Se você quiser fazer um verdadeiro passeio literário, passando pelas mais belas obras da literatura universal, seguramente o livro é este: As obras-primas que poucos leram, um livro organizado pela escritora Heloísa Seixas. São dois volumes. Mas eu tenho apenas o volume de número 2. No que consiste o livro? A análise de clássicos, feita por especialistas. Um exemplo: Otto Maria Carpeaux examina Crime e castigo de Dostoievski, ou R. Magalhães Júnior analisa Babbitt, de Sinclair Lewis, que passaremos a ver.
As obras-primas que poucos leram. Vol 2. Organização de Heloísa Seixas. Record. 2005.
O romance de Sinclair Lewis, Babbitt, me impressionou muito. O livro integra a memorável coleção de 50 livros, Os imortais da literatura universal, uma publicação da Abril Cultural do ano de 1972. O livro é o de número 44. A primeira edição do livro é do ano de 1922, poucos anos após a Primeira Guerra Mundial. Os Estados Unidos estão sendo governados pelo presidente Warren Harding (1921-1923), do Partido Republicano e sob os efeitos da Lei Seca. Babbitt é um comerciante (corretor de imóveis) de uma fictícia cidade do meio-oeste norte-americano e que se torna uma espécie de símbolo, uma caricatura do comerciante que apenas pensa em enriquecer, em ganhar dinheiro, muito dinheiro! Muito espírito do capitalismo e pouca ética protestante. Deixo a resenha do livro:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2025/05/babbitt-harry-sinclair-lewis-1922-nobel.html
A cidade fictícia que Lewis retrata é a cidade de Zenith, que muitos cogitam ser a cidade de Minneápolis ou Cincinati, nos relata o resenhista Magalhães Júnior. A ela está reservada a glória e a grandeza do progresso. Seus cidadãos sentem muito orgulho dela. Ele também nos retrata a maneira peculiar que o escritor tinha para escrever. Ele se inseria dentro dos grupos que ele queria retratar e assim observá-los mais de perto. Babbitt sofreu um verdadeiro bombardeio de críticas. Foi considerado um livro anti Estados Unidos, contra os seus valores e a sua moralidade. Esses valores eram falsos. Ironia! Hipocrisia! Eram tempos de isolacionismo e protecionismo econômico. Tempos da Lei Seca (1920-1933) e da radical segunda etapa da Ku Klux Klan.
O livro se centra no modo de atuação de Babbitt, de como ele se comporta para conquistar os seus clientes. Mostra suas frustrações, sonhos desfeitos e a ânsia de vender, vender e vender sempre mais. Vejamos o resenhista: "Para vender, precisava relacionar-se, ampliar cada vez mais o círculo social em que se agitava, fazer sempre contatos novos. Por isso, ingressa em tudo quanto é tipo de sociedades, clubes, fraternidades. É sócio da Ordem Protetora e Fraternal dos Alces, do Clube Atlético, da Associação Cristã de Moços, da Associação Estadual de Juntas de Bens Imóveis, do Boosters Club, bem como de vários outros, do tipo Rotary ou Lion's, um dos quais multava os sócios em meio dólar, quando estes não se tratavam por alcunhas ou diminutivos, o que era um meio artificial de forçar a intimidade e quebrar barreiras entre eles. Em cada sócio desses clubes, Babbitt via um freguês em potencial. Seus negócios, em geral, eram limpos, mas sendo necessário também entrava em conchavos ou dava golpes rendosos. Era honesto, mas subornava fiscais, para ajeitar situações difíceis, como a aprovação de loteamentos irregulares".
A descrição de seu anti-herói continua: "Contudo, Babbitt era virtuoso. Defendia, sem praticar, a proibição do álcool. Aprovava, sem lhes obedecer, as leis contra excessos de velocidade. Pagava suas dívidas. Contribuía para as despesas do culto, para a Cruz Vermelha e a Associação Cristã de Moços. Seguia os costumes de sua classe e não trapaceava senão quando isso era autorizado por um precedente, nunca descendo à fraude positiva e direta".
Vejamos mais uma caracterização do livro: "No seu romance, que constitui um painel sociológico dos Estados Unidos no início da década de 1920, Siclair Lewis satiriza a preocupação obsessiva do dinheiro na vida norte-americana e certos processos de iludir as massas ingênuas, semelhantes ao que usou o espertalhão Dale Carnegie, com o seu processo de self-help, em cursos, conferências e no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas". É um fervoroso adepto de cursos rápidos e práticos em vez de "latim e dramaturgia de Shakespeare". Em suma, um novo sistema educacional. Como são esses cursos aligeirados que hoje são tão comuns entre os governadores brasileiros de extrema direita Esse sistema tem também ojeriza à filosofia, à história e ás ciências sociais e artes. temem o pensar. Perda de tempo e tempo é dinheiro.
Babbitt, no entanto, teve dúvidas quanto a seus princípios. Passa a frequentar ambientes impróprios e as suas atividades comerciais entram em declínio. Então ele rapidamente se recompõe. Volta à família e aos negócios. E, alimenta uma esperança:
"Sua esperança é de que o filho possa romper o círculo das conveniências e dos interesses mesquinhos, para se afirmar como um indivíduo menos escravo das ideias feitas. Para ele próprio é que não há nenhuma esperança. Reconhece que sua vida foi vazia e fútil. É um homem oco, cujo dinamismo e eficiência não o levaram a lugar algum. Em todo caso, recupera a intermediação rendosa na nova negociata municipal com terrenos para a Companhia de Transportes Urbanos...".
Outro autor norte americano que eu aprecio muito é Philip Roth. Este é um crítico da cultura norte-americana ainda mais mais ácido do que Sinclair Lewis.

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