sexta-feira, 14 de maio de 2021

NOMADLAND. O Oscar 2021. Chloé Zhao.

É óbvio que o maior interesse, quando do anúncio das premiações anunciadas na cerimônia do Oscar, sempre recai sobre o melhor filme. Neste ano de 2021 ele recaiu sobre Nomadland, que tem na direção a chinesa Chloé Zaho, radicada em Los Angeles, desde os tempos de seu ensino médio, onde também se graduou em Ciência Política e iniciou os seus estudos em cinema. Chloé Zaho também ganhou a estatueta de melhor direção e Frances McDormand - a Fern - foi contemplada como a melhor atriz feminina.

Nomadland, de Chloé Zaho. O grande vencedor do Oscar de 2021.

O roteiro do filme também é de Chloé Zaho, em parceria com Jéssica Bruder. Então, vamos a este roteiro. Fern é uma mulher cinquentona/sessentona, marcada por perdas; do marido, do emprego e da moradia. Fern é uma ex-professora  que vive de trabalhos temporários, como empacotadora da Amazon, como cozinheira em lanchonetes ou ainda como faxineira em acampamentos. E será nos acampamentos e em sua van que encontrará uma nova forma de vida, uma vida nômade, tendo a sua van como moradia.

Em sua vida nômade, ela reconstitui a histórica "marcha para o oeste", na terra do empreendedorismo, das liberdades e do self made man. Mas não é bem assim. Quase duzentos anos já se passaram. O imaginário e os valores do próprio capitalismo hoje são outros. Vivemos na ditadura do dólar, da especulação financeira, da mercantilização da saúde e da era pós-industrial. Vivemos a era da precarização da vida. O filme é um grito, no mínimo, de inconformismo diante da situação.

Fern ouve falar de um movimento de vida nômade, em que as pessoas vivem em vans e perambulam de acampamento em acampamento, vivendo da troca de trabalhos e numa vida de escambo. Em meio a isso, as belas passagens do meio oeste dos Estados Unidos e lições de vida exemplares, com destaques para a vida simples e solidária. A vida nômade ganhou uma forma de organização.

O filme é uma crítica ao mundo capitalista, consumista, marcado pelo crescimento do desemprego ou pela geração de empregos precários e temporários e que já não mais proporcionam o american way of life. O premiado filme é sensível a toda essa problemática mas a crítica lhe aponta falhas. Fern individualiza e romantiza a saída ou a solução para esse problema, ao voltar-se para a família em busca de ajuda e a volta para empregos temporários, simbolizados pela Amazon, na solução para saldar os compromissos assumidos com os familiares.

Particularmente me lembrei muito de  As vinhas da ira, o memorável romance de John Steinbeck, de 1939. Quanto sofrimento e quantas perdas, já nesta marcha da história real, que foi a marcha para o oeste. Perdas infligidas pelo sistema, pelo banco (no abstrato) e não pelas pessoas que operacionalizavam o sistema. O sistema já era perverso e já gerava a fome, símbolo maior de toda a perversidade. Nenhum sistema pode ser considerado como exitoso se ele permitir a convivência com a fome. Conviver com a fome é o habituar-se a conviver com toda a miséria humana e dela tomar partido e obter ganhos.

Uma das cenas mais memoráveis é a da velha senhora de 75 anos, portadora de doença degenerativa, que resolve morrer junto da natureza e da solidariedade das pessoas e não na opressão, tristeza e solidão dos hospitais, como li numa bela crítica ao filme.

O filme tem a sua notoriedade pela abordagem do tema do futuro do capitalismo, um sistema que não dá conta de resolver nem mesmo os problemas econômicos da humanidade e provoca, em consequência, toda uma série de distúrbios mentais, doenças psíquicas e físicas, tédio, desesperos e desesperanças. Vários críticos consideraram o filme como uma espécie de documentário. A sua notoriedade é a problemática suscitada. Lembrando que a direção e o roteiro são de Schloé Zaho e a interpretação é de Frances McDormand. Estas também são as três estatuetas ganhas no episódio maior do cinema mundial.

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