sexta-feira, 31 de março de 2017

O alcaide Greca se alinha ao "País Oficial".

Diante do pacote de maldades de Rafael Valdomiro, o alcaide curitibano, me lembrei de uma crônica de Machado de Assis, publicada no jornal Diário do Rio de Janeiro, no dia 29 de dezembro de 1861. Ele comentava um sobre a solicitação de um crédito suplementar por parte do governo. Notem, não era nenhum pacote de maldades. Assim escrevia Machado: "Aqui hão de me perdoar. De um ato de nosso governo, só a China pode tirar lição. Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swift nas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política nada temos a invejar ao reino de Lilipute". Um diagnóstico perfeito.

A Constituição de 1988 nos prometia uma "Constituição cidadã". Ela se constituía num instrumento de defesa contra as chamadas políticas de austeridade pregadas pelo neoliberalismo, ideologia dominante neste tempo. Não obstante vivemos a década de 1990 como uma década neoliberal. A revolta popular foi enorme. Em 2002, com a eleição de Lula, mesmo sem mudanças de ordem macroeconômica, se prometia por um fim a esta política.

Os avanços foram grandes. Cito alguns números do Ipea. Entre 2003 e 2011, as classes D e E, as mais pobres, diminuíram de 96,2 para 63,5 milhões; as classes A e B cresceram de 13,3 para 22,5 milhões e a classe C, onde se situa a chamada classe média, cresceu de 65,8 para 105,4 milhões. Foram anos em que praticamente não se ouvia falar em inflação, em recessão econômica e em desemprego. Se confirmava a imagem de Márcio Prochmann de que havia ascensão social para todos. Os ricos subiam pelo elevador e os pobres pela escada.

Em 2013 vivíamos um ano esplendoroso. Vivíamos o pleno emprego e a taxa de juros esteve no seu menor patamar, condição imprescindível para avanços em nosso crescimento econômico. No entanto, o Brasil oficial começava a tramar. Uma pauta local, o aumento da passagem de ônibus em São Paulo, foi transformada em pauta nacional. Pelos meios de comunicação foi plantada a imagem de uma grave crise, que deveria ser combatida com as políticas de austeridade. Com a nova vitória do PT nas eleições de 2014 o Brasil oficial intensificou as tramas. Boicote e golpe vieram na sequência.

Com o golpe, as políticas neoliberais foram retomadas. Um por um, os pilares da frágil cidadania brasileira estão sendo desmontados. Ataques contra a educação pública, contra os direitos do trabalhador, contra o sistema previdenciário e a seguridade social e contra o SUS, são diários, em atendimento às exigências do capital financeiro internacional. De imediato houve o alinhamento dos governadores ligados ao golpe a estas políticas.

Vamos ficar restritos ao caso do Paraná. O governo do Estado, altamente suspeito de envolvimento em casos de corrupção, proclamou uma crise gigantesca, sem precedentes. Esta ideia foi implantada na mente do povo. A partir daí todas as perversidades passam a ser permitidas. São medidas de salvação, pregadas messianicamente. Creio que não preciso nominar. Um regime de violência se instaurou sob o beneplácito do Poder Judiciário. Lembremos apenas do dia 29 de abril de 2015.
O alcaide e as políticas de austeridade. Um alinhamento ao Brasil oficial.

Em 2016 vieram as eleições municipais. A Lava Jato e a mídia demonizaram a esquerda e, para o segundo turno, aqui em Curitiba, sobraram duas opções alinhadas ao neoliberalismo. Temer, Richa e Rafael Valdomiro passaram a reinar triunfantes, praticamente sem oposição institucional, apenas a popular. O Brasil oficial não passa por privações.

As maldades do velho novo alcaide não tardaram. A primeira se voltou contra a população mais pobre que usa o transporte coletivo e agora, estamos assistindo ao chamado pacote de maldades, que não me cabe e não tenho espaço para examinar. Mas sabemos que se volta para a arrecadação e a austeridade para com o funcionalismo municipal, seguindo a ideia de seu chefe e padrinho político.

O plantio da ideia da crise visa a aceitação popular da inevitabilidade e do acerto das medidas que estão sendo tomadas, mas que a história já nos comprovou que elas tem efeitos sociais mais do que perversos. Estes efeitos são percebidos, inclusive, pela imprensa internacional, que aponta que estamos construindo um país voltado para a miserabilização. E tudo em perfeita sincronização, em nível municipal, estadual e federal.

A situação é extremamente preocupante. Uma ideia inercial toma conta, em torno da inevitabilidade das mediadas governamentais, o que provoca a apatia para a reação. Termino com três observações. A primeira é a de que não se retiram direitos sob o regime democrático, a segunda é a de que a violência virá em consequência e que, poderemos rumar para um estado de exceção e a terceira, voltando à citação de Machado de Assis, o país real poderá se voltar contra o país oficial. Nunca tivemos uma guerra civil, uma rara exceção no mundo. "O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco". 

Mas não posso encerrar de forma pessimista. Contra a naturalização das maldades, lembremos de Brecht de que nada é natural, que nada é impossível de mudar. Existe um dever humanitário que nos chama contra esta naturalização de desumanidades. "Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural - nada deve parecer impossível de mudar".

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