sábado, 9 de fevereiro de 2019

Oscar 2019. Vice.

Hoje voltei ao cinema, na temporada do Oscar 2019. Dei uma rápida olhada numa sinopse e me interessou muito. Fui ver o filme Vice, uma cine biografia do poderoso vice presidente dos Unidos, Dick Chaney. O tema me foi bastante familiar. Além de acompanhar cotidianamente a política internacional, li os livros de Michael Moore, de Noam Chomsky, entre outros. E na semana passada terminei de ler o atualíssimo Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
Dick e Lynne Chaney. Ácida crítica ao poderoso vice presidente de George W. Busch.

O filme foi dirigido por Adam McKey, o mesmo diretor de A grande aposta, filme em que ele retratou a crise imobiliária americana de 2007-8. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2016/01/a-grande-aposta-adam-mckay.html Desta vez o foco foi a concentração de poder nas mãos do vice presidente de George W. Bush, Dick Chaney. Adam McKey também assina o roteiro. Adoro estes filmes em que roteiro e direção caminham juntas.

Dick, quando jovem, foi medíocre, "um zero à esquerda", como o chamaríamos hoje,diz o filme. Sua namorada, e depois mulher, lhe deu as maiores prensas. Estava entregue ao álcool e chegou a ser expulso da universidade. Uma trajetória mais ou menos semelhante a de seu presidente. O roteiro passa depois a enfocar a crise que envolveu o presidente Nixon e o enorme vazio que este episódio causou entre os republicanos. Chaney tirou proveito da situação. Trabalhou com outro poderoso, o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld. Daí para frente, um caminho de ascensão e de negócios. Guerras e as consequentes armas.

Quando sondado para ser o vice, não aceitou de imediato esta indicação. Vice não tinha poder. Vice era uma figura decorativa. Mas não com Dick Chaney. Se infiltrou em todos os poderes e atuava silenciosamente em seus bastidores e junto ao presidente. Fraudar eleições era apenas uma de suas habilidades. É óbvio que o 11 de setembro teria que entrar no roteiro. Ele mudou radicalmente a política externa dos Estados Unidos. Aí teve início a Guerra ao Terror e o fortalecimento do poder presidencial. Houve a caça a Osama Bin Laden e a Guerra do Iraque, a condenação de Saddam Hussein e a afirmação categórica da existência de armas químicas, que, de fato, nunca existiram. Foi a guerra total, a unilateralidade e a guerra como negócio, como os bons negócios da Hallyburton.

Todo um esquema de poder havia sido montado antes. Uma poderosa rede de comunicações, liderada pela Fox News, promovia a aceitação das políticas do presidente Bush e o Instituto Cato, dos irmãos Koch e outros miliardários, se tornou o grande think tank do pensamento conservador americano. Menos impostos para os ricos, menos programas sociais, fim do combate ao aquecimento global e uma pauta moral conservadora avançavam avassaladoramente na mente de um povo. Mas a pauta moral sempre é perigosa. Ela atinge os próprios membros da família, a filha, no caso.

Esta política de absurdos teve a sua contrapartida. A renúncia do vice chegou a ser exigida e, por óbvio, o poder trocou de mãos. Barak Obama se elegeria como o próximo presidente dos Estados Unidos. Chaney sobreviveu a um ataque cardíaco, graças a um transplante do coração, que o mantém vivo até hoje. Tentou ainda transferir o poder para a sua mulher, mas já sem os mesmos êxitos sem a sua forma peculiar de atuar. O filme termina com Channey fazendo uma ardorosa defesa de sua atuação frente a "Guerra ao terror", graças a qual teria salvo a vida de milhões de inocentes americanos. Justificativa para os seus atos, para as milhares de mortes e os destroços da guerra. Decididamente um homem formado para atuar impiedosamente. uma crítica ácida perpassa todo o filme.

O filme tem muitos méritos. Concorre a oito prêmios de Oscar, sendo inclusive apontado como favorito para o de melhor filme. Seguem as indicações de melhor direção e roteiro original para Adam McKey; melhor ator para Christian Bale, no papel de Dick Cheney; melhor ator coadjuvante para Sam Rockwell, no papel do presidente Bush; de melhor atriz coadjuvante para Amy Adams, no papel de Lynne Chaney e ainda os prêmios mais técnicos de melhor montagem e de melhor maquiagem e penteado. O enredo flui, a guerra parece real e as duas horas e doze minutos do filme passam sem nenhum tipo de enfado. E um alerta. Não saia do cinema antes do tempo.

Evidentemente que estabeleci relações com a nossa realidade brasileira pós golpe 2016. Esta onda liberal conservadora e excludente nos está atingindo em cheio, o que com certeza nos tornou a todos, os ainda movidos pela sensibilidade do humano, muito, mas muito mais tristes. Os toscos, os homens de negócios escusos, os antiintelectuais, estão no poder. Auto estima em baixa.

PS. Na premiação do OSCAR, apenas a melhor maquiagem e cabelo.

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