quinta-feira, 12 de maio de 2022

Um banquete no trópico. 27. História da literatura brasileira. Sílvio Romero.

 Este é o vigésimo sétimo trabalho do presente projeto.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/03/introducao-ao-brasil-um-banquete-no.html

Trata-se da resenha feita por Benjamin Abdala Júnior, professor de Estudos Comparados de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo, da obra História da literatura brasileira, de Sílvio Romero. A resenha encontra-se em Introdução ao Brasil - Um banquete no trópico, livro organizado por Lourenço Dantas Mota, volume II, nas páginas 191 a 217. O livro aparece logo após a proclamação da República e, muito mais do que apenas literatura, ele nos dá um amplo panorama de toda a cultura brasileira do período. O livro manifesta o pensamento da época e, por isso mesmo, extremamente polêmico. Ah! A tese do branqueamento.

História da literatura brasileira. Sílvio Romero. O livro aqui resenhado.

Antes de mais nada, algumas considerações sobre a resenha. Mais uma vez, ela traz algumas páginas a mais do que o comum das resenhas do livro. É fácil de compreender. O tema é de muita complexidade e pode levar a interpretações preconceituosas com relação ao autor. Pelo que eu entendi, ele reconhece o valor do negro e do índio, mas defende o branqueamento pela via da miscigenação. Assim o povo brasileiro, mestiço em sua identidade, adquiriria cada vez mais a marca da cultura "superior" europeia, com a marca da sua cor branca. São as crenças raciais da época, do século XIX, tomadas pelas teorias evolucionistas. Um tema de difícil abordagem sob os olhares de hoje. O resenhista é cauteloso na análise.

Ele começa citando Ariano Suassuna. Com ele faz a abordagem inicial sobre o autor. Suassuna fala dos erros cometidos por Euclides da Cunha e que persistiram em Gilberto Freyre. Eles afirmaram a superioridade racial dos portugueses aos africanos e indígenas. Ele atribui esses erros a uma herança recebida de Sílvio Romero, de sua convicção e valorização do "branqueamento". Suassuna, porém, lhe reconhece méritos, pelo reconhecimento de que negros e ameríndios constituem, sim, a identidade do povo brasileiro. Seria, assim, o começo de uma superação do reacionarismo da superioridade racial eurocêntrica, dominante ao longo do século XIX, com prolongamentos ainda ao século XX. 

O resenhista, em seguida, apresenta o objetivo da sua resenha. Mostrar as ambiguidades de Romero e, historicizá-las. Essas ambiguidades são provenientes das convicções de uma época e, por isso, não anulam os grandes subsídios que o livro trouxe para os estudos da formação do caráter nacional. Seus erros são os erros de toda uma elite dominante. Assim o livro também é uma fonte para se estudar esse pensamento dominante. Também destaca méritos metodológicos e a síntese dos fatos que é apresentada. Para efeitos de facilitar o acompanhamento da resenha, dou os títulos dos temas que o resenhista apresenta: 1. um polemista; 2. a ideia de sistema; 3. um sentimento de missão; 4. os períodos; 5. o período de formação; 6. a transformação romântica; 6. a mestiçagem como critério de unidade; 7. branqueamento, a máscara da mestiçagem: 7. as influências estrangeiras; 8. a cultura popular; 10 nacionalidade; 11. Cruz e Sousa e Euclides da Cunha; 12. Hibridismo, uma questão nacional.

Vamos pelos tópicos: 1. Um polemista. A polêmica era o seu método. Provocava o movimento do pensamento, em busca do aperfeiçoamento. Provinha de suas convicções do naturalismo evolucionista. A obra literária é como um corpo em evolução com tendências à uniformidade. Antônio Cândido vê nele um pensador não linear, mas com idas e vindas. Ele tem algo de dialético em busca de sínteses satisfatórias. Jogava pedras, mesmo injustificadas, para dar continuidade aos debates dos temas em questão. O seu ponto de observação da cultura brasileira era a partir do Rio de Janeiro, onde se estabeleceu. Ele nasceu em 1851 na cidade de Lagarto (SE), se formou em Direito em Recife e, na vida profissional exerceu sempre intensas atividades culturais, como promotor, como professor do Colégio Pedro II e como político. É um dos fundadores do grupo "Escola do Recife".

2. Uma ideia de sistema. A sua obra é uma evolução natural de sua personalidade, de sua vida. Seguiu os modelos biológicos, de acordo com suas convicções. A literatura é assim vista como um produto cultural subordinado aos fatos históricos, a determinações político-sociais. Vejamos, de acordo com o próprio autor: "Não resta a menor dúvida que a história deve ser encarada como um problema de biologia; mas a biologia aí se transforma em psicologia e esta em sociologia; há um jogo de ações e reações no mundo objetivo sobre o subjetivo e vice-versa; há uma multidão de causas móbeis e variáveis capazes de desorientar o espírito mais observador". 

3. O sentimento de missão. Ele escreve como um dever que se impôs. Era preciso romper com as visões tradicionais. Os feitos do povo negro não poderiam ser apropriados pelas elites. Vejamos: "Singular destino da raça negra no Brasil. Alimentou o branco, deu-lhe dinheiro durante quatro séculos e agora por último dá fama aos gananciosos de nomeada fácil, dá glória aos espertos". Aí aborda a questão da abolição com a pergunta de quem foram os seus autores. Vejamos a sua resposta, nas palavras do resenhista: "A abolição, segundo ele, veio da pressão do conjunto, que já ia libertando os escravos nas fazendas e nos Estados - a tal ponto chegou que, se os políticos não o fizessem logo, não encontraria mais a quem libertar. Coloca como vitória de um sistema evolutivo: a abolição progressiva, espontânea, popular". Queria transmitir, a quem se dirigia, sentimentos de libertação. Antônio Candido assim o descreve: "libertação do peso das raças 'inferiores', libertação da inclemência do clima, libertação do ensino jesuítico e retórico, libertação dos vícios políticos coloniais, libertação do servilismo à França, libertação dos exageros românticos". Pretendeu fazer uma fusão entre o materialismo e o idealismo, um pseudo naturalismo. Os fatos sociais iam para além de cristais de rocha. O possibilismo venceria o determinismo.

4. Os períodos da literatura brasileira. O primeiro destaque do resenhista vai para o conceito mais amplo de literatura que o autor defende. Ele inclui economistas, publicitários, juristas, linguistas, moralistas, biógrafos e teólogos. Hoje não. Hoje há os vários campos do conhecimento. O grande livro da história da literatura virá posteriormente com Antônio Cândido. Apresento o link ao final do parágrafo. A classificação de Sílvio Romero nos apresenta  como o primeiro período, o de sua formação - primeira época (1500-1750). Nela é narrada a adaptação do homem aos trópicos, começando com José de Anchieta e os demais jesuítas. O grande nome do período é, no entanto, para ele, Gregório de Matos, o fundador da literatura brasileira, por causa de seu caráter nacionalista. Detesta o padre Antônio Vieira, que ele considera como pedante e arrogante. Uma segunda fase ocorre com os mineiros do ciclo do ouro (1750- 1830). É a poesia patriótica. O link do livro de Antônio Cândido Formação da literatura brasileira. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/04/um-banquete-no-tropico17-formacao-da.html

5. O quinto tópico - período de transformação romântica e reações antirromânticas é considerado como a terceira fase e ganha várias subdivisões. É um período de grande presença de portugueses e franceses. Cita alguns nomes e lhes apresenta as características. Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo...  Tece pesadas críticas a Machado de Assis, totalmente infundadas, segundo o resenhista. Vejamos: "O estilo de Machado de Assis, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivace, nem rútilo, nem grandioso, nem eloquente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente, do vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da linguagem". Segue depois o período antirromântico.

6. No sexto tópico defende o unitarismo contra o federalismo e critica a cópia dos modelos norte americanos. O federalismo permite a formação das oligarquias regionais. mas a grande ideia do tópico é a defesa da mestiçagem, da qual vem a força da unidade nacional, numa unidade de sangue e de língua. Forma-se o genuíno brasileiro. Vejamos a descrição: "Constituímos uma nação de mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e prevalecerá; quero dizer apenas que o europeu aliou-se a outras raças, e desta união saiu o genuíno brasileiro, aquele que não se confunde mais com o português e sobre o qual repousa o nosso futuro". Este genuíno brasileiro é formado pelo português, pelo negro, pelo índio, pelo meio físico e pelas imitações estrangeiras.

7. O branqueamento seria, segundo Sílvio Romero uma consequência do tempo. Ele viria com o fim do tráfico e pelo desaparecimento das populações indígenas. O legítimo brasileiro adquiriria a feição branca. Hoje é um conceito totalmente superado. Está em voga o caráter multicultural do povo brasileiro. Sílvio Romero chegou a negar a latinidade da nossa cultura.

8. A nossa cultura é uma transformação da cultura europeia. Afinal, foram três séculos de domínio colonial. Adaptamos a cultura da metrópole e das influências que ela recebeu da cultura francesa e pelos franceses, das demais culturas europeias. Miramos mais para fora do que para dentro. Tudo em prejuízo do nacional. Por essas influências somos um país em ruínas: "lavoura decadente, comércio na mão dos estrangeiros e uma atmosfera de opressão social contra os proletários rurais.

9. Pelas razões do item 8, ele era um grande admirador da cultura popular e um grande pesquisador da mesma. São as roupagens de um povo. Suas recolhas inspiraram Mário de Andrade. Vejamos uma visão sua: "Romances e xácaras se nos deparam por este Brasil em fora que são casos irrefragáveis dessa espécie de hibridização. São produtos recentes de nossas atuais populações mestiçadas, moldados sobre velhos elementos tradicionais, inteiramente transformados pelos cantores modernos, caipiras, tabaréus, matutos ou sertanejos. São as genuínas manifestações da nacionalidade. 

10. Faz a defesa do pensar nacional, do pensar por conta própria. Faz belas exaltações à cultura nordestina, a popular, e não a que provem dos latifúndios. Ele lança um olhar citadino, de alguém que ascendeu socialmente, pela via das profissões liberais, que rechaça as oligarquias provenientes dos latifúndios.

11. A exaltação a Cruz e Sousa e Euclides da Cunha, procedentes da poesia e da prosa. Eles são, em detrimento de outros, exaltação aos ideais da mestiçagem, que eles reconhecem. São almas cândidas, homens síntese do povo brasileiro.

12. Em hibridismo - uma questão atual, o resenhista volta à defesa do autor. Vejamos; "Para concluir, convém relevar o significado histórico-cultural da História da literatura brasileira, uma obra que vale como uma síntese da literatura e da cultura do país, publicada nos inícios da República. Era esse momento de sonhos libertários e de defesa de uma metodologia científica para as ciências humanas que imprimiu as motivações de fundo para o projeto de Sílvio Romero. Um projeto que não se fechava em si, pois que o autor tinha consciência de sua historicidade, revisando-a, reformando-a. Conformada sua estrutura, a obra tornou-se contexto, isto é, ponto de partida crítico para outros estudiosos da literatura e da cultura do país".

Outro reconhecimento que lhe devemos é o do pioneirismo de seus estudos sobre a cultura brasileira e a inserção nela dos temas da mestiçagem e do hibridismo cultural. Isso, em muito perdoa seus erros e suas ambiguidades. É também uma herança sua o voltar-se para dentro, para os grandes temas nacionais. Volto a dizer, um pensador extremamente complexo e polêmico, pioneiro em muitos dos temas abordados. E, um belo e erudito trabalho do resenhista. E, como de hábito, a análise do trabalho anterior, de Joaquim Nabuco, O abolicionismo.

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2022/05/um-banquete-no-tropico-26-o.html


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