quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Por quem os sinos dobram. Ernest Hemingway.

Em primeiro lugar quero afirmar que tenho um profundo interesse por tudo o que se refere à Guerra Civil Espanhola. Igual fascínio também dedico a Ernest Hemingway. Depois, em minha memória mais profunda, eu creio que parte deste livro foi lido para nós no refeitório, durante o almoço. Nós tínhamos este hábito, quando alunos do ginásio, no Seminário São José de Gravataí, em nosso tempo de seminário. Com a leitura, fiquei em dúvida, por causa de Maria e Robert Jordan, que declaram amor mútuo, de formas belíssimas. De qualquer maneira a censura funcionava. Mas me permanece a dúvida.
A capa serve de pista. Detonar.

O interesse de agora, veio de uma relação de clássicos. Também, não tão distante no tempo, fiz uma visita ao escritor, passando pelos seus lugares preferidos em Havana, como o Hotel Ambos Mundos, na Bodeguita del Medio e no Floridita. Ali tomava os seus aperitivos preferidos, o mojito na Bodeguita e o daikiri no Floridita. Neste último tem um busto em sua homenagem. Também lembrei de Leonardo Padura e o seu O homem que amava os cachorros. Padura é cubano e um dos focos de seu livro é a sangrenta guerra civil espanhola.
Com Hemingway no Floridita.

Lembro também do João Ubaldo Ribeiro, de uma fala sua. Nos contava que um dia lhe pediram um romance longo e ele escreveu O povo brasileiro. Por quem os sinos dobram tem 43 capítulos espalhados ao longo das 671 páginas do livro. Souberam, ambos, mostrar as qualidades de um narrador. Hemingway demora nos diálogos, nas conjecturas que seus personagens fazem, nos vários focos sob os quais viaja a sua narrativa, além de traçar detalhadamente os seus perfis.

Vamos à centralidade do livro e aos seus personagens principais. A capa do livro nos dá a pista do fio condutor do romance. Nela aparece um detonador de explosivos. Isso mesmo. Robert Jordan é um americano, quase sempre chamado de inglês, ao longo do livro. Ele é professor de espanhol nos Estados Unidos e atua como voluntário na guerra, na qualidade de detonador de explosivos, no caso, recebera a tarefa de explodir uma ponte.

Em torno de Robert Jordan forma-se o grupo, ou ele se integra nele, composto por Pablo, Pilar, um cigano e mais três ou quatro republicanos espanhóis e a doce Maria. Maria era protegida de Pilar, mas quando ela vê o inglês chegar, confia-a imediatamente a ele. Em três dias vivem um amor intenso e de juras eternas. O grupo está em meio a florestas, cercados de inimigos. De fora do grupo merece destaque o guerrilheiro El Sordo e os chefes, o general Golz e o jornalista Karkov.

Robert Jordan e o general Golz, ao que tudo indica, tinham uma ação sincronizada. Jordan explodiria a ponte e Golz ordenaria um ataque aéreo. Mas a comunicação ainda era por mensageiros (ai se pudéssemos nos comunicar por rádio, reflete Robert) e estes poderiam ser interceptados ou suscitar desconfianças. É o que ocorreu com esta ação. Nela interferiu um comandante francês, totalmente fora dos esquadros. Simplesmente prendeu o mensageiro. São muitos os grupos que constituem os revolucionários, como os republicanos, os comunistas, os anarquistas e mais as brigadas internacionais com as suas peculiaridades. Muitas reflexões sobre a morte, o seu significado e o ato de matar.

O romance ganha um final dramático, reservado aos dois últimos capítulos. Nele estão os sonhos de Robert Jordan e de Maria, a projeção de seus dias de amor em Madri. Iria levá-la a todos os belos lugares que ele conhecera. Nele está a precisão com que executará o seu trabalho de explosão da ponte, apesar dos imprevistos ocorridos com Pablo. Pablo é uma das figuras centrais do romance. Falta-lhe convicção e fé revolucionária e muitas vezes se volta contra o grupo, após enormes bebedeiras de vinho. Pablo era o marido de Pilar. Várias vezes foi poupado de ser morto pelos companheiros. Mas na luta sempre era o mais valente, o mais eficiente e também o mais impiedoso. É um dos que permanece incólume e decisivo até o final da narrativa. Quanto ao casal amoroso, Robert Jordan e Maria, juram que, se apenas um deles sobreviver, este sobrevivente será os dois.

Destaco uma das frases finais: São reflexões de Robert, o inglês: "Lutei durante um ano pelo que acredito. Se vencermos aqui, venceremos em todos os lugares. O mundo é um bom lugar e vale a pena lutar por ele, e odeio ter que deixá-lo. Você teve muita sorte por ter uma vida tão boa. Teve uma vida tão boa quanto a do seu avô, apenas não tão longa. Teve uma vida boa como outra pessoa qualquer, por causa desses últimos dias. Você não vai querer reclamar, justo quando teve tanta sorte. Mas eu gostaria de passar à frente o que aprendi. Cristo, eu aprendi rápido no final".

Deixo ainda espaço para a apresentação do livro, na sua orelha, escrita pelo editor Ênio Silveira: "Por quem chora aquele sino? Aquele sino chora por todos nós. Com isso quer o poeta que forneceu o título deste livro significar a unidade do mundo. Somos um todo, e tudo quanto afeta qualquer das partes afeta de um modo ou outro todos os demais.

O drama que Hemingway descreve é pungentíssimo - é um drama de guerra civil, a mais horrorosa de todas. Quereis ver a crueldade humana em seu fastígio? Estudai as guerras entre irmãos.

A cena da matança dos 'fascistas', organizada por Pablo e no romance contada por Pilar, sua mulher, é das coisas mais arrepiantes que se escreveram. Veio a retaliação. Os fascistas souberam vingar-se dos horrores que no começo os comunistas espanhóis perpetraram contra homens cujo crime único era serem proprietários e pessoas de boa situação social.

Não há quem não leia este livro e não guarde na memória, para sempre, o quadro da 'malhação com manguais', concebido pelo hediondo Pablo e executado por camponeses ébrios de vinho e ideologia (Trata-se do capítulo 10, das páginas 150-197).

E todas as demais cenas do livro são igualmente traçadas de maneira a se tornarem inesquecíveis. Hemingway produziu um livro que ocupará lugar à parte na literatura moderna". Apenas para situar, o autor nasceu em 1889 e morreu em1961. Por quem os sinos dobram foi escrito em 1940 e no ano de 1954 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.
Um dos hotéis preferidos de Hemingway em Havana.

Ainda, para encerrar, a frase epígrafe, contracapa e mote para o livro: "Nenhum homem é uma Ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Se um Pequeno Torrão carregado pelo Mar deixa menor a Europa, como se todo um Promontório fosse a Herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti". A autoria é de John Donne.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Uma temporada no inferno e a correspondência. Rimbaud.

De uma relação de clássicos e, de tanto ouvir falar, encomendei o livro de Arthur Rimbaud, Uma temporada no inferno, seguido de sua correspondência, especialmente, a que ele manteve a partir de suas viagens pela África, onde ele empreendeu no mundo dos negócios. Esta correspondência abrange estes seus negócios e a relação com os seus familiares. Abrange ainda, a que ele manteve com Paul Verlaine, em seus tempos de escritor. Com Verlaine ele manteve um relacionamento que se situou entre o infeliz e o trágico, já que até tiro houve.
Quase a obra completa de Rimbaud.


Creio que Rimbaud foi um dos seres humanos mais infelizes que este mundo já conheceu. O título de sua curta obra, Uma temporada no inferno, bem traduz o imenso inferno que foi a sua vida. Ele nasceu em Charleville, no interior da França, já próximo à Bélgica, em 1854 e morreu em Marselha, em 1891. Seu pai era um militar, que sumiu da vida, deixando para a mãe a penosa tarefa da educação de quatro filhos. Arthur, para o bem ou para o mal, era o gênio da família. A edição do livro que eu li é da L&PM, da coleção Rebeldes&Malditos. Ela tem em suas páginas introdutórias uma biografia bastante detalhada. Apesar de sua vida curta, ela teve duas fases bem distintas: a de estudante e escritor e a de comerciante na África.

Uma temporada no inferno ocupa as páginas entre a 19 e a 79 e a edição é bilíngue. A metade destas páginas, portanto. Ele mesmo a editou, mas retirou do editor apenas alguns exemplares dos 500 que encomendara. Estes que sobraram ficaram intactos por trinta anos. O livro é datado pelo escritor com a data abril/agosto de 1873. Vejamos o que diz a sua biografia com relação a este ano.

1873. Janeiro: Ao chamado de Verlaine, Rimbaud retorna a Londres. A vida em comum recomeça.
4 de abril: Rimbaud e Verlaine deixam a Inglaterra.
12 de abril: Rimbaud vai para a fazenda da mãe em Roche.
26 de maio: viaja mais uma vez para Londres em companhia de Verlaine.
3 de julho: Após uma briga, Verlaine abandona Rimbaud precipitadamente e viaja para Bruxelas. 
8 de julho: Rimbaud encontra-se com Verlaine em Bruxelas. 
10 de julho: Verlaine atira em Rimbaud com um revólver, ferindo-o no punho esquerdo. Depois de se tratar, Rimbaud dá queixa na polícia, mas a retira alguns dias depois. Mesmo assim, Verlaine é condenado a dois anos de prisão. 
20 de julho: Rimbaud volta para Roche, onde acaba de escrever Uma temporada no inferno.
Outubro: Uma temporada no inferno é publicada por conta do autor pela Alliance Typographique de Bruxelas. Aos 19 anos para de escrever e em momento alguma retoma a escrita.

Registro estes dados para mostrar o que era realmente a vida do jovem neste período. Os encontros com Verlaine ainda continuavam, mas este procurou refazer a sua vida, convertendo-se a um piedoso cristianismo e a dedicar muitos de seus anos ao estudo da obra de Verlaine e a escrever prefácios para diferentes edições. Estes aparecem ao final deste livro da L&PM. Em 1878 Rimbaud iniciou o seu périplo africano, tendo antes, em 1854, escrito as Iluminações.

Na África se dedica a negócios e trambiques, com venturas e desventuras na costa oriental, na então Abissínia, Harar,, Daukalis e Somália. Negocia de tudo. Embora o ficar rico tivesse sido o seu grande propósito, não amealhou grande fortuna. Armas e escravos figuravam entre as mercadorias que negociava. Cedo contraiu grave doença, que o leva à morte, passando antes pela amputação de uma de suas pernas. Esse tempo de doença ele passa na cidade de Marselha, onde é acudido pela sua irmã. Mas a África, os seus negócios e a administração de suas finanças não lhe saem da cabeça, nem em seus últimos momentos de delírio. Em síntese, uma vida infeliz, uma vida de inferno, no reino de Cam, como ele dizia, maldizendo os negros

Embora a sua pequena obra, é um dos homens da literatura mais estudados, tal a intensidade de sua escrita, meio poesia, meio prosa, ou uma mistura das duas. Como amostra, passo para vocês a abertura de seu livro:

Uma Temporada no inferno: "Antes, se lembro bem, minha vida era um festim em que se abriam todos os corações, todos os vinhos corriam.
Uma noite, fiz a Beleza sentar no meu colo. E achei amarga. Injuriei.
Me preveni contra a justiça.
Fugi. Ó bruxas, ó misericórdia, ó ódio, meu tesouro foi entregue a vocês!
Consegui fazer desaparecer do meu espírito toda a esperança humana. Para extirpar qualquer alegria dava o salto mudo do animal feroz.
Chamei o pelotão para, morrendo, morder a coronha dos fuzis. Chamei os torturadores para me afogarem com areia, sangue. A desgraça foi meu Deus. Me estendi na lama. Fui me secar no ar do crime. Preguei peças à loucura.
E a primavera me trouxe o riso horrível do idiota.
Ora, ultimamente, chegando ao ponto de soltar o último basta!, pensei em buscar a chave do antigo festim, que talvez me devolvesse o apetite dele.
A caridade é a chave. Inspiração que prova que eu estava sonhando!
'Continuarás hiena etc...', repete o demônio que me orna de amáveis flores de ópio. 'A morte virá com todos os teus desejos, e o teu egoísmo e todos os pecados capitais'.
Ah! pequei demais; - Mas caro Satã, por favor, um cenho menos carregado! e esperando algumas pequenas covardias em atraso, como aprecia no escritor a falta de faculdades descritivas e instrutivas, lhe destaco estas assustadoras páginas do meu bloco de condenado eterno".

No horizonte Nietzsche, Freud e todo o existencialismo. Gostei de uma observação na resenha biográfica. A severa mãe o admoesta. Qual a razão? Por Verlaine lhe haver indicado a leitura de Os miseráveis.


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O pai, a mãe, o séquito e o império da loucura.

 Uma das peripécias do livro Elogio da loucura é que ele tem um narrador muito especial. Ela própria, a loucura. Ela confessa. "Não tens quem te elogia? Elogia-te a ti próprio".  Ela fala para um grande público e, por óbvio, começa se apresentando. E já na apresentação aparece a tonalidade que acompanha toda a obra, o humor, a sátira e a ironia. Para a sua apresentação evoca o poder de memória das musas. Vejamos, primeiramente o pai, a mãe e o nascimento.
A fabulosa obra datada de 1508. Tempos agitados de um mundo em transformação.

"Para dizer a verdade, não nasci nem do Caos, nem de Orco, nem de Saturno, nem de Jápeto, nem de nenhum desses deuses rançosos e caducos. É Plutão, deus das riquezas, o meu pai. Sim, Plutão (sem que o levem a mal Hesíodo, Homero e o próprio Júpiter), pai dos deuses e dos homens; Plutão, que, no presente como no passado, a um simples gesto, cria, destrói, governa todas as coisas sagradas e profanas; Plutão, por cujo talento a guerra, a paz, os impérios, os conselhos, os juízes, os comícios, os matrimônios, os tratados, as confederações, as leis, as artes, o ridículo, o sério (ai! não posso mais! falta-me a respiração), concluamos, por cujo talento se regulam todos os negócios públicos e privados dos mortais; Plutão, sem cujo braço toda a turba das divindades poéticas, falemos com mais franqueza, os próprios deuses de primeira ordem não existiriam, ou pelo menos passariam muito mal; Plutão, finalmente, cujo desprezo é tão terrível que a própria Palas não seria capaz de proteger bastante os que o provocassem, mas cujo favor, ao contrário, é tão poderoso que quem o obtém pode rir-se de Júpiter e de suas setas. Pois bem, é justamente esse o meu pai, de quem tanto me orgulho, pois me gerou, não do cérebro, como fez Júpiter, com a torva e feroz Minerva, mas de Neotetes, a mais bonita e alegre ninfa do mundo. Além disso os meus progenitores não eram ligados pelo matrimônio, nem nasci como o defeituoso Vulacano, filho da fastidiosíssima ligação de Júpiter com Juno. Sou filha do prazer e o amor livre presidiu o meu nascimento; para falar com nosso Homero, foi Plutão dominado por um transporte de ternura amorosa. Assim, para não incorrerdes em erro, declaro-vos que já não falo daquele decrépito Plutão que nos descreveu Aristófanes, agora caduco e cego, mas de Plutão ainda robusto, cheio de calor na flor da juventude, e não só moço, mas também exaltado como nunca pelo néctar, a ponto de, num jantar com os deuses, por extravagância, o ter bebido puro e aos grandes goles".

Vamos adiante na narrativa, ouvindo agora, a loucura falar de sua pátria. "Se, além disso, fazeis questão de saber ainda qual a minha pátria (uma vez que, em nossos dias, é como uma prova de nobreza notificar ao público o lugar no qual demos os nossos primeiros vagidos), ficai sabendo que não nasci nem na ilha natante de Delos, como Apolo; nem da espuma do agitado Oceano, como Vênus; nem das escuras cavernas. Nasci nas ilhas Fortunadas, onde a natureza não tem necessidade alguma da arte. Não se sabe, ali, o que sejam o trabalho, a velhice, as doenças; nunca se veem, nos campos, nem asfódelo, nem malva, nem lilá, nem lúpulo, nem fava, nem outros semelhantes e desprezíveis vegetais. Ali, ao contrário,, a terra produz tudo quanto possa deleitar a vista e embriagar o olfato: mólio, panaceia, neponte, mangerona, ambrosia, lótus, rosas, violetas, jacintos, anêmonas. Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amalteia, pois que duas graciosas ninfas me deram de mamar: Mete, filha de Baco, e Apédia, filha de Pan".

Mas, falemos ainda das companheiras que formam os seu séquito: "Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vô-los direi, mas somente em grego Estais vendo esta, de olhar altivo? É Philávtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolóxia, isto é, a adulação. E a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências de perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbrigos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela de pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Throphis,isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton Hypnon, isto é, o sono profundo"

Creio que vale a pena, ainda, ouvi-la falar de seu império: "Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império. Já conheceis, portanto, o meu nascimento, a minha educação e a minha corte. Agora, para que ninguém julgue não haver razão para eu usurpar o nome de deusa, quero demonstrar-vos quanto sou útil aos deuses e aos homens e até onde chega o meu divino poder, desde que me presteis ouvidos com bastante atenção". E por aí vai. Veja ainda a resenha da obra: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/elogio-da-loucura-erasmo-de-roterdam.html

sábado, 19 de janeiro de 2019

Elogio da loucura. Erasmo de Roterdam.

Enfastiado com uma série de leituras sobre os Estados Unidos, a saída apontou para a leitura de um clássico. Recentemente um amigo meu, em conversa de bar, me falou em reler Elogio da loucura. Eu o estimulei bastante e também caí na mesma tentação. Nas veleidades da juventude, eu havia me proposto a sua reescrita, adaptando-a aos tempos de hoje. Depois esta loucura passou. A razão, a sabedoria e o juízo me ditaram que esta é uma obra ímpar.
Para Thomas Morus, em 1509.

É absolutamente impossível ler esta obra sem uma contextualização. Então vamos a ela. Elogio da loucura irá aparecer em 1509, em Paris. Erasmo de Roterdam nascera em 1466 e morreu em 1536. tempos muito agitados, portanto. Eram os tempos modernos. Tempos de descobrimentos marítimos. tempos de ambição sem limites. Tempos de afirmação da igreja católica, que, quanto mais se afirmava, mais era contestada. Veio a reforma protestante, o anglicanismo e a contra-reforma. Apesar de tudo e por inacreditável que pareça, Erasmo permaneceu católico e, mais incrível ainda, tornou-se padre. Teve uma morte natural na cidade de Basileia. Seu amigo Thomas Morus, para quem escreveu o Elogio da loucura, não teve a mesma sorte. Morreu com um julgamento de Henrique VIII. Em compensação tornou-se um santo católico.

Um dado biográfico. Erasmo era filho ilegítimo, se é que isto existe. Ilegítimo diante da lei da igreja, pois seu pai e sua mãe não eram casados. Era, portanto, um filho bastardo. Me desculpem se estou usando estes termos, mas creio que servem como introdução à obra. É tudo o que o Príncipe do Humanismo irá criticar. Os seus pais morreram cedo mas o infortúnio não tomou conta de sua vida. Teve protetores poderosos e oportunidades para estudar. O tema de seus estudos estão retratados no Elogio. A cultura greco romana, o Novo Testamento, São Paulo, as cartas e os primeiros pensadores cristãos, os formuladores da doutrina.

A sua obra é de uma ousadia sem tamanho. Eram tempos de intolerância total. A ironia e a sátira são as suas armas. Critica as instituições e os poderes. Poupa os criticados. Citações só os clássicos, já distantes na história e impossibilitados de atos de vingança. Os seus ataques preferidos são dirigidos indistintamente aos homens que exerciam o poder: reis e príncipes, bispos, cardeais e papas, monges e sacerdotes, bem como as instituições por eles presididas. Anotei um termo, quando fala dos teólogos, um gordo teologastro. Casamento, família e a "cornice" também recebem amplos elogios. Também sobra para os gramáticos e para os estoicos.

Também merece atenção especial a forma da escrita. Depois de uma carta para Thomas Morus, ao qual apresenta o seu escrito, este vem, de um sopro só, num único capítulo. Antônio Olinto, na introdução à obra, na edição da Ediouro, a apresenta como irônica, humorística e séria. Na carta a Morus, ele comenta que poucos não a entenderão e faz ainda um trocadilho com o sobrenome Morus, uma referência aos costumes. Aliás, o nome de versões do título da obra também remetem aos costume. Moria Encomium, Stulticiae Laus, ou simplesmente Elogio da loucura. Sabedoria, razão e estultícia seriam os antônimos. Antônio Olinto também apresenta Erasmo como o primeiro escritor profissional, já nos tempos da invenção da prensa. E como escritor ele tem os seus subterfúgios. O narrador é a própria loucura, em palestra num grande auditório. Que bela estratégia.

O ponto alto do livro, ao menos para mim, são as primeiras páginas, quando a loucura se apresenta. Apresenta seu pai, sua mãe e o seu nascimento, que ocorre na ilegitimidade (a seu próprio exemplo), como filha do prazer e do amor livre, num transporte de ternura amorosa. Plutão é o seu pai e Neotetes, a juventude, é a sua mãe. Uma loucura, não como foi a de Júpiter e Minerva e muito menos como o do Caos. Também apresenta as suas companhias e o seu império e faz para si um auto elogio. - se não tens quem te elogia, elogia-te a ti mesmo. E segue um longo Elogio da loucura, loucura, sem a qual, a vida não seria possível, uma vez que está presente em tudo e é responsável pelos melhores momentos da vida.

Mas vamos ainda à apresentação do livro, em sua contra capa: "Tendo perdido os pais muito jovem, Erasmo foi enviado ao convento de Stein, onde dedicou-se aos estudos de forma apaixonada. Aos vinte escreveu sua primeira obra - O Desprezo do Mundo - que alcançou enorme sucesso, celebrizando seu autor. Sua fama levou-o à França, Itália, Suíça e Inglaterra, onde conheceu e tornou-se amigo de Thomas Morus. Seu Elogio da loucura é uma sátira mordaz, na qual os potentados da época e sobretudo os homens da Igreja, que ele conhecia tão bem, são retratados com impiedade pela ironia incomparável deste grande escritor".

Como gostei demais de conhecer o pai, a mãe, o nascimento, a turma e a corte da Loucura, irei apresentá-los em um post especial. E uma questão: Por que Erasmo não foi um Lutero?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Como as democracias morrem. Steven Levitsky & Daniel Ziblatt.

Continuo com a minha temporada de leituras sobre os Estados Unidos. Depois do Antiintelectualismo nos Estados Unidos http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/antiintelectualismo-nos-estados-unidos.html foi a vez de Como morrem as democracias. O livro é de autoria dos cientistas políticos da Universidade de Harvard, Steven Levtisky e Daniel Ziblatt. O livro é de 2018 e que, com as trapalhadas do presidente Trump, rapidamente se transformou em best-seller. Na edição brasileira, um lançamento da Zahar, vem na capa uma frase que se constitui numa espécie de sub título: "Um livro perspicaz e muito bem fundamentado sobre como a democracia está sendo enfraquecida em dezenas de países - e de modo perfeitamente legal". A frase é de Fareed Zakaria, da CNN.
O livro dos cientistas políticos da universidade de Harvard.


O título e a frase em evidência nos dão o tema do livro. Observem o plural do título e a sua explicitação na frase, em "dezenas de países". O enfraquecimento, ou então, a morte das democracias, é hoje um fenômeno mundial. O mote principal do livro é, sem dúvida, a administração Trump nos Estados Unidos. Mas existem outros focos. As ditaduras que se instalaram mundo afora no período das crises decorrentes de 1929 e da ascensão dos regimes fascistas na Itália, na Alemanha, na Espanha, os regimes militares generalizados na América Latina, nos anos 1960 e 1970 e uma passagem pela situação atual, mundo afora.

O livro tem leitura fácil e fluente e nem é muito longo. Tem 270 páginas, divididas em nove capítulos, além de prefácio, introdução e referências bibliográficas. No prefácio, Jairo Nicolau (UFRJ) nos chama a atenção para dois fatores, a saber: a perda do controle dos partidos políticos pelos seus líderes e a entrada neles de outsiders e a perda da força do "institucionalismo", das regras escritas e não escritas sobre as quais a democracia se assenta. Na introdução é feita a pergunta básica que é também a razão principal do livro: A democracia norte americana está em perigo? Imprensa, instituições, questionamento de resultados eleitorais, rivais tratados como inimigos e o uso das instituições de inteligência, de justiça e de comissões de ética são o chamado laboratório para se estudar o atual momento autoritário.

Os nove capítulos do livro tem os seguintes títulos: I. Alianças fatídicas; II. Guardiões da América; III. A grande abdicação republicana; IV. Subvertendo a democracia; V. As grades de proteção da democracia; VI. As regras não escritas da política norte americana; VII. A desintegração; VIII. Trump contra as grades de proteção e IX. Salvando a democracia.

O primeiro capítulo mostra o surgimento dos autoritarismos europeus que se seguiram à primeira guerra mundial, como o surgimento do fascismo e do nazismo, frutos de alianças de acomodação de situações. Depois passa pela análise do novo ciclo autoritário que acomete o mundo nos dias de hoje. O principal foco passa a ser a América Latina.  No segundo capítulo, a partir da citação do título do livro de Philip Roth, Complô contra a América, são mostrados os heróis da democracia e os que mais se afastaram dela, dentro e fora da política. Os momentos mais difíceis foram os anos posteriores à crise de 1929 e o terrível ano de 1968 e as suas implicações. Ganham destaque também um loquaz padre católico, padre Coughin e o período do macarthismo nos anos 1950, na Guerra Fria.

O terceiro capítulo é notável. Trump é o seu personagem central. Nele é mostrado o processo eleitoral e a sempre disposição em violar a Constituição e as regras não escritas da tradição americana. Quatro tópicos ganham especial atenção: a rejeição das regras democráticas do jogo; a negação da legitimidade dos oponentes; a tolerância ou o encorajamento à violência e a propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive da mídia. Trump é apresentado como um outsider. No quarto capítulo é feito um tour nada agradável pelo mundo. Peru, Polônia, Hungria, Venezuela e Rússia são os principais países visitados.

Uma pergunta introduz ao quinto capítulo: As salvaguardas constitucionais são hoje suficientes para a manutenção da democracia? A resposta é categórica: Não. Os autores mostram que os dois pilares da democracia, a tolerância mútua e as reservas institucionais, nem sempre foram suficientes para o resguardo da democracia, como não o foram na Itália, na Alemanha, na Espanha e no Chile de Pinochet. O sexto capítulo, mais uma vez se volta para a política dos Estados Unidos. Uma bela análise do comportamento das instituições americanas, às vezes cães de guarda, outras, dóceis cachorrinhos de estimação. Mostra os poderes presidenciais e as possibilidades de obstrução do Senado. E, do ponto de vista histórico é notável a descrição da construção democrática sob as marcas da exclusão social, especialmente nos estados do sul. Apenas a partir da década de 1960 se construiu uma democracia sem exclusões sociais explícitas, embora, ainda muitas artimanhas sejam aplicadas, especialmente, com relação a inscrição de eleitores, ou melhor, a sua exclusão.

O sétimo capítulo se centra em Trump e no processo eleitoral que o colocou no poder. Os dois pilares da democracia, a tolerância mútua e as reservas institucionais simplesmente foram para a lata de lixo. Todas as instituições se radicalizaram, começando pelos partidos. Antigos adversários são agora tratados como inimigos e as campanhas ganham níveis de destruição. Temas da moral privada e das religiões passam a ser ativos agentes da política. Da mesma forma, a mídia conservadora atua com ferocidade, assim como também poderosas famílias, como a família Koch. Os partidos são radicalmente demarcados. No oitavo capítulo já encontramos Trump no poder. A sua agressividade não é pura retórica. Ações concretas, como a captura de árbitros, a retirada de adversários do jogo e o reescrever das regras, são práticas constantes. Pesadas acusações e calúnias se tornam rotina e da política se faz uma perigosa caixa de ferramentas. As grades de proteção da já fragilizada democracia estão sendo todas elas removidas.

No nono capítulo são traçadas as perspectivas de sobrevivência. Sombrias, sem dúvida. Saídas..., as famosas concertações são analisadas. O mundo superou o fascismo e o nazismo. As ditaduras mais cruéis, como as de Franco e Pinochet foram removidas. A primeira década dos anos 2000 trouxe alento ao mundo. Mas os últimos movimentos, especialmente, nos Estados Unidos, sob o comando de Trump, precisam servir de alerta para que as barbáries não voltem a se instalar e que as sociedades continuem a ser construídas sob os alicerces históricos da liberdade e da igualdade. Para tanto, são necessárias políticas públicas para a sua construção, o que parece muito difícil nos dias de hoje, dominado pelas políticas neoliberais do "livre mercado". Mas neste campo os autores não vão a fundo.

No livro encontramos muito pouco sobre a política externa americana e a "tutela das democracias" com a interferência política nos países produtores de petróleo. Também nada encontramos sobre as ameaças à democracia brasileira após 2013. Os Estados Unidos também serão o tema da minha próxima leitura. Mas uma leitura, agora bem mais contundente. Quem manda no mundo? de Noam Chomsky.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O javali, o cavalo e o caçador. Fábulas de Esopo.

Um antiintelectualismo cada vez maior está tomando conta do Brasil.  Pensamos por slogans e clichês e abandonamos a reflexão crítica. Os preconceitos estão norteando o pensar. O pensamento binário elimina a possibilidade do outro, do diferente. O imaginário e os horizontes estão sendo suprimidos pelo tempo, apenas no presente. O não ouvir o outro nos empobrece assustadoramente. A mente é enrijecida na defesa do indefensável. O ensino de filosofia e sociologia está novamente sendo banido das escola, assim como o fora na ditadura civil-militar de 1964. Uma nova era de obscurantismo está assolando o país.
Logo na abertura do primeiro capítulo encontramos a fábula sob forma de epígrafe.


O antiintelectualismo abre espaço para a volta ao tempo do pensamento mitológico. Idiotas consagrados e apologistas da tortura, que atentam contra direitos fundamentais são histericamente aclamados como mitos. Cria-se um clima de contágio avassalador em que mentes não bem constituídas passam a ser contaminadas. Kant e o Esclarecimento deixam de ser referência e astrólogos são elevados a condição de filósofos. A maioridade kantiana é abominada e a menoridade e a tutela são veneradas. Valdomiros, Malafaias, Macedos substituem Kant. Adorno nem pensar.

Como uma das características do antiintelctualismo é aversão ao pensamento filosófico, que se estabelece por comparações, interrelações, parábolas, por abertura para a alteridade, e assim para o múltiplo e o plural e para as fábulas, a minha intenção neste post é muito simples. Contar uma fábula para propiciar a volta de, ao menos, um pequeno exercício. Através da comparação, retirar uma lição de moral, atribuir à história uma simbolização, um significado.

A fábula é de Esopo (620 - 564 a. C.) e retirada do livro Como as democracias morrem, dos cientistas políticos e pesquisadores da Universidade de Harvard, Steven Levitski e Daniel Ziblatt. A fábula serve de epígrafe ao primeiro capítulo do livro. É sobre o javali, o cavalo e o caçador. Também pode ser encontrada em Esopo - Fábulas completas, da Cosacnaify, belamente ilustrado por Eduardo Berliner. Ficamos com a versão da epígrafe:

Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou mas disse: "Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo." O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: "Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas". "Não tão rápido, amigo", disse o caçador. "E o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim".
O livro da Cosacnaify com as fábulas completas.


Pelo fato de estarmos desacostumados ao pensar, recorro ao livro da Cosacnaify, que na página 278 oferece uma segura interpretação; "Assim, muitas pessoas, movidas por uma cólera irracional, caem elas mesmas submissas a outrem, por desejarem vingar-se dos inimigos". O capítulo trata de alianças políticas perigosas, como o foi a aliança celebrada entre o cavalo e o caçador. Eu ia falar de uma outra aliança..., da celebração de um pacto com a mediocridade, mas, deixamos isso para lá para ficar com o famoso pedido de Mirabeau: "Mon Dieu, donnez moi la mediocrité".


Um adendo retirado da página 65 de Elogio da Loucura, escrito em 1509 por Erasmo de Roterdam. Sem comentários: "Já o cavalo, por estar mais próximo dos sentimentos do homem, e sendo por este dominado, participa consideravelmente das calamidades humanas. Acontece, muitas vezes, que esse animal doméstico, em lugar de fugir da batalha, se atira ao perigo, e, na ambição da vitória, um golpe mortal estende-o por terra, obrigando-o a comer poeira junto com o cavaleiro.  Já não falo das cruéis mordeduras, das esporadas agudas, da prisão que é a estrebaria, das rédeas, do pesado cavaleiro, em suma, a exemplo do homem, se sujeitou espontaneamente, na ânsia excessiva de se vingar do veado, seu inimigo".
Um adendo desse pequenino livro que modelou o mundo moderno. Um hino à liberdade e à autonomia.

Um adendo - 02.08.2020. Discurso sobre a servidão voluntária - de Étienne de la Boétie. Sem comentários: Digamos, então que ao homem todas as coisas parecem naturais, que delas ele se nutre e a elas se acostuma; mas o que é realmente nativo é só aquilo que a natureza simples e inalterada o impele a fazer: assim, o primeiro motivo por trás da servidão voluntária é o costume. Os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo; que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos seu arreio, pavoneando-se sob sua barda. Dizem que sempre foram subjugados, que seus pais viviam assim; pensam que estão fadados a tolerar o mal e convencem-se disso citando exemplos; justificam eles próprios a posse daqueles que os tiranizam ao dizer que estes vêm fazendo isso há muito tempo, quando, na verdade, os anos jamais dão a alguém o direito de fazer o mal, apenas intensificam a injúria. Dentre esses homens sempre há alguns - mais virtuosos que os outros - que jamais sentem o gosto pela sujeição e que, como Ulisses, que buscava sempre enxergar, do mar e da terra firme, a fumaça da sua cabana, não conseguem evitar a busca por seus privilégios naturais e a lembrança de seus predecessores e sua essência ancestral. Página 54-55.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A personalidade autoritária em tempos de neoliberalismo. Rubens Casara.

Há tempos que venho lidando com o tema da personalidade autoritária, levado pelos estudos de Adorno e de Hannah Arendt (banalidade do mal). Já usei o termo em várias oportunidades e guardo comigo vários apontamentos. Mas neste último livro do Rubens Casara, Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/01/sociedade-sem-lei-pos-democracia.html, encontrei uma preciosa síntese, daquilo que Adorno e seus pesquisadores explanaram após as suas pesquisas nos Estados Unidos, em 1950. Eles procuraram verificar a presença de tendências fascistas naquele país, berço da "nunca abalada democracia". Os resultados foram terríveis. Constataram a forte presença de indícios que facilmente levariam o povo a aceitar as restrições à democracia. As chagas ou o "cio do fascismo" estavam abertas e vivas. Hoje, ao que tudo indica, estão sendo explicitamente cultivadas.
O maravilhoso e necessário livro de Rubens Casara.

Casara assim apresenta estas estas características: "Em, Estudos sobre a personalidade autoritária, Adorno identifica uma série de características que revelam uma disposição geral ao uso da força em detrimento do conhecimento e à violação dos valores historicamente relacionados à democracia". Casara alinhou estas características em 14 tópicos. Dou o tópico e um leve toque ilustrativo, remetendo à leitura do livro, se houver, como creio, um maior interesse.

1. Convencionalismo: uma subjetividade autoritária tende a fazer juízos de acordo com o senso comum produzido pela mídia e a aceitar certos fatos  como naturais. Linchamentos, por exemplo.

2. Submissão autoritária: adota uma submissão acrítica à autoridade, a quem incondicionalmente aplaude, mesmo perdendo direitos essenciais, inclusive, a sua própria liberdade.

3. Agressão autoritária: intolerância e agressão aos que transgridem seus valores convencionais. É submisso (masoquista) aos superiores e agressivo (sádico) com os que considera inferiores.

4. Anti-intracepção: se opõe ao subjetivo, ao sensível e ao imaginário. Não busca interpretações, por temor em não controlar os seus sentimentos, uma vez tocados pelo sensível, pelo humano.

5. Simplificação da realidade e pensamento esteriotipado: recorrem a explicações simplistas e rígidas da realidade, não a submetendo à análise da sua complexidade.  Abrem-se espaços aos preconceitos.

6.  Poder e "dureza": Buscam na dureza e na força a explicação para os fenômenos e não no intelecto e no conhecimento. São hostis ao intelecto. Veem o mundo por categorias antagônicas. Não ao outro.

7. Destrutividade e cinismo: hostilidade à ideia da dignidade humana. Exerce agressão racionalizada ao humano. Esta agressividade aumenta à medida que sente o apoio do grupo do qual participa.

8. Projetividade: Crê-se rodeado de ameaças e perigos. Atribui a culpa de suas pulsões ao outro, de quem busca se livrar. Age por fortes impulsos emocionais e inconscientes.

9. Preocupação com a sexualidade: Ele teme pelo seu fracasso, refugiando-se em atitudes viris, procurando compensar a impotência e o medo. Preocupa-se com a sexualidade alheia.

10. Criação de um inimigo imaginário: Fantasia riscos e inimigos. Busca para o outro a negação de direitos fundamentais como condição para a eliminação do inimigo e das ameaças.

11. O fiscal como juiz e a promiscuidade entre o acusador e o julgador: Um fenômeno da inquisição e da epistemologia processual autoritária. Exercer conjuntamente o papel de acusador e julgador.

12. Ignorância e confusão: a personalidade autoritária se desenvolve no vazio do pensar reflexivo. Se afirma no antiintelectualismo, movido pelo senso prático, sempre em favor de forte reacionarismo.

13. Pensamento etiquetador: Este é conexo ao pensamento esteriotipado. "Petralha", "coxinha", "pessoas de bem", são exemplos de pensamento etiquetado. São simplificações da realidade.

14. Pseudodemocracia: recorre-se a critérios falsos para justificar posições, como ser racista se a maioria o é. Busca-se a violação de direitos fundamentais forjadas pela desinformação.

Casara assim conclui o seu texto: "Importante ter em mente que as características e sintomas descritos por Adorno, em regra, apresentam nexos entre si, mas se referem apenas a uma tendência. As conclusões sobre a aderência, ou não, de cada pessoa às características da personalidade tendencialmente fascista nos servem para refletir sobre a formação da subjetividade de nossa época e a responsabilidade dos atores sociais na defesa da democracia".

Deixo ainda, de Adorno, as frases de abertura para o seu texto famoso, Educação após Auschwitz, contido no livro Educação e emancipação (Paz e Terra, 2012): "A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. Não consigo entender como até hoje mereceu tão pouca atenção. Justificá-la teria algo de monstruoso em vista de toda monstruosidade ocorrida. Mas a pouca consciência existente em relação a essa exigência e as questões que ela levanta provam que a monstruosidade não calou fundo nas pessoas, sintoma da persistência da possibilidade de que se repita no que depender do estado de consciência e de inconsciência das pessoas".

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Sociedade sem lei. Pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie.

Depois do maravilhoso livro Estado pós-democrático - neo-obscurantiso e gestão dos indesejáveis http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/01/o-estado-pos-democratico-neo.html - Rubens Casara nos brinda agora com um novo livro, Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, uma continuidade de suas reflexões sobre o momento atual de recrudescimento da lógica totalizadora do neoliberalismo.
O novo e necessário livro de Rubens Casara.

O livro de 176 páginas está dividido em 13 capítulos, que diante da dificuldade de resenhá-los num pequeno espaço, apresento apenas os títulos, na certeza de mover a suficiente curiosidade para a leitura. Depois focarei mais a questão no subtítulo do livro. Vamos aos capítulos: 1. O retorno da barbárie; 2. A dessimbolização do mundo; 3. O pai é(ra) o limite; 4. Os detentores do poder econômico: as elites também brigam; 5. Sociedade pós-democrática: economia, religião, família, escola e idiotização; 6. Empobrecimento subjetivo; 7. Educação contra Auschwitz; 8. A personalidade autoritária em tempos de neoliberalismo; 9. Fascismo pós democracia; 10. Ainda o fascismo (com Márcia Tiburi); 11. Levar a segurança da sociedade (e a democracia) a sério; 12. A nova obscuridade; 13. Há esperança.

Atento à catalogação bibliográfica do livro, encontramos as seguintes palavras: 1. Brasil - Política e governo. 2. Brasil - Política econômica. 3. Neoliberalismo. 4. Direitos fundamentais - Brasil. Explicitando, creio que poderíamos fazer a seguinte assertiva: No mundo de hoje predominam as políticas neoliberais, que representam uma radicalização do chamado livre mercado. Este não mais aceita qualquer limitação política aos seus intentos. Na prática isso significa uma aliança do poder político com o poder econômico, para a supressão dos direitos fundamentais, em torno dos quais a sociedade pós segunda guerra mundial se organizou. No horizonte pairava o fantasma de Auschwitz. Mas na medida em que o mundo dele se afastou, as suas causas voltaram com força total, mesmo porque nunca haviam sido extintas.

Esta força dos mercados é abordada num conjunto de capítulos que envolvem a pós democracia. Podemos afirmar que um dos conceitos mais caros à democracia, ou ao Estado Democrático de Direito, são as limitações que o poder político impunha ao poder econômico, com a afirmação dos direitos fundamentais do ser humano, consagrados pela social democracia, emergente das crises do sistema capitalista e dos destroços da segunda guerra mundial. Como o capitalismo é um sistema de acumulação, ele rompe com a lógica da distribuição, com a chamada doutrina neoliberal. Por ela, o egoísmo e a  competição são elevadas ao altar das virtudes, enquanto, a solidariedade e o humanismo são menosprezadas, senão satanizadas.

Ao mundo da ideologia neoliberal se somam as forças do conservadorismo moral e se cria um ambiente de antiintelectualismo muito próximo do que foi a Idade Média e de seus instrumentos inquisitoriais de contenção do avanço do intelecto e da liberdade. A idiotização se concretizará pela aversão e repressão ao esclarecimento (Olavo de Carvalho, e não Kant, será a referência. Escola sem Partido). Acriticamente, pelo senso comum, se criam clichês e chavões e um sem número de palavras de ordem.

Como sob o Estado Democrático de Direito não se retiram direitos, e muito menos os direitos fundamentais ligados à educação, saúde  trabalho e  previdência dos trabalhadores, sem escrúpulos, o poder econômico instaura uma Sociedade sem lei, uma pós-democracia, ou, sem rodeios, o fascismo. Para fundamentar esta visão, Casara recorre aos estudos de Adorno, oferecendo 14 tópicos que caracterizam a personalidade autoritária que está entranhada na sociedade capitalista. Apresentaremos estes tópicos em um próximo post. A caracterização deste novo fascismo dos tempos neoliberais merece especial atenção no livro, inclusive um capítulo especial, escrito com a colaboração de Márcia Tiburi. O livro é complementado com uma bem atualizada bibliografia.

O capítulo de número 13 é um convite à restauração da esperança no humano, nos valores da solidariedade, das lutas coletivas, da práxis como instrumento de análise, para não se perder no horizonte das utopias a dimensão do humano com a garantia de direitos fundamentais que asseguram o viver com dignidade. Um convite à utopia, à esperança e ao transcender.

Destaco ainda duas passagens que anotei ao longo da leitura: a primeira é da apresentação do livro, na sua orelha: "A crise da democracia não é um fenômeno brasileiro. A tendência de fazer do Estado um mero instrumento para a satisfação dos interesses dos detentores do poder enfrentou resistências intelectuais e políticas, mas acabou por assumir ares hegemônicos. Hoje, pode-se afirmar que o mercado se tornou o principal modelo para as relações sociais em todo o mundo. Surgiu, então uma nova ordem social, percebida como natural, em que tudo e todos se tornaram mercadorias. Uma ordem em que não existem limites ao exercício do poder econômico. Uma sociedade em que o egoísmo se tornou virtude".

A segunda, bem reflete o triste momento político em que estamos submersos e praticamente impossibilitados de emergir: "Como percebeu Daniel Bensaïd, 'quando a política está em baixa, os deuses estão em alta. Quando o profano recua, o sagrado tem a sua revanche. Quando a história se arrasta, a Eternidade levanta voo. Quando não se querem mais povos e classes, restam tribos, etnias, massas e maltas anômicas'. Em outras palavras, afastado da política, sem informação e condicionado por mantras religiosos, o povo transforma-se em rebanho". Enfim, uma leitura necessária.




terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O ódio como política. IV. O discurso econômico da austeridade e os interesses velados.

Um dos mais bonitos artigos contidos no livro O ódio como política, é o dos professores Pedro Rossi e Esther Dweck, sob o título - o discurso econômico da austeridade e os interesses velados.  Os autores conseguiram expressar, com clareza e simplicidade, uma das questões mais importantes do atual momento vivido pelo mundo e, em especial, pelo Brasil, que através da PEC-95, a PEC que fixa o teto dos gastos públicos por 20 anos, aplica uma política de austeridade extremamente nociva para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Um tema, portanto de importância ímpar.
O belo livro da Boitempo.


Os autores contextualizam a questão, ligando-a às crises de 2008 e as políticas de austeridade aplicadas, especialmente, aos países de economias mais periféricas da Europa. Os países que mais as aplicaram foram os que menos cresceram. As políticas de austeridade justificam os cortes nos gastos sociais e geram a possibilidades de reformas estruturais. Krugman é a grande referência. É um instrumento da luta de classes.

A palavra austeridade não é uma palavra originária da economia. Ela deriva da moral, daí a sua forte carga comportamental e punitiva para os que não as aplicam.Segundo os autores, isso ocorre "para exaltar o comportamento associado ao rigor, à disciplina, aos sacrifícios, à parcimônia, à prudência e à sobriedade, além de reprimir comportamentos dispendiosos, insaciáveis, pródigos, perdulários". Obedecem, portanto, a lógica do bem e do mal, da danação e da salvação.

Na segunda parte do texto encontramos a afirmação de que este discurso é baseado em mitos, que eles procuram desmistificar. O primeiro deles é o da metáfora do orçamento familiar. Não se pode gastar mais do que se ganha. A desmistificação passa por três premissas: O Estado define a sua arrecadação, que parte dos gastos retorna ao Estado sob forma de impostos e que o Estado tem a capacidade de se endividar pela emissão de títulos e de definir a sua política de juros. "A administração do orçamento do governo", afirmam "não somente não deve seguir a lógica do orçamento doméstico como deve seguir uma lógica oposta. Quando famílias e empresas começam a contrair gastos, o governo deve ampliar gastos seus, de forma a contrapor o efeito contracionista do setor privado".

O segundo mito é o da fada da confiança. As políticas de austeridade geram a confiança dos agentes privados. Estes investem nos países que demonstram a "virtude" da austeridade. A realidade, porém, demonstra o contrário, como já foi visto. Os agentes privados investem quando há a demanda da economia. "Neste ponto", constatam "a contração do gasto público em momentos de crise não aumenta a demanda; ao contrário, essa contração reduz a demanda no sistema. Em uma grave crise econômica, quando todos os elementos da demanda privada (o consumo das famílias, o investimento e a demanda externa) estão desacelerando, se o governo contrair a demanda pública, a crise se agrava".

O exame da questão parte então para a análise dos objetivos ou da finalidade da aplicação destas políticas. A conclusão é clara. É uma política de classe que beneficia o capitalista. Vejamos: "Ao gerar recessão e desemprego, reduzem-se as pressões salariais e aumenta-se a lucratividade". [...] "O corte de gastos e a redução das obrigações sociais abrem espaço para futuros corte de impostos das empresas e das elites econômica, e a redução da quantidade e da qualidade dos serviços públicos aumenta a demanda de parte da população por serviços privados em setores como educação e saúde, o que aumenta os espaços de acumulação do lucro privado". Facilmente podemos enquadrar neste raciocínio também a reforma da previdência.

Por fim, os autores incluem as políticas de austeridade entre os três pilares básicos do neoliberalismo, junto com a liberalização dos mercados e as privatizações, concluindo que: "A racionalidade dessa política é, portanto, a defesa de interesses específicos e, de quebra, um veículo para corroer a democracia e fortalecer o poder corporativo do sistema político".

Mais claro é impossível. É a realidade que vemos com toda a clareza mas que ofusca a lucidez dos que não estão acostumados a olhar. A lucidez incomoda. O pensar é dolorido. Estamos todos na caverna...


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Antiintelectualismo nos Estados Unidos. Richard Hofstadter.

O meu contato com este livro, Antiintelectualismo nos Estados Unidos, de Richard Hofstadter, se deu através de um comentário num post que publiquei sobre o livro de Phillip Roth, Casei com um comunista, com destaque para o período do macarthismo e o terrorismo cultural e político por ele provocado. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/09/casei-com-um-comunista-philip-roth.html O comentário me sugeria a leitura deste livro. Não foi difícil localizá-lo. A Estante Virtual facilita muito a vida da gente.
Um livro denso, uma espécie de história cultural dos Estados Unidos.

Mais difícil foi a sua leitura, especialmente, em função do período em que o li, no contorno das festas de final de ano. Foram várias interrupções. É um livro denso, com altos e baixos, de acordo com os meus interesses particulares em determinados focos, como o já enunciado período do macarthismo e a questão do intelectualismo num país de puritanos e homens dominantemente ligados aos negócios.

A primeira edição do livro aparece, nos Estados Unidos, em 1962 e no Brasil, em 1967. O seu ponto de partida foi uma palestra na Universidade de Michigan no ano de 1953 e a publicação de um artigo na revista da mesma Universidade. Seguiram-se outras palestras e o autor focou neste tema as suas pesquisas. Depois, uma bolsa e uma licença da universidade lhe possibilitaram a escrita do livro. Um livro extremamente denso de uma narrativa histórica dos Estados Unidos, mostrando essencialmente a relação dos intelectuais com a nova sociedade em formação. Destaco, a nova sociedade em formação, interessada no futuro, sem amarras do passado. Este passado europeu deveria ser esquecido. Uma primeira consequência desta leitura foi o propósito da releitura do livro de Alexis de Tocqueville, Da democracia na América, de 1835.

Antes de qualquer comentário mais organizado, quero expressar o que mais me tocou ao longo desta leitura. É sabido que os colonos ingleses vieram aos Estados Unidos por questões religiosas e, em vez de acompanhados por padres, os pastores foram os seus orientadores. Havia dois tipos de pastores, os com formação e os sem formação, sendo estes muito mais agressivos em suas pregações e no proselitismo na busca de seguidores. Um segundo aspecto é o de que estes colonos eram homens eminentemente práticos, que dedicavam as suas vidas ao mundo dos negócios. Pouco tempo lhes sobrava para atividades artísticas e culturais, para o trato e o polimento da sensibilidade. Antiintelectuais, portanto. Também um foco especial em John Dewey mereceu minha especial atenção.

Mas vamos ao livro de uma forma mais ordenada. As suas 545 páginas estão dividas em seis partes, divididas em 15 capítulos, a saber: Parte I. Introdução: 1. Antiintelectualismo em nossa época; 2. Da impopularidade do intelecto. Parte II. A religião do coração: 3. O espírito evangélico; 4. O evangelho e os revivalistas; 5. A revolta contra o novo e um adendo sobre o catolicismo americano. Parte III. A política democrática: 6. O declínio do gentleman; 7. A sina do reformador; 8. A ascensão do técnico; Parte IV. A cultura prática: 9. O intelecto e o mundo dos negócios; 10. Auto-suficiência e tecnologia espiritual; 11. Variações sobre um tema. Parte V. A educação numa democracia: 12. A escola e o professor; 13. O caminho do ajustamento; 14. A criança e o mundo. Parte VI. Conclusão: 15. O intelectual: Alienação e conformismo.

Na primeira parte, no capítulo primeiro, é feita uma análise do tempo presente, isto é, a década de 1950, a década do macarthismo. O medo da inteligência despertou fortes reações por parte do poder. Busca-se também uma definição de intelectual. No segundo capítulo é mostrada toda a aversão ao intelectual, um ser inútil, improdutivo e dispendioso. No aprofundamento da questão o autor passa pela questão dos intelectuais na Europa (caso Dreyfus), por sua ação no Guerra da Secessão e no New Deal. Estabelece também um confronto com o modo americano de viver e termina com o tema do protestantismo e o seu antiintelectualismo.

Na segunda parte, a religião do coração, temos no primeiro capítulo, a abordagem de temas como o espírito evangélico, as heranças do protestantismo, o clero puritano, as universidades, um revivalismo religioso, as principais denominações, os entreveros entre os pastores formados e os não formados, as denominações dos congregacionais e presbiterianos no sul, em um ambiente de selvageria e total ignorância. No quarto capítulo a abordagem passa pelas principais ordens confessionais, sendo os anglicanos, presbiterianos e os congregacionais as maiores e metodistas e batistas, os que mais cresciam. Passa ainda pela análise das diferentes confissões e o seu conservadorismo na formação dos pastores. A eles era dada uma formação eminentemente antiintelectual, sendo os batistas os maiores inimigos do intelecto. Passa ainda por uma análise da Guerra Civil e pela oratória dos sermões. No quinto capítulo, seguramente um dos mais interessantes, são abordados temas como a reação ao darwinismo, a autodefesa das crenças e as violentas reações como o surgimento da Ku Klux Khan. Na década de 1920 ocorre a aproximação entre o fundamentalismo religioso e o político. A nota sobre o catolicismo mostra que, na divisão das crenças, os católicos constituem o maior grupo (1/4 da população), a origem humilde dos padres recrutados entre as famílias de imigrantes irlandeses. Constituem o grupo de menor prestígio intelectual. Apoiaram fortemente o macarthismo, elegendo o comunismo como o inimigo maior a ser combatido.

Na terceira parte, no sexto capítulo é mostrada a formação política dos fundadores da pátria e a sua relação com o mundo do intelecto. Todos eles eram essencialmente homens práticos, proprietários e pouco dados às questões do intelecto. Tocqueville também é merecedor de algumas páginas. No sexto capítulo, as reformas políticas ganham as sua observações. São instituídos concursos públicos, o que também gera reações. No terceiro tópico deste capítulo, uma das passagens mais notáveis do livro, é mostrada toda a hostilidade ao mundo do intelecto. Os intelectuais são vistos como efeminados, sem sexo definido e tidos como homens destituídos de força, de virilidade, da energia necessária para enfrentar as lides diárias das pesadas atividades no campo e no comércio. E o pior, para formá-los, impostos cada vez mais elevados passavam a ser cobrados. Os homens cultos da Europa eram considerados como "euronucos". No oitavo capítulo é mostrado o paradoxo entre o saber teórico e o prático. Havia total desprezo ao saber teórico. A pergunta - se a terra era arada com livros ou com arados, representa uma bela síntese desses dilemas. As crises, como o New Deal, provocaram a necessidade cada vez maior de técnicos para a administração pública, especialmente. Muitas análises sobre este período são feitas.

Se a terceira parte foi interessante, existe um crescimento, ainda maior, na quarta. No nono capítulo é mostrada a relação entre o intelecto e o mundo dos negócios. E o país se definia como uma nação de negócios. Havia um desprezo pelo mundo da cultura e para tudo o que se voltava ao passado, ao que fazia lembrar a velha Europa. Poucos comerciantes e, mais tarde os industriais, foram homens que se destacaram na cultura. No décimo capítulo é mostrado o interesse dos homens de negócio no favorecimento da religião, para inibir os desejos provocados pelo intelecto, propensos à rebeldia. Surge nesta época a chamada literatura de persuasão e o uso de Deus para ajudar nos negócios terrenos. Pouco sobra de doutrina religiosa, sobrando, no entanto, em profusão o conformismo e a auto ajuda. O capítulo onze é voltado para a análise de muitos dos intelectuais americanos. Muito interessante.

A quinta  parte é toda ela voltada para a análise do sistema educacional. Ela é de fazer chorar. O desprezo pela educação é total. É o que será visto no capítulo 12. Aprendi, inclusive uma nova expressão: "jeremíadas", os lamentos do profeta. Toda a análise do sistema educacional é uma longa jeremíada, um muro de lamentações e frustrações. Creio que foi neste campo onde o antiintelectualismo mais fortemente se manifestou. Os professores são recrutados entre as famílias mais pobres e com poucas perspectivas de futuro. Em muitos casos são recrutadas pessoas com deficiências, inabilitadas para outros trabalhos. Também foi a porta aberta para as mulheres adentrarem ao mundo do trabalho. A remuneração é diretamente proporcional a esta lógica. Nas escolas serão encontrados professores incompetentes e desajustados. O capítulo 13 é dedicado à evolução do sistema, com a instituição dos sistemas nacionais de educação. O capítulo 14 é praticamente todo ele dedicado a John Dewey.

A sexta parte não é exatamente dedicada a uma conclusão como sugere o título, mas a uma explanação sobre o comportamento dos intelectuais, especialmente, ao longo do século XX. A sua passagem por Paris, na década de 1920, a sua volta e o acolhimento dos intelectuais europeus, com a ascensão do fascismo na Europa, a partir dos anos 1930. Chega até a cultura beatnik e os hipsters.


Bem. Não sei se com esta leitura conheci melhor os Estados Unidos ou o Brasil. Certamente que nós fomos mais influenciados pela cultura europeia, enquanto que eles a procuraram desprezar. Mas agora, neste Brasil de 2019, nos estamos voltando totalmente para o conservadorismo e o antiintelctualismo dos Estados Unidos. Deixo uma frase, destes primeiros dias de janeiro, do jornalista Philipp Lichtenbeck, da Deutsche Welle, que bem caracteriza este nosso triste momento: "No Brasil está em moda um antiintelctualismo que lembra a inquisição, seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento", escreve o colunista.