quinta-feira, 3 de abril de 2014

Clube de Compras Dallas.

Existem no mínimo três motivos fundamentais para você assistir Clube de Compras Dallas: 1. Saber como era vista a AIDS, a doença maldita nos anos 1980, quando se acreditava que ela só atingia homossexuais e drogados e era vista como uma espécie de vingança divina contra a má conduta moral e pecaminosa dos homens, 2. a manipulação da indústria farmacêutica que, com a ajuda dos instrumentos do Estado, como o poder judiciário e a agência reguladora de remédios protegiam o lucro, eliminando remédios alternativos e, finalmente, 3. ver em ação uma dupla de atores, Matthew McChonaugey e Jared Leto, vencedores do Oscar de melhor ator e melhor ator coadjuvante, respectivamente, na premiação de 2014.

O cartaz promocional do filme e as suas premiações. Em cena, o texano Ron

A história é dramática e real. Em 1986 o cawboy e eletricista texano Ron Woodroff sofre um acidente de trabalho e em consequência recebe um atendimento médico, quando é diagnosticado positivamente como portador do HIV. Está, portanto, com a AIDS.  Ron é um tipo grotesco, fanfarrão que levava a sua vida em meio a rodeios, drogas, jogos e mulheres e era um machista inveterado. A primeira reação é a de querer bater no médico, por havê-lo julgado como veado. Como já vimos, era crença dominante na época, que a doença era exclusiva de quem mantinha relações homossexuais ou era usuário de drogas injetáveis. Ron cai na realidade, quando os sintomas da doença se manifestam. Ganhara, dos médicos, 30 dias para fazer os acertos com a vida, os seus ajustes de contas. 

Ron começa o tratamento com AZT no hospital. Lá mesmo, através do enfermeiro sabe de outras drogas que também poderiam ajudá-lo. Com estas drogas, conseguidas através do enfermeiro, efetivamente se sente melhor. No hospital, todavia, o único tratamento era com o AZT, devidamente protegido pela FDA, a agência reguladora americana que controla alimentos e remédios. Os lucros do laboratório são astronômicos. Ron, de usuário destes remédios alternativos, passa a traficá-los para uma rede enorme de portadores da doença, que ele conheceu nos hospitais. Como sócio nesta empreitada conta com a participação de Rayon, uma travesti, a quem, a princípio odiava, em sua posição machista. Em certos momentos apenas Rayon o ampara em seus desesperos. E aí, pela via da convivência, os preconceitos vão sendo superados. Ron passa a ser mal visto em todos os ambientes que antes frequentava. A força dos preconceitos contra a sua doença.
O diagnóstico positivo e a reação contra a "doença maldita".

Ron e Rayon fundam o clube de compras Dallas, daí o nome do filme. Mediante o pagamento mensal de 400 dólares o portador do vírus passaria a receber os remédios alternativos. Pelos resultados positivos destes tratamentos o clube se tornou, ou se tornaria um sucesso, não fosse a ação governamental e do poder judiciário, em favor do monopólio do AZT. Ron trafica estes remédios, primeiramente do México, buscando-os depois também em Amsterdã, na China e no Japão. A perseguição é implacável, primeiramente pelos órgãos de repressão e depois pela justiça. Nesta luta, Ron perde seu sócio, Rayon, para a morte. Ron obtém uma única vitória na justiça, quando individualmente ganha o direito de usar os remédios do tratamento alternativo.

Ao final do filme Ron já aparece novamente participando de rodeios e das esbórnias dos tempos anteriores a sua doença. E um letreiro explicativo nos conta que ele viveu, ainda, por mais sete anos. A grande crítica que se fazia ao AZT é que ele afetava o sistema imunológico ao combater o vírus do HIV. As outras drogas fortaleciam este sistema. O filme sustenta com muita força a proteção que o Estado dava ao laboratório que produzia o AZT, conferindo-lhe o monopólio de droga única no combate ao vírus. Se Ron tivesse sido apenas um pacato cidadão, certamente os prazos, ou o prazo de trinta dias, certamente teria sido cumprido.

A premiada dupla, Jared Leto, melhor ator coadjuvante como Rayon e Matthew McConaugey, o melhor ator, como Ron.

Já em casa pesquisei um pouco e entendi melhor o problema. Já nos anos 1990, as outras drogas passaram a ser admitidas. Estas drogas são o DDI e o D4T. Inicialmente eram ministradas separadamente. Depois formaram o chamado coquetel antiaids. Segundo o Dr. Dráusio Varella, a AIDS é hoje vista como uma doença crônica, controlada por remédios, como a hipertensão e a diabetes. No campo dos preconceitos, no entanto, creio que estas doenças não são vistas ainda com tanta similaridade. A carga da moral sexual ainda não está totalmente transposta e muita gente se esforça para que estas barreiras sejam mantidas.

O filme levara seis indicações ao Oscar 2014. Melhor filme, melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor roteiro original, melhor cabelo e maquiagem e melhor edição. Levou três estatuetas. A de melhor ator, a de melhor ator coadjuvante e cabelo e maquiagem. A atuação da dupla é realmente impecável e, se por cabelo e maquiagem se entende dar aos atores a aparência de doença, vai aí um dado. Matthew, para interpretar Ron, emagreceu 22 quilos. Quando Matthew foi premiado com o Globo de Ouro ele falou que o filme não pretendia mostrar como uma pessoa estava morrendo, mas como uma pessoa estava continuando a viver. 

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