sábado, 7 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 23. História geral das bandeiras paulistas. Afonso d'Escragnolle Taunay.

Este é o vigésimo terceiro trabalho do presente projeto. 

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha de Wilma Peres Costa, professora de Política e História Econômica do Instituto de Economia da UNICAMP, do livro História geral das bandeiras paulistas, de Afonso d'Escragnolle Taunay. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, volume II, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, nas páginas 97 a 121. Polêmica à vista. O explosivo tema dos bandeirantes. São onze volumes, escritos entre os anos de 1924 e 1950.

História geral das bandeiras paulistas. O livro em questão.

A resenha, depois de uma rápida apresentação da obra, traz os dados biográficos do autor, filho de escritor e político influente do Império. Afonso nasceu em Florianópolis em 1876, filho do governador do estado e escritor Alfredo d'Escragnolle Taunay, o visconde de Taunay, autor de A retirada de Laguna e Inocência. O pai conhecera fortuna e infortúnio financeiro, mas isso não abalou a vida do filho. Afonso formou-se na escola Politécnica do Rio de Janeiro, tornando-se "engenheiro sem vocação". Influenciado por Capistrano de Abreu, voltou-se para os estudos de história, onde se caracterizou por exposições longas e detalhadas, vasculhadas em fontes e documentos oficiais. Seguindo tendência da época, os tipos humanos entram nos palcos da história, ocupando os espaços que antes pertenciam apenas a reis e generais. O tipo humano estudado foi o bandeirante. Era concunhado do presidente Washington Luís, que antes fora governador de São Paulo. Este detalhe não pode passar despercebido. Ele, também estudioso da história, o impulsionou em cargos públicos, como o de diretor do Museu Paulista, decisivo em seus destinos de historiador. Antes já trabalhara no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP).

Quanto à temática e o conteúdo da obra, a resenhista, depois de alertar para a dificuldade de seu trabalho, pois não se trata de um livro, mas de onze livros, publicados ao longo dos anos de 1924 e 1950 e de apresentação exaustiva de documentos, ela foca o seu trabalho nos principais eixos temáticos da obra, como a expansão interiorana de São Paulo, a caça ao indígena, voltada à sua escravização e o traçar um perfil do bandeirante. Vejamos alguns destaques: "A tônica principal da obra é o papel primordial atribuído aos sertanistas da capitania de São Paulo, na incansável exploração que resultou na ampliação do território da América portuguesa para as dimensões continentais que foram legadas à nação brasileira". "Nunca São Paulo coube dentro de suas fronteiras", afirmou solenemente em seu discurso de posse no IHGSP. Nesse sentido, uma exaltação aos desobedientes da metrópole portuguesa.

Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico. Nesse livro, a resenha do livro de Taunay.

Ruy Barbosa, na apresentação do segundo volume ressalta essa questão: "Não fora o valor e o arrojo desses caçadores de homens [...] e a costa do Brasil ao sul do Paranaguá seria hoje espanhola, espanhóis veríamos os sertões de Mato Grosso e Goiás, outro povo ocuparia as nossas melhores zonas, respiraria os nossos ares mais benignos, cultivaria as nossas mais desejadas terras".

O segundo tópico, o da escravidão, ocupa a maior parte de sua obra. Os sete primeiros volumes são dedicados à "caça ao índio". Os outros quatro, à "caça ao ouro". Toda essa ferocidade, que tantas intrigas causou, junto à Coroa, com a Espanha e com os jesuítas, deveu-se especialmente ao custo elevado do negro escravizado. O terceiro tópico, a descrição do bandeirante ocupa todo o terceiro volume. E esse tópico necessariamente o levou à análise da questão racial, que permeia toda a obra. Afinal, o bandeirante nela está umbilicalmente intrincado: "Sua preocupação é a de encontrar a especificidade étnica da população paulista, tanto no que se refere ao tipo de reinóis que nela vieram habitar, como aos grupos indígenas que, mesclados aos primeiros, propiciaram um caldeamento original. Esse caldeamento seria responsável pela virilidade, pelo caráter prolífico, pelo espírito de iniciativa e aventura dos habitantes do planalto".

A miscigenação do reinol com as indígenas foi facilitada, segundo o pesquisador, pela aceitação delas, na busca da ascensão social. Reconhece que a escravidão indígena foi uma página violenta de nossa história, mas toma as dores do bandeirante contra aqueles que os condenam por tais atos por razões humanitárias. Em sua defesa contrapõem atrocidades ainda maiores cometidas na colonização da Ásia e da África e nas guerras. A escravidão era um preço a pagar. A escravidão é inseparável de nossa história. Ela foi uma consequência da colonização. Suas críticas também atingem os jesuítas e a sua defesa às populações indígenas. Minimiza as influências africanas em nossa cultura e traça um quadro comparativo entre a escravidão negra e a indígena. A escravidão indígena/bandeirante foi integradora e a negra foi fragmentadora, contrária à formação da nação, pela formação de quilombos e pela sua preferência pelo suicídio ao cativeiro. Apoiando-se em Nina Rodrigues se manifesta contra Palmares:

"Acima [...] desta incondicional idolatria pela Liberdade deve pairar o respeito pela cultura e a Civilização". "Serviço relevantíssimo foi pois o do nosso governo colonial, tenaz e previdente, destruindo de vez a maior das ameaças jamais havidas à civilização e ao futuro do Brasil numa situação que a subsistência de Palmares teria implementado". E para tal houve a grande contribuição do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho, que garantiu a vitória contra o quilombo. É... A formação do povo brasileiro tem heranças...

Na parte final da resenha Wilma Peres Costa destaca as virtudes do historiador e de sua obra. "A história se faz por documentos". Além do que é preciso livrar-se dos preconceitos do tempo presente. É preciso policiar-se contra os preconceitos do presente para que não interfiram nos julgamentos emitidos. Aí é que residem os problemas do historiador. Vejamos a resenhista: "Não obstante as dificuldades em manter-se fiel a este último princípio, devemos sublinhar alguns aspectos, dentre os muitos, em que esta obra sobreviveu ao tempo. Em suas variadas dimensões, a temática bandeirante adequava-se de maneira privilegiada à busca de forjar um 'destino manifesto' para o estado de São Paulo que, com algumas mutações, ainda permanece vivo em nossos dias. O bandeirante fruto da miscigenação entre o europeu e o ameríndio, produziu uma espécie de passado 'eugênico', que, interrompido pela afluência de sangue africano na segunda metade do século XIX, vinha agora recuperar a sua pureza pela progressiva arianização trazida pela imigração europeia". E aí segue com o tema da expansão cafeeira. É o trato das questões regionais e as suas vicissitudes.

Vejamos ainda os dois últimos parágrafos da resenha: "Em Taunay essas múltiplas dimensões estão superpostas a serviço de uma militância intelectual e política específica. Olhada como testemunho de uma época, sua obra é a expressão desse processo de formação de uma identidade pela elite paulista, para com ela convencer o conjunto da nação. Essa problemática, em uma época de globalização traz consigo, contraditoriamente, a exacerbação das diferenças, não pode ser considerada ultrapassada.

A História geral das bandeiras paulistas é referência obrigatória para a pesquisa sobre a questão da escravidão indígena. Em sua busca exaustiva de documentação e em extensas transcrições a obra permite uma visão bastante acurada do processo de apresamento e tráfico dos índios, das diferenças da legislação sobre a escravidão na América portuguesa e espanhola, nas nuances de posições entre as distintas ordens religiosas, na especificidade do 'projeto' jesuíta de catequese. A obra é muito importante também para os estudiosos das dimensões políticas no período colonial - relações Igreja-metrópole-colonização; relações centro-administrativo-autonomia das câmaras municipais. Para o leitor atual, entretanto, pode-se dizer que esse trabalho ajuda sobretudo a compreender os paradoxos de nossa construção nacional. Assim, sua contribuição mais relevante, embora isso signifique frequentemente ler essa obra em sinal contrário, é a de estabelecer o nexo perverso entre colonização e escravidão e entre escravidão e construção do território em nossa história". Deixo ainda o trabalho anterior, História geral do Brasil, de Francisco Adolfo de V'arnhagen.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-22-historia.html

 

 


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