segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

NIKETCHE. Uma história de poligamia. Paulina Chiziane.

Não tenho plena certeza de como cheguei a este livro. Se não me engano, foi por uma postagem do Marcos Bagno que transcrevia um trecho do livro em que Rami reclama de Deus, sobre a infidelidade dos homens. Um lamento profundo. Foi o que me motivou para a compra do livro e a consequente leitura. Estou falando de Niketche - uma história de poligamia, da escritora Paulina Chizane, a primeira mulher a lançar um romance em Moçambique. Isso ocorreu em 1990, com Balada de amor ao vento. Niketche teve a sua primeira edição em 2002. 

Niketche. Paulia Chiziane. Companhia de Bolso. 2021.

O trecho que eu li, bem que poderia ter sido esse: "Até na Bíblia a mulher não presta. Os santos, nas suas pregações antigas, dizem que a mulher nada vale, a mulher é um animal nutridor de maldade, fonte de todas as discussões, querelas e injustiças. É verdade. Se podemos ser trocadas, vendidas, torturadas, mortas, escravizadas, encurraladas em haréns como gado, é porque não fazemos falta nenhuma. Mas se não fazemos falta nenhuma, por que é que Deus nos colocou no mundo? E esse Deus, se existe, por que nos deixa sofrer assim? O pior de tudo é que Deus parece não ter mulher nenhuma. Se ele fosse casado, a deusa - sua esposa - intercederia por nós. Através dela pediríamos a bênção de uma vida de harmonia. Mas a deusa deve existir, penso. Deve ser tão invisível como todas nós. O seu espaço é, de certeza, a cozinha celestial" E continua:

"Se ela existisse teríamos a quem dirigir as nossas preces e diríamos: Madre nossa que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino - das mulheres, claro -, venha a nós a tua benevolência, não queremos mais a violência. Sejam ouvidos os nossos apelos, assim na terra como no céu. A paz nossa de cada dia nos dai hoje e perdoai as nossas ofensas - fofocas, má língua, bisbilhotices, vaidade, inveja - assim como nós perdoamos a tirania, traição, imoralidades, bebedeiras, insultos, dos nossos maridos, amantes, namorados, companheiros e outras relações que nem sei nomear. Não nos deixeis cair na tentação de imitar as loucuras deles - beber, maltratar, roubar, expulsar, casar e divorciar, violar, escravizar, comprar, usar, abusar e nem nos deixes morrer nas mãos desses tiranos - mas livrai-nos do mal. Amem. Uma mãe celestial nos dava muito jeito, sem dúvida alguma" (Páginas 61-62).

Como percebem, o livro é um lamento, um lamento dolorido e profundo. É, como lemos no subtítulo, uma história de poligamia. Paulina Chiziane não se considera uma escritora, mas sim, uma contadora de histórias. Ela nos conta uma história de poligamia de sua terra, de sua estranha terra, aos olhos de nossa cultura, a sua Moçambique. E como tal, a sua história representa um enorme choque cultural. Todas as situações vividas pela poligamia, tanto pelo lado do homem, como por parte das mulheres, está destrinchada no livro. Dele nada posso contar, para não frustrar expectativas na sua leitura.

Recentemente eu li, da também moçambicana, Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais. O livro é um fortíssimo libelo contra a violência colonial praticada pelos portugueses na colonização -exploração do país. Mas um dado especial me chamou muito a atenção. A localização da sua capital, a cidade de Maputo, bem na extremidade sul. Deixo até um mapa para a constatação do fato. Esse dado também está presente em todo o livro de Paulina Chiziane. Como o livro é um relato sobre a cultura do país, podemos afirmar com certeza que ao longo da colonização a cultura do sul foi mais afetada do que as culturas, diríamos mais naturais ou menos tocadas pelas mãos e mentes da cultura dominadora. No caso do livro, os costumes relativos ao comportamento sexual e ao casamento. São do norte os costumes tribais e as danças, como a dança que dá título ao livro, Niketche. Vejamos uma descrição da dança, num diálogo entre Mauá (mulher do norte) e Rami (mulher do sul), ambas componentes dessa história de poligamia:

Mapa político de Moçambique. Observem a localização de Maputo, a capital.

"... Ah, vocês gente do sul! Fico amuada. Sempre fico quando a Mauá me fala assim. Mas penso na justeza das suas palavras. Esta gentalha é um esterco de superstições. - Exageramos, não acham? - repito. - Qual quê! diz a Mauá. Naquele dia, despia-me ao som ritmado dos batuques da minha terra e preparava a minha alma para dançar Niketche. - Niketche? - Uma dança nossa, dança macua - explica Mauá -, uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas, Estamos prontas para a vida! E continua:

" Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao sabor do Niketche. [...] Nos jovens desperta a urgência de amar, porque o niketche é sensualidade perfeita, rainha de toda a sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom" (páginas 138-139).

Recentemente li em Lázaro Ramos, Na minha pele, que "a literatura sempre disse mais sobre o homem no Brasil que a sociologia - até hoje, muito preocupada apenas com a luta de classes. O cinema e a novela, com a força que tem hoje em nosso país, podem trazer um ataque forte aos preconceitos". Basta trocar Brasil por Moçambique e você terá uma bela aula de sociologia e de antropologia sobre a toda a realidade social de Moçambique. O livro é uma verdadeira imersão cultural no país. E como a cultura é doída, como faz sofrer. Como ela se entrelaça com a moral e a religião. Ah, Freud! O mal-estar...

Mas o livro nos dá também uma aula de história das lutas da independência e das dificuldades encontradas após, a partir de um relato de poligamia, fora do núcleo do livro: O relato nos diz que: "Há dias conheci uma mulher do interior da Zambésia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação dos guerrilheiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é de um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez.

Essa mulher carregou a história de todas as guerras do país num só ventre. Mas ela canta e ri. Conta a sua história a qualquer um que passa, de lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios e declara: Os meus quatro filhos sem pai nem apelido são filhos dos deuses do fogo, filhos da história, nascidos pelo poder dos braços armados com metralhadoras. A minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação sexual" (páginas 241-242).

Para uma melhor noção do livro, deixo a contracapa: "Rami é uma esposa fiel e subserviente. Ela faz o que manda a tradição, mas nem assim consegue ser amada por Tony, com quem é casada há vinte anos. Certo dia rami descobre que o marido tem várias amantes - e filhos - por todo o Moçambique, e decide conhecê-las uma a uma. 'Eu, Rami, sou a primeira-dama, a rainha-mãe. [...] O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso', diz. A partir desse encontro surpreendente, todas terão a vida completamente transformada.

De origem humilde, Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance - apesar de não se considerar romancista, mas uma contadora de histórias. Em Niketche, ela mistura bom humor, consciência social e lirismo para traçar um vigoroso painel da condição feminina e da sociedade de seu país. Esta história de poligamia é contada ao longo de 43 pequenos capítulos, em 293 páginas. O livro é em formato de bolso.

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