quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

IDA. - Pawel Pawlikowski.

O apelo que me levou ao cinema para ver Ida foi a indicação que o filme recebeu como candidato ao melhor filme estrangeiro, nas indicações para o Oscar 2015. É um filme polonês, co-produzido com a Dinamarca. É um recorte histórico da mutilada Polônia após a Segunda Guerra Mundial. O filme é bastante intimista e é lento e parcimonioso em seu desvelamento. Pawel Pawlikowski, simultaneamente diretor e roteirista, relata que quis fazer do filme "uma meditação sobre fé, identidade e responsabilidade". Os maiores elogios foram para a fotografia, mas a música não fica distante. Fiz um filme com "imagens gráficas fortes e som", nos diz ainda, o diretor.
Cartaz promocional do filme polonês, IDA. Concorre ao título de melhor filme estrangeiro.
 
Anna está no convento. Em breve será freira. Foi o que lhe sobrou na católica Polônia. Anna desconhece, por completo, a sua identidade. Desconhece a sua família e a sua infância. As freiras descobrem a existência de uma tia e a madre superiora insiste que ela vá visitá-la antes dos votos. O contato com a tia, certamente, foi o primeiro contraditório em sua vida. Ela era o oposto da vida religiosa que levava. Bebida, cigarro e diversões se contrastavam com a austera vida de Anna. Entra em cena um barzinho com ótima música. Anna resiste.
Ida em busca de sua identidade. Na católica Polônia, o caminho da religiosidade.

Tia Wanda coloca Anna em contato com o seu passado, que passa a ser diligentemente escavado. Anna se descobre Ida e filha de uma família judaica, única sobrevivente do extermínio nazista que se abateu sobre os judeus poloneses, junto com a tia. Ambas buscam o reencontro com o passado. Descobre o local onde estavam enterrados os pais e o irmão, morto por causa da marca da circuncisão, e lhes dão sepultura. A tia era procuradora do Estado no regime stalinista. Numa cerimônia ouvem-se acordes da Internacional. Depois disso Ida estaria pronta para voltar ao convento e fazer os votos.

Mas o contraditório continua a se manifestar, ainda pela voz da tia, agora com relação a sexualidade. A tia lhe chama atenção para a sua rara beleza, confirmada pela palavra de um dos músicos que a provoca com a questão de que ela desconhece os efeitos que ela provoca sobre os outros. Mas a provocação maior vem ainda da tia. "Sem ter experimentado, não é sacrifício renunciar". A insinuação obviamente se refere à sexualidade e ao voto de castidade. Ida treme em seus alicerces, pouco firmes. Numa relação íntima com Deus, lhe confessa que ainda não está preparada para os votos, lembrando que estes, além da castidade, prometem obediência e pobreza. Isso para alguém que tem apenas 18 anos.
Ida, jovem e bela diante dos votos de pobreza, obediência e castidade.

Ida volta ao contraditório do mundo e reencontra o jovem músico. Se envolvem e ele promete levá-la a um show na cidade de Gdansk. Ao perguntar se ela a conhece, ela simplesmente responde que não conhece nada, absolutamente nada de nada. O jovem lhe promete casamento, mas ela não se entusiasma. Surpreendentemente ela volta para a vida religiosa, certamente pronta para, agora sim, prestar os perpétuos votos de obediência, pobreza e castidade.

Estão presentes os temas poloneses, este país de passagem, do século XX. A dominação nazista e o extermínio dos judeus, o domínio e a opressão stalinista do pós guerra e a onipresença do catolicismo neste país. O filme tem apenas 80 minutos de duração e desponta como grande favorito para o Oscar em sua categoria, ou seja, o melhor filme estrangeiro. É sucesso absoluto de bilheteria nos Estados Unidos. Todo ele é em preto e branco. As questões técnicas ligadas ao cinema devem ter sido muito bem trabalhadas. As duas mulheres, a tia e a sobrinha trabalham soberbamente.
"Uma meditação sobre fé, identidade e responsabilidade", conforme seu diretor.

O tema da religiosidade me chama muito a atenção. Também eu, embora em circunstâncias bem diferentes, antes de conhecer a realidade do mundo fui enviado para o seminário, sentindo, portanto, na própria pele todos os problemas vividos por Ida. Só que a minha opção foi diferente da dela. eu fiz a minha opção pelo mundo. Mas, no fundo, acho que o filme tinha mais campo para ser explorado.


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