo. Começa pelo seu ingresso, como um menino muito bom, o seu começo solitário, de um "Dante sem seu guia Virgílio" e termina com o incêndio de O Ateneu. O incêndio produz a ruína financeira de Aristarco e o fim do colégio, simbolizando certamente, o fim de todo um mundo de valores, em torno dos quais colégio se centrava. A descrição é bela, numa linguagem até barroca, como chegou a ser qualificada. Conta em detalhes, as aulas, os professores, os colegas, as festas, as solenidades de premiações, as beatitudes e, principalmente as mazelas, sempre presentes em maior número.

O livro tem um erudito posfácio escrito por José Paulo Paes, que faz a relação entre o romance escrito e as ilustrações que o próprio Raul Pompeia desenhou para o livro, que são uma bela seta que serve de guia para a leitura. Correlações semióticas. José Paulo Paes centra a condução do romance no rito de passagem entre a criança que aos onze anos entra no colégio, quando rompe com o escudo protetor da família, passa pela proteção dos colegas mais fortes, aos quais se afeiçoa, passa depois por uma relação edipiana com Ema, a esposa de Aristarco, até estar preparado para o mundo pós colégio. É uma obra muito apreciada pelos psicanalistas.

Uma imagem do escritor Raul Pompeia.

Volto à introdução, para a conclusão, ao último parágrafo de Pedro Meira Monteiro: "Talvez, O Ateneu seja, ao fim, a expressão possível e arrebatadora da inadequação, ou do sentimento de desterro que ameaça aniquilar o indivíduo, seja ele o jovem Sérgio, ou o narrador maduro que se debruça sobre o passado. Ao debruçar-se, ele não pode senão imaginar o que aconteceu, colhendo na memória os sinais da corrupção que o indivíduo Raul Pompeia quis sempre vencer, como se a retidão, que ele intransigentemente cobrava de si e dos outros, pudesse manter-se pelos tempos, intacta. Não surpreende que ele tenha perdido a batalha". Sete anos depois de O Ateneu, ou aos trinta e dois anos de idade, Raul Pompeia pôs fim às suas atribulações e tormentos, recorrendo ao suicídio. Que escritor nós perdemos. Ao menos sob o ponto de vista da erudição, o colégio e as suas instituições funcionaram. Mas educação, como formação do ser humano...

De uma coisa o colégio não pode ser acusado, a da formação intelectual ou erudita de seus alunos. Eles conheciam toda a literatura clássica do mundo. Um livro altamente recomendável para todas as pessoas que se preocupam com educação.

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