quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Ninfa Inconstante. Guillermo Cabrera Infante.

"Ah! Estelita, por que me persegues?
Alguém disse que se pode olhar para trás com o prazer que a distância proporciona, e são palavras de um romancista menor. Um grande poeta, ao contrário, disse que não há maior dor no mundo do que recordar o tempo feliz na desgraça. E o tempo desgraçado visto da felicidade, que dor dá?"
Capa da edição brasileira, Companhia das Letras, de A Ninfa Inconstante.

A Ninfa Inconstante é a história de uma fuga, ou melhor, é a história de duas fugas que se juntam. A do narrador, ou Gezinho, a fugir de sua mulher e a da, ainda Estelita, depois Estela, a fugir de sua mãe, ou melhor, de sua madrasta. O narrador é um escritor, um crítico de cinema da revista Carteles, já avançado em sua idade. Já Estelita, ainda não completara 16 anos, idade em que poderia ser mulher, pronta para o amor. Não os 18, nossos. O cenário onde se passa esta fuga e este encontro e, de novos desencontros é Havana, na Cuba do final dos anos de 1950, ainda pré-revolucionária.
Foto de Cabrera Infante, na orelha da contra-capa do livro.
O autor de A Ninfa Inconstante é Guillermo Cabrera Infante, um cubano nascido em 1929 e que faleceu em Londres, em 2005. O autor viveu na Cuba pré revolucionária e, coincidentemente, era um crítico de cinema, em Havana, nesta época. Andava nas ramblas, no Malecón, na Línea, nos cafés, cafeterias e night clubs, descritos no romance. A ninfa foi o seu último livro, com publicação póstuma à sua morte. "Não me interessa eliminar e muito menos mudar meu passado. preciso é de uma máquina do tempo para vivê-lo de novo. Essa máquina é a memória. Graças a ela posso voltar a viver esse tempo infeliz, feliz às vezes. Mas, por sorte ou azar, só posso vivê-lo numa dimensão, a da recordação [...]. A única virtude que minha história tem é que de fato ocorreu", nos conta Cabrera Infante, no prólogo do livro.

Este é o meu primeiro contato com Cabrera Infante. O jornalista e escritor cubano chegou a ocupar cargos  na pós-revolução, mas já em 1965 rompeu com regime de Fidel Castro. Ao menos neste livro ele não faz um acerto de contas com o novo regime cubano. O jornalista e escritor se mostra um grande erudito neste obra, fazendo contraponto com o pouco saber de sua ninfeta, que no entanto lhe proporcionou belos momentos de felicidade. Na primeira frase, que colocamos como uma espécie de epígrafe, o romancista menor é ele próprio, enquanto que o grande poeta, não é ninguém menos do que Dante Alighieri.
Mais uma foto do escritor cubano. Cabrera Infante rompe com o regime de Fidel em 1965.

O que pode conter uma história entre um homem de idade provecta ou madura com uma menina de 16 anos, ou menos, uma ninfeta ou uma Lolita. O autor põe nesta história, - leves, belos e suaves tons de erotismo, maravilhado com o corpo que desabrocha e se transforma de Estelita para Estela. A sua nudez, ou o desvelamento de sua nudez parece agradá-lo muito. Destaque especial mereceu a sua pele, que no entanto, em pouco tempo, se transformou de sutil, em hostil. Mas a relação propriamente sexual, nem mesmo chega a ser explorada, dando apenas a certeza de que houve consumação. Os encontros estão recheados de diálogos, diálogos não, de frases, de citações, de música, de cinema, de mitologia e literatura.

As diferentes situações existenciais que poderiam marcar esta relação entre duas pessoas tão diferentes busca muitos paralelos, como vimos, na relação entre o que eles estão vivendo e a confrontando com situações similares que povoam o mundo, do real e do imaginário, das letras, do cinema e da música. Muitas obras clássicas da literatura e do cinema, especialidade do autor, estão retratados na obra. A distância entre o conhecimento ou a erudição do narrador ou do Gezinho é diretamente proporcional à diferença de idade dos envolvidos na trama. Estela reclama constantemente da verdadeira obsessão do amante  com as suas citações, do recurso a personagens da mitologia, das correções gramaticais e similares.
Cabrera Infante, um dos maiores escritores da língua espanhola. Ganhou o Prêmio Cervantes, em 1997.

A música merece uma referência particular. Os amantes dançam boleros e também aí a situação por eles vivida será confrontada com o dizer dos versos. A preferência pelos boleros parece justificada: "Esqueça o tango e cante um bolero", dizia um dito cubano e o narrador acrescenta: "Querendo dizer deixe de lado o dramatismo e conte o sentimental. Nada podia ser mais exato então - e agora". Também existe uma maravilhosa definição de romantismo, como sendo o conflito entre o amor e a vida. O inconstante da ninfa era a sua amoralidade, a sua falta de compromisso. Ela terá relações com outros, inclusive com o irmão, tornando-se, já ao final da história, em uma lésbica.

Duas descrições rápidas marcam bem a inconstante ninfa. Uma,  "Sempre tentei a felicidade com ela, mas ela as vezes se interpôs. Se todos nascemos para ser felizes (como proclamam os filósofos otimistas), ela nasceu para ser infeliz - e conseguiu plenamente". E a outra. "Ela na verdade deslizava pela vida todos os dias [...] Não tem memória, nem lembranças, nem remorsos". Mas resta uma certeza absoluta, ela mexeu muito, com ou sem remorsos, nas lembranças e na memória do desventurado jornalista e crítico de cinema, o Gezinho ou o próprio Guillermo Cabrera Infante.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

MALCOLM X. Uma vida de reivindicações. Manning Marable.

"Um profundo respeito pela humanidade negra e uma profunda crença nela estavam no cerne da fé visionária desse revolucionário. E quando sua visão social se ampliou, passando a incluir pessoas de diferentes nacionalidades e identidades raciais, seu gentil humanismo e antirracismo poderiam ter se tornado plataforma para uma nova espécie de política étnica e ódio religioso, como o que a Al-Qaeda quis projetar nele, Malcolm X deveria ser visto como um representante da esperança e da dignidade humanas. Pelo menos para os afro-americanos, ele já personifica essas mais elevadas aspirações".
A capa do livro da extraordinária biografia de Malcolm X. Livro importante para conhecer a história afro-americana.

Assim termina a volumosa biografia, de 650 páginas, de Malcolm X, escrita pelo historiador Manning Marable. A biografia registra a trajetória do grande líder, desde o seu nascimento em 19 de maio de 1925, até o seu trágico assassinato, na tarde de 21 de fevereiro de 1965, em Nova York.  Tem ainda um capítulo sobre o seu significado e o seu legado para os Estados Unidos, para os afro americanos e para toda a humanidade. O livro é também uma bela contextualização da história americana deste período.

A primeira coisa a destacar em sua biografia é a sua origem como um afro-americano pobre, totalmente enredado na pobreza, com todos os fatores pesando contra qualquer possibilidade de ascensão social, por causa de sua condição de negro. Essa situação o levou para a marginalidade, passando pelo mundo das drogas, de pequenos assaltos, para as condenações judiciais e para o sistema carcerário. Este era o cenário comum a todos os negros, que como ele, carregavam o estigma de negro e de pobre. Passou também por pequenos empregos do sub mundo do trabalho.
Um jovem esmagado pela lei da gravidade social e frequentando as páginas policiais.

A primeira doutrina com que All Hajj Mallik Al-Shabazz, ou Malcolm Little entrou em contato foi o garveysmo, por sua organização, a UNIA (Universal Negro Improvement Association), fundada em 1914 e que visava a união e a integração da diáspora africana que espalhou, pelo tráfico e pela escravidão, os negros pelo mundo afora. Por um irmão seu, entrou em contato com o islamismo. 

O marco mais significativo na vida e em seu processo de formação foi o seu contato com a Nação do Islã, a NOI, uma organização radical de islamitas heterodoxos, presidida por Elijah Muhammad. Esta seita pregava o ódio total aos brancos, vistos como o demônio e que pregavam o total segregacionismo negro. Queriam um estado ou uma nação negra em território americano. É nesse momento que conhece o significado das palavras muçulmano, aquele que se submete a Deus e de Jihad, como empenho e luta. Estes conceitos o acompanharão por toda a sua vida e serão as marcas fundamentais de sua doutrina. A partir desse momento é que passa a adotar o nome de Malcolm X. Este X é marca de todos os seguidores da Nação do Islã.
O poderoso Elijah Muhammad, da Nação do Islã. No caso com uma fiel. Ele costumava ter envolvimentos afetivos com suas discípulas, em flagrante contradição com a doutrina pregada.

A Nação do Islã era uma organização muito poderosa, militarmente hierarquizada e a indisciplina não era tolerada em hipótese nenhuma. Elijah Muhammad tinha o controle absoluto da organização em suas mãos. Apesar da rigidez da disciplina no cumprimento dos pilares do islamismo, o líder tinha um comportamento sexual devasso. Envolvia-se com meninas e tinha muitos filhos fora do casamento. Tudo isso era ocultado de seus seguidores. A arrecadação financeira era extremamente significativa e nada transparente.  Malcolm X rapidamente ascendeu na hierarquia da Nação do Islã e era extremamente leal ao seu chefe. Mas a sua poderosa palavra provocou desconfianças e ciumeira.
A denúncia da violência policial contra os negros, uma constante na vida de Malcolm X.

A ruptura com a Nação e com o seu líder se tornaria inevitável. Recebeu desde suspensões, proibições de falar ao público, até a suspensão definitiva da organização. Inconformismo pela conduta do mestre, disputas na hierarquia e na sucessão foram as causas. Mesmo assim, Malcolm não afrontava o mestre. A ruptura definitiva vem com as incursões internacionais de Malcolm, a sua conversão ao islamismo ortodoxo, na sua peregrinação a Meca e com o contato que irá ter com a África, recentemente descolonizada. Estas viagens marcam um salto na reformulação de seu ideal doutrinário, que se aproxima da luta da afirmação dos direitos humanos. O segregacionismo negro ficará cada vez mais distante.

A conjuntura internacional se fará muito presente em sua vida. A descolonização africana dará alento em sua vida e o coloca em contato com as doutrinas da revolução. Passa a admirar a revolução cubana e, inclusive, será comparado com a figura revolucionária de Chê Guevara. A sua admiração se estende também para Fidel e Mao e a revolução chinesa e aos herois da proclamação da independência das ex-colônias africanas.  Faz duas visitas por estes países, mantendo contato com os seus líderes. Os ideais terceiro-mundistas também passam a fazer parte de sua vida.
Boa oratória e argumentação arguta em cima de uma grande causa. A presença física também ajudou.

A vida de Malcolm já entra, neste período, em sua fase final. Cria duas organizações: A MMI  (Mesquita Muçulmana), basicamente com dissidentes da Nação do Islã e a OAAU (Organização da Unidade Afro-americana), de cunho mais internacional. As ameaças de morte são constantes. Elas só poderiam vir dos dirigentes da Nação do Islã, inconformados com a perda de fieis e de poder. É também neste período que Malcolm escreve a sua autobiografia, a grande responsável pela divulgação de suas ideias e a sua repercussão mundial. Em pouco tempo o livro venderá mais de seis milhões de exemplares.

O dia fatal se aproxima, 21 de fevereiro de 1965. Por volta das 15:00 horas, no conhecido endereço do Audubon, local tradicional das pregações de Malcolm, no Harlem, depois de uma confusão no auditório, ele é friamente assassinado. Quatro horas depois, no cenário do crime já transformado, ocorrerá um festivo baile. Ninguém estava muito interessado em investigar. As instituições americanas estavam aliviadas com a sua morte. Porém, a história se encarregará de preservar a sua memória.
Urna fúnebre e homenagens. Aí começa a sua verdadeira odisseia.

O livro termina com um capítulo sobre a reconstrução de sua importância e de seu significado histórico e acima de tudo sobre as suas influências. Traça um longo paralelo entre ele e outro grande líder negro, Martin Luther King, o pacifista, já oriundo das classes médias dos negros de Atlanta e com formação universitária, enquanto Malcolm tinha origem pobre e pregava a auto defesa armada. Mostra as influências de Malcolm sobre a música, especialmente sobre o hip hop e a incorporação de suas ideias e de sua repercussão pelo mundo, como mostramos no primeiro parágrafo deste post. Do seu período mais radical brota a gênese do movimento dos Panteras Negras. Spike Lee leva a sua vida ao cinema. Uma questão final. Obama seria hoje presidente dos Estados Unidos se não tivesse havido um revolucionário chamado Malcolm X?

Na leitura também aprendi um novo adjetivo ou uma nova qualificação para determinado tipo de pessoas, Pai Tomás. Creio que é fácil entender o seu significado. Deixo ainda a referência do livro: MARABLE, Manning. Malcolm X - Uma vida de reivindicações. São Paulo: Companhia das Letras. 2013.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Alabardas, alabardas. Espingardas, espingardas. José Saramago.

Em 18 de junho de 2010 morria o grande escritor da língua portuguesa e o seu único prêmio Nobel. Enquanto a vida se esvaía, ele ainda escrevia.  A última anotação que foi encontrada em seu computador foi escrita em 22 de fevereiro deste mesmo ano de 2010. Dizia o seguinte: "As ideias aparecem quando são necessárias. Que o administrador-delegado, que passará a ser mencionado apenas como engenheiro, tenha pensado em escrever a história da empresa, talvez faça sair a narrativa do marasmo que a ameaçava e é o melhor que poderia ter-me acontecido. Veremos se se confirma".
Alabardas, alabardas. O livro inacabado. A mensagem derradeira de pacifismo.
Saramago costumava comparar a vida à luz de uma vela. Antes de se apagar definitivamente ela soltava um derradeiro clarão. De agosto de 2009 a fevereiro de 2010 a vela da vida de Saramago elevou o seu clarão, como prenúncio de sua morte. E a narrativa, infelizmente, não se confirmou. Ela não avançou. Mas, palavras de Saramago, sempre serão palavras de Saramago, mesmo sendo poucas ou se forem apresentadas sob a forma de esboço. Isso aconteceu com Alabardas, alabardas, o fragmento daquilo que seria o último romance do autor. O tema não poderia ser mais instigante: a guerra. Alabardas, alabardas. Espingardas, espingardas ou ainda Produtos Belona SA., também foram candidatos ao título deste seu livro.

Só para situar, Alabarda é uma espada medieval e Belona é a deusa romana de origem etrusca ou não grega, da guerra. Do nome desta deusa deriva o adjetivo bélico. O tema desta obra inacabada, portanto, será a guerra e a indústria bélica. Mais provocador impossível. Saramago havia terminado de prestar contas com o Deus do Antigo Testamento através de Caim, no mesmo ano de 2009, mas queria nos deixar ainda um outro legado. O escrever era para o escritor uma espécie de fuga ou um adiamento da morte. Definitivamente, ele não queria morrer.
Uma das ilustrações do livro. Elas foram feitas por Günter Grass.

Artur Paz Semedo é o personagem principal. Ele divide o papel com Berta, que troca o seu nome por Felícia, ao saber que Berta era o nome de um canhão alemão, usado na primeira guerra. Artur e Felícia vivem separados. Artur é funcionário da Belona SA., uma indústria de armamentos. Felícia é uma militante pacifista. Os dois interagem e um é o contraditório do outro. Movimentam a dialética. Sempre "estavam a castigar-se um ao outro".

Fernando Gómez Aguilera, aquele organizador de As palavras de Saramago, ao escrever sobre o livro inacabado, numa espécie de posfácio ao livro, assim caracteriza os dois personagens: "Felícia, uma nova Blimunda (a mulher de Memorial do Convento) da paz, espelho de coerência moral e esperança de humanização, em face de um Artur Paz Semedo burocrata, fraco, adulador e apagado; indícios de sua ironia cética; o cenário de um grande conflito moral". Os dois vivem separados e mesmo separados movimentam toda a história. Se comunicam e interagem permanentemente e, teluricamente, existe uma possibilidade de reconciliação. "A dificuldade maior está em construir uma história 'humana'. Uma ideia será fazer voltar Felícia a casa quando se apercebe de que o marido começa a deixar-se levar pela curiosidade e certa inquietação de espírito", conta Saramago em seus apontamentos sobre o livro, encontrados em seu computador. Estes apontamentos, que nos mostram o processo de criação literária do escritor ocupa as páginas 59 a 61.
A ferocidade em mais uma ilustração de Günter Grass.

O livro tem três capítulos escritos, algo em torno de 50 páginas, na edição brasileira, com farta ilustração. São, no entanto, páginas extremamente preciosas e abrem fantásticas perspectivas no imaginário. Seria um livro vigoroso, uma grave denúncia provocada pela indignação em torno da indústria bélica e da necessidade de provocação de conflitos para a sua manutenção e continuidade. Artur resolve investigar os arquivos da Belona SA. e contar a sua história, delimitada à década de 1930. O administrador-delegado, ou o engenheiro o permite.

Os fatores que instigaram Saramago ao tema foram vários. O fuzilamento de trabalhadores em Milão, a não greve em fábricas de armamentos e a sabotagem na produção bélica. Gómez Aguilera narra um fato ocorrido na guerra civil espanhola, de um projétil lançado em Madri e que não estourou. Na desmontagem do detonador foi encontrado um bilhete, escrito pelo operário alemão que o produziu: "Camaradas: não temam. Os obuzes que eu carrego não explodem. Um trabalhador alemão". Além disso, o cenário de guerras da década de 1930, que seria o tema da obra. A guerra civil espanhola estava no seu horizonte imediato, mas olhava para mais longe, a segunda guerra mundial que se avizinhava.

A narrativa chegou até a guerra do Chaco entre a Bolívia e o Paraguai e continuaria com a guerra da Itália contra a Abissínia, contra a Etiópia. Infelizmente o vigor da vida lhe faltou. Apenas conseguiu reunir o esforço suficiente para nos legar as suas últimas preocupações: a denúncia de horrores e o anúncio de um pacifismo, que seria até capaz de reconciliar o burocrático Artur e a guerreira pacifista Felícia.  O livro tinha todos os ingredientes para ser inscrito, na obra do autor, como um de seus melhores livros. No entanto, a semente que instiga e que provoca foi lançada. Um livro imperdível. A frase final do livro  também estava pronta: "Vai à merda". Esta frase seria dita por Felícia. Saramago vibrava: "Um remate exemplar".
Foto de Saramago na orelha da contra-capa do livro inacabado.

Imperdíveis são também os três pequenos posfácios. Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano (de Gamorra) são os seus autores. O livro também vem acompanhado de ilustrações feitas por ninguém mais e ninguém menos do que Günter Grass. Alabardas, alabardas, de José Saramago é um lançamento da Companhia das Letras, do mês de setembro de 2014.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O ódio à democracia. Jacques Rancière.

Hoje irei me ater apenas à introdução deste magnífico livro, O ódio à democracia, de Jacqus Rancière. Esta introdução é maravilhosa, mesmo tendo apenas cinco páginas. A constatação de que existe ódio à democracia, segundo o autor, é antiga, ou melhor, nasceu junto à democracia e até hoje existem setores que a recusam por completo, como é o caso dos fundamentalistas religiosos, que sempre invocam a Deus e a sua palavra como as fontes do poder.
O extraordinário livro de Jacques Rancière, O ódio à democracia.
Rancière inicia a introdução, apresentando uma série de novas demandas da democracia, com alguns fatos de seu país, a França, onde adolescentes se recusam a tirar o véu nas escolas, onde os trabalhadores querem discutir o déficit da previdência, onde os aposentados fazem manifestações pela manutenção do sistema previdenciário e onde o casamento homossexual e a reprodução artificial constituem pauta de reivindicações. Rancière afirma que estes são os sintomas de um mesmo mal e que tem uma causa comum: a natureza da própria democracia, isto é "o reino dos desejos ilimitados dos indivíduos da sociedade de massa moderna".

Ao caracterizar a democracia, Rancière, agora já na análise dos tempos modernos, também define os limites que lhe foram estabelecidos pela ordem burguesa: "a defesa da ordem proprietária". Marx, sem dificuldades, já fazia a sua crítica denunciando que "as leis e as instituições da democracia formal são as aparências por trás das quais e os instrumentos com os quais se exerce o poder da classe burguesa". Assim, na concepção marxista, a luta por democracia tornou-se uma luta contra esta democracia de aparências, para ser "uma democracia 'real', uma democracia em que a liberdade e a igualdade não seriam mais representadas nas instituições da Lei e do Estado, mas seriam encarnadas nas próprias formas da vida material e da experiência sensível".
Foto histórica, em que aparece o jogador Sócrates, na luta brasileira por democracia.

Mas também existem as críticas dentro do próprio âmbito burguês. Ao mesmo tempo em que estes burgueses se declaram democratas, recusam a democracia 'real': "Nenhum reivindica uma democracia mais real. Ao contrário, todos dizem que ela já é real demais" [...] "É do povo e de seus costumes que eles se queixam, não das instituições de seu poder. Para eles, a democracia não é uma forma de governo corrompido, mas uma crise da sociedade e o Estado através dela".

A sua principal acusação é contra a própria América democrática "da qual viria todo o mal do respeito das diferenças, do direito das maiorias e da affirmative action que mina nosso universalismo republicano são os primeiros a aplaudir quando essa mesma América trata de espalhar sua democracia pelo mundo através da força das armas". (A reação foi o "Tea Party".)

Rancière termina a sua introdução afirmando que para os "democratas", em sua concepção burguesa, existem dois tipos de democracia: "O governo democrático, diz, é mau quando se deixa corromper pela sociedade democrática que quer que todos sejam iguais e que todas as diferenças sejam respeitadas. Em compensação, é bom quando mobiliza os indivíduos apáticos da sociedade democrática para a energia da guerra em defesa dos valores da civilização, aqueles da luta das civilizações". E conclui:

"O novo ódio à democracia pode ser resumido então em uma tese simples: só existe uma democracia boa, a que reprime a catástrofe da civilização democrática".
A elite brasileira e o seu ódio à democracia. Janine Ribeiro na apresentação do livro.

As reflexões de Rancière se aplicam muito bem à atual e jovem democracia brasileira. O que a burguesia ou as elites querem da democracia são os instrumentos da ordem proprietária e, nada mais. Como a democracia brasileira foi da democracia representativa para a participativa e ela promoveu alterações na base da pirâmide social, a "má democracia" começou a funcionar. O ódio a Dilma e ao PT, portanto, não se volta contra os possíveis erros cometidos, contra a corrupção, mas contra os acertos de inclusão social que foram praticados. A desestabilização de bases e estruturas centenárias. A ordem democrática não pode ser contaminada pela sociedade democrática.

Deixo ainda com vocês a apresentação brasileira ao livro, escrita por Renato Janine Ribeiro. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/10/o-odio-democracia-janine-ribeiro-e-as.html.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Como vota a classe média? Isso ocorre em ciclos.








Com este post, tenho por finalidade apresentar algumas características de nossa evolução histórica. Como país moderno e, entendendo-se por país moderno aquele se urbanizou e industrializou, o Brasil existe nestas condições, apenas, a partir de 1930. A principal marca do capitalismo brasileiro é ser um capitalismo tardio e que, por isso mesmo, ele terá características muito próprias e peculiares. Ele jamais, por seu atraso histórico, poderá adotar as regras do livre mercado se não quiser ficar no fim da fila do processo competitivo. Por esta razão as políticas públicas sempre fizeram muito sentido neste país.

Medidas de indução ao desenvolvimento, favorecimento aos pequenos competidores e um forte espírito nacionalista sempre acompanharam a nossa história. Cada momento histórico terá as suas peculiaridades. No campo social também sempre tivemos medidas protecionistas aos mais fracos. Desde cedo, a partir da industrialização, o trabalhador foi protegido e não submetido a auto-regulação do mercado. 
Este quadro mostra o atual momento da classe média brasileira.  Por ignorar as causas de sua ascensão, pode voltar-se contra si próprio.

Com a modernização dos aparelhos burocráticos do Estado e com a industrialização massiva foi se formando uma sociedade plural e as diversas categorias de trabalhadores foram se estabelecendo, formando assim uma incipiente classe média. Não fossem as medidas explícitas em favor da acumulação e restritivas aos ganhos do trabalhador ao longo da ditadura militar, teríamos avançado muito mais. Teríamos formado um mercado interno, alicerce e fundamento das economias dos países desenvolvidos. Os nossos atrasos históricos e a preservação de uma mentalidade escravocrata formou uma cultura anti mercado interno, com prejuízos enormes à nossa modernização pela via do fortalecimento do mercado interno. Que o diga Joaquim Nabuco.

O Brasil, quando dominaram as políticas de indução econômica por parte do Estado, progrediu rapidamente. De 1930 a 1980, a cada dez anos, dobramos a nossa riqueza. Quando, ao contrário, adotamos as regras do livre mercado, colhemos desemprego, aumentamos a fome e a miséria, encolhemos a nossa economia interna e fomos vítimas de uma brutal dependência externa. Os anos 1990 foram drasticamente marcados pela hegemonia neoliberal. O capital financeiro dominava soberano. O país fora concebido para 30% dos brasileiros, aqueles que cabiam no mercado. O guarda chuva protetor do Estado se fechava para os filhos da Pátria Nação. Éramos, na arrogância habitual do ex-presidente Cardoso "um mercado emergente". Os valores do mercado são são a competição, a seleção e a consequente exclusão. Não existe espaço para a solidariedade.

Em 2002, com a eleição de Lula e a ascensão do PT ao governo, voltou - menos a concepção do Estado indutor de políticas desenvolvimentistas, mas a do Estado promotor de cidadania. Criou-se um modelo que vem sendo caracterizado como de crescimento econômico com distribuição de renda. Os instrumentos desta política foram as de aumentos reais do salário mínimo, os ganhos salariais nas negociações da data base, as políticas de estímulo à pequena e média empresa e de formalização da economia, além das políticas de proteção social cidadã pelos programas de distribuição de renda. Também o tradicional caminho de ascensão social pela educação foi extremamente facilitado. Silenciosamente mexeu-se na base da estrutura social brasileira.

A exemplo dos Estados Unidos, que após a aplicação das políticas afirmativas, seguidas pelo movimento ultra conservador do Tea Party formou-se, também aqui, uma rede de ódio sem precedentes e com imprevisíveis consequências. A democracia foi contaminada pela sociedade democrática e os alicerces da premiação ao mérito competitivo teriam sido contaminados pela "indolência" provocada pelas medidas de proteção por parte do Estado, reagiram os nossos conservadores.

Como todo este movimento ascensional foi promovido sob a ideologia do empreendedorismo, absolutamente individualista, não foi permitido ao beneficiado  ver as origens e raízes de sua ascensão. Atribui todo esse caminho ao seu espírito empreendedor. Mérito do esforço próprio. E diante da primeira crise no sistema e, o capitalismo é um sistema especializado na criação de crises, estas classes em ascensão se voltam contra os instrumentos que as alçaram para uma melhor condição econômica e social. Num breve futuro amargarão novamente a situação de penúria na qual estavam mergulhados, quando da aplicação das políticas neoliberais, do mercado competitivo, que em nome da eficiência, promovia a exclusão de competidores menos competitivos, que por sinal, em nossa história já chegou a ser afirmada como uma política humanitária.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Para o dia do PROFESSOR. Lembrando Paulo Freire.

Paulo Freire foi declarado o Patrono da educação brasileira. Paulo Freire, foi e é, entre os educadores brasileiros, o nome de maior expressão. Ele é amado no mundo inteiro. Algumas pessoas insensíveis para o humano lhe devotam ódio. Diante dele não existe espaço para a indiferença. Lembrando Paulo Freire, rendo a minha homenagem a todas as professoras e professores, neste 15 de outubro. E na esperança que todos se sintam, ao menos minimamente, contaminados com a esperança contida em seu pensamento, legado e anúncio.
Entre os livros de Paulo Freire, é deste que eu mais gosto.

A pedagogia de Paulo Freire foi mais voltada à alfabetização dos adultos. Esta era a grande chaga deste país, nos anos 1950/60 e até hoje, ainda não totalmente superada. A alfabetização dentro do método Paulo Freire se dá simultanea e concomitantemente com o processo de conscientização, com um grande abrir dos olhos, mesmo com todos os incômodos causados pela luz. Afinal de contas, "A leitura do mundo precede a leitura da palavra", como dizia o mestre. Para expressar esta realidade recorro ao poema de Thiago de Mello, inscrito no livro Educação como prática da liberdade, o meu preferido entre os seus fabulosos livros.
Em 20 de junho de 1992, o núcleo da APP-Sindicato de Umuarama levou o nosso mestre maior para uma palestra na cidade. Foi um dia memorável.
Canção Para os  Fonemas da Alegria. Thiago de Mello. (Escrito em  Santiago do Chile, em1964)

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas 
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassois gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

As vezes nem há casa: é só chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar - e de ajudar

o mundo a ser melhor. peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Este poema é uma espécie de síntese do pensamento de Paulo Freire. Um dos maiores privilégios que eu tive em minha vida foi tê-lo conhecido pessoalmente. Ele era uma pessoa muito afável e amorosa. Também tive a honra de fazer a sua defesa, quando ele foi achincalhado por um colunista da Gazeta do Povo, nutrido de ódio contra a humanização do mundo. Tive a honra de, na própria Gazeta, fazer a sua defesa, numa edição especial do caderno G, numa iniciativa da editora do caderno, a jornalista Marleth Silva. O meu texto levou por título; Entre a utopia e a transcendência. Eu dou o link do post que eu fiz e por ele você acessa o texto, bem como os outros textos deste caderno especial.http://www.blogdopedroeloi.com.br/2013/01/paulo-freire-no-caderno-g-da-gazeta-do.html
Em 2012, 20 anos após o encontro com Paulo Freire em Umuarama, o mestre foi homenageado com a transcrição da sua fala. Irma Lovato Ribeiro, foi uma das debatedoras com o mestre. Na foto, 20 anos depois ela relata a experiência. Também eu apresento o caderno que foi editado.


Para todas as professoras e professores, os parabéns pelo nosso dia, em especial para aqueles que assentam o seu projeto de vida na humanização e na esperança. Que tenhamos um dia de esperanças renascidas. E um lembrete, nestas vésperas de eleição. A humanização não passa por um projeto de mercado. Neste momento da nossa história ele responde pelo nome de DILMA - 13. Este também seria o voto de Paulo Freire, se ele estivesse vivo entre nós.
Diálogo com Paulo Freire, o caderno que reproduz a fala do mestre em Umuarama.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Memórias do Governo Fernando Henrique Cardoso, do PSDB.

"O remédio, então, era claro: manter um estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos gastos com o bem-estar, e a restauração da taxa "natural" de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para incentivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos  sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estaglafação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam  tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos". Este texto é de Perry Anderson e se tornou um clássico.
Neste livro, organizado pelo Pablo Gentili e pelo Emir Sader, Perry Anderson faz um balanço geral do neoliberalismo. Um texto clássico.
Felizmente não esperamos esta "retomada do crescimento" e mudamos de rumos com a eleição do Lula em 2002. Mesmo sabendo dos problemas da governabilidade, de Duda Mendonça ter sido o marqueteiro da campanha, as alianças com os liberais, a eleição mexeu com a auto-estima do povo brasileiro e, em particular, com a minha, para melhor, obviamente.

O ano de 1999 era para ter sido um dos anos mais felizes da minha vida. Defendi a minha dissertação de mestrado na PUC/SP., reiniciei a minha atividade acadêmica, como professor na universidade Positivo e vi que a questão econômica não mais seria barreira para dar a formação superior para os meus filhos, mesmo sem nenhum programa de políticas públicas em favor da expansão do ensino superior. Mas nem tudo era um mar de rosas. 

O desemprego atingia taxas tão elevadas que os brasileiros procuravam empregos clandestinos em qualquer país do mundo. Lembram da cidade de Governador Valadares? Ela quase esvaziou, tal era a quantidade de gente que a abandonou. Havia serviços de vigilância nos principais aeroportos do mundo criados para deportar brasileiros, que chegavam em massa. Voltavam endividados, eles e a  família junto, que havia se cotizado, somando as últimas economias e torcendo para que essa solução extrema desse certo. Nas escolas a ideologia do empreendedorismo substituiu o ensino técnico profissional, gerando um apagão de força de trabalho qualificada.
Para mim este é o livro que melhor mostra, mundo afora, o furacão de destruição social que foi o neoliberalismo. O mundo ficou mais pobre, enquanto o capital se acumulou.

Nas universidades públicas deste país o ensino se comprimia. Afinal, para privatizar o ensino público, o caminho mais tranquilo, com menor visibilidade e na tentativa de evitar protestos, seria a sua não expansão. Nestes anos 1990 e início dos anos 2000, nada de novas universidades publicas. Os professores contavam os dias para se aposentarem, outros entraram em programas de demissão voluntária. Estes programas de demissão também eram a tônica dos nossos bancos públicos federais. Dos estaduais, acho que sobrou apenas o Banrisul. Aqui no Paraná, a venda do Banestado gerou uma dívida quase impagável, além do maior escândalo de corrupção em toda a nossa história.

Como professor da rede pública do Paraná, eu particularmente fiquei sete anos sem, nem sequer um único centavo de reposição das perdas da inflação, numa desumanidade jamais vista por parte de um governante. O governador neoliberal era Jaime Lerner, parceiro de FHC. Desemprego acima dos dois dígitos, inflação acima dos dois dígitos, a macro economia totalmente desalinhada, que levou o país se ajoelhar diante do FMI por três oportunidades. Além disso juros estratosféricos, rondando os 50%, e, ainda mais, várias maxi-desvalorizações do real. Um caos que abalava objetivamente as nossas vidas mas também a nossa esfera subjetiva, com impactos de tristeza profunda, pela auto-estima em baixa.
Um belo cartaz contra o neoliberalismo, produzido pela APP-Sindicato, dentro da conjuntura paranaense.

Escrevo este post para deixar para a memória. Eu odeio corrupção e adoro mudanças. Mas o que estão tentando fazer é confundir mudança com retrocesso. Também sei o quanto o PSDB, tem em seus altos quadros a corrupção instituída. Espero que você não goste de retrocessos.  Também poderia aqui retratar a questão do ódio que está se implantando no país. O único projeto que o Aécio tem, junto com a Marina Silva, é o Fora PT. Farei isso num outro post. Enquanto isso eu deixo um link do Janine Ribeiro, neste sentido. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/10/o-odio-democracia-janine-ribeiro-e-as.html .Também prefiro, e como prefiro, que a esperança suplante o ódio. A esperança nos faz feliz. O ódio corroi e destroi. Sugiro também a volta da leitura do primeiro parágrafo, o texto do Perry Anderson.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Princípios Gerais do Liberalismo. Luiz Antonio Cunha.

Como frequentemente uso este texto em trabalhos que eu faço, dou a ele este espaço para facilitar o seu acesso. Ele é retirado do livro de Luiz Antonio Cunha, Educação e desenvolvimento social no Brasil. O texto integra o primeiro capítulo do livro, a educação e a construção de uma sociedade aberta. O livro é datado de 1978. Me permitirei alguns cortes e sínteses. 
O livro de Luiz Antonio Cunha em que estão expostos os princípios gerais do liberalismo.

1.1. - Os princípios gerais do liberalismo.
O liberalismo é um sistema de crenças e convicções, isto é, uma ideologia. Todo sistema de convicções tem como base um conjunto de princípios ou verdades, aceitas sem discussão, que formam o corpo de sua doutrina ou o corpo de ideias nas quais ele se fundamenta. Abordaremos alguns desses princípios, os mais gerais, os que constituem os axiomas básicos ou os valores máximos da doutrina liberal. São eles: o individualismo, a liberdade, a propriedade, a igualdade e a democracia.

1. O individualismo é o princípio que considera o indivíduo enquanto sujeito que deve ser respeitado por possuir aptidões e talentos próprios, atualizados ou em potencial. [...] A única lei era a da natureza, que cada indivíduo punha em execução por sua própria conta, a fim de proteger seus direitos naturais à vida, à liberdade  e à propriedade. Os homens não tardaram, porém, a perceber os inconvenientes do estado natural. cada um tentava impor os seus próprios direitos, os resultados inevitáveis foram a confusão e a insegurança. Consequentemente, os indivíduos convieram instituir um governo e ceder-lhe certos poderes. A ele caberia a defesa dos direitos individuais naturais.
John Locke, o maior pensador do liberalismo político. Defensor dos direitos individuais naturais.

2. A liberdade. Este princípio está profundamente associado ao do individualismo. Pleiteia-se antes de tudo, a liberdade individual, dela decorrendo todas as outras: liberdade econômica, intelectual, religiosa e política. Para essa doutrina, a liberdade é condição necessária para a defesa da ação e das potencialidades individuais, enquanto a não liberdade é um desrespeito à personalidade de cada um. O princípio da liberdade presume que um indivíduo seja tão livre quanto outro para atingir uma posição social vantajosa, em virtude de seus talentos e aptidões. [...] Assim, o progresso geral da sociedade como um todo está condicionado ao progresso de cada indivíduo que obtem êxito econômico e, em última instância, à classe que alcança maior sucesso material.

3. A propriedade é entendida como um direito natural do indivíduo, e os liberais negam autoridade a qualquer agente político para usurpar seus direitos naturais. Na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa, a propriedade aparece imediatamente após a liberdade entre os "direitos naturais imprescritíveis". Locke considera que o estado existe para proteger os interesses do homem que, pelo seu próprio esforço, acumulou bens e propriedade, pois como disse ele, Deus fizera o mundo para o uso dos industriosos e racionais, e o estado existe para protegê-los em sua exploração do mundo.
Voltaire, o defensor dos direitos do proprietário.

4. A igualdade. Não significa igualdade de condições materiais. Assim como os homens não são tidos como iguais em talentos e capacidades, também não podem ser iguais em riquezas. Assim como os homens não são individualmente iguais, é impossível querer que sejam socialmente iguais. Pelo contrário, a igualdade social é nociva, pois provoca uma padronização, uma uniformização entre os indivíduos, o que é um desrespeito à individualidade de cada um. A verdadeira posição liberal exige a "igualdade perante a lei, igualdade de direitos entre os homens, igualdade civil. Tal posição defende que todos tem, por lei, iguais direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à proteção das leis.

Rousseau, a defesa da democracia participativa, radical. O povo é soberano . O patrono da revolução francesa.

5. A democracia. Consiste no igual direito de todos participarem do governo através de representantes de sua própria escolha.. Cada indivíduo, agindo livremente, é capaz de buscar seus interesses próprios e, em consequência, os de toda a sociedade. É verdade que nem todos os teóricos do liberalismo são democratas, como é o caso de Voltaire, que faz restrições à participação popular no governo. Seu interesse reside mais na garantia da segurança dos interesses dos indivíduos bem sucedidos do que na dos interesses gerais. Rousseau, o fundador da moderna doutrina democrática, ao contrário, dá especial importância à instauração de um governo popular, um governo da maioria.

 Estes princípios somados formam aquilo que se convencionou chamar de sociedade aberta, em contraposição à sociedade fechada, que era a sociedade medieval, ou - a sociedade dos homens livres e iguais.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Cerne da Questão. Graham Greene.

A minha formação escolar e acadêmica não foi voltada para a literatura. Muita gramática, muito latim e  mais o grego no ensino médio. Filosofia religiosa na Faculdade. Eu estava sendo preparado para ser padre, possivelmente um padre vigário de alguma colônia alemã no Rio Grande do Sul, talvez com aspiração de, no máximo, chegar a ser um cônego. Leituras, quando muito, algumas biografias do mundo das hagiografias. Faço esta introdução para dizer que nunca eu tinha lido nada deste escritor inglês, chamado Graham Greene.

Uma primeira grande referência ao escritor me veio através de Luís Fernando Veríssimo, quando ele citou uma obra de Graham Greene entre os seus dez romances preferidos. Mas o que realmente me levou a esta obra específica, A Grande Questão foi o livro Americanah, da escritora nigeriana Chimamnda Ngozi Adichie. O livro é citado várias vezes como a grande referência. Comprei o livro e o li imediatamente. Consultei os "dez mais" do Veríssimo. Um de seus preferidos é Fim de caso e não o livro em questão. Bem feito para mim. Estou diante de uma nova leitura.
O livro de Graham Greene, O Cerne da Questão. Editora Globo.

Com Alberto Manguel, escritor que teve o privilégio de ler para Borges, quando este foi acometido pela cegueira, em seu Uma História da Leitura, aprendi que a primeira coisa que se faz, quando se lê um autor, é situá-lo e datá-lo. Obedecendo a Manguel vamos pelo mais fácil, datar o escritor e situá-lo na Inglaterra entre os anos de 1904 e 1991. Carlos Vogt, na apresentação do livro, da editora Globo, nos informa que a primeira edição do livro foi publicada em 1948 e que o cenário do livro é um porto da costa leste de um país africano. Entendi a referência de Chimamanda.

O autor, antes de iniciar o livro faz uma advertência de que os personagens que fazem parte da narrativa são fictícios. Acredite se quiser. A cidade, embora não citada, de acordo com os estudiosos do autor é Freetown, a capital de Serra Leoa, na costa leste do continente africano. 1948. Pós guerra, colonialismo inglês, início da guerra fria, o cotidiano da administração colonial, o tráfico de diamantes e as possibilidades de fácil envolvimento com a corrupção constituem o cerne da obra, além, obviamente, dos dramas existenciais dos personagens envolvidos.

Autor e livro datados e situados, vamos aos principais personagens. Scobie, um major da polícia inglesa e sua esposa Louise ocupam a centralidade do livro. Helen Rolt, sobrevivente de um naufrágio a que Scobie atendeu, será outra grande personagem, na qualidade de sua amante. Cabe ao comerciante ou contrabandista sírio Yusef ensinar a naturalidade da corrupção ao major, ao lhe emprestar duzentas libras, no financiamento das férias de Louise, na África do Sul. 

Vamos caracterizar um pouco melhor Scobie, o personagem central. Vogt nos dá esta caracterização: "Scobie é um homem, hoje se diria, de meia-idade, com seus cinquenta anos, e um senso agudo de responsabilidade aliado a um fortíssimo sentimento de piedade em relação ao mundo, em relação às pessoas, em relação à sua mulher, em relação à amante, em relação a si mesmo".  Diante disso lhe assombravam o sentimento de impotência, misturando responsabilidade e pena. Buscava ou criava os problemas e não conseguia resolvê-los.
Graham Green, o memorável escrito inglês. Comparado a Dostoiévski e Albert Camus.
Este seu caráter é observado por outro personagem, Wilson, que o investiga e é o responsável pelos  mexericos: "Wilson teve a impressão de que Scobie ainda era novato no mundo da fraude: não vivera nele desde a infância". As duzentas libras emprestadas para quem ganhava exatas 28 libras, 15 xelins e sete pence menasais, obrigou Scobie a pequenas negligências em seu trabalho, que Yusef procurava recompensar como gratidão e não como suborno. A origem do empréstimo é a insatisfação de Louise, em sua pacata vida na cidade. Quer porque quer livrar Scobie de seus problemas com o seu afastamento de sua vida. Neste seu período de férias, Scobie atende a um naufrágio e conhece a senhora Rolt, que se transformará em sua amante. Com a volta de Louise a situação se torna insustentável.

Enredado nos problemas criados a partir do empréstimo, de seus antigos problemas com a esposa Louise, acrescidos agora com os de Helen, a amante e, especialmente, movido entre os sentimentos de culpa e de responsabilidade que lhe provém de sua formação, de seu catolicismo, tornam a situação insustentável. No entanto, profissionalmente as coisas vão bem, neste seu deserto dos tártaros. A promoção como Comissário está para chegar. A sua saúde se agrava e é acometido de insônia constante, no início controlada por comprimidos de Evipan. O desfecho:

"Enfiou os comprimidos (Evipan) na boca, seis de cada vez, e os engoliu com dois goles". [...] "E automaticamente, diante do grito de necessidade, do grito de uma vítima, Scobie se preparou para agir. Resgatou de uma distância infinita sua consciência para dar alguma resposta. Disse em voz alta: - Deus caríssimo, eu amo... - mas o esforço foi demasiado, e ele não sentiu o corpo quando este se chocou contra o chão...". Graham Greene, em grandeza, é comparado com Dostoiévski e Albert Camus.

Encerro com Jorge Amado, quando Tieta fala de Felipe, seu amante afortunado. "Felipe costumava dizer que para se viver feliz era preciso antes de tudo abolir a consciência". Depois voltava ao tema: "Para se viver bem, repetia Felipe, homem sábio, é necessário antes de tudo abolir a consciência. A merda é que nem sempre se consegue". Jorge Amado, em Tieta do Agreste. Como Scobie não conseguiu abolir esta consciência, outra solução foi buscada.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Estórias Abensonhadas. Mia Couto.

"... Nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza"...  Nas águas do tempo, pág. 13.
O belo livro de contos de Mia Couto. A beleza do livro começa pelo título.

"... Desde então, a menina passou a conduzir o cego. Fazia-o com discrição e silêncios. Era como se Estrelinho, por segunda vez, perdesse a visão. Porque a miúda não tinha nenhuma sabedoria de inventar. Ela descrevia os tintins da paisagem, com senso e realidade. Aquele mundo a que o cego se habituara agora se desiluminava. Estrelinho perdia os brilhos da fantasia. Deixou de comer, deixou de pedir, deixou de queixar". (...) Isso tudo, Estrelinho? Isso tudo existe aonde? E o cego em decisão de passo de estrada, lhe respondeu: - Venha, eu vou-lhe mostrar o caminho. O cego Estrelinho, pág. 24.

"- Se é para namorar o melhor é a noite. Os que já namoraram diverso e variado sabem o quentinho do escuro, leito do leito. De noite os seres, mudam seu valor. O dia mostra os defeitos do mundo: rugas, poeiras, vincos, tudo na luz se vê. À noite se olha mais, se vê menos. Cada ser se revela apenas pela luz que dele emana. E ela, nessa noite, produzia suave clareza que nem lua". O cachimbo de Felizberto, pág. 49.

O que é afinal, um conto?  Vamos ao Aurélio: "narrativa pouco extensa, concisa, e que contém unidade dramática, concentrando-se a ação num único ponto de interesse". Esta definição não me satisfez. Busco a Wikipedia.  Ela me diz que o contista, hoje em dia, se encontra meio perdido, em função da valorização do romance. Ela enquadra os poetas na mesma situação. Volto ao Aurélio: "Esta história mítica, cheia de símbolos, faz parte da seleção feita por Paulo Ronai e Aurélio Buarque de Holanda, das lendas, fábulas, diálogos e apólogos, parábolas, paródias, textos que podem ser considerados a origem do conto universal ". Esta ilustração me satisfez.  Aurélio usa esta citação, retirada de um artigo de jornal, para caracterizar o que é o conto.
O moçambicano Mia Couto, o maior contista da língua portuguesa, dos tempos presentes

 Os contos de Mia Couto são exatamente isso: são lendas, fábulas, diálogos e apólogos, parábolas paródias e muito mais. São poesia escrita em prosa. Cada conto é uma provocação, ou melhor, cada frase é uma provocação. Não existe a descrição, o senso da realidade. O que existe é o sonho, a imaginação e, acima de tudo a provocação para a reflexão. É arte e criação pura. "Do ponto de vista da álgebra, a ternura é um absurdo". É difícil de ler? Sim. Assim como também é difícil ler a poesia. Nós gostamos de ler linearmente e não complexamente. Não gostamos de pautar entrelinhas entre as linhas. Fechamos os espaços da criação e da imaginação. Por isso somos tão previsíveis. Por isso perdemos a genialidade.

De propósito, eu comecei com alguns fragmentos do livro de contos Estórias abensonhadas, do escritor moçambicano, Mia Couto. Espero que vocês tenham sentido a beleza e o encanto diante deles, que eu senti. Mia Couto é o maior gênio do conto, em língua portuguesa, nos tempos atuais. Vejamos um trechinho da apresentação do livro, na orelha da capa: "Aqui fantasia e realidade se entrelaçam e se impõem uma à outra, como num reflexo do próprio continente africano.  O rio que atravessa essas veredas é a prosa do autor. Frequentemente comparada à de Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Marquez, sua escrita transforma o falar das ruas em poesia, e carrega de magia a dura realidade de seu país. As palavras se combinam em inúmeros significados, e no menor dos enredos cabe tanto o lirismo quanto a guerra". E muito mais, eu acrescentaria.

Mas, vamos a mais algumas preciosidades: "Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me ler que desentorte as palavras. Alinhada só a morte. O resto tem as duas margens da dúvida. Como eu, feito de raças cruzadas. meu pai português, cabelos e olhos loiros. Minha mãe era negra, retintinha. Nasci, assim, com pouco tom na pele, muita cor na alma. Falo de Deus com respeito mas sem crença. Em menino, não entrei em igreja nem sequer para banho de batismo. Culpa de meu pai. Reza, dizia ele, só serve para estragar calças. Em sua suspeita a igreja devia ser lugar pouco saudável. - Pois mal se entra nela, dois passos dados  e já se cai de joelhos!?"  O padre surdo, pág. 131.

Por fim um canto à vida: "Mais vale é nenhum pássaro na mão. Mais vale é ver a passarada desfraldando asas na paisagem. O céu, afinal, só foi inventado depois das aves. E sorria. - Não esqueça filho: a vida é um perfume." A praça dos deuses, pág.152.

E se a gente só lesse literatura dessa qualidade, seríamos todos gênios? Vale muito a pena ler Mia Couto. Termino com uma frase sobre a curiosidade no mundo, que não é de Mia Couto. Está no livro Americanah, de Chimamda Ngozi Adichie e diz assim: "Kosi (esposa de Obinze) não tinha os mesmos interesses que ele (Obinze) - era uma pessoa literal que não lia, era satisfeita com o mundo, e não curiosa em relação a ele".

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O ódio à democracia. Janine Ribeiro e as razões do ódio ao PT.

Não tenho por hábito a transcrição de textos no meu blog. Mas creio que a urgência política deste momento me obrigue a fazer esta transcrição. Recebi hoje o livro de Jacques Rancière, O ódio à democracia. Não vou transcrever o livro, podem ter certeza e ficarem tranquilos. Acontece que Renato Janine Ribeiro faz uma apresentação do livro na orelha da capa e da contra capa, que no meu entender traduz este momento atual da política brasileira, de ódio ao PT pelas transformações substantivas que ele vem operando na democracia brasileira.
Da orelha da capa e da contra capa deste livro buscamos a sua bela apresentação e a sua conexão com o atual momento da política brasileira.
Como já assisti falas do Janine Ribeiro, das quais eu gostei muito e como vi declarações suas, agora nesta campanha, de apoio à presidente Dilma, creio que ele não se incomodará com a transcrição deste texto, obviamente, lhe dando o crédito da fonte. Antes da transcrição ainda uma frase da contra capa do livro, sobre o mesmo, de Slavoj Zizek: "Nos atuais tempos de desorientação da esquerda, o texto de Rancière oferece uma das raras conceitualizações consistentes de como continuar a resistir". Mas vamos ao texto de Janine Ribeiro.

"Nos últimos anos, o Brasil se tornou um exemplo de inclusão social, com dezenas de milhões de pessoas saindo da pobreza e da miséria para terem uma vida melhor. Em que pese a inclusão ter ocorrido sobretudo pelo consumo - mais do que pela educação -, ela mudou o país. Hoje, ninguém disputa o Poder Executivo atacando os programas de inclusão social. Eles se tornaram um consenso junto à grande maioria dos eleitores. Entretanto, um número expressivo de membros da classe média os desqualifica, alegando diversos pretextos. Para eles, o Brasil era bom quando pertencia a poucos. Assim, quando os polloi - a multidão - ocupam os espaços antes reservados às pessoas de "boa aparência", uma gritaria se alastra em sinal de protesto.
Renato Janine Ribeiro, um dos mais brilhantes pensadores brasileiros. professor da USP.

O que é isso, senão o enorme mal-estar dos privilegiados quando se expande a democracia? Democracia é hoje um significante poderoso, palavra bem-vista e que agrega um número crescente de possibilidades, indo da eleição pelo povo até a igualdade entre os parceiros no amor. Mas essa expansão da democracia incomoda. Daí, um ódio que domina nossa política, tal como não se via desde as vésperas do golpe de 1964, condenando medidas que favorecem os mais pobres como populistas e demagógicas.

Por isso são relevantes ensaios sustentando que a democracia não é um estado acabado, nem um estado acabado das coisas, que ela vive constante e conflitiva expansão; que não se reduz ao desenho das instituições, ou à governabilidade, ou ao jogo dos partidos, mas é algo que vem de baixo, desdenhado desde os gregos com o empenho insolente dos pobres em invadir o espaço que era de seus melhores, de seus superiores. Porque a ideia de separação social continua presente e forte. Se as ditaduras deixaram, desde os anos 1980, de tutelar a maior parte da humanidade, se governos eleitos proliferam, se a orientação sexual dissidente é mais bem aceita hoje, isso não significa que se tenha completado a democratização das formas de convivência social. E é justamente essa recusa da hierarquia que tem a ganhar com a leitura deste livro de Jacques Rancière que, à luz dos clássicos como da experiência francesa e mundial, continua um trabalho sempre renovado, jamais concluso, de afiar o gume da democracia". Renato Janine Ribeiro. orelha da capa e contra capa do Livro O ódio à democracia, de jacqus Rancière, da Boitempo.
Sócrates, há trinta anos. Na luta pela redemocratização do Brasil. Comício pelas Diretas Já.

Creio que todos vocês conseguiriam facilmente identificar estes propagadores do ódio na jovem e frágil democracia brasileira, que vai para muito além destes setores de classe média, a começar pelo candidato Aécio Neves, que tem hoje como único projeto de governo, desalojar o PT, e as suas políticas públicas em favor da cidadania, do Poder.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Americanah. Chimamanda Ngozi Adichie.

"Ele (Obinze) parou de falar e se remexeu. 'Ifem (Ifemelu), vou correr atrás de você. Vou correr atrás de você até dar uma chance a isso". Ifemelu ficou um bom tempo olhando para Obinze. Ele estava dizendo o que ela queria ouvir, mas ela continuava apenas olhando para ele. 'Teto' (Obinze), disse, finalmente. 'Entre'". Assim termina o romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. O premiado livro é um lançamento da Companhia das Letras, do mês de agosto de 2014.

Inicio o post da resenha deste livro com o seu final, com a finalidade de apresentar os dois personagens fundamentas do livro. Ifemelu e Obinze, ambos nigerianos, namorados durante o período da faculdade que depois se desencontram no vasto mundo de Deus, para terminarem novamente juntos, em Lagos, a maior cidade e centro financeiro da Nigéria. A capital da Nigéria é Ajuba, que também recebe referências, nada lisonjeiras, já quase ao final do livro. Mas este reencontro se dará somente depois que o mundo deu muitas voltas.
Americanah, de Chimimanda Ngozi Adichie, lançamento da Companhia das Letras. Sobre os Estados Unidos e a Nigéria.

O livro, de 513 páginas é dividido em cinco partes, partes estas, divididas em 55 capítulos. Três são os cenários principais do livro. Os Estados Unidos, a Inglaterra e a Nigéria. Os dois personagens principais já citados são nigerianos, que depois das andanças pelo mundo voltam para a Nigéria e se reencontram. Ifemelu teve passagem por várias partes dos Estados Unidos, enquanto que as desventuras de Obinze em Londres, terminaram com a sua deportação da Inglaterra.

Ifemelu, de origem muito pobre, conseguiu visto americano com uma bolsa de estudos, concedida por uma universidade americana. As dificuldades de adaptação foram enormes, especialmente as relacionadas com o trabalho, sempre clandestino e com identidades emprestadas. A sua principal referência será uma tia sua, Uju, que já morava lá, desde a morte de seu amante, um general que participava de um governo ditatorial militar na Nigéria. As relações com a tia são complicadas. Se descomplicam pela grande devoção de Dike para com Ifemelu. Dike é filho de Uju com o general nigeriano. 

O principal complicador na vida de Ifemelu sempre foi a questão financeira. Esta a leva praticamente até a sarjeta. Ifemelu mantinha relações por correspondência e telefone com Obinze, mas as terminou ao perceber-se absolutamente degradada. Outras amigas também a ajudam e ela arruma o seu primeiro emprego, babá na casa de uma família muito rica. Este emprego abre um leque de relações, até ela arrumar um namorado, branco e rico, Curt. Vivem uma grande paixão.

 Ifemelu inicia um novo trabalho que lhe dará certa notoriedade nos Estados Unidos, um blog sobre questões raciais. Ninguém melhor que uma negra africana para escrever sobre a questão nos Estados Unidos. A principal tese levantada é de que nos Estados Unidos a questão da raça quase equivale a questão das classes, ou é a verdadeira questão de classe. "Raça é classe". O blog é essencialmente interativo. Os comentários são provocados pelos temas que são levantados. O blog também faz referências a Obama, desde a candidatura até a eleição, passando pelos cabelos e penteados de Michele, a primeira dama.

Ifemelu não é muito constante em seus amores. Ela complica as suas relações. Curt, o namorado branco e rico a abandona ao saber-se traído. Novos amores virão, as complicações com a tia só aumentam. Dike tenta o suicídio. Ifemelu tenta entender a cultura americana. Talvez esteja aí um dos pontos mais significativos do livro, um passar a cultura americana em revista, obviamente com o viés do olhar negro. O seu sonho de regresso para a Nigéria se torna possível. O périplo americano termina com a eleição de Obama, o presidente negro (?) dos Estados Unidos.

Enquanto isso, o sonho de Obinze para ir aos Estados Unidos, termina em Londres, numa viagem em que acompanha a sua mãe, para uma conferência numa universidade londrina. Assim entra clandestino em Londres. Se alguém quiser saber como é esta situação é interessante ler, que muitas dicas serão dadas. Obinze procura legalizar a sua situação com um casamento arranjado, com prazo de validade de um ano, prazo estabelecido pela noiva, possivelmente para a venda de um novo casamento. Cidadania da União Europeia vale dinheiro. A fraude é descoberta na hora do casamento. Deportação imediata, sem contestações.
Chimimanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana, autora de Americanah.


Assim, tanto Obinze, quanto Ifemelu estão de volta a Lagos, mas ainda demorarão um bom tempo para o reencontro. Obinze ficará muito rico como incorporador imobiliário, enquanto Ifemelu irá trabalhar numa revista feminina e depois voltará a sua atividade dos Estados Unidos, o blog, agora sobre moda e comportamento. Obinze era agora um senhor casado e pai de uma filha. No seu nascimento, Kozi, a esposa, lhe promete que o próximo será um menino. Estas tiradas do imaginário cultural são outro ponto alto do livro, junto com o toque sutil e rápido, em graves questões existenciais impregnadas com as questões culturais fazem com que o livro tenha um sabor todo especial. Especial mesmo são as 19 páginas do capítulo 54 (488 a 507) onde são descritos os valores e costumes dos novos ricos da Nigéria e de Ajuba, a capital do país.

É claro que Obinze e Ifemelu se reencontrarão. O casamento de Obinze e as complicações de Ifemelu dificultarão a relação, que aparentemente poderia ser bem tranquila. As condições para isso estariam dadas, não fossem as complicações próprias e inerentes ao ser humano. As portas estão abertas para você ver o final da história deste casal nigeriano e suas desventuras pelo mundo. "Entre" disse Ifemelu para Obinze na última palavra do livro. E como leitura puxa leitura, já comprei O cerne da questão, de Graham Green.

Como este é mais um trabalho de resenha que eu faço na parceria do bolg com a Companhia das Letras vai a referência do livro: ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras. 2014.