quarta-feira, 30 de março de 2016

Viagem ao Recife. 1. O Estado de Pernambuco.

Há muito eu desejava conhecer o estado de Pernambuco e, mais precisamente, Recife, a sua capital. A perspectiva histórica é a que mais alimentava o meu desejo. Já conhecia a paradisíaca ilha de Fernando de Noronha, mas fui até lá, num voo que partiu de Natal. Desta vez tomei a decisão e para lá me mandei, por um período de oito dias, com direito a hotel na praia da Boa Viagem.
A primeira foto de Recife. Boa Viagem, a partir da janela do hotel.

Pernambuco é um dos berços históricos de nosso país. Conta-se, que até mesmo antes do nosso descobrimento oficial, por ali já teria passado o espanhol Vicente Iáñez Pinzón, no Cabo de Santo Agostinho, em janeiro do ano de 1500. Mas há controvérsias e questionamentos. As viagens exploratórias dos portugueses ocorreram já a partir de 1501 mas, o povoamento mesmo começou a partir de 1534, com Duarte Coelho e Pero Lopes de Souza. Dois povoados foram fundados em 1535, os de Igarassu e Olinda. A igreja de São Cosme e Damião de Igarassu, data de 1535 e é a mais antiga do Brasil, que está em funcionamento.
A igreja de São Cosme e Damião em Igarassu, a mais antiga do Brasil em funcionamento.

Recife tem a maior concentração urbana do nordeste, somando em torno de 4 milhões de habitantes, dos quais um pouco mais de 1,5 formam a população da cidade. Pernambuco possui 9.500.000 de habitantes. A riqueza histórica do estado, pela qual se iniciou a colonização, foi a cana de açúcar. Em torno desta riqueza se modelou toda a cultura da Casa Grande e da Senzala, do latifúndio e da escravidão, da qual resultaram os sobrados e mocambos, que são a nossa grande marca social ainda nos dias de hoje.

O sucesso econômico da cultura açucareira provocou a cobiça europeia. Aí ocorreu o mais longo período de domínio estrangeiro, a ocupação holandesa, entre 1630 e 1654. Esta ocupação tornou famoso o conde Maurício de Nassau, que trouxe grandes inovações para a região. Muito de seu trabalho pode ser visto, ainda hoje em dia. Esta ocupação provocou a insurreição pernambucana e por ela, a expulsão holandesa com a segunda Batalha de Guararapes. Até hoje muito se discute este momento de nossa história, opondo-se a colonização portuguesa com a holandesa.
Uma quadra de Amsterdam, do Brasil holandês, ainda presente em Recife.

A história de Pernambuco continua com a Revolução pernambucana de 1817, com a Confederação do Equador e a Revolução Praieira. Espírito forte de insurreição. O meu amigo Nestor, como bom pernambucano, sempre me contesta o verso do hino do Rio Grande do Sul, da Revolução Farroupilha, em que se afirma: "Como a aurora precursora. Do farol da Divindade. Foi o 20 de setembro (1835). O precursor da liberdade". A precedência teria sido pernambucana. Polêmicas em dias de festa.

Uma das marcas maiores de Pernambuco é a sua Faculdade de Direito, que junto com a de São Paulo, foram as primeiras, fundadas no famoso 11 de agosto de 1827. Me lembrei deste dado, quando passando pelo Mosteiro de São Bento, em Olinda, li a placa de que ali ela viveu os seus primeiros anos e permanecendo até 1854. Muitos grandes nomes da intelectualidade e da política brasileira por ali passaram. Lembro das polêmicas travadas entre Castro Alves e Tobias Barreto. Também se tornaram notáveis os alunos José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Sílvio Romero, Graça Aranha e tantos outros.
O mosteiro de São Bento, que hospedou o primeiro curso de Direito do Brasil.

Pernambuco também forneceu grandes nomes para a intelectualidade brasileira. Vou citar apenas três, nomes de minha preferência. Joaquim Nabuco, não apenas por ter sido abolicionista, mas por ter elaborado um projeto de integração do negro liberto à sociedade e à economia brasileira, por um programa de educação e de reforma agrária. Um dos únicos pensadores liberais sérios que este país teve. Gilberto Freyre, pela beleza lírica e romântica de sua obra CasaGrande&Senzala. Apesar de todas as contradições e polêmicas que a sua obra suscita, é o seu pensamento um dos primeiros a conceber positivamente o Brasil e o seu povo. E o grande educador, patrono da educação brasileira, Paulo Freire, autor dos memoráveis Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido. Já que falei em preferências, rendo também a minha homenagem ao grande bispo de Olinda e Recife, D. Hélder Câmara, que embora não fosse um cidadão pernambucano, foi um cidadão universal.
Homenagem a Joaquim Nabuco, o ilustre abolicionista pernambucano.

Por fim, algumas considerações sobre Pernambuco, que eu captei em conversas e observações feitas ao longo dos meus oito dias de permanência, sobre a economia do estado, nos dias atuais. Viajando para Porto de Galinhas passamos pela nova economia do estado, impulsionada pela refinaria Abreu e Lima e pelo complexo industrial e portuário de Suape. Estas obras reconfiguram toda a economia pernambucana. Também fiquei surpreso com o polo têxtil instalado no agreste, nas cidades de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Ali as grandes lojas brasileiras buscam o seu abastecimento. Também é conhecido dos brasileiros o polo de vitivinicultura do rio São Francisco, na cidade de Petrolina e na baiana Juazeiro. E como Recife está perdendo a sua atividade portuária, ela terá que se reinventar, dedicando-se cada dia mais ao turismo e a prestação de serviços. A tradicional economia canavieira também continua com todo o vigor.
Riquezas naturais, históricas e culturais, o grande patrimônio de Pernambuco. Gonzagão e Gonzaguinha.

O turismo tem grande futuro. Poucos estados tem uma história e uma cultura tão ricas. E, em belezas naturais, nem se fala. Toda a sua costa litorânea, de norte a sul e de sul a norte formam um verdadeiro paraíso. Agora fiquei sem adjetivos para falar de Fernando de Noronha. Além disso tem os patrimônios imateriais do carnaval de Olinda e de Recife, do frevo, dos afoxés e maracatus e da ciranda.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Padre Cícero. Poder fé e guerra no sertão. Lira Neto.

Conheci o Lira Neto através de sua monumental biografia de Getúlio Vargas, em três volumes. Nunca escondi o meu gosto por biografias. Poucos livros nos dão melhores informações e contextualizações do que boas biografias. O meu amigo, professor Rodolfo sabe disso. Rodolfo é amigo de Lira Neto. Se conheceram, ministrando cursos em universidades americanas. E é meu amigo, dos tempos em que juntos lecionávamos na Universidade Positivo. Pois bem, Lira Neto estaria em Curitiba e marcara um jantar na casa de Rodolfo e, Rodolfo, gentilmente, me convidou.
Um livro extraordinário. Lira Neto. Padre Cícero - Poder, fé e guerra no sertão.

Um bom filé e um vinho, melhor ainda, nos reuniu numa agradabilíssima roda de conversas. A minha curiosidade sempre ronda pelas leituras de formação da pessoa. Todo o intelectual passa por uma montanha de livros. Falamos muito sobre leituras. Lira Neto também nos falava de sua trajetória de escritor/pesquisador. Obviamente que Getúlio ocupava o centro das conversas, os últimos documentos, as reações, as palestras. Mas, notava eu, volta e meia, Lira Neto falava de outro de seus livros, Padre Cícero. Falava com tanto entusiasmo, que já no dia seguinte, embora a nossa conversa tivesse entrado madrugada adentro, comprei o livro e já terminei de lê-lo. Uma maravilha.

Quem é afinal de contas o padre Cícero ou o famoso Padim Ciço. O que é a Juazeiro do Norte, a Meca do Sertão? As primeiras palavras na orelha do livro já nos fazem estas interrogações sobre o padre: "Santo ou impostor? Charlatão ou visionário"? Já Juazeiro foi o grande cenário do que ocorreu e continua ocorrendo. Para se ter uma opinião e formar uma ideia a respeito, será necessária a leitura de Padre Cícero - Poder, fé e guerra no sertão. Será necessário ler 557 páginas originadas de uma exaustiva pesquisa em fontes, muitas delas inéditas, sobre o apaixonante tema. É uma viagem à Serra do Catolé, ao Cariri no sertão nordestino, com passagens por Fortaleza, Rio de Janeiro e até no Vaticano. O santo padre chegou até a ser excomungado pelo Santo Ofício. Hoje, qual um novo Galileu, também está sendo reabilitado.
Entre um filé, taças de vinho e boas conversas. Com Lira Neto.

A introdução e o epílogo do livro se voltam para a atual questão da reabilitação do padre católico, que chegou a ser excomungado, mas que nunca teve a pena aplicada. No entanto, viveu grande parte de sua vida proibido de exercer as suas funções sacerdotais. Lira Neto terminou a escrita do livro em 2009 e a reabilitação ainda não acontecera, como ainda não aconteceu até hoje. Com isso as igrejas evangélicas neopentecostais continuam disputando fiéis, até entre os devotos do padim. Conter o avanço dos neopentecostais seria o grande objetivo da reabilitação de Ciço. "O padre Cícero é como um antivírus contra o avanço das seitas evangélicas", conta D. Fernando Panico, bispo da diocese do Crato, em entrevista ao New York Times, em 2005.

O livro, na verdade, são dois livros. O livro Primeiro: A cruz. E o segundo: A espada. Juntando os dois, temos o subtítulo do livro: Poder, fé e guerra no sertão. O primeiro livro tem três protagonistas: O padre Cícero, a beata Maria de Araújo e o bispo de Fortaleza, D. Joaquim. Mas um quarto personagem emerge naturalmente. É o padre Alexandrino, o vigário de Crato, uma espécie de inspetor Javert, sempre no encalço do padre. O segundo tem dois protagonistas: o padre Cícero e o seu preposto político, o médico Floro Bartolomeu. Se o padim é o santo da história, a Floro coube o papel de demônio.
Lira Neto com o professor Rodolfo Prates, o anfitrião da noite.


O padre Cícero Romão Batista nasceu no Crato em 1844, e não é um beato igual a Antônio Conselheiro. Ele é padre da igreja católica, formado dentro dos rigores do seminário da Prainha, de Fortaleza, dentro do espírito do Concílio de Trento e da contra reforma. O padre Cícero será sempre um padre extremamente conservador e abominava qualquer tentativa de desestabilização da ordem, menos as provocadas por seus beatos em suas batalhas e romarias. Antes de Cícero havia um padre místico que o deve ter inspirado e que introduziu o povo nas práticas de misticismo, o padre Ibiapina. Mas o centro de tudo será a beata Maria de Araújo e as hóstias que sangravam. Quanto mais ela era investigada, mais as hóstias sangravam. Os investigadores e homens da ciência, incrédulos igual a São Tomé, mudavam de lado, diante de tantas e tão renovadas evidências de milagre.

D. Joaquim está apavorado e põe no encalço de Cícero o terrível padre Alexandrino, cuja grande virtude não era a inteligência mas sim, a obediência e a fidelidade canina. A pequena Juazeiro, que ganha até capela, será comentada na nunciatura apostólica e chegará até a Congregação do Santo Ofício, em Roma. Padre Cícero passa por todas as penalidades imagináveis, chegando até a excomunhão, em documento assinado pelo Santo Ofício, mas que nunca foi aplicado. Quanto mais Cícero era perseguido, mais romeiros chegavam ao Juazeiro. Estes romeiros, formados por miseráveis em desespero, foram os responsáveis pela formação de uma das maiores fortunas materiais do Ceará, a fortuna do padre Cícero. Cícero chega até a ir para Roma, se defender perante o Santo Ofício. Ardilosamente a beata Maria de Araújo some do cenário, como também os paninhos embebidos em sangue, em obediência às ordens eclesiásticas, mas as medalhinhas bentas e milagreiras continuam fazendo a fortuna de Cícero.
A estátua do padim Ciço, em Juazeiro, no sertão do Cariri.


A ousadia do padre era enorme e o seu carisma popular só aumentava. Um dia chegam a Juazeiro duas pessoas, uma delas é o médico baiano Dr. Floro Bartolomeu. A cada dia que passa, Floro mais o padim, se unem quase que umbilicalmente. As ambições de Floro não tem limites. A dupla ocupa quase todos os cargos políticos possíveis. Cícero chegou a ser prefeito, vice presidente do Ceará e deputado federal, sem nunca ter ido ao Rio de Janeiro. Floro, além de  temido coronel, prefeito e deputado federal, também arregimentava e comandava tropas. Foi ele que organizou a "Sedição do Juazeiro", que derrubou o governo estadual. Também foi ele que convenceu o padre Cícero a solicitar o apoio de Lampião para combater a Coluna Prestes. Esta aventura patrocinou a Lampião o título de capitão, boa indenização e alguns agradáveis dias em Juazeiro. Prestes já driblara todo mundo e saíra ileso do Ceará. Floro é acometido se sífilis e morre cedo, com menos de 50 anos. Certamente isto foi bom para o padre.

Depois disso começa o declínio físico do padre, furúnculos, imobilidade e cegueira. Mas nada abalava o seu prestígio. Morre em 20 de julho de 1934 aos 90 anos de idade. Este é dia da romaria à cidade e que impulsionou o próprio crescimento econômico da cidade. Das rivalidades entre o Crato e Juazeiro, Juazeiro só saiu ganhando. Juazeiro tem hoje em torno de 250 mil habitantes, enquanto que o Crato, algo em torno de 95 mil. Juazeiro, além do grande centro de romarias também é o grande centro universitário do Cariri. Juazeiro, inclusive virou sede de diocese a partir de 1962. O Crato fora a segunda diocese do Ceará. Esta batalha Cícero sempre perdeu. Juazeiro que era para ser esta sede.
Lira Neto autografando o meu terceiro volume da biografia do Getúlio.


Para mostrar que Cícero não é unanimidade, embora os trabalhos de reabilitação estejam continuando, um historiador do Cariri, em livro intitulado O apostolado do embuste, assim se refere a Maria de Araújo, a beata que deu origem a toda a sua fama:"uma negra ignorante, que ingeria bons goles de cachaça, após fingidos êxtases". Se você se dirigir a Juazeiro, seja conduzido pela fé ou pela curiosidade e comprar lembrancinhas, especialmente as estatuetas do padre Cícero, certamente você está comprando produtos made in China. Em Juazeiro, a população evangélica já forma 10% da população. Estes trocaram os milagres do padim, pelos milagres da teologia da prosperidade. Se eles efetivamente acontecem, isso já é uma outra questão.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Sobre a Democracia. Reflexões. As águas de março.

Está se falando muito sobre a democracia. Não vou entrar em grandes debates e genealogias históricas. O presente post tem um objetivo bem claro que é o de apresentar a transcrição de uma fala, de pouco mais de dois minutos, do professor Leandro Karnal, muito apropriada para este momento da política, das águas de março de 2016, em que muitas forças estão tentando golpear a jovem democracia brasileira. Aproveito para trazer mais duas outras referências, uma do livro de Jacques Rancière, O ódio à democracia e outra, tirada do livro de Márcia Tiburi, Como conversar com um fascista - Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro.
O pequeno livrinho de Jacques Rancière. O ódio à democracia.

Na primeira referência, Rancière busca em Marx uma explicação do que seja a democracia:"as leis e as instituições da democracia formal são as aparências por trás das quais e os instrumentos com os quais se exerce o poder da classe burguesa". Em outras palavras. A democracia é a trincheira fortificada do Capital, com a qual a burguesia exerce o poder. As leis e os instrumentos do exercício do poder, a serviço do capital.

 Em outra passagem Rancière fala do ódio, dizendo que ele ocorre quando a democracia teme a democracia, quando ela se lança para além das meras formalidades que garantem a ordem burguesa, quando a sociedade se deixa corromper pela democracia participativa. "O governo democrático, diz, é mau quando se deixa corromper pela sociedade democrática que quer que todos sejam iguais e que todas as diferenças sejam respeitadas. Em compensação, é bom quando mobiliza os indivíduos apáticos da sociedade democrática para a energia da guerra em defesa dos valores da civilização, aqueles da luta das civilizações. O novo ódio à democracia pode ser resumido então em uma tese simples: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática".

Janine Ribeiro, na orelha deste mesmo livro explicita o que seria essa civilização democrática: "A democracia é hoje um significante poderoso, palavra bem-vista e que agrega um número crescente de possibilidades, indo da eleição pelo povo até a igualdade entre os parceiros no amor. Mas essa expansão da democracia incomoda".
Democracia é uma das palavras mágicas do capitalismo.

O livro da Márcia Tiburi é fantástico, mas quero aproveitar apenas um único parágrafo: "A sedução capitalista que escamoteia a opressão organiza-se na forma de uma constelação de palavras mágicas, por meio das quais o falante e o ouvinte acreditam realizar todos os seus desejos. Palavras como felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito, são todas mágicas. Uma dessas palavras mágicas usadas pelo capitalismo é a palavra democracia. Antidemocrático, o capitalismo precisa ocultar sua única democracia verdadeira - a partilha da miséria".

Mas vamos a transcrição da fala do Leandro Karnal. Deve ter sido em resposta a uma questão que lhe foi colocada numa palestra. Diz assim: "Quando eu vi um jovem pedindo a volta da ditadura, eu me senti errado, fracassado, porque eu não consegui transmitir a ideia de horror à ditadura. Então eu quero redobrar os esforços para dizer às pessoas que a democracia não é o sistema onde todo mundo é ético, mas é o sistema onde os não éticos podem ser punidos. A democracia não é o sistema onde todo mundo é bom, mas é o sistema em que alguns ruins podem ser punidos. A democracia não é um sistema perfeito - usando a frase de um conservador - Churchill - que ela é o pior dos sistemas, com a exceção de todos os outros.
 Leandro Karnal é professor de História na UNICAMP.

Não há denúncia de corrupção na Coreia do Norte. Não há denúncia na Itália fascista. Não há denuncia de corrupção no período militar. Quando eu faço uma denúncia de corrupção no período militar, como Elis cantou em o bêbado e o equilibrista, eu tenho que fazer uma metáfora da metáfora da metáfora. Caía a tarde feito um viaduto, para falar de uma obra super faturada, com material inferior, que desabou. Eu tenho que fazer a metáfora da metáfora.

Ou alguém supõe que as mesmas empreiteiras que agora estão no banco dos réus, quando fizeram Itaipu eram de uma probidade absoluta, que estas empresas eram regidas por anjos e agora por demônios. A diferença das empresas da década de 1960 - 70 - Itaipu, Angra dos Reis, Ponte Rio- Niteroi, Transamazônica, Metrô, a diferença dessas empreiteiras é que não havia nessa época um Tribunal de Contas. Não havia uma Polícia Federal que batalhasse para isso. Não havia juízes autônomos, não havia Opinião Pública. E aí os generais e os comandantes passavam por honestos. Honestidade, neste caso, era ausência de denúncia.

A democracia é o sistema que possibilita que eu traga a julgamento essas pessoas. A democracia é o sistema que permite que eu cresça, que eu debate, que eu faça essas coisas. Por isso é que a democracia não é apenas o melhor sistema, mas é o único sistema que permite alguma ética, alguma justiça, que alguma igualdade social possa existir, mesmo com as suas falhas estruturais".
Jessé Souza autografando o seu livro A Tolice da inteligência brasileira.

Me permitam ainda uma última referência. Esta é de Jessé Souza em sua Aula Magna, de abertura do ano letivo de 2016, do curso de Direito da UFPR. "Democracia não é voto. Democracia é voto consciente. E para ter voto consciente é preciso que exista uma mídia democrática, que permita ao eleitor, ao menos enxergar as profundas contradições existentes na sociedade". O mesmo não valeria também para a educação, pergunto eu?

segunda-feira, 14 de março de 2016

O Trabalho Guarani Missioneiro no Rio da Prata Colonial. 1640-1750.

Depois da viagem pelas terras missioneiras,continuam as leituras. Agora foi a vez de uma dissertação de mestrado, O Trabalho Guarani Missioneiro no Rio da Prata Colonial, 1640 - 1750, de Eduardo Neumann. A publicação é de Martins Livreiro - Editor. O adquiri numa banca de artesanato, junto às ruínas de São Miguel. A delimitação de datas deve ter a ver com a batalha de M'bororé (1641) em que ocorreu a vitória dos índios guaranis sobre os bandeirantes portugueses e que marcou o início do grande êxito do "santo experimento", como foi qualificado por Umberto Eco. 1750, por sua vez, foi o ano do Tratado de Madri, quando começa a derrocada.
O livro de Eduardo Neumann. Uma visão perfeita do que foi o projeto das Missões.

Antes de mais nada, gostaria de afirmar que o "santo experimento" se originou junto aos padres jesuítas paraguaios e todos os territórios pertenciam à Espanha. Os jesuítas paraguaios começaram a aldear os índios em reduções a partir da região onde está a cidade de Guaíra, próximo às sete quedas. Daí, em virtude das perseguições dos bandeirantes, houve uma retirada para onde hoje se situam as ruínas das missões no Paraguai e, especialmente, na Argentina. Apenas mais tarde, em revide aos portugueses pela fundação e refundação da Colônia do Sacramento, é que ultrapassaram as margens do rio Uruguai, instalando em São Borja o primeiro dos Sete Povos das Missões, em território gaúcho. Este veio a pertencer a Portugal,em função do Tratado de Madri. Digo isso, para resguardar um olhar de época. Tudo era uma extensão hispânico-jesuítica-paraguaia.
Depois de visitar as Missões, afirmo que o melhor lugar para ver como era o projeto, é em Trinidad, no Paraguai

O livro de Neumann possui quatro capítulos: O primeiro, denominado O Palco, aborda os seguintes tópicos. Buenos Aires e o cenário em que são examinados os aspectos e condições da cidade-porto, as populações indígenas, os condicionantes hispânicos e a demanda e a oferta de ofícios mecânicos. A minha atenção se voltou, particularmente, para as enormes dificuldades que Buenos Aires encontrou para se estabelecer. Isso veio a ocorrer, já nos idos do século XVII. O porto precário, poucos trabalhadores qualificados e índios hostis foram as grandes dificuldades. Quanto aos índios, eles foram qualificados em dois grupos, os guaranis aldeados e os hostis e belicosos, os charruas e os minuanos. Buenos Aires sempre se beneficiou da força de trabalho dos índios das reduções jesuíticas.

O segundo capítulo, denominado Os bastidores, tem uma espécie de subtítulo: um centro de capacitação e qualificação. É para todos aqueles que tem uma curiosidade maior em saber o que era efetivamente o método do projeto jesuítico das reduções e as causas de seus enormes, elogiados e reconhecidos êxitos. Os principais tópicos são o florescimento das reduções, os seus centros de instrução, ou o pátio dos artífices, a bela relação dos índios com a natureza, que comanda as suas atividades econômicas sazonais e a difícil questão da disciplina. Fugas e castigos são examinados. O rigor jesuítico é famoso. Lembrando que Inácio de Loyola era de origem militar. Mais, os jesuítas foram os guerreiros da contra reforma.
As fantásticas ruínas da monumental igreja de São Miguel.

O terceiro capítulo denominado, O Grande cenário, remete para a participação dos guaranis na vida colonial do rio da Prata. Ele é uma decorrência do capítulo anterior em que foram examinadas as oficinas de trabalho e a aprendizagem dos diferentes ofícios entre os guaranis. Os jesuítas alemães haviam sido os grandes mestres. Os índios missioneiros guaranis supriram, tanto Assunção, quanto Buenos Aires de toda a força de trabalho qualificado de que necessitavam. Isso, acredito, fez com que o império espanhol os deixasse em relativa paz. Os jesuítas não confrontavam com o reino. Os índios trabalhavam no preparo das guerras, como também nelas se destacavam. Eram os pedreiros, os carpinteiros e outras profissões do gênero nas obras públicas e fabricavam todos os tipos de embarcações para o transporte e o abastecimento. Ainda é abordada a complicada questão dos tributos. Os jesuítas sempre foram habilidosos negociadores e, a requisição de trabalhadores quase sempre lhes rendeu belas compensações.
A catedral da cidade de Santo Ângelo. Lembrando São Miguel.

O quarto capítulo denominado, A cena em foco e os atores sociais é uma espécie de continuação do primeiro capítulo, mais a inserção do segundo e do terceiro, como o seu grande complemento. Ou seja, Buenos Aires e, mais tarde, Montevidéu em  muito se beneficiaram com a rica experiência das Missões. Aí estão também as complicadas questões da geopolítica da bacia platina, com as rivalidades entre portugueses e espanhóis. Os portugueses fizeram da  Colônia do Sacramento uma extensão da atividade dos bandeirantes, trazendo o ilícito do roubo de cavalos e boiadas aos índios infiéis, razão pela qual os jesuítas procuravam evitar que os guaranis tivessem qualquer contato com eles. Esta questão foi resolvida pelo Tratado de Madri, que trouxe o rápido fim deste experimento, ímpar na história. Colônia do Sacramento seria espanhola e os Sete Povos pertenceriam a Portugal. Portugal e Espanha deveriam pacificar a região.

Enfim, um belo livro com o qual aprendi muito. E Neumann, no último parágrafo de suas considerações finais nos dá o rumo de suas próximas pesquisas, levantando uma interessante questão: "Há de se considerar que esses indígenas, quando irrompiam o perímetro urbano de Buenos Aires, igualmente deviam perguntar-se o porquê de trabalharem para outros, já não bastando o que labutavam no âmbito missioneiro. Essa pergunta pretendo analisar mais detidamente, em outra investigação, pois pouco da voz dos protagonistas desta pesquisa chegou até nós".









quinta-feira, 10 de março de 2016

O Mal sobre a Terra. Uma história do terremoto de Lisboa. Mary del Priore.

A minha maior curiosidade ao iniciar a leitura do livro de Mary del Priore, O Mal sobre a Terra - A história do terremoto de Lisboa, foi a de contextualizar a política de Portugal nos meados do século XVIII, e mais de perto, ver as políticas e a importância histórica do marquês de Pombal na história do povo português. Duas viagens me despertaram para esta curiosidade. Em Diamantina, lendo a história de Chica da Silva me deparei com o marquês e, agora, mais uma vez me encontrei com ele, numa viagem às terras missioneiras no Paraguai, na Argentina e no Rio Grande do Sul.
O livro de Mary del Priore sobre o terremoto de Lisboa. Uma contextualização da segunda metade do século XVIII.

Como conheço a historiadora, lhe dei os créditos necessários para atender as minhas curiosidades e, mais uma vez, fui inteiramente contemplado. O terremoto de Lisboa ocorreu no dia primeiro de novembro de 1755, em pleno dia de todos os santos, um pouco antes das dez horas da manhã e que durou algo em torno de quinze minutos, sendo seguido por um maremoto e por inúmeros incêndios, que consumiram quase todo o centro histórico de Lisboa. O número de mortos, varia conforme as diferentes fontes, entre 15.000 dos mais moderados e 85.000 dos mais extremados. Algo em torno de nove graus na escola de Richter, teria sido a sua intensidade e com prejuízos em torno de 20.000 contos de réis. 

O livro possui quatro capítulos. O primeiro: Antes do terremoto: a cidade e as terras, o segundo: Durante o terremoto: o furor da terra, o terceiro: Depois do terremoto: Lisboa "toda cheia de mágoa e tristeza" e o quarto: A incerta memória do terremoto. Também tem  prefácio de Francisco José Calazans Falcon, autor de livro sobre o tema, datado de 1975 e introdução e conclusão da própria historiadora.
A historiadora Mary del Priore.

O primeiro capítulo nos dá uma bela visão da suja e feia Lisboa da primeira metade do século XVIII, a Lisboa de D. João V. Faltava água, limpeza e higiene. Muitos viviam na indigência à espera de sopas fornecidas pela caridade do rei, dos nobres e dos religiosos. A cidade era entregue aos perigos e à sujeira. A violência grassava em todas as ruas, sempre mal iluminadas. O processo civilizatório era lento em meio a um "esbanjar de riquezas escassas", como relatava um viajante um pouco mais atento. O absolutismo era total, tanto na política quanto na religião, sob a onipotência do Tribunal do Santo Ofício. Os autos de fé que antecediam as execuções eram festas monumentais e monstruosas. Os votos de castidade de padres e freiras não eram, digamos, inteiramente cumpridos. A dependência econômica da Inglaterra aumentava na mesma proporção em que escasseava o ouro da colônia brasileira. A esperança se fazia presente com as fantasias do sebastianismo, da volta do bom rei.

O segundo capítulo se ocupa das descrições do fenômeno do terremoto, do seu depois e das terríveis consequências. Ele durou um pouco mais de dez minutos e ocorreu um pouco antes das dez horas da manhã. Foi seguido de maremoto e de incêndios. O povo, nesta hora, ainda se acotovelava nas igrejas, em suas preces matinais, o que fez aumentar enormemente as vítimas, com a queda das cúpulas. A dignidade e a bestialidade humana andavam juntas. Houve muita solidariedade e atos abjetos de saque e de pilhagem. Familiares eram abandonados, na busca da salvação individual. D. José mostrou ser um rei caridoso e a Pombal coube a glória da reconstrução. Como em Sodoma e Gomorra, as causas foram atribuídas ao castigo divino. Pombal não foi um heroi. Se herois houve, todos foram anônimos.

O terceiro capítulo se ocupa do posterior ao acontecido. Aí entram os números. Nove graus de intensidade na escala Richter. Conforme as fontes, houve, de quinze a oitenta e cinco mil mortos, que por decisão real deveriam encontrar abrigo definitivo sob as águas do mar, fato que causou muitos abalos diante da religiosidade do povo com os rituais dos cerimoniais fúnebres. A ira divina continuava fumegando por toda a cidade e os dias eram de reconciliação com a Divina Misericórdia. O fato tem repercussões mundiais e houve muita mobilização para amenizar os efeitos funestos para com os sobreviventes. Aos poucos Lisboa volta à sua normalidade, isto é, ao que era antes do "castigo divino". O arrependimento não ganhava formas concretas. A corrupção voltou a grassar solta e as interpretações religiosas atingiam a impenitência e a luxúria do clero e da nobreza. Os jesuítas são acusados até de uma tentativa de um ato regicida, atentando contra a vida de D. José. O jesuíta italiano, Malagrida faz acusações e sinistras profecias. A sua popularidade aumentava. Os jesuítas deixam de ser os confessores dos reis, as Missões lhes são tomadas e, enquanto são expulsos de Portugal, Malagrida é condenado a expiar seus pecados na terrível mas previsível fogueira.
As ruínas da igreja de São Nicolau, que ilustra a capa do livro.


O quarto capítulo se ocupa das memórias e interpretações do terremoto. Lembrando que o século XVIII foi o século do iluminismo. As luzes da razão começavam a clarear as ideias obscurantistas que prevaleciam até então, mas permaneciam distantes de Portugal. As interpretações religiosas da ira divina, prevaleciam até mesmo no mundo da ciência iniciante, havendo convergências entre a religião e a ciência. Praticamente todos os sábios do mundo se manifestaram sobre o fenômeno, entre eles, Kant, Voltaire e Rousseau. A observação de Rousseau é interessante e merece um destaque: "Em seu entender, a natureza não reunira 20 mil casas de seis ou sete andares e, se os habitantes da cidade tivessem sabido dispersar-se para construir suas casas, os desgastes teriam sido quase nulos! Quantos não morreram - criticava com amargor - por quererem buscar roupas, papéis ou dinheiro?"

Também Voltaire lança um olhar extremamente irônico: "Os 100 mil homens que desapareceram em Lisboa já foram reduzidos a 25 mil. Em breve, o serão a 12 ou dez. Apenas os negociantes sabem com precisão suas perdas, pois conhecem as contas de sua mercadoria; os reis não conhecem jamais as de seus homens". Quanto aos comerciantes ingleses, também atribuíam à ira divina, as causas do terremoto. Mas a sua racionalização era diferente. Era a versão protestante. Lisboa fora castigada pela onipresença religiosa dos jesuítas, pelos excessos do Tribunal da Inquisição e pela constante perseguição aos comerciantes judeus.
Sebastião José de Carvalho e Melo, o poderoso marquês de Pombal.


Uma última palavra sobre o marquês de Pombal, o "homem terremoto". Esta caricatura, a historiadora a buscou em Oliveira Martins, que assim se referia ao plenipotenciário ministro. "Ele diria que o 'jesuitismo' caricatural que dominava o país deixara um 'vazio'. Para substituí-lo, inventou-se o 'homem terremoto', Pombal, cuja ação desapiedada, tão violenta quanto a do desastre natural, procura dar uma modelagem racional à sociedade". Pombal é apresentado nos livros de história como um déspota esclarecido. De déspota, com certeza, tinha tudo. Em compensação, de esclarecido, muito pouco. Em suma, um grande e belo livro.




quarta-feira, 9 de março de 2016

A República Comunista Cristã dos Guaranis. Padre Clovis Lugon.

Uma viagem sempre traz muita riqueza cultural. Em fevereiro fizemos, eu e meus amigos Valdemar e Adilson, uma viagem para as terras missioneiras no Paraguai, na Argentina e no Rio Grande do Sul. Numa banca de artesanato, nas ruínas de São Miguel, comprei um livro com o título de Sepé Tiaraju - Romance dos Sete Povos das Missões, de Alcy Cheuiche. Este livro tem um prefácio maravilhoso de um padre suíço, chamado Clóvis Lugon, autor de um livro com o significativo título A República Comunista Cristã dos Guaranis - 1610-1778, que já localizei e comprei na Estante Virtual. A edição original do livro, escrito em francês, data de 1949 e a primeira edição brasileira, de 1970.
O autor deste livro prefacia o romance histórico Sepé Tiaraju - Romance dos Sete Povos das Missões.

O presente post se foca apenas no prefácio, o Préface Historique, escrito para o livro de Alcy Cheuiche. O faço em função da bela síntese nele apresentada sobre o que foi esta maravilhosa experiência das missões jesuíticas. Padre Clovis manifesta enorme satisfação em reencontrar Sepé e apresentar pequenas notas históricas como prefácio ao livro. Assim ele se manifesta: "Trata-se aqui, mesmo apresentada rapidamente e com elementos fragmentários, de uma visão geral dos fatos históricos, onde está inserido o romance". Desta visão geral seleciono alguns tópicos, tecendo ainda ligeiros comentários.
Neste romance histórico está inserido o prefácio escrito por Clovis Lugon.

"O romance faz alusão aos terríveis atentados sofridos pelos guaranis durante as duas ou três primeiras décadas de instalação das comunidades cristãs, até 1641, data da vitória decisiva de Mbororé sobre os escravagistas. Estas comunidades já eram prósperas e bem organizadas. Muitas contavam  de 6.000 a 10.000 almas. Além das dezenas de milhares  de vítimas mortas ou vendidas, muitos indígenas pereceram quando das migrações maciças de 1631 e 1638-39, impostas pela necessidade de abandonar as áreas mais expostas".  Me lembro de Romina, a nossa guia em Trinidad, no Paraguai e o seu enorme ódio, quando se referia aos bandeirantes. Já em Loreto, na Argentina, o guia nos falava que estas eram as reduções que eram originárias da região de Guaíra e deslocadas neste período referido. Também nos informou que, na época, Buenos Aires contava com uma população de cinco mil habitantes.

"As trinta e três populosas cidades da República dos Guaranis estavam construídas e equipadas segundo um urbanismo de vanguarda para a época. Sem emulação malsã, posto que a riqueza material era excluída, a vida social era intensa e os lazeres prolongados graças a uma jornada de trabalho que não ultrapassava oito horas por dia. Quantos aspectos originais e de sucesso na instrução das crianças, obrigatória para meninos e meninas, com orientação profissional em agricultura, artesanato, indústria, comércio, administração da justiça! O espírito geral pode ser exemplificado por uma carta  escrita pelo cabildo de São Luís Gonzaga logo após a expulsão dos jesuítas e que diz, entre outras coisas: 'Nós queremos fazer ver que não gostamos do costume espanhol de cada um por si, em lugar do nosso de ajudar-se mutuamente". A melhor visão destas cidades é vista na redução de Trinidad no Paraguai.
Adilson, a guia Romina e o Valdemar na redução de Trinidad, no Paraguai.

"A guerra guaranítica só se desencadeou verdadeiramente quatro anos após a assinatura do tratado (Tratado de Madri - 1750), ou seja em 1754, porque os jesuítas, orientadores espirituais dos guaranis, conseguiram obter um primeiro adiamento, depois um segundo, e porque os chefes militares espanhois e portugueses não se entenderam sobre a condução das operações". Clovis Lugon destaca ainda algumas frases do chefe Sepé: "O território que pretendeis invadir pertence a Deus e a São Miguel" e "O que nós possuímos é o fruto de nossas fadigas... Nós não somos somente os Sete Povos da margem esquerda, mas doze outras reduções estão decididas a se sacrificarem conosco". Estas frases foram ditas aos chefes espanhois.

Lugon também fala sobre os motivos da derrota: "Para os guaranis, no entanto, faltou o essencial durante o armistício: a mobilização efetiva, moral e militar, das 26 outras reduções". "O território da República se prestava admiravelmente a uma resistência sem fim por uma configuração, suas florestas, os grandes pântanos do oeste paraguaio. Além disso, [...] os guaranis estavam preparados para derrotar então não importa qual exército colonial. Durante mais de um século, ninguém mais ousara atacá-los". Sobre a riqueza de São Miguel fala o seguinte: "A catedral foi avaliada em um milhão de pesos pelo engenheiro-chefe das tropas espanholas. Um candelabro de prata maciça com trinta ramificações guarnecidas de ouro estava suspenso ao teto da nave por uma corrente também de prata".
As ruínas da mais famosa igreja das Missões, a de São Miguel, no Rio Grande do Sul.

Também fala das estratégias de guerrilha adotadas por Sepé: "Ataques surpresa, reagrupamentos rápidos sobre nova linha após uma retirada, tática dos campos queimados, todo um campo de cavalaria feito prisioneiro". Também os jesuítas merecem uma palavra sobre este momento final: "Preferindo a ruína da República Guarani à da própria Companhia de Jesus, seus altos responsáveis conseguirão a ruína de uma e de outra. Pombal e todos os adversários dos jesuítas serão tranquilizados por sua submissão rápida e integral a um tratado imoral e contrário aos direitos humanos. A verdadeira escolha não estava entre a existência da Companhia de Jesus ou da República Guarani", e continua:

 "No momento mais duro, alguns padres vão fazer causa comum com os guaranis atacados. Alguns deles, no entanto, só ficarão com suas ovelhas sob ameaça de morte. Onze jesuítas, entre eles o Pe. Balda, terão a honra de ser colocados em uma lista negra de traidores enviada a Madri. Os outros obedecerão às ordens estritas enviadas de Roma pelo Geral da Companhia, Visconti. Antes da retomada das hostilidades, o provincial do Paraguai  renunciará oficialmente aos Sete Povos e garantirá que os jesuítas estão prontos a abandonar sem hesitação as outras reduções".
Monumento em São Sepé. Homenagem a um mito, um santo popular.


Lugon termina o memorável Préface Historique também de maneira extraordinária: "Com sua graça infantil, a república Guarani viverá por muito tempo ainda, interpelando cristãos e comunistas, muito cristã para os comunistas da época burguesa, muito comunista para os cristãos burgueses".

Estou terminando de ler O Mal sobre a Terra. Uma história do terremoto de Lisboa, de Mary del Priore. Este terremoto ocorreu no dia primeiro de novembro de 1755. Contextualiza muita coisa, do envolvimento dos jesuítas com o rei D. José e de seu ministro, o marquês de Pombal. As causas maiores da expulsão dos jesuítas teriam sido a acusação de envolvimento com uma tentativa de regicídio e as pregações do famoso padre Malagrida.



sábado, 5 de março de 2016

Sepé Tiaraju. Romance dos Sete Povos das Missões.

Em nossa viagem pela região missioneira, por terras paraguaias, argentinas e gaúchas, já em Posadas, capital da província de Missiones, procurei uma livraria, atrás de bibliografia sobre uma das mais bem sucedidas e épicas utopias da história da humanidade. Encontrei apenas dois títulos, que por serem muito específicos, não me chamaram maior atenção. Já em São Miguel, numa banca de artesanato me deparei com cerca de 20 títulos referentes ao tema. Um deles foi o clássico do padre peruano, Antonio Ruiz de Montoya, A Conquista Espiritual.
O romance histórico de Alcy Cheuiche, em oitava edição, pela editora AGE. Sepé Tiaraju.

Minha atenção também se voltou para um outro título. Sepé Tiaraju - Romance dos Sete Povos das Missões, de Alcy Cheuche. Hoje pela manhã terminei de lê-lo. Um belo romance, com um primoroso prefácio. Este é de autoria do padre suíço Clóvis Lugon, autor de A República  Comunista Cristã dos Guaranis, que já estou providenciando na Estante Virtual. O romance histórico se divide em três partes: Livro primeiro: A gênese de um jesuíta; livro segundo: As missões do rio Uruguai e, livro terceiro: O Tratado de Madrid.

O romance histórico é muito bem construído, com todas as liberdades concedidas ao romancista. O narrador é o padre Miguel, se exercitando, num extremo esforço de memória, para reconstruir sua trajetória de vida, e a de Sepé, num crescendo extraordinário. A primeira parte do livro nos remete a Amsterdã, onde encontramos o jovem Michael, às turras com a violência familiar, praticada pelo tosco de seu pai, que confundia as letras com o ser maricas. Junto com uma pessoa amiga estabelece a sua rota de fuga, na qual encontra um marinheiro, Ben Ami, que se torna seu protetor e amigo. Entram também em cena as primeiras reminiscências sobre Sepé.
O livro de Cheuiche tem um prefácio memorável escrito pelo autor deste livro, Clovis Lugon.


A primeira parte termina num lamentável incidente na Ilha de Páscoa. Michael resolve permanecer no Peru, mesmo se separando de Ben Ami. A companhia com os padres jesuítas o leva a ser um sacerdote da companhia, com destaque todo especial para o padre Cattaneo. Agora será o padre Miguel e este rumará para o território das Missões, após conhecer o espanhol, o guarani e conhecimentos de medicina. Se fixará na Missão de São Miguel. Lá atende um menino com escarlate. Lhe salva a vida, mas não a de seus pais, que lhe lançam um apelo final. Tomar sob seus cuidados o menino. O menino é o próprio Sepé, filho dos caciques Tiaraju. Nesta parte do livro são feitas as mais belas descrições sobre o que foi este grandioso e utópico projeto, um projeto socialista e cristão. Todas as diferentes Missões atuavam interligadamente, com muita autonomia. Os jesuítas apenas supervisionavam o trabalho. Após os conflitos iniciais com os bandeirantes, derrotados na batalha de Mbororé, conhecem os seus cem anos de prosperidade.

Na descrição aparece com muito destaque a chegada do irmão Prímoli, o mais notável arquiteto da Companhia de Jesus, oriundo da Itália. Trazia consigo um monte de papéis cheios de desenhos. Estes começaram a ganhar forma, ao longo de dez anos de trabalho. É a catedral de São Miguel, aquela que sobrou em ruínas, que são hoje as mais visitadas. Foi avaliada em um milhão de pesos, pelo engenheiro chefe das tropas espanholas, conforme nos conta o padre Clovis no prefácio do livro. Conta também que chamava a atenção um candelabro de prata maciça, com trinta ramificações guarnecidas em ouro, suspenso na nave central da igreja, por uma corrente também de prata. As grandes riquezas foram a erva mate, o couro e o algodão. Não havia exclusão social nas Reduções. Do ponto de vista do conhecimento histórico, do que foram as Missões, é o capítulo mais interessante. O capítulo termina com a eleição de Sepé como o corregedor geral da Missão de São Miguel. O seu discurso de posse é um monumento à democracia.
A bela igreja de São Miguel, do italiano, irmão Prímoli, o maior arquiteto da Companhia.


Os cem anos de tranquilidade do projeto chegam ao seu final com a realização do Tratado de Madrid em 1750. O padre Miguel o conhecerá com a chegada do padre Balda, que lhe traz, de Roma uma carta do padre Cattaneo. Em suas memórias o padre Miguel destaca as seguintes cláusulas: "Artigo XIV. Sua Majestade Católica, em seu nome e de seus Herdeiros e Sucessores, cede para sempre à Coroa de Portugal todas e quaisquer povoações e estabelecimentos que se tenham feito por parte da Espanha no ângulo de terras compreendido entre a margem setentrional do rio Ibicuí e a oriental do Uruguai".

"Artigo XVI. Das Povoações ou Aldeias que cede sua Majestade Católica na margem oriental do Uruguai sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para aldear em outras terras de Espanha; e os referidos índios poderão levar também todos os seus móveis e semoventes, e as Armas, Pólvora e Munições que tiverem; em cuja forma se entregarão à Coroa de Portugal, com todas as suas Casas, Igrejas e Edifícios e a propriedade e posse do terreno".

"Artigo XXII. Determinar-se-á entre as duas Majestades o dia em que se hão de fazer as mútuas entregas da Colônia do Sacramento com o território adjacente, e das terras e Povoações compreendidas na cessão que faz sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai; o que não passará do ano, depois de se firmar o Tratado".

Sepé organizou o povo também militarmente e resistiu bravamente. Foi ao encontro de portugueses e espanhóis, unidos na destruição do projeto cristão e socialista. Só não venceu porque muitos padres mantiveram-se fiéis ao voto de obediência aos seus superiores e aceitaram a humilhação da capitulação. Uma dúzia de jesuítas, no entanto, permaneceu obediente a Deus e coerente com o projeto de evangelização e humanização e permaneceram ao lado dos caciques indígenas, como o vinham fazendo ao longo mais de cento e cinquenta anos.
O romancista gaúcho Alcy Cheuiche.


Sepé foi o primeiro a tombar. A derrota final abateu também o seu herdeiro, o novo comandante Nhenguiru, no conhecido massacre de Caiboaté. Finalmente os índios se retiraram para o outro lado do Uruguai, no refúgio em terras argentinas. Pouco depois, em 1767 os jesuítas também foram expulsos dos territórios espanhóis e em 1773 a Companhia de jesus foi extinta pelo papa. Em 1814 houve a refundação, quando o projeto socialista e cristão já não mais ameaçava os alicerces da cultura ocidental, cada vez mais individualista sob os princípios do liberalismo. O latifúndio desquerenciou os guaranis.

Sepé foi semeado em cova rasa e, rapidamente floresce o mito e todo o simbolismo de amor à terra, às causas abraçadas e de lealdade de princípios, princípios estes, herdados com a fantástica experiência da República Comunista Cristã dos Guaranis. Embora não canonizado, Sepé virou santo e a cidade com o seu nome, além de toda a força da fé popular, é a sua prova decisiva. Que o diga o povo da cidade gaúcha de São Sepé. Um romance simplesmente extraordinário, que está em 8ª edição e com edição em espanhol e em alemão. Esta experiência também chamou a atenção de toda a Europa erudita do século XVIII, de sábios como Voltaire, Montesquieu e d'Alembert, nos conta Lugon em seu prefácio ao belo romance histórico.




quinta-feira, 3 de março de 2016

O Regresso. Alejandro G. Iñárrítu.

O Regresso me fez lembrar de outro filme, que no ano de 2014 recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de Gravidade, filme em que Sandra Bullock, se fosse na vida real, teria morrido um milhão de vezes. A lembrança deste filme se deve a situação idêntica, que ocorre com Leonardo DiCaprio, que vive, em 90% do filme, nos limites entre a vida e a morte. Em condições reais não teria, nem sequer, sobrevivido ao ataque do urso.
Cartaz promocional do filme O Regresso.

Outra interrogação que também me fiz, ao longo de todo o filme, foi sobre a intenção do mesmo. Quais seriam as reais intenções para a realização deste filme? Apenas na parte final aparece com clareza que se trata de mostrar a vingança de Hug Glass (Leonardo DiCaprio) sobre John Fitzgerald (Tom Hardy), por este haver matado traiçoeiramente o seu filho. Muita luta e muita ação e, sempre no limite dos personagens.

Seguramente não é este o tipo de filme que eu gosto. Eu gosto de dramas psicológicos íntimos, de diálogos que reflitam sobre o drama vivido pelos personagens e não de filmes de ação e de luta. No entanto, não questiono a atuação de Leonardo DiCaprio, que por esta sua atuação recebeu o prêmio de melhor ator e, muito menos, os méritos de Alejandro Gonzáles Iñárrítu, bicampeão do Oscar de melhor diretor. Destacaria as belas paisagens como um dos grandes méritos do filme. Vales de rios, tempestades de neve e belos amanheceres. Por outro lado, muito sangue. Destacaria ainda a bela mensagem junto ao índio enforcado: "Somos todos selvagens".
Uma das cenas mais famosas. A luta com o urso.

No Adoro Cinema, que costuma publicar a melhor e a pior avaliação de seus leitores, coube ao leitor que fez a pior avaliação conferir ao filme a nota de 0,5, afirmando que o filme é ruim e cansativo. Quanto ao cansativo, pode até ser, mas ruim, não. Afirma ainda que Leonardo DiCaprio quase não fala. Isso me fez perguntar pelo merecimento de prêmio como melhor ator. Será que todas as suas potencialidades de interpretação puderam ser avaliadas, ou o prêmio teria sido conferido pelo conjunto de sua obra, de interpretações sempre significativas do ator? Por fim este leitor recomenda: "Não percam o seu tempo e dinheiro". Jamais eu chegaria a tanto.

Se não me atrevo a criticar a atuação de DiCaprio e de Iñárrítu, admitiria, no entanto, contestar a sua indicação como candidato ao Oscar de melhor filme. Como podem ter observado, não gostei muito deste filme. É o quinto filme com indicação de melhor filme que vejo e, por enquanto, eu lhe atribuiria o quinto lugar. Volto a destacar. Não é o gênero de filme que eu gosto. Facilmente eu o substituiria pelo Oito Odiados ou pelo A Grande Aposta.
DiCaprio recebendo o Oscar de melhor ator. Belo discurso ambiental.

Mas do que mais gostei foi o posicionamento de DiCaprio ao receber o seu troféu. Um comentário duro e certeiro sobre a questão da preservação ambiental, sem romantismos: Transcrevo na íntegra: "O Regresso foi sobre a relação do homem com a natureza, um mundo que teve em 2015 o ano mais quente já registrado. Nossa produção teve que se mudar para a parte mais ao sul do planeta só para achar neve. A mudança climática é real. Está acontecendo agora".

E acrescentou: "É a ameaça mais urgente à nossa espécie, e precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade, pelos povos indígenas do mundo, pelos bilhões e bilhões de pessoas desamparadas que serão as mais afetadas por isso, pelos nossos netos, e por essas pessoas que tiveram suas vozes afogadas pela ganância política". 

Acabo de ler a crônica de meio de semana que Veríssimo publica nos jornais. Ele fala de DiCaprio. Vejamos: "Não entendi o Oscar para o Leonardo DiCaprio, que, no filme, passa tanto tempo sofrendo que não tem tempo para atuar (deveriam ter dado o prêmio para a ursa)".

quarta-feira, 2 de março de 2016

Brooklyn. John Crowley.

Mais uma história da católica Irlanda. Só que desta vez uma história muito positiva, em que o padre Flood, o padre irlandês que atende em Nova York, no Brooklyn, aos imigrantes irlandeses. No filme será ele que arrumou o emprego para Eilis Lacey (Saoirse Ronan) para que ela pudesse fazer a sua vida na terra das oportunidades. Além disso o padre promovia bailes e atividades beneficentes para os irlandeses que, depois de muito trabalharem, eram jogados na miséria.
Cartaz promocional do belo filme Brooklyn.


A história inicia na pequena cidade de Enniscothy, onde vivia a família Lacey. Ela era composta por três mulheres. A narrativa se centra em Eilis, a menina protagonista da história, sua mãe, que enviuvara recentemente, e sua irmã Rose. A falta de oportunidades faz com que Eilis, ajudada pela irmã se mude para os Estados Unidos, mais precisamente para o Brooklyn, em Nova York. Em Enniscorthy ela conseguira apenas um emprego de duas horas, aos domingos pela manhã, após a missa, com uma rabugenta senhora, dona, digamos de uma padaria/mercearia.

Eilis é toda ingenuidade e absolutamente despreparada para a vida e para o mundo. A viagem é um desastre. Comida ruim, banheiro, vômitos e gente incompreensível. Finalmente uma ajuda. Uma outra passageira lhe dá algumas dicas. A adaptação no Brooklyn é difícil. A modesta pensão, a futilidade das colegas, a timidez no trabalho e, especialmente, as infinitas saudades de tudo o que deixara na Irlanda, a mãe e a irmã.
Outro cartaz de Brooklyn destacando a imigrante irlandesa Eilis.


De bom, a ajuda do padre. Este, que já lhe tinha arrumado o emprego numa loja de departamentos, agora a convida para os bailes que organiza para os imigrantes e a integração nos trabalhos de assistência social e integração humana que a paróquia promovia. Também lhe proporciona a oportunidade de frequentar a Universidade de Brooklyn, onde estudará contabilidade. Os contatos com a Irlanda se faziam por meio de cartas. Ah! as cartas. Me lembro das cartas que também eu, apartado da família, trocava regularmente com a minha mãe. Vale dizer que o filme se reporta a 1952, o ano da viagem de Eilis para a América. Um maravilhoso retorno aos anos 1950. Muita nostalgia. Época de respeito e compromisso com valores.

A adaptação mesmo, veio através do namoro. Nos bailes da paróquia irlandesa houve a intromissão de um encanador italiano. O amor rompe os laços de timidez e o namoro acontece e transforma a sua vida. Eilis se torna alegre e a sua alegria é contagiosa em todos os ambientes que frequenta, no trabalho, na pensão e na paróquia. Só faz por merecer elogios. Aí vem a notícia triste. A morte de Rose, a irmã. Precisaria voltar para a Irlanda. Quem não se conforma é Tonny Fiorello, o namorado italiano. Após juras de amor, resolvem consumar o casamento, após muita insistência de Tonny. Seriam presságios?

Na volta para a Irlanda, lá também tudo se transforma. Oportunidade de emprego e um rapaz apaixonado. O coração de Eilis se perturba. O namorado versus o marido e a natal Irlanda versus sua nova pátria americana. Uma intervenção sutil, talvez a ajude a definir seus rumos. A rabugenta senhora, Miss Kelly, aquela que fora a sua patroa nas manhãs de domingo e dada a fofocar sobre a vida alheia, descobre a sua condição de casada em Nova York. Se Eilis tinha qualquer dúvida, esta imediatamente desapareceu, diante do provincianismo daquela cena.
O amor e a transformação de uma vida.


Apesar de, na sua volta, a Irlanda também ter se transformado numa terra de oportunidades, com possibilidades para o amor e o emprego, com o total beneplácito e companhia da mãe, a opção recaiu pela volta imediata para o marido e para o Brooklyn. Na viagem de volta, ainda orienta uma outra jovem, que tinha todas as semelhanças com a Eilis, em sua primeira viagem. Não deixou de lhe dar as valiosas dicas que recebera em sua primeira viagem.

O filme é uma coprodução irlandesa, canadense e britânica. Recebeu duas indicações a Oscar. A de melhor filme e Eilis (Saoirse Ronan) recebeu a indicação para a melhor atriz. Ficou nisso, sem prêmios. A direção é de John Crowley e o roteiro é uma adaptação de Nick Hornby, do livro de Colm Tóibin. Os personagens masculinos são Emory Cohen, o namorado/marido italiano e Jim Farrel, o meio namorado irlandês. Uma bela história contada com muita ternura e focada em muitos valores e, muito saudosismo. A indicação ao Oscar de melhor filme foi inteiramente merecida.

terça-feira, 1 de março de 2016

Aula Magna. Curso de Direito da UFPR. Com Jessé Souza.

Ainda estou meio perplexo de admiração com a maravilhosa aula do Dr. Jessé Souza, hoje pela manhã (29 de fevereiro 2016), na Faculdade de Direito da UFPR. Foi a Aula Magna, com a qual foi aberto o ano letivo de 2016, desta prestigiada instituição de ensino. O Dr. Jessé é formado pelo mundo afora e neste mundo também já foi professor, com destaque para Alemanha e Estados Unidos. Hoje é professor de Ciência Política na UFF e presidente do IPEA. Agradeço ao convite para esta fala aos professores Dr. Rocha e Dr. Manoel Caetano, da UFPR.
O corajoso livro de Jessé Souza. Um crítica às interpretações de Brasil.


Se para um palestrante já é difícil fazer os recortes para uma palestra, imagina a dificuldade de elaborar um post de síntese desta palestra. Vou fazer o esforço, mas desde já recomendo a leitura do livro de Jessé, A Tolice da Inteligência Brasileira - ou como o país se deixa manipular pela elite. O livro se constitui numa vigorosa crítica às teorias de interpretação do Brasil, responsáveis por inúmeros erros e que revestiram o senso comum com uma capa de ciência, que é a grande responsável pelo complexo de inferioridade que temos com relação aos Estados Unidos e, na questão interna, da camuflagem ou ocultamento da luta de classes.

A palestra teve início com a afirmação da insuficiência teórica nas interpretações de Brasil, marcadas pela formação do conservadorismo cultural das interpretações à direita e, pelo reducionismo economicista das visões à esquerda. Isso faz com que compreendamos mal o Brasil, especialmente, a crise pela qual estamos passando, em que o Estado é demonizado e  o mercado sacralizado. O Estado corrupto, e não a concentração de rendas, é visto como o único e grave problema brasileiro.
 O professor e presidente do IPEA, proferindo a sua Aula Magna.

Na sequência o conferencista abordou a questão de fundo do atual momento brasileiro: O apoderar-se do Estado. Quando às ideias se somam aos interesses é que se dá a luta pela conquista do Estado, isto é, de seus aparelhos. No Brasil existe uma elite, formada por menos de 1% de sua população, com interesses absolutamente inconfessáveis. Os seus privilégios são inúmeros. Estes privilégios não podem ser vistos assim pela população. Por isso existe todo um esforço para que sejam vistos como direitos. Para isso se torna necessária uma forte construção ideológica, para que esta fraude não seja percebida. Assim, a  injusta concentração de rendas não é percebida como um problema, sendo este transferido para o Estado corrupto. A classe média é usada para a construção desta ideologia.

Na sequência apontou Getúlio Vargas como o construtor do Estado/Nação do Brasil, na sua parte material (industrialização, legislação trabalhista, bens de capital, organização do Estado, educação e previdência) e Gilberto Freyre como o seu construtor imaterial, simbólico. Com Casa Grande&Senzala (1933) se construiu o mito da integração racial e, não do conflito, como ocorreu nos Estados Unidos. A identidade brasileira tem assim, a sua origem, não no conflito, mas na conciliação. Cria-se assim o grande mito brasileiro. O mito é uma aventura do espírito que não precisa ser verdadeira. Assim a nossa primeira grande interpretação, o nosso primeiro grande mito foi um conto de fadas para adultos em que se acreditou piamente. Uma interpretação ambígua que empurrou o conflito para os Estados Unidos, enquanto que, aqui se celebraria a conciliação.
O salão nobre da faculdade de direito totalmente lotado, assim como, mais duas salas com telão.


A esta teoria se somou Sérgio Buarque de Holanda. O teórico do homem cordial. O senso comum, na condição de mito, foi elevado à condição de interpretação científica. O homem cordial é incapaz de percepção das classes, de suas lutas e dos direitos de cidadania. Evocou o espírito binário da cultura ocidental para encontrar explicações. O espírito binário é uma longa construção histórica, a partir de Platão e de Santo Agostinho, da separação entre o bem e o mal, do espírito ser a sede do bem e o corpo do mal, para afirmar a existência de países guiados pela razão e de outros, pelo corpo e pelos males de sua sensualidade e paixão. O homem cordial, é corpo e não espírito. Aí fez uma pequena digressão, mas deu um tiro, absolutamente certeiro, na origem da cultura machista, apontando o homem como o domínio da razão e a mulher, do corpo. Esta cultura, obviamente, é complementada pelas teorias da hierarquização.

Também Faoro foi citado, pela origem portuguesa na formação da cultura brasileira. O Brasil sempre foi um país escravista, o que não existia em Portugal. Os outros intérpretes, por questão de tempo não foram abordados, mas o livro passa pelos economicistas e por pesadas críticas a autores mais contemporâneos, especialmente, Roberto DaMatta. Nestes autores, a pouca reflexão teórica provoca a intelectualização do senso comum.
Aproveitando para pedir autógrafo e cartão para possíveis contatos.


A partir deste ponto, a fala foi encaminhada para as conclusões. A primeira e mais contundente foi a de que o Estado é uma apropriação de classe. Esta apropriação se dá no mundo inteiro. É um fenômeno universal, mas que não pode ser visto assim e, muito menos, percebida como tal. Para isso existem as construções ideológicas, pelas quais se oculta o real e, outras causas passam a ser exaustivamente pregadas, como verdades absolutas e incontestáveis. Estes mitos são assimilados pela cultura popular.

Enquanto a corrupção é um fenômeno universal, inerente ao mercado e legalizado pelo Lobby e complementado pelos paraísos fiscais, aqui apenas o Estado é corrupto e a sua elite é inatingível (Veja-se o caso Aécio). Assim o Brasil, é o paraíso do mercado mundial, com as mais altas taxas de lucro e de juros, que vão parar no bolso dos 1% mais ricos, não é visto como problema. Para tornar este mito, esta aventura do espírito, este conto de fadas para adultos, imperceptível, a classe média é usada como o grande meio propagador e difusor. A classe média formada pela mídia, pelos homens que comandam as instituições ou os aparelhos do Estado, como o poder judiciário e as instituições de ensino, são usadas para a imbecilização do povo e, assim se consegue que ele lute e aja contra os seus próprios interesses.
Autógrafo ganho. Assim o meu Tolice da Inteligência Brasileira está mais valorizado.


Esta elite, com interesses inconfessáveis compra os congressistas, desde a sua eleição, compram a mídia e por isso não a regulam no interesse do público e o poder judiciário passa a ser usado, em substituição aos militares, para perpetrar o golpe de Estado, para que os aparelhos do Estado sejam totalmente ocupados de acordo com os interesses do 1% da elite dominante. Nenhuma reforma que se volte para a cidadania e condições de vida digna é tolerada.

E, como conclusão, uma definição de democracia. Democracia não se limita ao voto, mas sim, ao voto consciente e este só é possível, quando as fontes de informação do povo possam permitir a percepção das verdadeiras e grandes contradições da sociedade. Em que a percepção das verdadeiras causas de nossos males seja efetivamente percebida para que não aconteça o enunciado no título e subtítulo do livro de Jessé, A Tolice da Inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite.

Agora, conclusões minhas: O que seria a Tolice da Inteligência Brasileira? Quais seriam os meios pelos quais o país se deixa manipular pela elite? Para mim, as tolices seriam a intelectualização do senso comum, de sua transformação em mitos, em favor de uma elite extremamente perversa, para negar, embora pregando meritocracia, qualquer possibilidade de acesso aos meios que proporcionam os direitos ligados à cidadania. E, por isso, sempre que ocorram governos que, ainda que, silenciosa e minimamente, promovam medidas de inclusão social, que movimentam as bases da sociedade, paira no ar a perspectiva de golpe para se apoderarem do Estado e canalizar todas as políticas de Estado em favor de seus inconfessáveis interesses. Lembrando que vivemos numa sociedade dividida em classes.