quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Sociedade sem lei. Pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie.

Depois do maravilhoso livro Estado pós-democrático - neo-obscurantiso e gestão dos indesejáveis http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/01/o-estado-pos-democratico-neo.html - Rubens Casara nos brinda agora com um novo livro, Sociedade sem lei - pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, uma continuidade de suas reflexões sobre o momento atual de recrudescimento da lógica totalizadora do neoliberalismo.
O novo e necessário livro de Rubens Casara.

O livro de 176 páginas está dividido em 13 capítulos, que diante da dificuldade de resenhá-los num pequeno espaço, apresento apenas os títulos, na certeza de mover a suficiente curiosidade para a leitura. Depois focarei mais a questão no subtítulo do livro. Vamos aos capítulos: 1. O retorno da barbárie; 2. A dessimbolização do mundo; 3. O pai é(ra) o limite; 4. Os detentores do poder econômico: as elites também brigam; 5. Sociedade pós-democrática: economia, religião, família, escola e idiotização; 6. Empobrecimento subjetivo; 7. Educação contra Auschwitz; 8. A personalidade autoritária em tempos de neoliberalismo; 9. Fascismo pós democracia; 10. Ainda o fascismo (com Márcia Tiburi); 11. Levar a segurança da sociedade (e a democracia) a sério; 12. A nova obscuridade; 13. Há esperança.

Atento à catalogação bibliográfica do livro, encontramos as seguintes palavras: 1. Brasil - Política e governo. 2. Brasil - Política econômica. 3. Neoliberalismo. 4. Direitos fundamentais - Brasil. Explicitando, creio que poderíamos fazer a seguinte assertiva: No mundo de hoje predominam as políticas neoliberais, que representam uma radicalização do chamado livre mercado. Este não mais aceita qualquer limitação política aos seus intentos. Na prática isso significa uma aliança do poder político com o poder econômico, para a supressão dos direitos fundamentais, em torno dos quais a sociedade pós segunda guerra mundial se organizou. No horizonte pairava o fantasma de Auschwitz. Mas na medida em que o mundo dele se afastou, as suas causas voltaram com força total, mesmo porque nunca haviam sido extintas.

Esta força dos mercados é abordada num conjunto de capítulos que envolvem a pós democracia. Podemos afirmar que um dos conceitos mais caros à democracia, ou ao Estado Democrático de Direito, são as limitações que o poder político impunha ao poder econômico, com a afirmação dos direitos fundamentais do ser humano, consagrados pela social democracia, emergente das crises do sistema capitalista e dos destroços da segunda guerra mundial. Como o capitalismo é um sistema de acumulação, ele rompe com a lógica da distribuição, com a chamada doutrina neoliberal. Por ela, o egoísmo e a  competição são elevadas ao altar das virtudes, enquanto, a solidariedade e o humanismo são menosprezadas, senão satanizadas.

Ao mundo da ideologia neoliberal se somam as forças do conservadorismo moral e se cria um ambiente de antiintelectualismo muito próximo do que foi a Idade Média e de seus instrumentos inquisitoriais de contenção do avanço do intelecto e da liberdade. A idiotização se concretizará pela aversão e repressão ao esclarecimento (Olavo de Carvalho, e não Kant, será a referência. Escola sem Partido). Acriticamente, pelo senso comum, se criam clichês e chavões e um sem número de palavras de ordem.

Como sob o Estado Democrático de Direito não se retiram direitos, e muito menos os direitos fundamentais ligados à educação, saúde  trabalho e  previdência dos trabalhadores, sem escrúpulos, o poder econômico instaura uma Sociedade sem lei, uma pós-democracia, ou, sem rodeios, o fascismo. Para fundamentar esta visão, Casara recorre aos estudos de Adorno, oferecendo 14 tópicos que caracterizam a personalidade autoritária que está entranhada na sociedade capitalista. Apresentaremos estes tópicos em um próximo post. A caracterização deste novo fascismo dos tempos neoliberais merece especial atenção no livro, inclusive um capítulo especial, escrito com a colaboração de Márcia Tiburi. O livro é complementado com uma bem atualizada bibliografia.

O capítulo de número 13 é um convite à restauração da esperança no humano, nos valores da solidariedade, das lutas coletivas, da práxis como instrumento de análise, para não se perder no horizonte das utopias a dimensão do humano com a garantia de direitos fundamentais que asseguram o viver com dignidade. Um convite à utopia, à esperança e ao transcender.

Destaco ainda duas passagens que anotei ao longo da leitura: a primeira é da apresentação do livro, na sua orelha: "A crise da democracia não é um fenômeno brasileiro. A tendência de fazer do Estado um mero instrumento para a satisfação dos interesses dos detentores do poder enfrentou resistências intelectuais e políticas, mas acabou por assumir ares hegemônicos. Hoje, pode-se afirmar que o mercado se tornou o principal modelo para as relações sociais em todo o mundo. Surgiu, então uma nova ordem social, percebida como natural, em que tudo e todos se tornaram mercadorias. Uma ordem em que não existem limites ao exercício do poder econômico. Uma sociedade em que o egoísmo se tornou virtude".

A segunda, bem reflete o triste momento político em que estamos submersos e praticamente impossibilitados de emergir: "Como percebeu Daniel Bensaïd, 'quando a política está em baixa, os deuses estão em alta. Quando o profano recua, o sagrado tem a sua revanche. Quando a história se arrasta, a Eternidade levanta voo. Quando não se querem mais povos e classes, restam tribos, etnias, massas e maltas anômicas'. Em outras palavras, afastado da política, sem informação e condicionado por mantras religiosos, o povo transforma-se em rebanho". Enfim, uma leitura necessária.




2 comentários:

  1. Livro realmente incrível, leitura extremamente necessária.

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  2. Bilga, agradeço a sua intervenção, reiterando a importância do livro. Toda a formação começa pela informação. Muito obrigado.

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