segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

2010. Luís Nassif. A década da infâmia.

Faço questão absoluta, pela gravidade da crise em que estamos envolvidos, de que o primeiro post de 2021 aborde a questão política brasileira, uma vez que é ela a raiz mais profunda do difícil momento em que o país está envolvido. Faço isso na intenção de mostrar toda a importância do voto num sistema de democracia representativa, uma vez que o presidente que destrói e infelicita a Nação, emergiu do profundo da cloaca em que estava submergido, para ser alçado à condição de mandatário supremo do país. Para que isso acontecesse, foi necessário antes, a falência das instituições brasileiras ligadas à democracia e à República.

O valoroso e intrépido jornalista Luís Nassif.  A análise da década 1910-1920.


Tenho profunda admiração pelo jornalista Luís Nassif, valoroso e intrépido, que na virada de ano e da década fez uma análise real do que efetivamente se passa no país. Recebi o link de seu texto pela mão de um grande amigo. O texto de Nassif tem um significativo título: A década da infâmia. O texto tem um preâmbulo, para depois entrar na análise dos partidos políticos, da mídia, das corporações públicas, do PT e, - termina com um chamado de atenção para o caos instalado. Vamos por partes:

No preâmbulo Nassif faz referência à hecatombe institucional que o país está vivendo, com a destruição das conquistas da Constituição de 1988. Essa hecatombe desmontou o modelo político, destruiu as fontes geradoras de emprego, desmantelou as políticas sociais, educacionais e cientifico-tecnológicas e assim, "matou-se o futuro". Essa destruição foi iniciada no governo Temer e está sendo consumada por Bolsonaro. Caberá aos historiadores do futuro relatar a história do suicídio de uma nação.

Depois desse preâmbulo, dois parágrafos são destinados aos partidos políticos, ao PT e ao PSDB, por óbvio. Tudo começou quando o PT se movimentou para a centro-esquerda, para a social democracia, usando para isso, os instrumentos que o aspirante à Social Democracia (PSDB) não havia utilizado quando no governo, quais sejam os movimentos sociais e os sindicatos. Essa utilização provocou contra o PT uma infame oposição por parte da mídia.

Mas por que o PSDB deixou de ser um partido social democrata? Nassif aponta para a financeirização da economia no governo FHC, pela morte de lideranças como Mário Covas e Franco Montoro, pela "ascensão de duas lideranças inescrupulosas" como José Serra e Aécio Neves e uma liderança inexpressiva como Geraldo Alckmin pela perda de protagonismo do PSDB e por sua transformação, que sob a liderança de FHC, Serra e Aécio afastaram o partido de qualquer veleidade pragmática, passando a adotar um único princípio e bandeira: o delenda PT. Sob essas lideranças do PSDB, a popularidade de Lula explodiu.

O próximo parágrafo de Nassif é dedicado à mídia. Esta passava por uma crise financeira e não dispunha de uma estratégia para enfrentar as novas mídias. Sem alternativas em seu campo, buscou o protagonismo político, assim expresso por Roberto Civita, o pai do novo modelo: "Nós somos a verdadeira oposição". Inicia-se então o "jornalismo de esgoto", na expressão de Nassif. Esse jornalismo abdicou dos princípios, tanto do jornalismo, quanto da democracia e passou a plantar o ódio que contaminou  de maneira irreversível a democracia brasileira.

Na sequência, Nassif dedica quatro parágrafos ao STF., começando pelo entrelaçamento entre a mídia e a instituição. A mídia atacou pesadamente os juízes recalcitrantes, da mesma forma que lisonjeou os que aderiram ao sistema, passando a controlar as suas ações. Tudo se agravou com a imprudência dos julgamentos televisivos e pela transformação dos ministros em celebridades. Assim os ministros dignos passaram a ser escrachados e os medíocres saudados como "grandes poetas  e frasistas" e, dessa forma, com " cenoura e chicote" o Supremo foi se moldando "aos novos tempos de incúria".

Como resultado teve-se então um partido que trocou a Social Democracia pelo ódio, uma mídia que aspirava ao poder político para se salvar e um Supremo querendo atuar  sem os limites impostos pela Constituição. E pior, não ficou apenas nisso, "o vírus inicial espalhou-se por todos os poros da República.

Os três parágrafos seguintes são dedicados às Corporações Públicas: Entre os servidores públicos formou-se uma elite com elevados salários. Esses abdicam da função de servidores públicos para assumirem o espírito de CEOs do  mercado. Nessa condição frequentam cursos superiores, MBAs e ganham bolsas de estudos fora do país. Em troca querem os seus nacos de poder, afirma Nassif, nesse primeiro parágrafo. Continua, depois, afirmando que esses servidores adquiriram "poder de caneta" e se transformaram no poder civil armado da República. Esses poderes, como o TCU, a CGU e o Ministério Público Federal passaram a controlar a República, especialmente após a Lava Jato, com o seu princípio de que o fim justifica os meios. Por fim, até as forças armadas entraram nesse jogo pelo seu comandante, o general Villas Boas.

A análise segue, por cinco parágrafos, examinando o PT.  Este sofreu as suas primeiras investidas com o chamado "Mensalão". Foi o início do macabro jogo de falsificação de notícias e da fabricação de escândalos e manipulação de provas.  Lula vence esse primeiro round pela forma como enfrentou a crise mundial de 2008, transformando-se no líder político mais popular do planeta.

Lula resgata, como nos tempos de JK, a auto estima do povo, a maneira de ser do brasileiro, pelo êxito das políticas sociais, pelo soft power, pela liderança  diplomática sobre os povos do sul, pelo avanço diplomático sobre a África e o Oriente Médio, os sucessos do etanol, do agronegócio e a mediação de conflitos no Oriente Médio. É o nascimento de uma Nova Nação, na percepção popular.

Mas se Lula se transforma em líder imbatível em processos eleitorais, também se transformou em vítima desse seu sucesso. Diante dessa situação a oposição investe ainda mais fortemente na conspiração e Lula e o PT se desarmam, confiantes na intuição política de Lula. Descuidou-se na indicação de ministros para o STF e abriu-se mão de qualquer tentativa de influência nos poderes sob responsabilidade da Presidência, como a Polícia Federal, a Procuradoria Geral da República e foi "terrivelmente" imprudente na negociação de cargos na Petrobras. E Lula fez mais do que isso, ao cometer dois erros fatais: a indicação de sua sucessão e ao abrir mão de concorrer nas eleições de 2014.

A instalação do "CAOS" ganha os restantes oito parágrafos de sua análise. A partir do "mensalão" todos os pecados passaram a ser permitidos. O caminho do "vale tudo" estava aberto. Ministros do STF concordam em participar de armações grosseiras em grampos, ministros que assumiram como legalistas passaram a se encantar com a nova onda e jogaram a Constituição na lata do lixo e saíram "rodando a baiana". Tudo diante de um PT desarmado e inepto para enfrentar as disputas de poder. Assim qualquer quinquilharia virou "explosão" de escândalo. Assim foi a compra de tapioca no cartão corporativo, a troca do perfil de jornalista na Wikipedia e até factoides óbvios como a invasão das FARCs, de dólares em garrafas de rum e outras obscenidades ganharam notoriedade e se transformaram nas "marcas registradas da mídia brasileira".

Como exemplo dessas tramas infames Nassif cita o suicídio do reitor da UFSC, e o aponta como "a síntese macabra das libações da Justiça" numa obra conjunta  de uma Delegada da Polícia Federal, de um Procurador do Ministério Público Federal, de uma Juíza Federal e da Controladoria Geral da República. E até hoje, continua Nassif, "uma imprensa invertebrada, medrosa, foi incapaz de conferir ao episódio a gravidade de que se revestia, para não atrapalhar  a estratégia do 'delenda quem pensa diferente'".

E quando a crise se instalou com a queda das commodities, perdeu-se o bônus político dado pela economia. O país se encontrava então "nas mãos honestas, sinceras, mas inexperientes e auto suficientes de Dilma Rousseff". E assim não houve condições para a reorganização da resistência política. E agora José?, pergunta Nassif, encerrando a sua análise com a seguinte resposta: " A noite chegou, o monstro surgiu, o custo dessa irresponsabilidade pode ser contabilizado no próprio número de mortes evitáveis do Covid, frutos do negacionismo do Frankenstein político que emergiu do cemitério em que foram enterradas as instituições e as esperanças de construir uma Nação digna. O que será daqui para frente?".

Creio que comentários a essa brilhante análise são desnecessários, mas gostaria de lembrar que Aécio Neves, após a derrota de 2014, prometeu a obstrução ao governo de Dilma até chegar à impossibilidade de governar. E uma lembrança de Paulo Freire. Em 1992, em Umuarama, assisti presencialmente a frase dele sobre a elite brasileira. Dizia ele ser a elite brasileira a elite mais perversa do mundo. "O que será daqui para frente?

Na TV GGN a matéria ganhou um subtítulo bem ilustrativo: "2010 - a década da infâmia, ou de como o Brasil, na união da Casa Grande com setores do judiciário, mídia, conservadorismo político, militares e interesses internacionais se suicidou como Nação".

Deixo ainda o link que te põe em contato com o texto de Nassif na sua íntegra.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/xadrez-de-2010-a-decada-da-infamia-por-luis-nassif/

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