sexta-feira, 11 de abril de 2014

José Mujica - El Pepe. No Canal Livre.

Poucos programas de televisão tiveram tanta repercussão quanto o Canal Livre, apresentado pela TV Bandeirantes, com a entrevista de José Pepe Mujica, o presidente do Uruguai. El Pepe é uma das figuras mais humanistas e, como político, é apresentado para o mundo como um modelo. A sua filosofia de vida é algo a ser copiado por todos aqueles que efetivamente se empenham na busca de uma vida mais feliz, dedicada ao que é realmente essencial, com o desapego às coisas materiais. Os entrevistadores, embora as perguntas fossem elaboradas em cima de pesquisas, permitiram que o presidente expressasse bem as suas ideias e a sua maneira de viver. A TV  cumpriu assim, uma bela função.
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Os jornalistas do "Canal Livre" na entrevista com o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica.

A primeira pergunta foi sobre a liberação da produção e do comércio da maconha. A resposta não poderia ser mais extraordinária e esclarecedora. A primeira ideia que passou, e ele estava preocupado com isso, foi a de que a liberação é feita com muito controle, um controle do Estado e que tudo vem sendo cuidadosamente acompanhado por equipes de especialistas, com avaliações constantes. Não existe nenhum estímulo com esta liberação, pelo contrário. Sobre os motivos que levaram o governo a tomar esta atitude, soltou outra frase memorável, mais ou menos assim: "Se queres mudar, não podes continuar fazendo o mesmo". E tinha que mudar. Foi constatado que houve enorme aumento nos índices da violência, da criminalidade e dos homicídios no Uruguai e que, a causa disso era o narcotráfico. O narcotráfico alterou toda a estrutura do crime, tornando a todos iguais, não escolhendo as suas vítimas. Não poderíamos continuar fazendo o mesmo para enfrentar o problema.

O usuário de drogas não é visto como um criminoso. Ele é visto pelo aspecto da saúde e da segurança pública. O controle sobre a droga é feito pelo Estado. A maconha é cultivada em áreas restritas, pertencentes ao exército e a comercialização é feita em farmácias credenciadas pelo Estado e que já mexem com a venda de drogas controladas, nem todas, portanto. Os controles existem, não para incriminar, mas para dar a assistência humana necessária. É coisa de saúde pública. Não houve necessidade de gastos adicionais. Foram aproveitadas as estruturas de Estado já existentes.
  Presidente do Uruguai, José Mujica
Em seu sítio, em sua vida simples. Se dedica ao que é essencial à vida e não ao acúmulo da riqueza.

Disse que são inimigos da maconha, como também o são do álcool e do tabaco. Que retiraram a droga da clandestinidade para melhor conhecer a sua realidade. Que toda a inovação gera medos, mas que as inovações não devem ser temidas. É preciso tirar o fascínio que a proibição gera, especialmente para os mais jovens. Que existem no Uruguai em torno de 150.000 consumidores e que, a aprovação popular ao programa de sua liberação sob controle sofre resistência popular. Que é inimaginável que o Uruguai queira produzir para vender.  

Quando o repórter relatou a experiência de outras restrições do Estado na vida das pessoas, como a não colocação de sal, nas mesas dos restaurantes, como resposta veio uma consideração, que por si só, valeu todo o programa. A única coisa que não podemos comprar neste mundo é a vida, mas ela pode ser melhorada com atitudes perante ela. Por isso, se você quiser se servir de sal no restaurante, você terá que pedir. O seu uso não é proibido, apenas dificultado, em função da vida. Maravilhoso.

Falou do Uruguai como um país laico e que isto já faz parte de uma cultura laica por parte de seu povo e que isso permite muitos avanços na legislação. Assim a prostituição é regulamentada já há mais de cem anos, o país foi um dos primeiros a adotar a lei do divórcio e do aborto em favor da vida. Não porque gostamos do aborto, mas para retirá-lo da clandestinidade. Os programas do Estado conseguem evitar muitos abortos, que seriam cometidos na clandestinidade, sem a sua legalização. O mesmo ocorreu também na legislação anti homofobia e casamentos homoafetivos.
Mujica
De tão simples que ele é,  é considerado até como um ser exótico. Vive realmente o espírito da igualdade.

Outro ponto marcante da entrevista foi quando falou da sua disposição em receber prisioneiros de Guantánamo. Afirmou que o Uruguai é um país de imigrantes, imigrantes que fugiram das necessidades produzidas pela fome ou pela guerra, em busca de oportunidades e que a todos o país recebeu com muita hospitalidade e que a maioria sempre se deu bem. Citou os exemplos de jango e de Brizola. Ele reforçou muito a ideia das prisões injustas e sem julgamento e da disposição uruguaia em dar a essas pessoas oportunidades e perspectivas em suas vidas. A questão suscitou o problema das ditaduras da América Latina e dos julgamentos dos crimes de Estado praticados. A sua posição é a de que a verdade precisa ser estabelecida, o que é muito difícil pelos pactos de silêncio que foram firmados.

Também a questão econômica foi abordada. Por volta do ano 2.000, 40% da população uruguaia vivia abaixo da linha de pobreza. Falou dos programas de auto-gestão e das dificuldades de implementar esta mentalidade. Falou do sistema bancário e dos rigorosos controles exercidos sobre os bancos. Os bancos públicos dominam os setores vitais da economia e que estes tem, como grande finalidade, viabilizar os programas de auto-gestão na economia. Não existe mais a lavanderia dos bancos uruguaios. A Suíça latina, que tinha o Brasil e a Argentina como clientes não existe mais, pois, era uma grande injustiça. Os bancos causam grandes dissabores.
Segundo a imprensa uruguaia, o presidente José Mujica considera que Lula tem muito o que ver com o processo de integração da Unasul.
Palavras extremamente elogiosas para Lula. Lula é um grande amigo.Vocês, pelo cotidiano, não conseguem ver sua grandeza.

Nunca vi alguém falar tão claramente sobre a Venezuela. A sua posição é a de que se cumpra a lei, que se sigam os princípios constitucionais. Falou do ineditismo da situação da existência de um exército de esquerda, de um exército Chavista. Falou das relações com a Argentina e sobre a copa do mundo, para terminar com uma referência sobre as relações com o Brasil. A sua resposta foi enfática: As relações são excelentes. Que Lula é um grande amigo, que tem uma grande preocupação com a América Latina e que é um personagem fora de série, cuja grandeza vocês do Brasil, envolvidos no cotidiano, não tem condições de perceber. O Brasil nunca teve um presidente com tanto prestígio mundial quanto Lula. Que Lula age em favor da verdadeira integração, para concluir que as relações são excelentes e que em breve as fronteiras entre o Uruguai e o Brasil estarão totalmente abertas.

Falou ainda das expectativas uruguaias em torno de um porto comum, em águas profundas, que seria também um porto regional e brasileiro, assim como o rio Paraná também é um rio regional, fato já admitido, desde o tempo dos portugueses. O programa terminou com uma questão de humor, mas também de economia. O preço da erva mate. Disse que o Brasil prefere cultivar soja, favorecer o agronegócio, em vez de produzir erva-mate. O Uruguai é o grande consumidor da erva mate brasileira. Isso ainda vai se transformar num problema para a ONU.

Acima de tudo, o que efetivamente encanta em José Pepe Mujica é a sua simplicidade perante a vida, que as pessoas até o consideram como uma figura exótica. Vive da forma mais humilde e doa a maior parte de seu salário. Diz não ter necessidade de muitas coisas e que assim tem tempo para se dedicar ao que é essencial. Que busca viver da mesma forma e, com o quanto ganha, a maioria do povo uruguaio. Diz ainda, que nada tem contra os ricos, mas que abomina aqueles que buscam a riqueza através da política, porque isso trai os princípios republicanos. Se quiser buscar a riqueza que a busquem pelo comércio, pela indústria, pelos bancos... mas não com a atividade política.

Pepe Mujica me lembra outra figura em ascensão no mundo. O papa Francisco. Talvez não trilhem a mesma fé católica mas se irmanam numa vida orientada pelos princípios do humanismo.

3 comentários:

  1. Gostei desta hem eloi ...legal te ver aqui depois de tempos ...

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  2. gostei do texto ...legal te ver por ai hem eloi ...abraços

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  3. Cantogeral canto. Que bacana que você gostou. São as palavras do grande El Pepe. Muito obrigado e um abraço.

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