quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Brasil: Racismo estrutural. Roger Machado.

No sábado, dia 12 de outubro, o técnico do Esporte Clube Bahia, Roger Machado, na tradicional entrevista pós jogo, não deu apenas uma entrevista, deu uma verdadeira aula de Brasil, sobre o racismo brasileiro que, segundo ele, é estrutural.

Roger Machado é um atleta consagrado no futebol brasileiro. Seu grande êxito como jogador está ligado ao Grêmio, onde jogou de 1994 até 2003. Seu maior título foi a conquista da Libertadores da América no ano de 1995. Roger iniciou a sua carreira de treinador também no Grêmio, onde é ídolo de seus torcedores.
Roger Machado dando a sua aula sobre o racismo estrutural brasileiro.

Depois de passagens pelo Atlético Mineiro e pelo Palmeiras, está atualmente treinando o Bahia e está obtendo êxitos. Ouvi, numa entrevista, que está entusiasmado em ser treinador do Bahia, por este clube estar fortemente ligado a projetos sociais na cidade de Salvador. Sem dúvida, Roger é alguém profundamente diferenciado dentro do futebol brasileiro.

No jogo de sábado não passou despercebido da imprensa, o fato de que os dois técnicos do jogo (Bahia e Fluminense) serem negros.  Daí, numa pergunta a respeito, veio a aula. Tenho estudado bastante o tema sobre a herança autoritária brasileira e, entre as suas causas, a questão do racismo sempre ocupa o primeiro lugar. A fala do Roger vai fundo na questão das tentativas do ocultamento deste mesmo racismo, defendido por vários intérpretes de Brasil, que falam da "comunhão pascal" das raças e da cordialidade do povo brasileiro. Reconhece que nos últimos 15 anos houve avanços, que, no entanto, estão sendo retirados agora.

No jogo havia faixas e cartazes, numa campanha contra o preconceito racial: CHEGA DE PRECONCEITO. Este foi o mote para a fala: O resto tomo do jornal baiano Correio. - Ao falar da campanha, Roger se estendeu sobre o tema e disse que a grande repercussão do encontro entre os dois únicos treinadores negros do campeonato é, em si, uma prova do preconceito que ainda existe.


"Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você (a repórter que fez a pergunta), mas quantas mulheres negras tem comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado", opinou.
Para o treinador tricolor, é preciso que a sociedade saia da fase de negação em relação ao racismo. "A gente precisa falar sobre isso. Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. 'Ah, não fala sobre isso'. Porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: 'Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui'. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui", finalizou.
Apresento ainda a íntegra da entrevista, que tomo do Esporte interativo.


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