quinta-feira, 21 de março de 2019

Oscar 2019. Green Book - O guia. O vencedor.

Ontem (20.03.2019) estive envolvido em atividades de rotina de exames médicos preventivos. Foi um dia de atividades e não de leitura e concentração. Para terminar o dia, resolvi retomar a ida ao cinema, uma vez que ainda não havia visto o filme vencedor do Oscar 2019 - Green Book - O guia. Confesso que saí maravilhado do cinema. É um filme de entretenimento, de humor e drama, mas que te leva à reflexão e te desperta sentimentos de elevação e de humanidade. Um verdadeiro hino à alteridade.
O cartaz promocional de Green Book.  Os eus que se encontram, confrontam e se elevam.

O filme tem mais de duas horas, mas você não sente o tempo passar. Ele te envolve de maneira maravilhosa. Saí com a mente em agitação. Revivi momentos das melhores leituras que já fiz. Lembrei Dom Hélder Câmara, o seu O Deserto é fértil, livrinho que me acompanha desde 1976. Nele se lê: "Abrir-se às ideias, inclusive contrárias às próprias, demonstra fôlego de bom caminheiro. Feliz de quem entende e vive este pensamento: 'Se discordas de mim, tu me enriqueces'". E Dom Hélder continua: "Ter ao lado quem só sabe dizer amém, quem concorda sempre, de antemão e incondicionalmente, não é ter um companheiro, mas, sim, uma sombra de si mesmo".

Lembrei de Albert Jacquard e o seu maravilhoso Filosofia para não filósofos. Nele sob o verbete alteridade se lê: "Com toda a certeza eu poderia existir sozinho, mas não poderia ter conhecimento disso. Minha capacidade para pensar e dizer 'eu' não me foi fornecida pelo meu patrimônio genético; o que esse me deu era necessário, mas não suficiente. Só consegui dizer 'eu' graças ao 'tu' que ouvi. A pessoa que sou não é o resultado de um processo interno solitário; só pode construir-se no foco dos olhares dos outros. Não só essa pessoa é alimentada com todas as contribuições dos que me rodeiam, mas sua realidade essencial é constituída pelas trocas com eles; eu sou os vínculos que vou tecendo com os outros. Com essa definição, deixa de haver qualquer corte entre mim e os outros".

Ainda no livro de Jacquard lemos uma frase em epígrafe, de Martin Luther King, que nos exorta: "Aprendamos a viver juntos, como irmãos; caso contrário, vamos morrer juntos como idiotas".

Green Book - o guia marca o encontro de dois "eus" a construírem suas individualidades e suas identidades, com as qualidades um do outro. Talvez, até mais defeitos do que qualidades. Tony Lip (Vigo Mortensen) era um descendente de italianos, que trabalhava como segurança em danceterias, ou, diríamos, "um solucionador de casos", usando para isso, geralmente, a violência. "Um grosso", diríamos em nossa linguagem estereotipada. Mas era também generoso, afável e sensível. Lembrando que os imigrantes italianos dos Estados Unidos procediam do sul da Itália, Sicília, Calábria...  Don Shirley era negro. Um pianista famoso, arrogante, prepotente e elitizado. Um necessitava do outro. O "eu" precisava de um "tu". Poderia haver um confronto ou uma aprendizagem.

O encontro se deu em função de uma turnê do pianista famoso ao sul dos Estados Unidos. O tempo retratado era o do início dos anos 1960. Um tempo de intransigências e de intolerâncias. Um tempo de encontro de sombras e ecos e não de diversidades e de dissonâncias. Um tempo de fechamentos e de segregação. Havia até um Green Book, que servia de guia, indicando os locais que poderiam ser frequentados pelos diferentes, marcados assim, não por suas identidades, mas pela cor. O negro poderia ser o instrumento de entretenimento da elite branca, mas não de trocas, de alteridade. Para administrar este convívio é que houve o encontro entre Tony e Don Shirley. Um encontro que traz a marca da necessidade. Da necessidade de segurança numa turnê, com a de um emprego, de um "solucionador de casos". As diferenças se confrontavam constantemente.

Está nisso a grandeza do filme. Cada encontro/desencontro traz a marca do aprendizado, da superação. Do perder e do ganhar, do desapegar e do incorporar. Os defeitos vão se transformando em qualidades. Até as cartas de Tony para Dolores, que eram sem inspiração, com a ajuda de Don Shirley se transformam em poemas à altura de Shakespeare. A sensibilidade aflora. Este encontro, enriquecido pelas diferenças, só poderia terminar em celebração, em festa do povo, tendo como companhia, não mais um raro piano Steinway, mas apenas a alegria do povo. E para terminar. Uma celebração de Natal.

O roteiro foi traçado a partir de Conduzindo Miss Daisy, premiado filme de 1989, quando uma rica e preconceituosa senhora se confrontava com um motorista negro. Agora os papeis se invertem, sendo Don Shirley o senhor e Tony o motorista. O filme levou três ambicionadas estatuetas: O de melhor filme, Don Shirley ( Mahershala Ali) o de melhor ator coadjuvante e os roteiristas (Nick Vallelonga e Peter Farrelly), o de melhor roteiro original. Prêmios mais do que merecidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo comentário. Depois de moderado ele será liberado.