terça-feira, 22 de março de 2022

Um banquete no trópico. 4. Autobiografia. Visconde de Mauá.

Tenho a grata satisfação de apresentar a  quarta resenha para o presente projeto. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html. Trata-se da análise, feita pelo escritor Jorge Caldeira da obra do Visconde de Mauá, Autobiografia, contida no livro Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota. Jorge Caldeira é autor do livro Mauá - empresário do império, autor credenciado, portanto, para fazer a resenha para o livro que estamos trabalhando. Creio que os escritos de Mauá poderiam ser, mais apropriadamente, denominados de Exposição aos credores, que é o que ele realmente fez. Mas como a sua biografia se confunde com o seu trabalho, tudo bem.

Autobiografia. Visconde de Mauá. A obra em análise de Jorge Caldeira. 

A Exposição aos credores foi escrita em 1878, ao longo de 15 dias, provavelmente os 15 dias mais sofridos da vida do Visconde. Em 1875, o governo imperial decretara a moratória da Mauá & Cia. e, como não conseguiu saldar todos os débitos ao longo de três anos, conforme a legislação da época, teve a sua falência decretada. Ele se considerava profundamente injustiçado e, pela sua Exposição procurava dar uma explicação aos que a ele confiaram as suas economias. Jorge Caldeira nos mostra um pouco dessa exposição. Mauá, pelo comum das escolas, é mostrado como um empresário bem sucedido, muito rico, mas que perdeu tudo o que acumulou. E só.

Mauá nasceu em Arroio Grande - RS., cidadezinha nas proximidades de Rio Grande, que hoje mal e mal chega a vinte mil habitantes, no ano de 1813 e morreu em Petrópolis, em 1889. Tornou-se órfão de pai aos cinco anos e aos 9, foi mandado ao Rio de Janeiro. Ali trabalhou com o comerciante escocês Richard Carruthers, do qual se tornou gerente e, aos 23 anos, já era seu sócio. Aos 30 era o homem mais rico do Brasil. Já vimos que a sua falência foi a razão de sua Autobiografia. O livro foi considerado por Celso Furtado como um dos 15 livros básicos para se entender o Brasil.

Introdução ao Brasil. Desse livro foi extraído o texto de Jorge Caldeira. Autobiografia, do Visconde de Mauá. Páginas 97 a 111.

A sua Autobiografia ou Exposição aos credores tem uma estrutura simples, compondo-se de duas partes. Na primeira, em 25 capítulos, ele detalha para os credores os seus principais empreendimentos, mostrando seus resultados e, mais ao final, entra em questões teóricas da economia. Vamos detalhar um pouco da fortuna desse empresário empreendedor. O seu primeiro empreendimento o Estaleiro Mauá teve 1200 funcionários e produziu 72 navios, guindastes, canos, engenhos e motores. Construiu estradas de ferro, instalou iluminações públicas com lampiões a gás e teve companhia de navegação na Amazônia. Sempre foi dono de banco, do qual sempre fazia a empresa mãe, usando o dinheiro como fonte de financiamento de seus negócios. Fazia dele um banco de investimentos. Em 1853, o seu banco foi estatizado mas ele imediatamente criou outro. Esse banco estatizado é a origem do atual e poderoso Banco do Brasil.

Jorge Caldeira nos dá uma ideia de sua fortuna, traçando alguns parâmetros de atualização. A sua fortuna pessoal era equivalente a fortuna de todo o império. Era tão rico quanto o é Bill Gates nos dias atuais, Os homens muito ricos o procuravam para orientar seus investimentos. Tinha a confiança dos ingleses mas não a dos brasileiros, que o atacavam constantemente. Em sua falência foi defendido pelo jornal inglês The Times, que afirmava que se "tratava de uma infelicidade acontecida com um homem honrado e, pedindo aos eventuais credores que tivessem confiança em sua capacidade de honrar os compromissos". E, ao fim, eles tiveram o seu dinheiro de volta.

O que aconteceu efetivamente ao "empresário do império"? Uma crise de liquidez. Do que ele necessitava? De créditos para manter o fluxo de caixa. Os seus ativos eram muito superiores aos seus passivos. Saldou esses passivos em mais de 80%. Mesmo assim a sua falência foi decretada. É sobre isso que ele escreve ao longo dos 15 dias de 1878, escrevendo a sua Exposição aos credores. Quem não deu o crédito foi o governo imperial e os homens que compunham o entorno de Dom Pedro II. Era tudo uma questão de visão de economia. Mauá teve uma visão de futuro, de uma economia capitalista, de grandes empreendimentos, com necessidade de capital financeiro para continuar a empreender. Os senhores do império desejavam riquezas sólidas, fundadas na terra e na propriedade de escravos. Mauá não tinha terras e odiava a escravidão.

Creio que já deu para perceber porquê o seu folheto explicativo para os seus credores se transformou num grande clássico da economia brasileira. Ele levantou questões que até hoje acompanham a economia brasileira, como a questão do papel do Estado na economia e a questão dos financiamentos públicos. Todos os seus negócios também tinham a ver diretamente com o Estado. Trabalhos de infraestrutura. Se fosse nos dias atuais, Mauá simplesmente recorreria aos Bancos de Fomento ou ao BNDES. Mas ele era um homem à frente de seu tempo, que recebeu da elite do atraso de sua época, o desprezo e a derrota. Creio também ser de fácil compreensão o fato de Celso Furtado considerar o seu livro como um dos 15 mais importes para se compreender o Brasil. O tema é a própria obra de Celso Furtado. Deixo o último parágrafo da resenha de Jorge Caldeira, para mostrar a real grandeza do grande empresário do império:

"Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidades últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um livro exemplar sobre o Brasil: toca, como nenhum outro texto que trata da economia brasileira, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empresários privados e governo para o desenvolvimento nacional?  Mais que isso, apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessários para uma resposta - e esse 'agradável' é um desvio que ajuda a tornar convincente o argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante: apesar da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocados de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. tanto quanto o autor, o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o narrador de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. Nos quinze dias mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de exprimir o dilema de um século".

Ao ver a contraposição das elites ao visionário empreendedor me lembrei muito de uma frase de Millôr Fernandes: "O Brasil tem um enorme passado pela frente". Quando não conseguem deter a irreversibilidade do tempo sempre apelam para golpes de Estado, recorrendo a violências institucionais e a meios há muito banidos no mundo civilizado para se manterem no poder. Vide a última experiência, de 2016. Deixo ainda a resenha do terceiro trabalho, Projetos para o Brasil, de José Bonifácio. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/um-banquete-no-tropico-3-projetos-para.html

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