sexta-feira, 1 de junho de 2018

Oração em posto de gasolina - pela destruição de um cabaré e o materialismo histórico dialético.



A publicação de uma foto, de pessoas ajoelhadas em um posto de gasolina pedindo ao Senhor o restabelecimento do abastecimento, foi uma das cenas mais hilárias que eu já vi em minha vida. Isso é um duplo pecado. Um por ignorância e outro por levar o santo nome de Deus em vão.  Não quero nem comentar. Vou publicar a foto.
 Rezando ou orando, pedindo a Deus pelo abastecimento durante a greve dos caminhoneiros.
Isso me fez recordar uma belíssima história, que passo a reproduzir, assim como já a publiquei aqui no blog. Ela é deliciosa. Vejamos:
Agora deparei com esta história de Aquiraz, uma cidade do Ceará, da qual, ignorância minha, nunca tinha ouvido falar. Dizem que é muito bonita. Lá dona Tarcília Bezerra fez um puxadinho no seu cabaré e introduziu várias melhorias, pois, afinal de contas, as coisas estavam melhorando. Os pescadores ganham dinheiro, mesmo quando parados nos períodos da piracema. Outras bolsas são distribuídas. Esta pequena história, nas mãos de Jorge Amado, viraria um grande romance.
Dona Tarcília provocou o ódio de castos, pudicos e estoicos membros de uma igreja evangélica local. Redobraram suas orações, pela manhã, tarde e noite, pedindo a Deus para conter os avanços da dona Tarcília. A imoralidade precisaria ser contida. A castidade, virtude suprema, precisava ser cultivada.
Uma tempestade se anuncia. Nunca se viram tantos raios e ouvido tantos trovões. Valei-nos Santa Bárbara, a do trovão. E veio um raio fulminante, que acertou o cabaré em cheio. Pontaria, assim tão certeira, só mesmo a divina. Em poucos minutos só sobravam cinzas. Cinzas para a penitência de quarta feira santa. Pastores e fiéis passaram a se vangloriar do poder da oração, dos pedidos feitos para Deus. Pelos pedidos da oração, o tremendo Deus, restaurara a decência em Aquiraz. Os fiéis e os pastores só não imaginaram a ação de Dona Tarcília. Ela devia ter astuciado com o terrível demônio.
Aquiraz dá as boas vindas aos seus visitantes.
Ela processou a Igreja sob o argumento de que "foram os responsáveis pelo fim de seu prédio e de seu negócio, utilizando-se da intervenção divina, direta ou indireta e das ações ou meios". Enfim, com toda a simplicidade, o poder da oração.
A igreja, em sua defesa, contratara astuto causídico, que apresentou veemente contestação de fria e arguta racionalidade, negando toda e qualquer responsabilidade ou vínculo com a destruição do edifício. O juiz zeloso, não tardou em seu veredito e, assim se pronunciou:
"Eu não sei como decidir este caso, mas uma coisa está patente nos autos. Temos aqui uma proprietária de cabaré que firmemente acredita no poder das orações e uma igreja inteira declarando que as orações não valem nada". Digamos, uma inversão fabulosa.
Eu já tinha ouvido uma história semelhante. Num sermão o padre clamava contra a indecência de um circo. Trapezistas faziam acrobacias semi-nuas. O padre vociferava. Deu um incêndio no circo. Na semana seguinte o padre triunfante festejava o castigo divino. Na semana seguinte pegou fogo na igreja. Na semana seguinte o sermão versava sobre a misericórdia divina.
Agora um terceiro fenômeno. Recentemente lemos, num grupo de leitura, o livro Ideologia alemã, de Marx e Engels, em que os autores, já na introdução, refutam a dialética hegeliana, a dialética idealista. Reproduzo o parágrafo lido: "Certa vez um bravo homem imaginou que, se os homens se afogavam, era unicamente porque estavam possuídos pela ideia da gravidade. Se retirassem da cabeça tal representação religiosa, supersticiosa, ficariam livres de todo perigo de afogamento. Durante toda sua vida, lutou contra essa ilusão da gravidade, cujas consequências perniciosas todas as estatísticas lhe mostravam, através de provas numerosas e repetidas. Esse bravo homem era o protótipo dos novos filósofos revolucionários alemães.
Em suma, três conclusões: primeira: não foi a reza que destruiu o cabaré de Dona Tarcília, mas sim, a tempestade e o raio; segunda: é a água que afoga e não a ideia da água; terceira: é o caminhão que abastece o posto de combustíveis e não um duto divino mediado pela oração. Protegei-nos senhor!

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