terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Duas imagens do colonialismo. América e Escrava Anastácia. Retratos civilizatórios.

Ao longo de 2019, em minhas leituras e estudos, dois livros, em particular, me chamaram mais a atenção. Sobre o autoritarismo brasileiro, de Lília Moritz Schwarcz e Memórias da plantação - Episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba. Vendo a questão das outras linguagens, dois quadros, ou duas fotografias, estampadas nesses livros mereceram a minha atenção. No primeiro, América, de Theodor Galle, de 1580, uma gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York e no segundo, Retrato da "Escrava Anastácia".

O livro da Lilia,  Sobre o autoritarismo brasileiro, possui 8 capítulos, que são os fundamentos desse autoritarismo, a saber: 1. Escravidão e racismo; 2. Mandonismo; 3. Patrimonialismo; 4. Corrupção; 5. Desigualdade social; 6. Violência; 7. Raça e gênero e 8. Intolerância. A figura América aparece no sétimo capítulo. Vamos vê-la e depois ver a interpretação que a Lília lhe dá:
Theodor Galle, América, c. 1580, gravura baseada no desenho de Jan van der Straet (Stradamus), c. 1575. The Metropolitan Museum of Art, Nova York.

"Uma das primeiras gravuras conhecidas da América, datada de cerca de 1580, também tratou de imaginar um "amistoso" encontro entre o Velho e o Novo Mundo. Nela, o europeu é representado como um homem branco que domina uma série de símbolos ligados à civilização: o astrolábio, as caravelas, o estandarte, os sapatos e os excessos de roupas. América, por sua vez, surge no corpo de uma mulher, praticamente nua e deitada numa rede, mostrando que o novo mundo andava preguiçoso e lânguido, apenas aguardando a chegada do Velho. As associações com a barbárie são igualmente óbvias: a falta de vestimentas a cobrir o corpo de América, os pés descalços, os animais exóticos a rodeá-la e sobretudo as cenas de canibalismo ao fundo. Mas há outro detalhe significativo: ela estende um dos braços na direção do conquistador, como se desejasse a "invasão" e o convidasse para essa". Páginas 188-9. Deixo ainda a resenha do belo livro da Lília.

O livro da Grada Kilomba, Memórias da plantação - episódios de racismo cotidiano, versa sobre duas categorias, em particular. As plantations, ou seja, o sistema de colonização fundado nos princípios do latifúndio, da monocultura, do trabalho escravizado e exportação, nada muito diferente do agronegócio do Brasil de hoje, e a escravidão. O livro analisa 28 cenas de "racismo cotidiano", na percepção de duas mulheres negras que vivem na Alemanha, Alícia, uma afro-alemã e Katlheen, uma afro-estadunidense. Grada, à luz da psicanálise, interpreta essas situações. Um livro fantástico e extremamente provocador, de pró vocare. Chamar para. Vamos à máscara.
Nas páginas 35-6 do livro há uma longa explicação: "Esta imagem vai de encontro à/ao espectadora/ espectador transmitindo os horrores sofridos pelas gerações de africanas/os escravizadas/os. Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia e escravizada por uma família portuguesa.  Após o retorno dessa família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana de açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por europeus traficantes de pessoas e trazida ao Brasil na condição de escravizada. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido.

Anastácia foi o nome dado a ela durante a escravização. Segundo todos os relatos, ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara facial que a impedia de falar. As razões dadas para esse castigo variam: alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas de "outras/os escravizadas/os; outros dizem que ela havia resistido às investidas sexuais do "senhor" branco. Outra versão ainda transfere a culpa para o ciúme de uma sinhá que temia a beleza de Anastácia. Dizem também que ela possuía poderes de cura imensos e que chegou a realizar milagres. Após um longo período de sofrimento, ela morre de tétano causado pelo colar de ferro ao redor de seu pescoço.

O retrato de Anastácia foi feito por um francês de 27 anos chamado Jacques Arago, que se juntou a uma "expedição científica" pelo Brasil como desenhista, entre dezembro de 1817 e janeiro de 1818. Há outros desenhos de máscaras cobrindo o rosto inteiro de escravizadas/os, somente com dois furos para os olhos; estas eram usadas para prevenir o ato de comer terra, uma prática entre escravizadas/os africanas/os para cometer suicídio. Na segunda metade do século XX a figura de Anastácia começou a se tornar símbolo da brutalidade da escravidão e seu contínuo legado do racismo.  Ela se tornou uma figura política e religiosa importante em torno do mundo africano e afrodiaspórico, representando a resistência histórica desses povos. A primeira veneração de larga escala foi em 1967, quando o curador do Museu do Negro do Rio de Janeiro erigiu uma exposição para honrar o 80º aniversário da abolição da escravização no Brasil. Anastácia também é comumente vista como uma santa dos Pretos Velhos, diretamente relacionada ao Orixá Oxalá ou Obatalá - orixá da paz, da serenidade e da sabedoria - e objeto de devoção no Candomblé e na Umbanda (Handler e Hayes, 2009). (Páginas 35-6)

Vejamos a interpretação de Grada: "Quero falar da máscara do silenciamento. Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos. Ela era composta por pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito negro, instalado entre a língua e o maxilar e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanas/os escravizadas/os comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os ": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar? (Página 32). Quem pode falar? é o título do capítulo 2 do livro. Vejamos ainda a resenha do livro.

Mais interpretações ficam a seu cargo. Deixo ainda a capa dos dois livros.
Sobre o autoritarismo brasileiro.
Memórias da plantação - Episódios do racismo cotidiano.

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