segunda-feira, 7 de abril de 2014

O que é isso companheiro? Fernando Gabeira.

Um importante fator na compra de livros, sem dúvida, é o seu preço, especialmente, quando esta compra tem que caber dentro de apertados orçamentos. Neste sentido, as editoras estão lançando as edições de bolso. Certamente estão contando com bons resultados. A mais recente edição de bolso que eu comprei, foi o livro do Fernando Gabeira, O que é isso companheiro?, da Companhia de Bolso. O livro foi escrito em 1979, assim que o seu autor voltou ao Brasil, após completar 9 anos no exílio, beneficiado com a lei da Anistia, de agosto daquele ano.  O livro fez imenso sucesso e foi também levado ao cinema.

O livro é estruturado em 16 capítulos, dos quais 14 são muito breves e os dois últimos são mais longos. São também os mais importantes, os que foram mais elaborados. Nos primeiros ele conta um pouco de sua vida, desde os tempos de sua natal Juiz de Fora e das suas andanças pelo Rio de Janeiro, onde ganhava a vida como jornalista, desde os 17 anos, no Jornal do Brasil. A uma certa distância conta do ocorrido em 1964, da inconformidade com a não resistência de Jango e dos rumos tomados pelo Brasil, já em mãos dos militares golpistas.
A edição econômica do livro de Fernando Gabeira, pela Companhia de Bolso.

Do seu posto de observação privilegiado, na sua condição de jornalista, que cobria e analisava os acontecimentos, até o seu gradativo envolvimento com a resistência, ocupa toda a primeira parte do livro. O seu envolvimento maior se dá pela participação de uma dissidência do PCB, no Rio de janeiro, o partidão, que deu origem ao MR-8.  Traça um excelente panorama sobre o que significava ser oposição ao golpe e os fatos que levaram estes oposicionistas a se enredarem na luta armada, única forma de resistência que lhes parecia ser possível. Um enorme credo lhes dava as convicções necessárias. Por sempre ouvirem o mesmo e dos mesmos, praticamente não tinham dúvidas.

A resistência, em sua base, era formada por estudantes, alguns intelectuais e outros militares dissidentes. O primeiro movimento foi a detonação da guerrilha urbana, responsável por uma série de atos espetaculares e também a sua fonte de financiamento, com os assaltos a bancos. A partir dessa base o movimento teria que se expandir, penetrando no meio operário e atingir o campo. Do campo é que viriam os libertadores, como ocorrera com os herois da Sierra Maestra e como ensinava o mestre da guerrilha, Regis Debret. Algumas páginas também são dedicadas à análise do Partido Comunista e as suas discussões sobre o caráter feudal ou capitalista da sociedade brasileira, essencial para traçar as estratégias para a revolução. Visto com os olhares de hoje, tende mais para uma história de humor.
O livro de Gabeira levado para o cinema.

A primeira grande tarefa da qual Gabeira participa ativamente é a ação do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. A ação foi conjunta, entre o MR-8 e a Aliança Nacional Libertadora, a maior e a mais organizada das organizações, comandada por Marighella. Na mesma proporção em que fora uma ação exitosa, ela também profissionalizou os serviços de repressão e, em pouco tempo, toda a resistência estava liquidada. O embaixador ganha até páginas simpáticas pelo seu comportamento. Isto aliás não é exclusivo em Gabeira. Outros autores também lhe concedem créditos. Era um progressista e não estava imbuído do espírito da guerra fria, então dominante.

Depois desta ação, a vida clandestina de Gabeira passa a ser total, assim como a dos outros companheiros, mais diretamente envolvidos. Gabeira vai para São Paulo, em missão. Arregimentar a classe operária. A irrupção de uma greve em Osasco alimentava a fé revolucionária de todos. A queda não demora. Daí para frente é só tortura. Em São Paulo será na Operação Bandeirantes. As descrições da tortura são acompanhadas de interessantes reflexões sobre o caráter geral deste instrumento que se transformou numa política de Estado. Quando Gabeira foi preso, ele ficou muito debilitado, em função de um tiro que levou, que lhe afetaram profundamente o estômago e o rim. Em função disto as torturas por ele sofridas não foram normais, foram um pouco mais leves, se é que isso é possível.  Havia o medo de que morresse ao longo das sessões.

De São Paulo ele é levado de volta para o Rio de Janeiro, onde passa pela Polícia do Exército, pela Ilha Grande e pelo DOPS. O único lugar, segundo ele, em que eram melhor tratados era no DOPS. Creio que o ponto alto do último capítulo é a descrição do quadro da tortura. Mostra diferentes perfis de torturadores e também as diferentes reações dos torturados. O maior medo era não resistir e entregar algo de valioso, que levasse a descoberta de novos aparelhos e a novas prisões. Alguns torturados se fechavam e não falavam nada e eram os que mais apanhavam. Outros "colaboravam", entregando pontos, aparelhos e nomes, dos quais já tinham a certeza de que tinham caído, isto é , já eram do conhecimento dos organismos repressivos.

Gabeira barbarizando os costumes após a volta do exílio, em 1979.

A libertação de Gabeira veio com o sequestro do embaixador alemão. 40 "terroristas" ganhavam a liberdade, num voo para a Argélia. Mas a partir daí nada é falado, o livro se encerra por aí. Sabe-se que Gabeira passou a maior parte de seu exílio na Suécia e na sua volta, militou politicamente no PT e no PV e hoje trabalha na TV Globo e, digamos, tem um perfil conservador.

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