quinta-feira, 22 de maio de 2014

Eleições 2014. Primeiras reflexões.

Nem foi necessário realizar as convenções partidárias para que as principais candidaturas a presidente da República já estejam nos ares. O espírito eleitoral deve arrefecer um pouco durante as disputas da copa e, depois dela, voltar com força total. Três candidaturas com maior substância estão postas, mas a polarização entre petistas e tucanos deve dominar o cenário. Tenho para mim que cada vez que existe uma candidatura fora desta polarização, que atinja dois dígitos de votos, esta eleição só se deverá definir em segundo turno. Mais de uma dezena de partidos nanicos também deverão lançar candidaturas, especialmente os da esquerda radical, para fazerem pregação ideológica.

De acordo com as pesquisas, as três candidaturas maiores seguem nesta sequência, Dilma, pelo PT, Aécio pelos demo/tucanos e Campos pelos socialistas, com a agregação de Marina Silva. Dilma deve continuar sua dobradinha com Michel Temer, do PMDB, enquanto que demo/tucanos ainda buscam uma candidatura que some votos. Dilma deverá ter o maior espaço de rádio e TV, no horário eleitoral. Que temas serão dominantes nesta campanha? Quais seriam as reais chances de vitória destas candidaturas? Qual será a tônica presente nos discursos?
 
Dilma, candidata à reeleição e, à frente nas pesquisas eleitorais.

Dilma alicerçará a sua campanha nas realizações dos três mandatos petistas, em que houve grandes transformações sociais no país, em que houve crescimento econômico junto com a distribuição de renda. Conquistas no campo da educação, saúde, habitação e na transferência de renda serão as tônicas do seu discurso. Lula mais uma vez será o grande cabo eleitoral da companheira.

Já Aécio e Campos farão denúncias e promessas. As denúncias estarão centradas no campo do baixo crescimento econômico, na não contenção da inflação e, acima de tudo, acusações de corrupção, especialmente, a que envolve a grande empresa brasileira, a Petrobras. Das minhas observações, até agora eu destacaria quatro frases mais significativas em torno da campanha, das quais vou expressar a ideia. Dilma promete não impor sacrifícios à classe trabalhadora e continuar comprometido com ela e com todos os setores menos favorecidos da população. Já Aécio, em encontro com os empresários da FIESP, prometeu não ter nenhum receio em tomar medidas amargas, impopulares, se isto se fizer necessário e já um de seus economistas, do ninho tucano neoliberal da PUC-RJ. Armínio Fraga afirmou que o poder aquisitivo do salário mínimo está muito elevado. De Eduardo Campos temos, por enquanto, a sua maior promessa na redução da inflação ao patamar de 3% ao ano.
Aécio, o candidato demo/tucano.

Uma afirmação de Milton Friedman, o sacerdote preferido dos neoliberais, ajuda a entender o atual quadro em sua pregação: "Só uma crise, real ou percebida como tal, - produz uma mudança verdadeira. Quando esta crise ocorre (ou é percebida como tal) as ações empreendidas dependem das ideias vigentes. Este é acredito, nossa função básica: desenvolver alternativas para as políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável". Esta frase ajuda a entender a atual insistência de toda a oposição em denunciar que o país está vivendo uma grave crise econômica, que o PIB é um pibinho, que a inflação está fora do controle do governo e que este é estruturalmente corrupto. Para passar esta percepção para a população, a oposição conta com o mais prestativo apoio da mídia. Se não é, tem que parecer ser. 
Eduardo Campos que formará dupla com Marina Silva.

Quanto a questão da corrupção e da moralidade, temo a veracidade da frase de Oscar Wilde: "Um moralista é, quase sempre, um hipócrita". Ainda mais sendo um político. Os exemplos abundam. Quanto a questão econômica é preciso lembrar que a inflação, ao longo dos 11 anos de governos petistas sempre ficou dentro da meta estabelecida e que a economia enfrenta uma crise global, já longa e que compromete um maior crescimento do PIB. Mesmo assim o crescimento tem sido maior do que nos países que sistematicamente aplicam medidas recessivas, do receituário neoliberal. Lembrando ainda, que FHC entregou o seu governo, em 2002, com a inflação anual em dois dígitos. Mais precisamente, em 12,6%.

E por falar em receituário neoliberal eu quero perguntar ao Aécio, quais seriam as medidas amargas que ele não hesitaria tomar e, ao Eduardo Campos, como ele conseguirá reduzir a inflação a 3% ao ano. Temo que o receituário neoliberal seja aplicado. Mas qual é este receituário? Perry Anderson o explicita da seguinte maneira:
Neste livro, Perry Anderson faz um balanço do neoliberalismo, que virou um clássico. O livro é de 1995.

 "O remédio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com o bem-estar, e a restauração da taxa "natural" de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma uma nova desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estaglafação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado". Querem mais? Este texto é clássico. É de Perry Anderson, quando ele faz um balanço do neoliberalismo, no livro organizado por Emir Sader e Pablo Gentili, sob o título "Pós-neoliberalismo. As políticas sociais e o Estado Democrático, da Paz e Terra.

Por enquanto, que venha a copa.





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