quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A vitória de Trump. É possível ter esperanças?

Hoje, 9 de novembro de 2016, o mundo acordou entre surpreso e assustado. Contrariando quase todas as previsões, Donald Trump venceu as eleições americanas, espalhando uma sensação nada agradável pelo mundo afora. Se ele cumprir as suas promessas de campanha, o mundo terá toda a razão em ficar extremamente preocupado. Tomara que elas sejam apenas peças do folclore eleitoral ou estratégias para a obtenção da vitória.
Donald Trump, já como presidente eleito.

Tenho por mim, que mudanças políticas são difíceis de ocorrerem. Elas ocorrem apenas em momentos em que efetivamente grande catástrofes ocorrem. Elas são sempre bastante previsíveis, como o foi com o fascismo e o nazismo, que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Quanto ao mais, as instituições funcionam mais ou menos no piloto automático. Embora um presidente tenha muito poder, ele não tem todo o poder.

Passei grande parte da manhã vendo as principais análises. Algumas me chamaram mais a atenção. Entre elas a de Clóvis Rossi, que no título de seu texto já chama a atenção sobre o rompimento da casca de ovo da serpente, emendando, logo a seguir, ainda no primeiro parágrafo, que todos os demônios estão soltos, continuando com a ameaça que esta eleição representa para todos os imigrantes, quer ilegais e até mesmo para os legais. Compara a eleição de Trump com a recente eleição havida na Inglaterra, quando esta optou pela saída da União Europeia, o famoso Brexit, a soma de Britain e Exit. Decisões pouco, ou nada racionais.

Rossi diz ainda que além dos imigrantes também as mulheres tem a temer com o governo de Trump. As declarações sobre elas durante a campanha não foram nada amistosas. Compara ainda a figura do presidente eleito com uma figura tipicamente latina, qual seja, a dos caudilhos populistas.

Já o analista da Universidade de Colúmbia, Marcos Troyjo fala das possíveis alterações na política externa, que com Hillary seriam apenas uma sequência das políticas adotadas por Obama, previsíveis portanto. Já com a vitória de Trump todos os conceitos, ou as chamadas instituições de Washington podem ser rompidos. A sua visão econômica desglobalizante, com o "América Grande de Novo" provocaria uma ruptura com os princípios do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional e também com a OTAN.

Troyjo aponta ainda para os parceiros econômicos mais próximos como o México e a China, que teriam grandes perdas, com repercussões mundiais, se ele aplicar as medidas econômicas nacionalistas que pregou para se eleger, como as taxas de importação ou a repatriação das empresas americanas. Também aponta para uma perigosa aproximação com Putin, o presidente russo. Enfim, salienta o analista, que a vitória de Trump representa o fim do mundo, ao menos nos termos como nós o conhecemos.

Outro analista que eu aprecio é Thomas Friedman. Toda a sua preocupação está voltada para dentro dos Estados Unidos. O enorme ódio que acompanhou todo o processo eleitoral pode redundar em irreversíveis divisões internas. Um ódio insuperável de todos contra todos.

As esperanças residem em que Trump tenha feito apenas bizarrices durante a campanha com o objetivo de vencer as eleições ou então que ele seja absolutamente enquadrado pelos elementos mais lúcidos do Partido Republicano, que os deve haver. Resta ver se a grande "atração turística", uma nova espécie de muralha chinesa, anunciada durante a campanha, será efetivamente construída, qual seja, a construção do muro que separaria os Estados Unidos do México. Lembro o dito popular: Pobre México. Tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus.
O nada surpreendente mapa eleitoral dos Estados Unidos. O vermelho é Trump.

Uma última observação. Está em curso uma grande insatisfação mundial com o andamento da economia. Não crescimento, recessão prolongada, desemprego em massa, políticas de austeridade, esmagamento das classes médias, convivência com a expansão da miséria absoluta, corrupção e ideologias em disputa entre o neoliberalismo e o estado de bem-estar acirraram os ânimos e provocaram ondas explosivas de irracionalidade e de ódios incontroláveis e difíceis de serem contidos. Isso, nos ensina a história, terá como resposta a existência de governos fortes no controle das manifestações e reivindicações sociais, que podem culminar com a ruptura dos padrões institucionais da ordem democrática liberal.

Eu preferiria o previsível. Duas esperanças nos alentam. Que Trump governe efetivamente com o piloto automático ligado e que este sirva para aparar seus delírios e que não ponha em prática as muitas aberrações prometidas em campanha. Que ele sofra uma transmutação total e completa. Quanto ao mais, já vejo aqui no Brasil, muitas serpentes se remexendo dentro do ovo, querendo romper a membrana, nem que para isso tenham que esperar até 2018, pela via eleitoral mesmo. Bolsonaros e assemelhados.



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