quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Governador e deputados contra os servidores e a economia do Paraná.

Tristeza geral do funcionalismo público. Desvotar. Foi o que aconteceu ontem na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná. Desvotaram o que já tinham votado. Anularam uma lei que eles mesmos tinham aprovado. O que fazer com gente que não honra a palavra empenhada e a lei que eles próprios criaram? Com que adjetivos você agraciaria estas pessoas? Da minha parte, os piores.

Fica como registro para a próxima eleição. Lembrando que antes houve festa com lauto banquete, oferecido pelo governador, em comemoração ao empobrecimento do funcionalismo e de toda a economia paranaense, uma vez que o dinheiro da recomposição salarial, deixará de chegar ao setor produtivo, do comércio e da prestação de serviços. Empregos deixam de ser criados e aposentados são mortos por desgosto com a falta de princípios de seus governantes. É assim que pretendem reativar a economia e sair da crise.

Votaram Pelo pagamento da data-base, a favor do funcionalismo:18

Ademir Bier (PMDB)
Anibelli Neto (PMDB)
Chico Brasileiro (PSD)
Evandro Araújo (PSC)
Gilberto Ribeiro (PRB)
Gilson de Souza (PSC)
Marcio Pacheco (PPL)
Nelson Luersen (PDT)
Nereu Moura (PMDB)
Ney Leprevost (PSD)
Palozi (PSC)
Pastor Edson Praczyk (PRB)
Péricles de Mello (PT)
Professor Lemos (PT)
Rasca Rodrigues (PV)
Requião Filho (PMDB)
Tadeu Veneri (PT)
Tercílio Turini (PPS)

Ausente

Missionário Ricardo Arruda (DEM)

Votaram pela suspensão do reajuste e contra o funcionalismo. 34

Adelino Ribeiro (PSL)
Alexandre Curi (PSB)
Alexandre Guimarães (PSD)
André Bueno (PSDB)
Bernardo Ribas Carli (PSDB)
Cantora Mara Lima (PSDB)
Claudia Pereira (PSC)
Cobra Repórter (PSD)
Cristina Silvestri (PPS)
Dr. Batista (PMN)
Elio Rusch (DEM)
Evandro Jr. (PSDB)
Felipe Francischini (SD)
Fernando Scanavaca (PDT)
Francisco Bührer (PSDB)
Guto Silva (PSD)
Hussein Bakri (PSD)
Jonas Guimarães (PSB)
Luiz Carlos Martins (PSD)
Luiz Claudio Romanelli (PSB)
Marcio Nunes (PSD)
Marcio Pauliki (PDT)
Maria Victoria (PP)
Mauro Moraes (PSDB)
Nelson Justus (DEM)
Paranhos (PSC)
Paulo Litro (PSDB)
Pedro Lupion (DEM)
Plauto Miró (DEM)
Schiavinato (PP)
Stephanes Jr. (PSB)
Tiago Amaral (PSB)
Tião Medeiros (PTB)
Wilmar Reichembach (PSC)
*Por ser presidente, Ademar Traiano (PSDB) só vota em caso de empate.
Fonte: Redação. Infografia: Gazeta do Povo.

Fica aí o registro.

Um escravo chamado Cervantes. Fernando Arrabal.

Em 2012 eu li a biografia de Cervantes escrita por alguém também famoso. Trata-se do dramaturgo, escritor e cineasta espanhol, Fernando Arrabal. A biografia tem como título Um escravo chamado Cervantes e por subtítulo - Um retrato do criador de Dom Quixote. Agora, após a leitura do Dom Quixote, a retomei. É uma obra extremamente agradável de ser lida. Foi escrita por um apaixonado pelo biografado e com muitas doses de um refinado humor. Com certeza, o apreciei mais desta vez.
Uma biografia escrita por um apaixonado por Cervantes.


Cervantes (1547 - 1616) viveu em meio a atribulações e agitações e, porque não dizer, também em meio a muitas loucuras. Lucidez também. Cervantes nunca conheceu monotonia. Pertenceu a uma família de judeus, fato que tinha que ser escondido, e economicamente estavam bem, até chegar a seu pai, um decadente, titubeante e meio surdo cirurgião barbeiro. Nasceu e foi batizado em Alcalá, mas andou pelas principais cidades espanholas, até que, aos 21 anos fugiu de uma condenação que lhe fora aplicada pelo rei.

O grande mote da biografia de Arrabal é exatamente este, o motivo da condenação de Cervantes, narrada já quase ao final do livro. Ele tinha cometido o "pecado nefando", o que lhe deveria render uma mão decepada, exatamente a mão direita de escritor, como condenação. Para se livrar da pena, foge primeiramente para Sevilha e depois, de Sevilha para Roma, onde se inscreve nas forças papais, que junto com a Espanha e Veneza se preparam para enfrentar os turcos na batalha de Lepanto (1571).
A partir da criação destes personagens, uma das mais famosas duplas da literatura universal.

A biografia escrita por Arrabal tem muitos méritos. Como biografia, é óbvio, que ela está centrada em Cervantes, mas a contextualização da Espanha da época do grande escritor, para mim foi o seu ponto máximo. O que era viver na Espanha nos séculos XVI e XVII!? Vamos apenas recordar que em 1492 a Espanha dá cabo a expulsão dos árabes em Granada, o seu último reduto e, no mesmo ano, Colombo realiza o feito da descoberta da América. Sevilha é, na época, uma espécie de capital do mundo. Lembrando ainda que os árabes permaneceram na península ibérica ao longo de mais de setecentos anos. É evidente que, ao longo destes anos, houve uma grande miscigenação e sincretismo.

No tempo em que Cervantes esteve em Roma, lá se dizia que na Espanha não havia cristãos, apenas cristãos adaptados "Giudei, marrani, hispani". Os problemas étnicos eram antigos. No ano de 1547 é editado o estatuto de limpeza étnica, mas este ato tem origem em conflitos antigos. Em Sevilha, conhecida como a capital de três religiões, em 1391, o tataravô de Miguel assistiu uma espécie de avant première de Auschwitz, com a execução de mais de quatro mil judeus. Arrabal nos conta também que Vicente Ferrer foi uma espécie de precursor do nazismo, sinalizando os judeus, matando a muitos e batizando cerca de trinta e cinco mil ao longo de vinte e cinco anos. Pela sua defesa do cristianismo o "Anjo do apocalipse" foi proclamado santo.

Os tempos de Cervantes não eram tempos fáceis. Tempos de forte intolerância religiosa, tempos de absolutismo governamental, tempo dos Felipes, tempos de grandeza e tempos de decadência. Tempos de Torquemada e tempos da derrotada Invencível Armada. Tudo isso viveu Cervantes. Para Cervantes também foram os tempos do surgimento da universidade de Alcalá, em competição com Salamanca. Aristóteles estava se afirmando.
Cervantes junto com os seus famosos personagens.

O que falar da família de Cervantes? A figura das mulheres era muito forte e a dos homens, que praticamente se resumia ao pai, era uma figura frágil. Sua irmã Andreia deveria ser extremamente sedutora e bela. Amealhou muito dinheiro, que, como chegava de forma fácil, se esvaía ainda mais facilmente. Ela sempre esteve envolvida com homens e deles conseguia o sustento de todos. Quando foram morar em Madri, transformaram a parte mais nobre da casa em hospedaria. Nela Andreia recebeu ricos clientes italianos.

Em meio a todas estas histórias, você faz uma verdadeira viagem a Espanha. Vai conhecendo as suas relações internacionais e as complicadas alianças de uma Europa conflitada pelo cisma da cristandade e sob o chicote da reação tridentina. Tudo isso você vai usufruindo com a leitura agradável dos 47 curtos capítulos do livro, até chegar por onde começamos. A fuga de Miguel para Roma, onde foi camareiro do cardeal Aquaviva e, possivelmente, algo mais com a volta da prática do "pecado nefando" com o cardeal. Desgostoso com o cardeal faz a sua inscrição no exército para combater os turcos na batalha de Lepanto. Na volta é sequestrado pelos turcos e  permanece em Argel, na qualidade de escravo, até ser resgatado pela ação de seus familiares.

Arrabal ainda conta que Cervantes começou a escrever o Dom Quixote na prisão, em Sevilha, já com 55 anos e nas condições mais adversas imagináveis. Neste ponto ele encerra a biografia, que bem merecia um segundo volume, a exemplo do próprio Dom Quixote. Mas complementando, Dom Quixote apareceu em 1605, o primeiro volume e, em 1615 o segundo. Um ano após, em 1616, aos 68 anos morre o escritor. Da minha parte me dou como satisfeito com relação a Cervantes e ao seu Dom Quixote. Sinto falta, no entanto, de uma biografia tipo ensaio para responder a pergunta cuja resposta ainda não encontrei. Por que Cervantes escreveu o Dom Quixote? Quais foram as verdadeiras razões que o levaram a tal? Por enquanto, tenho apenas pequenas frações da resposta.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Capítulo LIII. Volume II.

Glutão, beberrão e ambicioso. Teriam sido estas as principais características do memorável escudeiro do mais famoso cavaleiro que a literatura já produziu? Junto com a fidelidade ao Quixote, creio que sim. Interessante que o próprio Sancho negue estas suas características, ao comentar o falso volume das aventuras da dupla, que apareceu um pouco antes do lançamento do de Cervantes. Inclusive usa isso como argumento para a sua falsidade. Cervantes deve ter sido um dos maiores narradores que a literatura mundial conheceu.
Edição da Abril Cultural. Os dois volumes.

Sancho era um lavrador de vida simples, num cotidiano, no mínimo tedioso e repetitivo com Teresa, a esposa e mais dois filhos. Sobre ele recaiu a escolha de Dom Quixote, quando o cavaleiro saiu pela segunda vez em busca de aventuras que o consagrariam. Não restam dúvidas que ele aceitou o cargo ou a missão em troca de recompensas. Em seu horizonte sempre vislumbrou o governo de uma ilha ou, no mínimo, um título de conde. Era analfabeto mas um bom observador. Era falante e acumulava um sem número de rifões ou ditos populares, que tanto incomodavam o Quixote.

Já quase ao final do segundo volume um duque satisfaz a vontade de Sancho, na sua ambição de ser governador. Já destaquei os conselhos que recebeu de seu cavaleiro para o bom exercício da função. Como governador foi considerado como um novo Salomão, pelo bom senso em suas decisões. Porém, não permaneceu nem dez dias no exercício de tão nobre cargo. Não deu tempo nem de entronizar a sua família na sua corte de poder. Renunciou em meio a uma vitória de suas forças, portanto, num momento muito favorável. Mas o que o incomodou? Vejamos algumas justificativas suas, dadas para o seu burrico, o ruço.

"- Vinde cá, meu companheiro e meu amigo, que tendes suportado uma parte dos meus trabalhos e misérias; quando eu andava convosco, e não pensava senão em arremendar os vossos aparelhos, e em sustentar o vosso corpinho, ditosas horas, ditosos dias e ditosos anos eram os meus; mas, desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me pela alma dentro, mil misérias, mil trabalhos, e quatro mil desassossegos". E, enquanto albardava o seu burro se dirigia às pessoas de sua corte, especialmente ao médico que cuidava de sua dieta.

"Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente. Eu não nasci para ser governador, nem para defender ilhas nem cidades dos inimigos que as quiserem acometer. Entendo mais de lavrar, de cavar, de podar e de por bacelos nas vinhas, do que de dar leis ou defender províncias nem reinos. Bem está São Pedro em Roma; quero dizer: bem está cada um, usando do ofício para que foi nascido. Melhor me fica a mim uma foice na mão do que um cetro de governador; antes quero comer à farta feijões do que estar sujeito à miséria de um médico impertinente, que me mate à fome; e antes quero recostar-me de verão à sombra de um carvalho, e enroupar-me de inverno com um capotão, na minha liberdade, do que deitar-me, com a sujeição do governo, entre lençois da holanda, e vestir-me de martas cevolinas". E continua, em tom de despedida.
Caricatura do Sancho Pança. Seria um sábio? 

"Fiquem Vossas Mercês com Deus, e digam ao duque meu senhor que nasci nu, nu agora estou, e não perco nem ganho; quero dizer: que sem mealha entrei neste governo, e sem mealha saio, muito ao invés do modo como costumam sair os governadores de outras ilhas; e apartem-se, deixem-me, que me vou curar, pois suponho que tenho arrombadas as costelas todas, graças aos inimigos que esta noite passaram por cima de meu corpo". Depois, em contra argumentação arremata.

"Fiquem nesta cavalariça as asas de formiga, que me levantaram aos ares para me comerem os pássaros, e tornemos a andar pelo chão com pé rasteiro, que, se o não adornarem sapatos picados de cordovão, não lhe hão de faltar alpargatas toscas de corda; lé com lé e cré com cré; ninguém estenda as pernas para fora do lençol, e deixem-me passar, que se faz tarde".

Uma ducha de água fria na universal ambição humana. Fantástico.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. O capítulo XLII do Volume II.

A publicação do primeiro volume do Dom Quixote, em 1605, se tornou um imediato sucesso de público. Suas histórias são conhecidas e muitos se esforçam por conhecer os feitos dos grandes heróis. Isso ocorre com um duque e uma duquesa, que se esmeram em hospedar ao Quixote e atender aos anseios do ambicioso Sancho. O duque inclusive entroniza Sancho como governador de uma ilha. Surpreendentemente ele se sai muito bem. Um novo rei Salomão em seus julgamentos.

Quando se prepara para assumir, Dom Quixote lhe dá conselhos, sábios conselhos. Uma aula de saber político e jurídico. Isso ocorre no capítulo XLII do segundo volume. Quixote ficará conhecido como o Cid nas armas e como o Cícero na eloquência.  Vejamos alguns destes conselhos:
Dom Quixote alternava momentos de loucura com os de lucidez. Só quando se tratava de cavalaria é que cometia disparates.

"Primeiramente, filho, hás de temer a Deus, porque no temor a Deus está a sabedoria, e, sendo sábio, em nada poderás errar.

"Em segundo lugar, põe os olhos em quem és, procurando conhecer-te a ti mesmo, que é o conhecimento mais difícil que se pode imaginar. De conhecer-te resultará o não inchares como a rã, que se quis igualar ao boi: que se isto fizeres, virá a ser feios pés da roda da tua loucura a consideração de teres guardado porcos na tua terra". Sancho assente e Dom Quixote continua:

"É verdade - replicou Dom Quixote; - e por isso, os que não são de origem nobre devem acompanhar a gravidade do cargo que exercitam com uma branda suavidade, que, ligada com a prudência, os livre da murmuração maliciosa, a que nenhum estado escapa. Aí, sem nenhuma interrupção, segue uma longa lista de conselhos:

"Faze gala da humildade da tua linhagem, Sancho, e não tenhas desprezo em dizer que és filho de lavradores, porque, vendo que te não corres por isso, ninguém to poderá lançar em rosto; ufana-te mais em seres humilde virtuoso que pecador soberbo. Inumeráveis são os que, nascidos de baixa estirpe, subiram à suma dignidade pontifícia e imperatória, e podia dar-te tantos exemplos que te fatigaria. Repara, Sancho, que, se te ufanares de praticar atos virtuosos, não há motivo para ter inveja aos príncipes e senhores, porque o sangue se herda e a virtude adquire-se, e a virtude por si só vale o que não vale o sangue.

"Sendo isto assim, se acaso te for ver, quando estiveres na tua ilha, algum dos teus parentes, não o afrontes nem o desdenhes, mas, pelo contrário, acolhe-o e agasalha-o, e festeja-o, que satisfarás com isso o céu, que gosta que ninguém se despreze pelo que ele fez, e corresponderás ao que deves à bem concertada natureza. Se levares tua mulher contigo (porque não é bem que os que governam por muito tempo estejam sem as suas mulheres), ensina-a, doutrina-a e desbasta-lhe a natural rudeza, porque tudo o que ganha um governador discreto, perde-o muitas vezes uma mulher rústica e tola.

"Se, por acaso, enviuvares, e com o cargo melhorares de consorte, não a tomes tal que te sirva de anzol e de isca, porque em verdade te digo que de tudo o que a mulher do juiz receber há de dar conta o marido na residência universal, com que pagará pelo quádruplo na morte o que ilegitimamente recebeu em vida.

"Nunca interpretes arbitrariamente a lei, como costumam fazer os ignorantes que têm presunção de agudos. 

"Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, mas não mais justiça do que as queixas  dos ricos.

"Procura descobrir a verdade por entre as promessas e dádivas do rico, como por entre os soluços e importunidades do pobre.
Quando Dom Quixote se torna cavaleiro, em Porto Lápice.

"Quando se puder atender à equidade, não carregues com todo o rigor da lei no delinquente, que não é melhor a fama do juiz rigoroso que do compassivo.

"Se dobrares a vara da justiça, que não seja ao menos com o peso das dádivas, mas sim com o da misericórdia.

"Quando te suceder julgar algum pleito de inimigo teu, esquece-te da injúria e lembra-te da verdade do caso.

"Não te cegue paixão própria em causa alheia, que os erros que cometeres a maior parte das vezes serão sem remédio, e, se o tiverem, será à custa do teu crédito e até da tua fazenda.

"Se alguma mulher formosa te vier pedir justiça, desvia os olhos das suas lágrimas e os ouvidos dos seus soluços, e considera com pausa a substância do que pede, se não queres que se afogue a tua razão no seu pranto e a tua bondade nos seus suspiros.

"A quem hás de castigar com obras, não trates mal com palavras, pois bem basta ao desditoso a pena do suplício, sem o acrescentamento das injúrias. 

"Ao culpado que cair debaixo da tua jurisdição, considera-o como um mísero, sujeito às condições da nossa depravada natureza, e em tudo quanto estiver da tua parte, sem agravar a justiça, mostra-te piedoso e clemente, porque ainda que são iguais todos os atributos de Deus, mais resplandece e triunfa aos nossos olhos o da misericórdia que o da justiça.

"Se estes preceitos e estas regras seguires, Sancho, serão longos os teus dias, eterna a tua fama, grandes os teus prêmios, indizível a tua felicidade; casarás teus filhos como quiseres, terão títulos eles e os teus netos, viverás em paz e no beneplácito das gentes, e aos últimos passos da vida  te alcançará a morte em velhice madura e suave, e fechar-te-ão os olhos as meigas e delicadas mãos de teus trinetos. O que até aqui se disse são documentos que devem adornar tua alma: escuta agora os que hão de servir para adorno do corpo:"

Todo o capítulo seguinte também é de conselhos, desta vez eles são de ordem prática e se constituem em uma belíssima peça de humor. Ao cabo de dez dias, apesar da excelente administração Sancho renuncia, especialmente em função da presença, na sua corte, de um médico que se dedica aos cuidados de sua dieta. Isso era demais para o ambicioso governador  e vejam a frase de efeito com a qual se despede da função: "...mas desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me, pela alma dentro mil misérias, mil trabalhos e quatro mil desassossegos. [...]Abri caminho, senhores meus, e deixai-me voltar à minha antiga liberdade; deixai-me ir buscar a vida, para que me ressuscite desta morte presente".




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. O capítulo XI. Volume I.

Como qualificar a obra de Cervantes? É difícil medir toda a genialidade do autor do Dom Quixote. Creio que a sua maior e melhor qualidade é a de narrador. Ele era um leitor voraz, o que, obviamente, o tornou o grande escritor. Vejam esta sua frase: "Yo soy aficionado a leer, aunque sean los papeles rotos de la calle". Cervantes conhecia profundamente a literatura clássica, acompanhava detalhadamente a política de seu tempo, conhecia bem o ser humano e era grande conhecedor dos livros de cavalaria.
Em sua primeira saída Dom Quixote sai consagrado cavaleiro andante.

É difícil imaginar como, em meio as suas atribulações, se tornou o grande escritor que foi. Dom Quixote é uma explosão em termos de criação. Depois da sua leitura, selecionei três capítulos que, de acordo com a minha visão, merecem um post especial. São o famoso capítulo XI do primeiro Volume, em que apresenta uma visão de seu tempo, numa retrospectiva aos séculos de ouro, o capítulo XLII, do segundo volume, em que o Quixote dá conselhos a Sancho, quando este se prepara para assumir o governo de uma ilha e o LIII, também do segundo volume, em que Sancho, com menos de dez dias de governo, apresenta as suas desilusões e renuncia ao governo.

Mas vamos ao capítulo XI, que leva por título Do que a Dom Quixote sucedeu com uns cabreiros. Ali estavam os cabreiros a preparar sua refeição, "tassalhos de cabra, que estavam numa caldeira a ferver ao lume". Quixote e Sancho são convidados, como reconhecimento do valor dos cavaleiros andantes. Sancho se dá bem com a gula, tanto no beber quanto no beber. Após o comer Quixote discursa exaltando os anos dourados do mundo clássico. Isso será várias vezes repetido ao longo da obra. Vejamos a sua visão destes ditosos tempos:

"Ditosa idade e afortunados séculos aqueles a que os antigos puseram o nome de dourados, não porque nesses tempos o ouro, que nesta idade do ferro tanto se estima, se alcançasse sem fadiga alguma, mas sim porque então se ignoravam as palavras "teu" e "meu"! Tudo era comum naquela santa idade; a ninguém era necessário, para alcançar o seu ordinário sustento, mais trabalho que levantar a mão e apanhá-lo das robustas azinheiras, que liberalmente estavam oferecendo o seu doce e sazonado fruto. As claras nascentes e correntes rios ofereciam a todos, com magnífica abundância, as saborosas e transparentes águas" [...] "Tudo então era paz, tudo amizade, tudo concórdia". Era o tempo em que as bondades da terra não tinham dono". E o seu maravilhamento continua:

"Ainda se não tinha atrevido a pesada relha do curvo arado a abrir e visitar as entranhas piedosas da nossa primeira mãe, que ela, sem a obrigarem, oferecia por todas as partes do seu fértil e espaçoso seio o que pudesse fartar, sustentar, e deleitar, aos filhos que então possuíam. Então, sim, que andavam as símplices e formosas pastorinhas de vale em vale, e de outeiro a outeiro, com simples tranças ou em cabelo, sem mais vestidos que os necessários para encobrirem honestamente o que a honestidade quer, e quis sempre que se encubra". E o cavaleiro continua a sua exaltação:

"Não eram seus adornos, como os que ao presente se usam, exagerados com a púrpura de Tiro, e com a por tantos modos martirizada seda; eram folhagens de verde bardana e hera entretecidas; com o que talvez andavam tão garridas e enfeitadas como agora andam as nossas damas de corte com as raras e peregrinas invenções que a indústria ociosa lhes tem ensinado. Então expressavam-se os conceitos amorosos da alma simples, tão singelamente como ela os dava, sem se procurarem artificiosos rodeos de fraseado para os encarecer. Com a verdade e lhaneza não se tinham ainda misturado a fraude, o engano, e a malícia. A justiça continha-se nos seus limites próprios, sem que ousassem turbá-la nem ofendê-la o favor e interesse, que tanto hoje a enxovalham, perturbam e perseguem. Ainda se não tinha metido em cabeça de juiz o julgar por arbítrio, porque ainda não havia julgadores, nem pessoas para serem julgadas". Os seus arrazoados continuam com o exaltar das donzelas:

"As donzelas e a honestidade andavam, como já disse, por toda a parte desguardadas e seguras, sem medo de que a alheia desenvoltura e atrevimentos lascivos as desacatassem;  se se perdiam era por seu gosto e própria vontade. E agora, nestes nossos detestáveis séculos, nenhuma está segura, ainda que a encerre e esconda outro labirinto de Creta, porque lá mesmo, pelas fendas ou pelo ar, com o zelo do maldito cuidado lhes entra o amoroso contágio, e as faz dar com todo o seu recato à costa". E é nesse cenário que entram os cavaleiros:
Quixote explica sobre a finalidade dos cavaleiros andantes e seus escudeiros.

"Para segurança delas, com o andar dos tempos, e crescendo mais a malícia, se instituiu a ordem dos cavaleiros andantes, defensores das donzelas, amparadora das viúvas, e socorredora dos órfãos e necessitados. Desta ordem sou eu, irmãos cabreiros, a quem agradeço o bom agasalho e trato que me dais a mim e a meu escudeiro, ainda que por lei natural todos os viventes estão obrigados a favorecer aos cavaleiros andantes, contudo sei que vós outros, ignorando esta obrigação, me acolhestes e obsequiastes; e razão é que eu vos agradeça quanto posso a vossa boa vontade".

Após este discurso o narrador complementa que a prática do Quixote demorou mais tempo do que  todo o tempo da ceia. Belos tempos, realmente. E se compararmos com os tempos de hoje? Possivelmente, a dependermos dos defensores do "Escola sem partido", nem mesmo a leitura deste discurso poderia ser feita. Ele poderia ser considerado como uma perigosa doutrinação ideológica e os seus leitores condenados a multas ou cadeia. Só com muita ironia, uma das grandes qualidades de Cervantes.




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Volume II.

No segundo volume do Dom Quixote é narrada a terceira saída do Cavaleiro da Triste Figura, agora no rumo da cidade de Saragoça. Mal e mal ele se recuperara das desventuras de suas duas primeiras saídas e da volta humilhante que teve à sua aldeia. Sancho Pança, mais uma vez está a postos para acompanhá-lo. O cura, o barbeiro e agora, mais o bacharel Simão Carrasco o estimulam, mas com um plano para deixá-lo em casa, para sempre, curar as suas loucuras e levar uma tranquila vida no campo.
Edição do Dom Quixote. Abril Cultural. 1981. Os dois volumes em um só.

Antes de acompanhar estas aventuras, uma dica. Os capítulos III e IV oferecem uma boa introdução para a leitura e compreensão de todo o volume I. Faz uma retrospectiva de todas as aventuras ou desventuras contidas no volume anterior. O principal narrador será mais uma vez o mourisco Benengeli, que chegou ao narrador pelas mãos de um tradutor. Artimanhas do narrador.

Já que falamos em narrador, reside aí a principal qualidade de Cervantes. Por esta condição de narrador é que ele é considerado o precursor de todo o romance moderno. Todas as estratégias possíveis e imagináveis foram por ele usadas. E, importante que se diga, Cervantes foi um escritor extremamente popular. O aparecimento de seu primeiro volume foi um sucesso imediato de público, fato que também não lhe passa despercebido. O sucesso também é contado no segundo volume, que aparecerá em 1615, dez anos após o primeiro. Antes disso, aparecera um segundo volume falso, que o narrador também explora nas 50 páginas finais do livro.

Cervantes faz rasgados elogios ao Cide Hamete Benengeli o narrador principal de toda a obra. Vejamos: "Realmente, todos os que gostam de histórias como esta devem mostrar-se agradecidos a Cide Hamete, seu primeiro autor, pela curiosidade que teve em nos contar as suas semínimas particularidades, sem deixar coisa alguma, por miúda que fosse, que não tirasse claramente à luz. Pinta os pensamentos, descobre as imaginações, responde às tácitas perguntas, aclara as dúvidas, resolve os argumentos, finalmente, manifesta os átomos do mais curioso desejo. Ó autor celebérrimo! ó ditoso Dom Quixote! famosa Dulcineia! gracioso Sancho Pança! vivais todos juntos, e cada um de per si, séculos infinitos, para gosto e universal passatempo dos viventes". (Capítulo XL).

O essencial da história é, mais uma vez, retirar Dom Quixote do campo de batalha, como já o fora no primeiro volume, uma vez que todos reconhecem a loucura do protagonista. Quem trama a volta do cavaleiro para junto dos seus, apenas a sobrinha e a ama, são o cura e o barbeiro da aldeia. Nesta segunda parte se soma Simão Carrasco, o bacharel formado em Salamanca.

Com esta finalidade, também Simão Carrasco se veste de cavaleiro, buscando desafiar o da Triste Figura, agora já auto rebatizado de Cavaleiro dos Leões. Para encompridar a história, ele perde o primeiro duelo, mas se prepara para o segundo. Se Quixote perdesse deveria ficar em casa por um ano, se dedicando à vida do campo. Como bom cavaleiro, ele cumpriria o prometido. Neste sossego, ele rapidamente encontrará a morte.

Mas antes tem muitas aventuras. Quixote nunca viu a sua doce amada. A vez em que esteve perto disso, foi ludibriado pelo escudeiro, que lhe mentira a respeito de um suposto encontro com ela, para lhe entregar uma correspondência. Dulcineia ficou encantada e lhe apareceu sob a figura de uma lavradeira. Contudo, não houve no mundo homem mais fiel à sua amada, fato que em muito aumentou as pretensões das damas em o namorarem. Tudo, obviamente, em seu imaginário.
 Cervantes despistou e o Dom Quixote não foi para Saragoça.

As aventuras passam pela gruta de Montesinos, por histórias que se fecham e que estavam em aberto desde o primeiro volume, pela recepção calorosa de um casal de duques que não pouparam esforços em ter a venturosa dupla como seus hóspedes, de sua chegada em Barcelona, uma vez que decidira não mais ir a Saragoça, para enganar o autor do volume falso, sobre as aventuras do cavaleiro em virtude de uma declaração de amor que recebe de uma donzela da corte do duque e sobre a sua derrota para o cavaleiro da Branca Lua. Por esta derrota e sob o peso do juramento que fizera, que na qualidade de derrotado, permaneceria em casa por um ano inteiro. Não suportou esta vida sem glórias e aventuras e a sua vida teve um fim muito rápido.

Um dos fatos mais interessantes ocorre com as sempre desmesuradas pretensões de Sancho Pança como compensação dos serviços prestados como escudeiro. Queria ser conde, transformar Teresa Pança numa dama nobre, casar bem a filha Sanchita e, acima de tudo, ser governador de uma ilha. O duque lhe proporciona a oportunidade de ser este governador. Quixote lhe dá conselhos filosóficos e também práticos. Os conselhos filosóficos são uma verdadeira aula de política e de princípios jurídicos e os práticos, uma fantástica peça de humor. Quixote passa a ser visto com  um "Cid nas armas e um Cícero na eloquência". Sempre a presença das contradições neste fantástico personagem.
Dom Quixote completou suas aventuras em Barcelona. Só que na época não tinha a Sagrada Família.

Sancho, revestido de toda a pompa, assume a governança da ilha. Se iguala a Salomão pela sabedoria de suas decisões. Passa a ser admirado por todos. Mas não suporta a presença de um médico na sua corte, que lhe dita uma dieta, que meticulosamente deverá ser cumprida. Difícil demais para um afamado glutão e beberrão, fato de que ele discorda. Assim fora pintado no volume falso. Em menos de dez dias renuncia ao cargo. Deixa esta fabulosa sentença sobre a sua ascensão a tão ambicionado cargo, com o qual realizaria todos os sonhos dos seus, "... mas, desde que vos deixei e trepei às torres da ambição e da soberba, entraram-me, pela alma dentro, mil misérias, mil trabalhos, e quatro mil desassossegos". "... deixai-me ir buscar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente".

O livro termina com a execração aos romances de cavalaria. Deixando seus bens para sua sobrinha mas a deserda, caso o pretendente tivesse lido tais livros, que o fizeram ser o Cavaleiro da Triste Figura, na qualidade de cavaleiro andante. E assim termina o seu livro: "... pois  não foi outro o meu intento, senão o de tornar aborrecidas dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias, que vão já tropeçando com as do meu verdadeiro Dom Quixote, e ainda hão de cair de todo, sem dúvida. Vale". 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dom Quixote. Cervantes. Volume I.

Eu tive um amigo, que que em certa oportunidade, assim se referiu a um outro amigo: "Ele é um tanto pirado, de tanto ler". Acredito que é este o veredito que pode ser aplicado ao Dom Quixote. Ele, de tanto ler romances de cavalaria, ficou inteiramente pirado e resolveu ser um cavaleiro andante, em busca de aventuras que lhe conferissem glória, imagem de um homem em busca de justiça e merecedor dos amores de sua Dulcineia amada.

Se até hoje ainda não tinha me aventurado na leitura destas loucuras foi, possivelmente, pela própria fama do livro e da dificuldade que muitas vezes se encontra na leitura de obras clássicas. Mas Dom Quixote é bastante fácil. Cervantes é genial na conduta das aventuras que ele conta, sempre envoltas em pequenos capítulos, cinquenta e dois no total do primeiro volume e mais setenta e quatro no segundo. O próprio Cervantes se encarrega de facilitar esta leitura dando título aos capítulos e emendando sequências.
A versão que eu li. Abril Cultural, 1981. 609 páginas, os dois volumes. Duas semanas para a leitura.


Neste post vou ficar com as aventuras do primeiro volume, originalmente publicado em 1605. Dez anos depois, apareceria o segundo volume, para o seu autor morrer logo depois, no ano seguinte. A edição que eu tenho, a da Abril Cultural, tem 609 páginas, numa escrita bem pequena. Como existem muitos diálogos, a leitura é mais fácil. Os trechos mais difíceis são as conjecturas que faz o Quixote e alguns outros personagens. A obra teve sucesso imediato. Estes eram os tempos em que a leitura deveria ser o maior divertimento popular.

Bem, vamos aos fatos. A história começa quando o famoso cavaleiro é acometido pela loucura e sai duas vezes, neste primeiro volume, em busca de aventuras fantasiosas do seu encantamento. Nomina a si e ao seu cavalo e sonha com a imortalidade de seus feitos, contados em livro, que deveria estar a altura dos melhores que ele lera. Por isso se esmeraria em busca de aventuras dignas de glória e de perenidade e fazer-se merecedor dos amores da donzela mais linda do mundo. Numa estalagem de uma aldeia, que sua imaginação transformara em castelo, é armado cavaleiro, mas logo o reconhecem e o reconduzem à sua aldeia, onde é recebido pelos seus, restritos a governanta ou ama, uma sobrinha, ao cura e ao barbeiro. Esta foi a sua primeira breve saída.

O cura e o barbeiro resolvem erradicar as causas de sua loucura, isto é, queimar os muitos livros de cavalaria que acumulara e lera ao longo de anos, que o transformaram em cavaleiro andante, fora do devido tempo. Quixote prepara a sua segunda saída, sem antes contratar um fiel escudeiro, partícipe de suas aventuras, glórias e recompensas. Este será o inseparável e leal companheiro, Sancho Pança, ávido em busca de recompensas. Um título de conde ou governador de uma ilha, que fosse. A cobrança será constante. Nesta saída empreende a sua mais famosa e conhecida façanha, o combate aos enormes gigantes, os tais dos moinhos. Outras aventuras se seguem, mas que escaparam à memória do narrador, sendo completadas por um outro, o primeiro narrador, o mourisco Benengeli, que as relatara em árabe e ao qual buscou tradução.
Uma das mais famosas duplas do mundo.


Entre novas aventuras, o cavaleiro também discursa. Nada melhor do que na época de ferro, discursar sobre a era dourada. No famoso capítulo XI, dá aulas sobre os males provocados pela divisão entre o que é meu e teu, tema do qual, ainda hoje, se ocupam as cátedras das universidades.  Este capítulo merece um post em separado. Seguem-se três episódios interessantes. A luta contra um valoroso exército de carneiros, a tomada do escudo de mambrino, uma inocente bacia de barbeiro que tomara como espólio de lutas e a libertação de presos, conduzidos às galés, que ele irá libertar. Depois de libertos ele terá dois problemas a enfrentar. O primeiro com a justiça, o que o fará refugiar-se nas montanhas e com os próprios libertos que, para evitar exposição à polícia, se recusam ir a El Toboso e contar os seus feitos para a sua amada Dulcineia.

Imitando Amadis de Gaula faz, perante o seu escudeiro, piruetas com as partes pudendas de fora e o manda em missão, contar estas aventuras para a sua amada. Sancho porém é interceptado pelo cura e pelo barbeiro de sua aldeia e os ajuda a ir ao encontro do cavaleiro, escondido em florestas e serras, sem de fato ter ido a El Toboso e ter se encontrado com Dulcineia. A partir daí, param numa estalagem encantada e muitas histórias são contadas. Histórias de amor, em que pouco a pouco, são desvelados os mistérios dos personagens envolvidos. Isso ocupa uma longa parte do livro. Estas histórias seguramente poderiam ser a narrativa de outros livros, como o reconhece o narrador, na segunda parte do livro. Entre os personagens se encontrará a princesa Micomicona, por cuja libertação receberiam grandes recompensas. Miconicoma fascina a Sancho, em seu eterno sonho por recompensas. Sancho alimenta grandes ambições. São eles que o movem às aventuras.

Nesta estalagem se travam lutas com muito derramamento de sangue, ou seria o vazamento de odres de vinho, provocado pela ferocidade das batalhas. Também ocorrem longas discussões sobre a leitura de livros. Aparecem até claras propostas de censura, nas discussões entre um cônego e o cavaleiro. Nestes momentos o cavaleiro está totalmente lúcido, estado que ele frequentemente alterna com os de encantamento. Propõe a censura de todos os livros mentirosos, que nada somam e servem apenas como distração.

Por fim o cavaleiro recebe uma paulada tão forte de um adversário e acorda, apenas ao ouvir as tristes e comoventes palavras do escudeiro Sancho. Assim enfraquecido, e posto numa carroça, tornam à sua aldeia de origem. Quixote é recebido pela sua governanta e pela sobrinha. Já Sancho é recebido por Teresa Pança, que só quer saber das recompensas que o escudeiro estaria por lhe trazer. Humorados versos em epitáfios terminam a narrativa deste primeiro volume, mas novas aventuras são prometidas, através de uma terceira saída do cavaleiro e que ocorrerão na saída para a cidade de Saragoça.
Em Porto Lápica, a hospedaria castelo do Quixote.

Numa viagem minha pela Espanha, um dia saímos de Madri em direção a Granada, passando por toda a região da Mancha. Vimos muitos moinhos, que são exatamente os que o Quixote confundiu com os gigantes. A nossa primeira parada foi numa pequena aldeia chamada Porto Lápica ou Porto Lápice. Lá o Quixote esteve por duas vezes e na Venta, ou estalagem, ou ainda no castelo local é que o cavaleiro fez o seu ingresso como cavaleiro andante.

No terceiro capítulo do segundo volume existe uma síntese sobre os maiores feitos do cavaleiro, narradas por um bacharel, que lhe fala das repercussões do livro: "Nisso - respondeu o bacharel - há diferentes opiniões, como há diversos gostos; uns preferem a aventura dos moinhos de vento que a Vossa Mercê lhe pareceram briareus e gigantes; outros as das azenhas; este a descrição dos dois exércitos, que depois se viu que eram dois rebanhos de carneiros; aquele encarece a do morto que levaram a enterrar em Segóvia; diz um que a todas se avantaja a da liberdade dos galeotes; outro, que nenhuma se iguala a dos dois gigantes beneditinos, com a pendência do valoroso biscainho". Na leitura, é bom ficar atento a estas passagens.







segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A leitura de D. Quixote. Preparativos. A Espanha no tempo de Cervantes.

Tomei uma decisão afoita. Na qualidade de administrador de tempo livre, vou ler e reler grandes clássicos da literatura mundial. Obras com um sabor todo especial e que, seguramente, alavancam uma melhor compreensão do mundo e do ser humano. Vou começar com Cervantes, com o Dom Quixote, obra que já comecei uma infinidade de vezes, mas que agora, com toda a determinação, vou até o fim. Não vou a esmo. Me prepararei bem para esta tarefa e irei compartilhar esta minha experiência.

Guardo no meu exemplar do Dom Quixote (Abril cultural 1981) uma preciosidade. Um caderno especial da Folha de S.Paulo de 18 de junho de 2005, dedicado à comemoração do quarto centenário do lançamento da primeira parte do livro. A longa viagem de D. Quixote é o título do caderno especial. Um raro trabalho de fôlego, com todos os méritos. Será o meu primeiro preparo para a leitura.
A capa da edição da Abril Cultural. É esta edição que tenho em mãos.

Tenho obsessão por contextualizações. Sem elas jamais haverá compreensão. O primeiro texto que examinarei será A Espanha no tempo de Cervantes, um artigo de Antônio Feros, professor de História da Universidade de Pensilvânia, na Filadélfia. E vamos para as primeiras datas. Ele nasceu em 1547 e morreu em 1616. A primeira parte de seu livro data, como vimos implicitamente, de 1605. Felipe II governou a Espanha entre os anos de 1556 e 1598. Felipe III e IV o sucederão. Felipe III será nominalmente citado no caso da expulsão de mouros e judeus. Na outra grande potência da época, a Inglaterra, vivia outro escritor de semelhante envergadura, Shakespeare (1564-1616). Morreram, como podem observar, no mesmo ano de 1616.

Cervantes viveu em uma época de crise, de transição. A Espanha insistia em ser grandiosa, mas vivia a desilusão, o desencanto e procurava fugir da realidade opressiva e deprimente. A virtude era desprezada e o vício louvado. Eram tempos de profundas inquietações, ansiedades e fracassos. Tempos de pestes e de carestia. A Espanha não queria perder sua posição de prestígio no cenário internacional. Teve vitórias, como Lepanto (1571), quando, com a participação de Cervantes, ganhou dos turcos e, ainda dominou Portugal entre 1580 e 1640. Sofreu porém grandes derrotas, contra a Inglaterra, contra a França e contra a Holanda.

Já sob Felipe III viveu tempos de pacificação mas de profundas contradições sociais. A inquisição se preocupou mais com os costumes dos católicos, deixando mais liberdade para judeus e muçulmanos, neoconvertidos. Já os outros... Em dez anos a peste vitimou um milhão de pessoas, numa população de sete. Em torno de 15% dos nascimentos ocorriam fora do casamento. Os tempos eram um pouco mais tolerantes. Houve grande ascensão de fidalgos, galgando a nobreza e passando a usufruir de privilégios. Havia um muito grande número de clérigos. Houve frustração de safras por causa de secas e as ruas estavam abarrotadas de mendigos, desempregados, pobres e criminosos. A inflação era galopante.

Houve reações. Muitas execuções, com a finalidade de amedrontar, se tornaram públicas. Desempregados eram criminalizados por vadiagem. O único alívio vinha da caridade cristã, o que não significava grande coisa. A questão dos mouros aparece na segunda parte do livro. Não é por nada que Cervantes considerava esta sua época como a idade de ferro, embora muito ouro fosse encontrado. De uma maneira mais ampla, a época se situa dentro do renascimento já em expansão. É o tempo das grandes monarquias, dos grandes estados modernos se constituindo e os tempos do mercantilismo. Tempos de prenúncio, de novos tempos, de novas e grandiosas nações, de hegemonia protestante e de transformação industrial. E a Espanha continuava a filha predileta da Igreja Católica.

Cervantes teve vida particular bastante atribulada, passando por ferimento na batalha de Lepanto, prisão na mão de piratas e outras prisões por atrasos em suas prestações de contas, na qualidade de sua função como coletor de impostos da Coroa. Ao menos parte de sua obra foi escrita na prisão. A obra teve imediato sucesso.
O monumental Escorial, o Palácio de Felipe 2º.


Pessoalmente tive oportunidade de visitar na Espanha as cidades de Toledo, que já foi capital e o Escorial, para onde Felipe II levou a sede do império. São exatamente os tempos vividos por Cervantes. A grandeza do El Escorial é estonteante. Foram realmente tempos de grande glória para o império espanhol, mas a decadência já era amplamente visível. Em outra oportunidade, viajando de Madri para Granada, passamos pelas áridas terras da Mancha. Paramos em Puerto Lápica, onde simplesmente tudo reverencia a memória do grande mestre das letras.





quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A vitória de Trump. É possível ter esperanças?

Hoje, 9 de novembro de 2016, o mundo acordou entre surpreso e assustado. Contrariando quase todas as previsões, Donald Trump venceu as eleições americanas, espalhando uma sensação nada agradável pelo mundo afora. Se ele cumprir as suas promessas de campanha, o mundo terá toda a razão em ficar extremamente preocupado. Tomara que elas sejam apenas peças do folclore eleitoral ou estratégias para a obtenção da vitória.
Donald Trump, já como presidente eleito.

Tenho por mim, que mudanças políticas são difíceis de ocorrerem. Elas ocorrem apenas em momentos em que efetivamente grande catástrofes ocorrem. Elas são sempre bastante previsíveis, como o foi com o fascismo e o nazismo, que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Quanto ao mais, as instituições funcionam mais ou menos no piloto automático. Embora um presidente tenha muito poder, ele não tem todo o poder.

Passei grande parte da manhã vendo as principais análises. Algumas me chamaram mais a atenção. Entre elas a de Clóvis Rossi, que no título de seu texto já chama a atenção sobre o rompimento da casca de ovo da serpente, emendando, logo a seguir, ainda no primeiro parágrafo, que todos os demônios estão soltos, continuando com a ameaça que esta eleição representa para todos os imigrantes, quer ilegais e até mesmo para os legais. Compara a eleição de Trump com a recente eleição havida na Inglaterra, quando esta optou pela saída da União Europeia, o famoso Brexit, a soma de Britain e Exit. Decisões pouco, ou nada racionais.

Rossi diz ainda que além dos imigrantes também as mulheres tem a temer com o governo de Trump. As declarações sobre elas durante a campanha não foram nada amistosas. Compara ainda a figura do presidente eleito com uma figura tipicamente latina, qual seja, a dos caudilhos populistas.

Já o analista da Universidade de Colúmbia, Marcos Troyjo fala das possíveis alterações na política externa, que com Hillary seriam apenas uma sequência das políticas adotadas por Obama, previsíveis portanto. Já com a vitória de Trump todos os conceitos, ou as chamadas instituições de Washington podem ser rompidos. A sua visão econômica desglobalizante, com o "América Grande de Novo" provocaria uma ruptura com os princípios do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional e também com a OTAN.

Troyjo aponta ainda para os parceiros econômicos mais próximos como o México e a China, que teriam grandes perdas, com repercussões mundiais, se ele aplicar as medidas econômicas nacionalistas que pregou para se eleger, como as taxas de importação ou a repatriação das empresas americanas. Também aponta para uma perigosa aproximação com Putin, o presidente russo. Enfim, salienta o analista, que a vitória de Trump representa o fim do mundo, ao menos nos termos como nós o conhecemos.

Outro analista que eu aprecio é Thomas Friedman. Toda a sua preocupação está voltada para dentro dos Estados Unidos. O enorme ódio que acompanhou todo o processo eleitoral pode redundar em irreversíveis divisões internas. Um ódio insuperável de todos contra todos.

As esperanças residem em que Trump tenha feito apenas bizarrices durante a campanha com o objetivo de vencer as eleições ou então que ele seja absolutamente enquadrado pelos elementos mais lúcidos do Partido Republicano, que os deve haver. Resta ver se a grande "atração turística", uma nova espécie de muralha chinesa, anunciada durante a campanha, será efetivamente construída, qual seja, a construção do muro que separaria os Estados Unidos do México. Lembro o dito popular: Pobre México. Tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus.
O nada surpreendente mapa eleitoral dos Estados Unidos. O vermelho é Trump.

Uma última observação. Está em curso uma grande insatisfação mundial com o andamento da economia. Não crescimento, recessão prolongada, desemprego em massa, políticas de austeridade, esmagamento das classes médias, convivência com a expansão da miséria absoluta, corrupção e ideologias em disputa entre o neoliberalismo e o estado de bem-estar acirraram os ânimos e provocaram ondas explosivas de irracionalidade e de ódios incontroláveis e difíceis de serem contidos. Isso, nos ensina a história, terá como resposta a existência de governos fortes no controle das manifestações e reivindicações sociais, que podem culminar com a ruptura dos padrões institucionais da ordem democrática liberal.

Eu preferiria o previsível. Duas esperanças nos alentam. Que Trump governe efetivamente com o piloto automático ligado e que este sirva para aparar seus delírios e que não ponha em prática as muitas aberrações prometidas em campanha. Que ele sofra uma transmutação total e completa. Quanto ao mais, já vejo aqui no Brasil, muitas serpentes se remexendo dentro do ovo, querendo romper a membrana, nem que para isso tenham que esperar até 2018, pela via eleitoral mesmo. Bolsonaros e assemelhados.



terça-feira, 8 de novembro de 2016

O Verdadeiro canalha. A homenagem de Gustavo Fruet para Beto Richa.


Gustavo Fruet é um dos políticos mais cordatos que eu já conheci. Pouco se altera, mesmo em situações mais complicadas. Porém, agora na disputa pela reeleição e no pós eleição, em dois momentos ele fugiu do seu script habitual. A primeira vez foi quando um jornalista perguntou aos candidatos sobre uma qualidade que admiravam num adversário seu. Gustavo foi na jugular. A sua escolha recaiu sobre Rafael Greca. "A qualidade que eu mais admiro no meu adversário, é o seu gosto por obras de arte". Greca havia sido acusado de furto de obras de arte que pertenceriam à Prefeitura de Curitiba. Acima de tudo um tirada com ironia e bom humor.

Mas a agressividade nunca vista foi quando Beto Richa, no dia após a vitória de Greca, o seu candidato, anunciou a volta da integração dos ônibus de Curitba com os da região metropolitana, que cortara durante a gestão de Fruet. O tom subiu e ele lhe dedicou esta nada gentil musica do verdadeiro canalha, do Bezerra da Silva. Façam os seus julgamentos, que eu deixo aqui o registro.
Está aí a música com a qual Gustavo Fruet homenageou o governador Beto Richa.


Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Você vive de trambique,
Deita na sopa
E se atrapalha,
Olha aí, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Se elegeu com votos da favela,
Depois mandou nela
Metê bala,
Isso é que é ser canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Rapinou o dinheiro do povo,
Saiu esbanjando
E fazendo bandalha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um tremendo canalha.
Comprou carrão,
Fazenda e mansão
E o povo na miséria comendo migalha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Está livre a poder de propina,
Porém a justiça divina
Não falha,
Veja bem, seu canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
O truco se acaba
Meio retrocesso,
Verás o reverso da medalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Viver de moleza é muito bom,
Quero ver você
Encarar uma batalha,
Vai trabalhar, canalha!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
E no dia do judas tu fica na tua,
Se tu for pra rua
A galera te malha,
Fica em casa, canalha!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Comeu, bebeu, fumou e cheirou,
Depois caguetou
O cabeça-de-área,
Olha a bala, canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
Nunca vi ninguém dá dois em nada
E também se ver
Cadeado não fala,
Aprendi isso, canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
E depois daquele par de chifres
Em que altura está
O meu chapéu de palha,
Já viu isso, canalha?
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
O calado tá errado...
E falando nem se fala...
Cala a boca, canalha!!!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha.
De repente o bicho pegou,
Tu se empirulitou
E jogou a toalha,
Sai correndo, canalha!!!
Canalha, tu é um verdadeiro canalha...
Canalha, tu é um verdadeiro canalha

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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Teoria da escola dualista. Rede PP e rede SS.

Em tempos de governo golpista, do DEM no Ministério da Educação e da Medida Provisória nº 746/2016 que reforma o ensino médio, precisamos retomar as teorias que analisam as estruturas, o funcionamento e as finalidades  da educação. Eu particularmente me lembrei mais das teorias de Baudelot e Establet que falam da existência de duas redes de ensino: a rede PP e a rede SS. Estas duas redes atendem aos interesses de cada uma das classes sociais, uma rede escolar para a burguesia e outra para o proletariado. Vamos ver um pouco desta teoria, tomando como referência Dermeval Saviani e o seu livro Escola e Democracia.
 Um belo livro para estudar as teorias da educação.

A Teoria da escola dualista integra as teorias críticas da educação e foi formulada por Baudelot e Establet, em 1971, no livro chamado L'Ecole Capitaliste en France. A sua teoria tem seis proposições fundamentais que Saviani transcreve do livro dos autores franceses.

1. Existe uma rede de escolarização que chamaremos rede secundária e superior (rede S. S.).
2. Existe uma rede de escolarização que chamaremos rede primária-profissional (rede P. P.).
3. Não existe terceira rede.
4. Estas duas redes constituem, pelas relações que as definem, o aparelho escolar capitalista. Este aparelho é um aparelho ideológico do estado capitalista.
5. Enquanto tal, este aparelho contribui, pela parte que lhe cabe, a reproduzir as relações de produção capitalistas, quer dizer, em definitivo a divisão da sociedade em classes, em proveito da classe dominante.
6. É a divisão da sociedade em classes antagonistas que explica em última instância não somente a existência das duas redes, mas ainda (o que as define como tais) os mecanismos de seu funcionamento, suas causas e seus efeitos.

Os autores confirmam estes princípios através de uma série de estatísticas. Assim, de acordo com os autores, a escola, enquanto aparelho ideológico do Estado, cumpre duas funções básicas, quais sejam, a inculcação ideológica da ideologia burguesa e a preparação para o trabalho, com predomínio para a inculcação ideológica. Saviani ainda transcreve um parágrafo da obra para justificar estas funções da escola, inseridas dentro do contexto maior da sociedade.

"A contradição principal existe brutalmente fora da escola sob a forma de uma luta que opõe a burguesia ao proletariado: ela se trava nas relações de produção, que são relações de exploração. Como aparelho ideológico do Estado, a escola é um instrumento da luta de classes ideológica do Estado burguês, onde o Estado burguês persegue objetivos exteriores à escola (ela não é senão um instrumento destinado a esses fins). A luta ideológica conduzida pelo Estado burguês na escola visa à ideologia proletária que existe fora da escola nas massas operárias e suas organizações. A ideologia proletária não está presente em pessoa na escola, mas apenas sob a forma de alguns de seus efeitos que se apresentam como resistências: entretanto, inclusive por meio dessas resistências, é ela própria que é visada no horizonte pelas práticas de inculcação ideológica burguesa e pequeno-burguesa".

Creio que aqui já estão presentes alguns elementos para a reflexão que este momento tanto exige, mas recomendo a leitura, por inteiro, do capítulo I do livro de Saviani, em sua parte três: A teorias crítico reprodutivistas. Recomendo ainda o maravilhoso livro Cuidado, Escola!, cuja primeira edição data de 1980. E ainda, de Adorno, de seu livro Educação e Emancipação, o capítulo Tabus acerca do magistério, em que o autor chama os educadores à sua responsabilidade para não prestarem um serviço, digamos, sujo para a burguesia. E para além da educação, num quadro mais amplo, o livro de Jacques Rancière, O ódio à democracia. Toda a democracia que mexe com a estrutura básica da sociedade é odiada pelos que ocupam os postos mais elevados, economicamente, dentro desta sociedade.

Pesa sobre a classe trabalhadora dentro da sociedade capitalista uma espécie de pesadíssima lei da gravidade social, pela qual se impede qualquer possibilidade de ascensão, sob pena da aplicação de golpes de Estado, como acontece neste momento da nossa história. A educação está sendo posta nos trilhos da imobilidade social capitalista, dentro de sua perversa lógica. O ensino médio deve ser organizado de tal maneira, que ele impeça a escalada dos alunos, filhos da classe trabalhadora, ao ensino superior. O  MEC do governo golpista já está anunciando uma reforma também no ensino fundamental. É neste mesmo sentido que tramitam os diferentes projetos do "Escola sem Partido".