terça-feira, 11 de novembro de 2014

O Nordeste e a eleição de Dilma. Tânia Bacelar.

Poucas vezes se viram tantas manifestações de intolerância, de ignorância  e arrogância neste Brasil, como as que acompanharam o recente processo eleitoral. Os nordestinos foram as principais vítimas. Todo tipo de preconceito aflorou e, nas redes sociais, houve um verdadeiro processo de competição para ver quem seria o ignorante número um. O prêmio seria a maior admiração dos demais. O que mais se ouvia dizer era que Dilma só ganhou por causa dos vagabundos, ignorantes e preguiçosos do nordeste, sustentados pelo bolsa família. Acima de tudo, a falta de informação ajudou na disseminação de preconceitos. Sei também que muitos preferem ficar imersos em sua ignorância, rejeitando a informação. Sempre foi assim.
A economista e socióloga Tânia Bacelar interpreta as eleições no nordeste brasileiro. 


A propósito, vi no You Tube, Portal Nordeste, um vídeo muito esclarecedor. Foi uma entrevista com a economista e socióloga Tânia Bacelar. Eu a admiro desde os anos 1990, quando a conheci através do livro A Opção brasileira. Meu amigo Nestor, um bom pernambucano, me contou que ela foi secretária da fazenda dos governos de Miguel Arraes. Na entrevista ela mostra uma nova fisionomia do nordeste recente e desmente categoricamente que Aécio tenha perdido a eleição à presidência da República por causa do nordeste e nega, com mais veemência ainda, que tenha sido em função do bolsa família. "Aécio perdeu a eleição por causa de Minas Gerais e por causa do Rio de Janeiro", afirma a economista e socióloga.

Depois dos números (Dilma teve mais votos no sul e no sudeste (25,8 milhões) do que no nordeste (24,3 milhões) ela parte para uma análise das transformações recentes do Nordeste. É óbvio que ela não nega o bolsa família como um dos fatores desta transformação, reconhecendo, porém, que houve outros, que tiveram maior relevância, como a previdência rural (Constituinte de 1988), o aumento real do salário mínimo e dos investimentos do Estado brasileiro em infraestrutura  e educação. Estes investimentos geraram oportunidades. Reconheceu a estabilidade da moeda como um fator importante, somando-se a ele a política de valorização do salário mínimo. O salário mínimo tem uma importância muito forte sobre a economia nordestina, por ser ele o salário básico pago aos trabalhadores. Em regiões de maior base econômica este salário alcança entre dois e três mínimos.
Através deste livro eu conheci e passei a admirar Tânia Bacelar, economista e socióloga.

Entre os investimentos destaca a transposição das águas do rio São Francisco, que tem dupla importância. Água para beber e água para irrigar. Água para beber para cidades secas como Caruaru e Campina Grande e para irrigar, terras férteis, porém, secas. Outro investimento capital é a transnordestina, que representa uma nova ligação entre as regiões produtoras com os portos exportadores, inclusive, os produtos da moderna agricultura do oeste nordestino.

Quanto a educação destaca as novas universidades criadas e a sua localização no interior. Até o final do século XX todas elas se concentravam nas capitais. A universidade no interior fixa os jovens na sua região e cria as possibilidades do desenvolvimento tecnológico. A sua fala sempre é acompanhada de números, de dados estatísticos. Na última década do século XX o nordeste representava 12,5% da produção brasileira. Hoje ela subiu para 13,5%, o que ainda é muito pouco. Um dos pontos que ela mais destacou foi o de que as oportunidades passam a existir apenas e somente a partir dos investimentos. Sem investimentos jamais serão geradas oportunidades e que é esta a maior explicação para a ainda pequena base da economia nordestina. Outras regiões sempre foram privilegiadas e isto, inclusive, levou os trabalhadores nordestinos para estas regiões e assim contribuir para a geração do seu desenvolvimento.

Uma das partes mais bonitas de sua fala foi a de que o nordeste transcende à realidade puramente econômica para mostrar a sua imensa riqueza cultural. "O que seria da cultura brasileira sem o nordeste"? ela nos pergunta. E, acrescenta: "o que seria da nossa literatura, da nossa música e do nosso cinema" e sem esquecer, acrescento eu, o rico folclore, culinária e, por que não, o nosso carnaval?  E, ainda destacaria, na qualidade de leitor de Jorge Amado,  a bela mistura racial e a rica diversidade por ela proporcionada.
Lula:"É possível crescer e distribuir a renda". Distribuição da renda também regionalmente.


No livro Lula e Dilma - 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil, o ex presidente dá uma entrevista. Destaco algumas frases; "provamos que era plenamente possível crescer distribuindo renda, [...] que era possível aumentar salário sem inflação [...] aumentar o nosso comércio exterior e o nosso mercado interno sem que isso resultasse em conflito". E conclui; "provamos que pouco dinheiro na mão de muitos é distribuição de renda e que muito dinheiro na mão de poucos é concentração de renda". Mais um dado importante. Além da distribuição da renda, também houve a distribuição regional desta renda, desconcentrando os investimentos das áreas tradicionalmente privilegiadas. Oportunidades reais.

Em suma, o nordeste contribuiu significativamente para a reeleição de Dilma, sim, mas muito menos em função do bolsa família do que de outros fatores que melhoraram a renda e a produção da economia desta extraordinária região brasileira e que Aécio Neves perdeu efetivamente a eleição no seu estado natal, Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Informação é o primeiro passo para o esclarecimento e o esclarecimento (que Kant o diga) é fundamental para remover as trevas do obscurantismo.



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