terça-feira, 8 de abril de 2014

Fernando Gabeira vê a influência da TV na formação da subjetividade dos trabalhadores.

Um dos relatos contidos no livro O que é isso companheiro?, do Fernando Gabeira, que mais me impressionou foi aquele que diz respeito à chegada da televisão na casa dos trabalhadores brasileiros. Fernando Gabeira, depois da participação do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, foi designado pela organização em que militava, o MR-8, para se deslocar do Rio de Janeiro para São Paulo, para iniciar um movimento de arregimentação da classe operária para a luta revolucionária.

Assim Gabeira sairia do foco do Rio, em função da evidência alcançada pela participação do sequestro do embaixador e, iniciaria uma nova fase na luta contra a ditadura, conquistando a adesão dos operários. O entusiasmo maior provinha de uma greve operária realizada  em Diadema. Depois, finalmente, viria a adesão dos camponeses. Mas isto não aconteceu. Um dos motivos foi o fato de os militares se aperfeiçoarem tecnicamente para fazerem frente à luta armada urbana, e aos poucos, todos os pontos foram tomados e a ordem foi estabelecida. Gabeira foi hóspede de uma família operária e, deste seu posto, observou as transformações de comportamento do operariado. Vejam o seu relato. Antes ainda, para lembrar. A TV que já era meio de comunicação de massa, agora já tinha ganho novos atrativos, com a transmissão em cores. Vejamos as observações:
Um aparelho de televisão dos anos 1970, já colorida. A minha primeira, era uma Colorado RQ, com reserva de qualidade.

"Naquelas poucas semanas em que foi dado viver entre aquela família, fui aprendendo outras realidades, que mais tarde tornaram-se cristalinas, mesmo para um conservador. A principal delas era a presença da televisão. Dormíamos todos na sala, mas até as dez e meia da noite a casa era presidida por aquele pequeno aparelho, que polarizaria todos os sonhos, atenuava todos os cansaços da fábrica. Primeiro víamos o jornal, com notícias de todo o mundo. Era um locutor bonito, com uma voz cheia e solene que ia nos comunicando o curso das coisas, enquanto as imagens passavam  diante dos nossos olhos. O que ele dizia não era tão importante  quanto a forma como dizia, a cara com que dizia, as imagens que iam se projetando na tela.

O mundo era um espetáculo, mil vezes mais fascinante e rico do que nossas vidas monótonas e incolores. Depois do jornal, vinha a novela, se me lembro bem da ordem. A novela trazia uma outra dimensão: o amor interpessoal, a ternura, o romantismo e, por que não? alguns sofrimentos e lágrimas. As pessoas choravam, se comoviam, ali naquela sala, e isso até uma certa hora. Quando o aparelho se apagava, o peso do mundo se abatia sobre nós. Éramos de novo reduzidos às nossas vidas pequenas, aos problemas prosaicos daquela sala: dali a pouco dormiríamos; a avó roncaria; os filhos choravam; ruídos e secreções noturnas humanas, muito humanas, ocupavam o lugar dos suspiros da heroína, da música tranquilizante de um anúncio imobiliário. Quando acordávamos, os nossos problemas estavam indissoluvelmente ligados: a febre do garoto, o ciúme do heroi, a dor nas costas produzida pelos teares e a dúvida sobre se a heroína, realmente, está interessada em outro homem.
Neste livro do Fernando Gabeira encontramos este relato sobre as influências da televisão. 

O que era realidade, o que era fantasia? Aquelas semanas foram importantes para desenvolver algumas ideias que, certamente, mais tarde seriam execradas pela esquerda de Neanderthal. O avanço na televisão aparecia para mim como um avanço do nível de vida material dos trabalhadores, ou, pelo menos, do nível de vida. Antes, o que nos provia do sonho era o circo, no máximo a novela de rádio. A televisão entrara com algo muito novo. Não era apenas um aparelho que se comprava: comprava-se também o veículo para mercadorias culturais extremamente sofisticadas, produzidas no exterior e colocadas na sua sala sem nenhum acréscimo no preço. Os trabalhadores experimentavam a televisão como uma melhoria real de vida, e a televisão avançou celeremente durante os anos da ditadura".

Apenas um lembrete final, para melhor compreensão. O livro de Gabeira foi escrito logo após a sua volta ao Brasil, em agosto de 1979, com a lei da anistia. O período que ele descreve é ano de 1970, o mais terrível da repressão e o ano da copa, do tri campeonato brasileiro, sob a forte influência da televisão.



2 comentários:

  1. Muito bom para um reflexão de hoje. Vale reler "O que é isso companheiro?"!
    Meu Abr aço pra ti, Pedro Eloi, companheiro de/a luta.
    D.L.G.

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  2. Meu amigo Dalton. Em primeiro lugar agradeço o seu comentário. Vale a pena reler o Gabeira sim. O programa dele na TV também não é de todo ruim, apenas quando mete opinião e entrevista. Mas ele mostra muitos lugares que vale a pena ver. Abraço e sempre firmes na lutas pelas nossas causas.

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