terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sniper Americano. A construção de um heroi.

Sniper Americano é um típico filme americano e que agrada aos americanos. Tanto assim, que a sua arrecadação nos Estados Unidos se equipara aos outros sete filmes concorrentes ao Oscar, na sua versão 2015. Seria isso uma necessidade do povo americano em justificar o quase permanente estado de guerra em que o país está envolvido? Estaria se tentando justificar esta terrível realidade? Tenho para mim, que sim.
 O livro autobiográfico levado ao cinema. A construção de um heroi de guerra.

Sniper Americano é uma adaptação para o cinema do livro autobiográfico de Chris Kyle American Spiner: The autobiographi of the most letal sniper in U.S. Military History. Observem a autointitulação: o mais letal, uma glorificação, portanto. Kyle foi um atirador de elite da marinha americana, que em sua biografia contabiliza mais de 160 mortes na Guerra do Iraque, entre 1999 e 2009. Tudo isso em nome da Pátria e da defesa de seus colegas. Não por acaso, Kyle morreu assassinado por um de seus colegas, em favor de quem dizia lutar, ou melhor, matar.
O sniper em ação. A cena quase permanente do filme.

A narrativa do filme passa pela participação de Kyle em quatro expedições para o Iraque, já ocupado pelos americanos. A ideia de lutar pela Pátria simplesmente o enlouqueceu. Não havia mais esposa e não havia mais filhos. Não havia mais espaço para o amor, nem para bons sentimentos. A ideia estava fixada na guerra. E, a partir daí, o filme passa a ser um desfile de armas e de tiros, muitos e muitíssimos tiros. Em muitos deles colocava todos os seus companheiros em risco. Alguns morreram, fato que o enlouqueceu ou o ensandeceu ainda mais.

Quando a sanha acabou, Kyle estava completamente transtornado. A guerra penetrara em suas entranhas. Até a inocente brincadeira de uma criança com um cachorro se transforma, em sua mente, em cena de guerra. Recebe o tratamento psiquiátrico que considera desnecessário. Lhe são mostradas  cenas recorrentes nos Estados Unidos. Os filhos da Pátria mutilados pela crueldade da guerra. Quando tudo parece voltar ao normal, Kyle sai com um colega, a convite deste, para um passeio. Aí ocorre o seu assassinato, certamente um ato de vingança pela sua atuação no Iraque, em busca da fama e da vida de heroi. Kyle ganhou muitas medalhas e condecorações do Estado americano.
Uma cena rara no filme. É preciso por um pouco de drama, de relação familiar, em meio ao tiroteio.

Um aspecto interessante do filme foi o de mostrar a origem de Kyle. Ele é texano, um texano típico. Desde cedo lhe é incutido pelo pai, o gosto pelas armas e pelo tiro. Ele é iniciado na "arte" do tiro, pelo pai, em aventuras de caça. O menino ganhou gosto e continuou o seu treino até se tornar o melhor atirador de elite (sniper) da história militar dos Estados Unidos. Este gosto pela arma como um instrumento de segurança particular está profundamente entranhado na cultura americana. Cidadão armado é um cidadão protegido. Será?

Para a melhor compreensão do filme recorri a um velho expediente que me acompanha: quem é o diretor e quais foram as suas intenções. Clint Eastwood é vinculado ao Partido Republicano. Fui adiante, e vi a intenção: o sniper é um heroi e os iraquianos são uns selvagens. Foi o suficiente. Com o Sniper Americano se quis produzir mais um heroi americano que lutou pela liberdade e pela grandeza da Pátria americana. A guerra é plenamente justificável.  E ela tem os seus herois.
Clint Eastwood, o diretor do filme. Conhecido no cinema e na política americana.


Existe hoje em dia um conceito que está em transmutação, o conceito de Pátria/Nação. Existem ainda pátrias com todas as implicações que a palavra romana tinha, um pai comum, de filhos congregados e irmanados em torno de um mesmo pai? Ou prevalece o conceito de mercado, em que esta relação filial e fraterna desaparece em favor da noção de mercado e do valor da competição e da exaltação de uns em detrimento de outros. Assim, formulo a pergunta: Kyle é um heroi da Pátria americana ou um heroi do mercado capitalista da guerra e da venda de armas, capitaneado pelo mercado americano da destruição dos "inimigos" e da detonação psicológica  e de mutilações corporais dos "filhos do Pai Comum"?

O filme dirigido por Clint Eastwood tem a atuação de Bradley Cooper como Chris Kyle e de Siena Miller como Taya Renae Kyle. Concorreu a seis indicações ao Oscar: melhor filme; melhor ator; melhor roteiro adaptado; melhor montagem; melhor edição de som e melhor mixagem de som. Ganhou o Oscar de melhor edição de som. Este libelo em favor da produção de um heroi de guerra é perfeitamente dispensável. A guerra é absolutamente injustificável. Me permito ainda indicar uma grande leitura: Guerras Sujas, de Jeremy Scahill. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/05/as-guerras-sujas-jeremy-scahill.html




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