quarta-feira, 29 de outubro de 2014

MALCOLM X. Uma vida de reivindicações. Manning Marable.

"Um profundo respeito pela humanidade negra e uma profunda crença nela estavam no cerne da fé visionária desse revolucionário. E quando sua visão social se ampliou, passando a incluir pessoas de diferentes nacionalidades e identidades raciais, seu gentil humanismo e antirracismo poderiam ter se tornado plataforma para uma nova espécie de política étnica e ódio religioso, como o que a Al-Qaeda quis projetar nele, Malcolm X deveria ser visto como um representante da esperança e da dignidade humanas. Pelo menos para os afro-americanos, ele já personifica essas mais elevadas aspirações".
A capa do livro da extraordinária biografia de Malcolm X. Livro importante para conhecer a história afro-americana.

Assim termina a volumosa biografia, de 650 páginas, de Malcolm X, escrita pelo historiador Manning Marable. A biografia registra a trajetória do grande líder, desde o seu nascimento em 19 de maio de 1925, até o seu trágico assassinato, na tarde de 21 de fevereiro de 1965, em Nova York.  Tem ainda um capítulo sobre o seu significado e o seu legado para os Estados Unidos, para os afro americanos e para toda a humanidade. O livro é também uma bela contextualização da história americana deste período.

A primeira coisa a destacar em sua biografia é a sua origem como um afro-americano pobre, totalmente enredado na pobreza, com todos os fatores pesando contra qualquer possibilidade de ascensão social, por causa de sua condição de negro. Essa situação o levou para a marginalidade, passando pelo mundo das drogas, de pequenos assaltos, para as condenações judiciais e para o sistema carcerário. Este era o cenário comum a todos os negros, que como ele, carregavam o estigma de negro e de pobre. Passou também por pequenos empregos do sub mundo do trabalho.
Um jovem esmagado pela lei da gravidade social e frequentando as páginas policiais.

A primeira doutrina com que All Hajj Mallik Al-Shabazz, ou Malcolm Little entrou em contato foi o garveysmo, por sua organização, a UNIA (Universal Negro Improvement Association), fundada em 1914 e que visava a união e a integração da diáspora africana que espalhou, pelo tráfico e pela escravidão, os negros pelo mundo afora. Por um irmão seu, entrou em contato com o islamismo. 

O marco mais significativo na vida e em seu processo de formação foi o seu contato com a Nação do Islã, a NOI, uma organização radical de islamitas heterodoxos, presidida por Elijah Muhammad. Esta seita pregava o ódio total aos brancos, vistos como o demônio e que pregavam o total segregacionismo negro. Queriam um estado ou uma nação negra em território americano. É nesse momento que conhece o significado das palavras muçulmano, aquele que se submete a Deus e de Jihad, como empenho e luta. Estes conceitos o acompanharão por toda a sua vida e serão as marcas fundamentais de sua doutrina. A partir desse momento é que passa a adotar o nome de Malcolm X. Este X é marca de todos os seguidores da Nação do Islã.
O poderoso Elijah Muhammad, da Nação do Islã. No caso com uma fiel. Ele costumava ter envolvimentos afetivos com suas discípulas, em flagrante contradição com a doutrina pregada.

A Nação do Islã era uma organização muito poderosa, militarmente hierarquizada e a indisciplina não era tolerada em hipótese nenhuma. Elijah Muhammad tinha o controle absoluto da organização em suas mãos. Apesar da rigidez da disciplina no cumprimento dos pilares do islamismo, o líder tinha um comportamento sexual devasso. Envolvia-se com meninas e tinha muitos filhos fora do casamento. Tudo isso era ocultado de seus seguidores. A arrecadação financeira era extremamente significativa e nada transparente.  Malcolm X rapidamente ascendeu na hierarquia da Nação do Islã e era extremamente leal ao seu chefe. Mas a sua poderosa palavra provocou desconfianças e ciumeira.
A denúncia da violência policial contra os negros, uma constante na vida de Malcolm X.

A ruptura com a Nação e com o seu líder se tornaria inevitável. Recebeu desde suspensões, proibições de falar ao público, até a suspensão definitiva da organização. Inconformismo pela conduta do mestre, disputas na hierarquia e na sucessão foram as causas. Mesmo assim, Malcolm não afrontava o mestre. A ruptura definitiva vem com as incursões internacionais de Malcolm, a sua conversão ao islamismo ortodoxo, na sua peregrinação a Meca e com o contato que irá ter com a África, recentemente descolonizada. Estas viagens marcam um salto na reformulação de seu ideal doutrinário, que se aproxima da luta da afirmação dos direitos humanos. O segregacionismo negro ficará cada vez mais distante.

A conjuntura internacional se fará muito presente em sua vida. A descolonização africana dará alento em sua vida e o coloca em contato com as doutrinas da revolução. Passa a admirar a revolução cubana e, inclusive, será comparado com a figura revolucionária de Chê Guevara. A sua admiração se estende também para Fidel e Mao e a revolução chinesa e aos herois da proclamação da independência das ex-colônias africanas.  Faz duas visitas por estes países, mantendo contato com os seus líderes. Os ideais terceiro-mundistas também passam a fazer parte de sua vida.
Boa oratória e argumentação arguta em cima de uma grande causa. A presença física também ajudou.

A vida de Malcolm já entra, neste período, em sua fase final. Cria duas organizações: A MMI  (Mesquita Muçulmana), basicamente com dissidentes da Nação do Islã e a OAAU (Organização da Unidade Afro-americana), de cunho mais internacional. As ameaças de morte são constantes. Elas só poderiam vir dos dirigentes da Nação do Islã, inconformados com a perda de fieis e de poder. É também neste período que Malcolm escreve a sua autobiografia, a grande responsável pela divulgação de suas ideias e a sua repercussão mundial. Em pouco tempo o livro venderá mais de seis milhões de exemplares.

O dia fatal se aproxima, 21 de fevereiro de 1965. Por volta das 15:00 horas, no conhecido endereço do Audubon, local tradicional das pregações de Malcolm, no Harlem, depois de uma confusão no auditório, ele é friamente assassinado. Quatro horas depois, no cenário do crime já transformado, ocorrerá um festivo baile. Ninguém estava muito interessado em investigar. As instituições americanas estavam aliviadas com a sua morte. Porém, a história se encarregará de preservar a sua memória.
Urna fúnebre e homenagens. Aí começa a sua verdadeira odisseia.

O livro termina com um capítulo sobre a reconstrução de sua importância e de seu significado histórico e acima de tudo sobre as suas influências. Traça um longo paralelo entre ele e outro grande líder negro, Martin Luther King, o pacifista, já oriundo das classes médias dos negros de Atlanta e com formação universitária, enquanto Malcolm tinha origem pobre e pregava a auto defesa armada. Mostra as influências de Malcolm sobre a música, especialmente sobre o hip hop e a incorporação de suas ideias e de sua repercussão pelo mundo, como mostramos no primeiro parágrafo deste post. Do seu período mais radical brota a gênese do movimento dos Panteras Negras. Spike Lee leva a sua vida ao cinema. Uma questão final. Obama seria hoje presidente dos Estados Unidos se não tivesse havido um revolucionário chamado Malcolm X?

Na leitura também aprendi um novo adjetivo ou uma nova qualificação para determinado tipo de pessoas, Pai Tomás. Creio que é fácil entender o seu significado. Deixo ainda a referência do livro: MARABLE, Manning. Malcolm X - Uma vida de reivindicações. São Paulo: Companhia das Letras. 2013.


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