sábado, 26 de setembro de 2020

Bolsonaro. Um discurso mentiroso na ONU. Sobre a mentira. Jacques Le Goff.

 No dia 22 de setembro de 2020, o presidente Bolsonaro fez um discurso estarrecedor na abertura da 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. O discurso chocou todo mundo, menos aos seus adeptos, donos das mesmas qualidades e virtudes de seu presidente. Como neste post não quero mostrar o discurso e sim uma visão histórica sobre o caráter perverso e falsário da mentira, deixo um link apropriado para ver o discurso "terrivelmente" mentiroso do presidente. https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2020/09/22/veja-o-que-e-fato-ou-fake-no-discurso-de-bolsonaro-na-onu.ghtml 

As considerações sobre a mentira e o seu caráter de gravidade e perversidade eu as tomo do livro do medievalista Jacques Le Goff, A civilização do ocidente medieval. O trecho é curto mas certeiro. A mentira é um dos piores atributos que se pode aplicar ao ser humano. O demônio é o pai da mentira, mas agora está em processo de competição com o triste e vergonhoso presidente brasileiro. Vejamos Le Goff, sob o título: A falsidade e a mentira:

A Civilização do Ocidente Medieval.  Jacques Le Goff. EDUSC. 2005.


"Antes de chegar lá, os homens da Idade Média tiveram que lutar contra uma impressão generalizada de insegurança, e o combate não tinha chegado ao fim no século 13. Sua grande perturbação provém de que os seres e as coisas não são realmente o que parecem. O que a Idade Média mais detesta é a mentira. O epíteto natural de Deus é 'aquele que nunca mente'. Os maus são mentirosos. 'Vós sois um mentiroso, Fernando de Carrion', diz Pero Bermuez na cara de um infante, e Martin Antolinez, outro companheiro do Cid, joga na cara do segundo infante: 'Fechais vossa boca, mentiroso, boca-sem-verdade'. A sociedade é feita de mentirosos. Os vassalos são traidores, félons (vassalo traidor) que renegam seu senhor, êmulos de Ganelão (traidor famoso dos francos), e, depois dele, do grande protótipo de todos: Judas. Os mercadores são fraudadores que só pensam em enganar e roubar. Os monges são hipócritas, tal Falso-Semblante, personificado no Roman de la Rose por um franciscano. O vocabulário medieval é de extraordinária riqueza para designar os inumeráveis tipos de mentira e as infinitas espécies de mentirosos. Até os profetas podem ser falsos profetas, e os milagres, falsos milagres, obras do Diabo. É que o domínio do homem medieval sobre a realidade é tão fraco que ele deve valer-se da astúcia para levar a melhor. Pode-se pensar que aquela sociedade belicosa tudo ganhava ao atacar. Grande ilusão. As técnicas eram tão medíocres que a resistência quase sempre prevalecia sobre a ofensiva. Mesmo no domínio militar, os castelos e as muralhas eram quase impenetráveis. Quando o invasor os forçava, era quase sempre pela astúcia. A totalidade de bens colocados à disposição da humanidade medieval era tão insuficiente que para viver era preciso 'se arranjar'. Aquele que não tinha força ou astúcia estava quase que com certeza fadado a perecer. O que é seguro e quem é seguro? Da imensa obra de Santo Agostinho, a Idade Média deu atenção especial ao tratado De Mendacio (Da mentira)".

Texto extraído de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC, 2005. Páginas 354-355.

Que feio, presidente.



sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O imaginário medieval do Diabo. Jacques Le Goff.

Uma das coisas que efetivamente aprendi na vida é a de que nenhuma ideologia se impõe, se paralela a ela, não se criar um poderoso e temível inimigo. Isso não foi diferente dentro da construção do cristianismo medieval. Lendo o belo livro A civilização do ocidente medieval, de Jacques Le Goff, encontrei uma bela passagem referente a esse fenômeno: a construção do demônio no imaginário medieval. Essa passagem tem por título: "O além: O diabo. Vejamos.

A civilização do ocidente medieval. Jacques Le Goff. EDUSC. Tradução de José Rivair de Macedo.

"Um poderoso personagem disputa com Deus o seu poder no céu e sobretudo na terra: o Diabo.

Na Alta idade Média, Satã não tem papel de primeiro plano, nem muito menos uma personalidade de destaque. Ele aparece com nossa Idade Média, e se afirma no século 11, sendo uma criação da sociedade feudal. Com seus sequazes, os anjos rebeldes, ele é a própria imagem do vassalo pérfido, do traidor. O Diabo e o Bom Deus, eis o par que domina a vida da Cristandade medieval, cuja luta, aos olhos dos homens da Idade Média, explica todos os pormenores dos acontecimentos.

Segundo a ortodoxia cristã, sem dúvida Satã não é igual a Deus, mas sim sua criatura, um anjo decaído. A grande heresia da Idade Média foi, sob formas e nomes diversos, o maniqueísmo. Pois o maniqueísmo professava a crença em dois deuses, um do bem e outro do mal, criador e senhor deste mundo. Para a ortodoxia cristã, o grande erro do maniqueísmo era por Deus e Satã, o Diabo e o Bom Deus, em pé de igualdade. Não obstante, todo o pensamento e o comportamento dos homens da Idade Média eram dominados por um maniqueísmo mais ou menos consciente, mais ou menos sumário. Para eles, de um lado estava Deus e de outro o Diabo. Esta grande divisão dominava a vida moral, a vida social  e a vida política. A humanidade encontrava-se dividida entre estes dois poderes divergentes e irreconciliáveis. Se um ato fosse bom, provinha de Deus; se fosse mau, vinha do Diabo. No Juízo Final os bons irão para o Paraíso e os maus serão lançados no Inferno. Só muito tardiamente a Idade Média veio a tomar conhecimento do Purgatório, do fim do século 12, que lhe permitiria dosar melhor um julgamento durante muito tempo inspirado por seu maniqueísmo latente e intolerante. A iconografia resistiu à ideia do purgatório no século 13, ignorando o julgamento individual pos-mortem, e durante muito tempo, na cena do Juízo Final, continuou a representar apenas a divisão da humanidade em eleitos e condenados. A bipartição da humanidade nos tímpanos das catedrais é a imagem implacável desta intolerância.

Os homens da Idade Média estavam, pois, constantemente divididos entre Deus e Satã.  Este era tão real quanto o outro, e até aparecia mais em carne e osso. É certo que a iconografia podia figurá-lo sob uma forma simbólica: ele era a serpente do pecado original, aparecendo entre Adão e Eva; era o Pecado., pecado da carne ou do espírito, separados ou juntos; era o símbolo do apetite intelectual e do apetite sexual. Mas aparecia principalmente com variada aparência antropomórfica. Podia se manifestar a qualquer instante aos homens, o que provocava uma terrível angústia. Todos sabiam que viviam constantemente espreitados pelo 'antigo inimigo do gênero humano'.

Ele aparecia sob dois aspectos, resíduo talvez de uma dupla origem. Como sedutor, revestia-se de aparência enganadora e aliciante. Como perseguidor, aparecia sob seu aspecto terrificante.

Em seu disfarce mais comum, ele se vale da aparência de uma jovem de grande beleza, mas a Legenda Aurea está repleta de narrativas de peregrinos ingênuos ou fracos de fé que sucumbem ao Diabo que lhes aparece como um falso Santiago.

O Diabo perseguidor geralmente se recusa a disfarçar. Mostra-se às suas vítimas sob seu aspecto repugnante. No início do século 11 ele foi visto pelo monge Raul Gabler, 'numa noite antes do ofício das matinas', no mosteiro de Saint-Léger de Champeaux: 'Vi aparecer ao pé de meu leito uma espécie de homenzinho horrível de se ver. Tanto quanto pude apreciar, era de estatura mediana, com pescoço fino, rosto macilento, olhos muito negros, fronte rugosa e franzida, narinas delgadas, boca grande, lábios grossos, queixo fugidio e muito estreito, barba de bode, orelhas peludas, cabelos eriçados e emaranhados, dentes de cão, crânio pontudo, peito inchado, tinha uma corcunda nas costas, nádegas frementes e vestimenta sórdida'.

As infelizes vítimas femininas e masculinas de Satã costumam ser a presa do ímpeto sexual dos demônios conhecidos como íncubos e súcubos.

As vítimas de elite  são constantemente assediados por Satã, que se vale de todas as astúcias, de todos os disfarces, de todas as tentações, de todas as torturas. A mais célebre dessas vítimas heroicas do Diabo foi Santo Antônio.

Objeto de uma disputa terrena entre Deus e o Diabo, também na morte o homem era objeto de uma derradeira e decisiva disputa. A arte medieval representou à saciedade o momento final da existência terrestre, em que a alma do morto era disputada por Satã e São Miguel antes de ser levada pelo vencedor ao Paraíso ou ao Inferno. Notemos ainda aqui que, para não cair no maniqueísmo, o adversário do Diabo não é Deus em pessoa, mas seu lugar-tenente. Mas sublinhemos sobretudo que esta imagem do encerramento da vida do homem medieval acentua a passividade de sua existência, sendo a mais alta e surpreendente expressão de sua alienação.

Os poderes sobrenaturais não estavam reservados exclusivamente a Deus e Satã. Alguns homens eram dotados deles em certa medida. Uma camada superior da humanidade medieval era constituída de indivíduos munidos de dons sobrenaturais. O trágico disto é que o indivíduo comum, da massa, tinha dificuldade em distinguir entre os bons e os maus, sendo constantemente enganado ao participar deste teatro de ilusões e equívocos que foi a Idade Média. Jacopo de Varaze lembra na Legenda Aurea as palavras de Gregório Magno: 'Os milagres não fazem o santo, são apenas o seu sinal', e esclarece: 'Pode-se fazer milagres sem ter o Espírito Santo, pois os próprios maus já puderam se vangloriar de ter feito milagres'.

Os homens da Idade Média não duvidam que o Diabo pudesse realizar milagres - sem dúvida com a permissão de Deus, mas isso não muda nada o efeito produzido sobre o homem. Esta faculdade era também associada a mortais, e podia ser utilizada para o bem ou para o mal. Daí advém toda a dualidade equívoca da magia negra e da magia branca, que o vulgo tinha dificuldade de distinguir. É a dupla antitética de Simão o Mago e de Salomão o Sábio. De um lado, a gente maléfica dos feiticeiros, de outro o grupo bendito dos santos. O problema é que os primeiros apresentam-se em geral como santos disfarçados, pertencendo à grande família dos falsos profetas enganadores. Sem dúvida que podem ser desmascarados e opostos em fuga com um sinal de cruz, uma invocação oportuna, uma prece adequada. Mas como desmascará-los? Uma das tarefas essenciais dos verdadeiros santos é precisamente reconhecer e expulsar os preparadores de falsos, ou melhor, de maus milagres, isto é, os demônios e seus cúmplices terrestres, os feiticeiros. Neste aspecto São Martinho era um especialista. Segundo a Legenda Aurea, 'Ele brilhava por sua habilidade em reconhecer demônios, e os descobria sob todos os seus disfarces'. A humanidade medieval estava cheia de possuídos, vítimas infelizes de Satã que se escondia em seus corpos, ou de malefícios de magos. Somente os santos podiam salvá-los, obrigando seus perseguidores a soltá-los. O exorcismo era função essencial dos santos. A humanidade medieval excluía uma massa de possuídos de fato e em potencial, atormentada entre uma minoria de maus e uma elite de bons feiticeiros. Notemos ainda que embora 'os bons feiticeiros' fossem recrutados essencialmente no grupo dos clérigos, alguns leigos eminentes podiam também entrar nesta categoria. É o caso, do qual voltaremos a falar, dos reis milagreiros, dos reis taumaturgos".

Texto retirado de: LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Bauru, EDUSC. 2005. Páginas 153-156.


História do medo no ocidente - Jean Delumeau. Tradução de Maria Lúcia Machado.

Adendo: Em 19.10.2020. Impressionante relato sobre a invenção do demônio no imaginário ocidental é encontrado no livro de Jean Delumeau - História do medo no Ocidente 1300-1800. O capítulo 7, das páginas 239 a 259 é dedicado a Satã. Uma história de horrores, seguramente.

sábado, 19 de setembro de 2020

História do cristianismo. Parte 3. A tentativa de organização germânica. Jacques Le Goff.

 Em 2018, sob inspiração e coordenação do professor Sebastião Donizete Santarosa, participei de um curso que denominamos de "Formação do pensamento Ocidental". Como o cristianismo é um dos componentes fundamentais desse pensamento ou cultura, o tema foi trabalhado. Buscamos, na época, mais os seus momentos fundadores e, dois textos foram trabalhados mais especificamente. O primeiro, de Paul Johnson, sobre o que se poderia chamar de ato fundador, retirado de seu belo livro História do cristianismo, em que relata o Concílio de Jerusalém, sob o comando do apóstolo Paulo. Dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/historia-do-cristianismo-parte-um.html O segundo texto foi retirado de outro belo livro Uma história da leitura, de Alberto Manguel e que versa sobre o Edito de Milão e o Concílio de Niceia, quando o cristianismo se transformou em religião oficial. Também dou o link: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/05/o-edito-de-milao-e-o-concilio-de-niceia.html

Agora, retomando o tema em um grupo mais restrito, por uma espécie de diletantismo, insiro no blog um terceiro texto, do livro do medievalista Jacques Le Goff A civilização do ocidente medieval, onde se mostra como o cristianismo praticamente se torna a religião de toda a Europa sob o império de Carlos Magno. Do livro, tomo da sua parte I, o início do capítulo 2, sob o título: "A tentativa de organização germânica (séculos 8º - 10º). Essa primeira parte do livro tem por título "Do mundo antigo à cristandade medieval. Vamos ao texto de Le Goff: "O Ocidente Carolíngio":

A civilização do Ocidente Medieval. EDUSC. 2005. Tradução de José Rivair de Macedo.

"A retomada inscreveu-se, em primeiro lugar, no espaço. A reconstituição da unidade ocidental pelos Carolíngios realizou-se em três direções: para o sudeste, na Itália; para o sudoeste, rumo à Espanha; e no leste, na Germânia.

Aliado do papa, Pepino o Breve introduz a política carolíngia na Itália, conduzindo uma primeira expedição contra os Lombardos em 754 e uma segunda em 756. Por fim Carlos Magno captura o rei Didier em Pavia no ano de 774, tomando-lhe a coroa da Itália, mas tem de lutar para se impor no norte da Península, e acaba perdendo os ducados lombardos de Spoleto e Benevento.

No sudoeste foi também Pepino quem deu o primeiro passo ao retomar Narbonne dos muçulmanos no ano de 759. Na lenda, entretanto, a reconquista da cidade estará ligada ao nome de Carlos Magno. Mais tarde, em 801, aproveitando-se das guerras internas dos muçulmanos, Carlos Magno tomará Barcelona. Foi então criada uma Marca da Espanha desde a Catalunha até Navarra, graças sobretudo ao conde Guilherme de Toulouse - que viria a se tornar o herói das canções de gesta do ciclo de Guilherme de Orange. Mas nem sempre os Carolíngios tiveram êxito na luta contra os muçulmanos e contra os povos pirenaicos. Em 778 Carlos Magno tomou Pampeluna mas não atacou Saragoça, tomou Huesca, Barcelona e Gerona e, abandonando Pampeluna depois de arrasá-la, retomou o caminho do norte. Montanheses bascos armaram uma emboscada contra a retaguarda dos Francos para apropriar-se de seus pertences. Em 15/8/778, no Desfiladeiro de Ronscesvales, os Bascos massacraram as tropas comandadas pelo senescal Eggiharde, o conde palatino Anselmo e o prefeito da Marca da Bretanha chamado Rolando. Os Anais Reais carolíngios não mencionam uma palavra a respeito da derrota; um dos compositores dos anais anota para 778: 'Neste ano o senhor rei Carlos foi à Espanha e sofreu um grande desastre'.  Os vencidos foram transformados em mártires e os seus nomes perpetuaram-se. A revanche dos francos foi La Chanson de Roland.

No leste, Carlos Magno deu início a uma tradição de conquista em que massacre e conversão misturavam-se - a cristianização pela força que a Idade Média iria praticar por muito tempo. Ao longo do Mar do Norte, de 772 a 803 os Saxões foram conquistados com muito custo, numa série de campanhas em que alternavam vitórias aparentes e revolta de pretensos vencidos - da qual a mais espetacular foi liderada por Widukind em 778. Ao desastre sofrido pelos Francos no Süntal seguiu-se uma repressão feroz: Carlos Magno mandou decapitar quatro mil e quinhentos revoltados em Verden.

Auxiliado por missionários - todo e qualquer ferimento cometido contra algum deles e toda ofensa à religião cristã eram punidos com a morte segundo uma capitular editada com o fim de ajudar a conquista -, e conduzindo ano após ano os guerreiros para o interior do território, batizando uns, pilhando outros, queimando, massacrando e efetuando deportações em massa, Carlos acabou por subjugar os Saxões. Bispados foram criados em Bremen, Münster, Paderborn, Verden e Minden.

O horizonte germânico, especialmente o Saxão, atraiu Carlos Magno para o leste. Ele trocou o Vale do Sena, em que os Merovíngios tinham se fixado em Paris e seus arredores, pelas regiões do Mosa, do Mosela e do Reno. Sempre itinerante, frequentava preferencialmente as cidades reais de Heristal, Thionville, Worms e sobretudo Nijmeegen, Ingelheim e Aix-la Chapelle, onde mandou construir três palácios. O de Aix ganhou certa preeminência devido ao tipo particular de sua arquitetura, o número de vezes que Carlos Magno lá esteve, e a importância dos acontecimentos de que foi palco.

A conquista da Baviera foi a de um território já cristianizado e que, teoricamente, era vassalo dos francos desde os tempos merovíngios.

A nova província bávara permanecia exposta às incursões dos Ávaros, povo de origem turco-mongol proveniente das estepes asiáticas, como os Hunos, e que ao dominar um certo número de povos eslavos criara um império que englobava as duas margens do Danúbio Médio, da Caríntia à Panônia. Saqueadores profissionais, tinham acumulado enorme butim de seus reides em seu quartel general que conservava ainda a forma redonda das tendas mongóis: o Ring. Este acabou nas mãos de Carlos Magno em 796, e o soberano Franco anexou a parte ocidental do Império ávaro - entre o Danúbio e o Drave.

Mas o Estado carolíngio mal tocara o mundo eslavo. Expedições conduzidas ao curso inferior do Elba e além, depois da conquista da Saxônia, tinham repelido ou englobado certas tribos eslavas. Com a vitória sobre os Ávaros, Eslovenos e Croatas passaram a fazer parte do mundo franco.

Carlos Magno lançou-se, enfim, contra os gregos. Mas este foi um conflito muito particular, cujo significado prende-se a um acontecimento que, em 800, conferiu novas dimensões à empresa carolíngia: a coroação do rei franco como imperador pelo papa em Roma.

O restabelecimento do Império no Ocidente não parece ter sido ideia carolíngia, mas sim pontifical. Carlos Magno tinha interesse de consagrar a divisão do antigo Império romano num Ocidente em que seria o chefe e num Oriente que não ousava disputar ao basileus bizantino, mas recusava-se reconhecer a este o título imperial que evocava uma unidade desaparecida.

Mas em 799 o papa Leão III viu uma tripla vantagem em dar a coroa imperial a Carlos Magno. Aprisionado e perseguido por seus inimigos em Roma, ele precisava ver sua autoridade restaurada de fato e de direito por qualquer um que pudesse impor autoridade a todos sem contestação: um imperador. Chefe de um Estado temporal, o Patrimônio de São Pedro, ele desejava ver esta soberania temporal corroborada por um rei superior a todos os demais - tanto em título quanto de fato. Enfim, junto com uma parte do clero romano, pensava em fazer de Carlos Magno um imperador para todo o mundo cristão, incluindo Bizâncio, a fim de lutar contra a heresia iconoclasta e de estabelecer a supremacia do pontífice romano sobre toda a Igreja. Carlos Magno se deixou convencer e coroar em 25/12/800. Mas só se defrontou com Bizâncio para obter reconhecimento de seu título e de sua igualdade. O acordo foi firmado em 814, alguns meses antes de sua morte. Os francos devolveram Veneza, mantendo as terras do norte do Adriático e o Basileus reconheceu o título imperial de Carlos Magno.

Carlos Magno teve a preocupação de administrar com eficácia este vasto espaço. Embora as determinações de governo fossem em geral orais, o uso da escrita veio a ser estimulado, e um dos principais objetivos do renascimento cultural de que se falará adiante foi o aperfeiçoamento profissional dos oficiais reais. Carlos Magno esforçou-se sobretudo para estender sua autoridade a todo reino franco aperfeiçoando os textos administrativos e legislativos e multiplicando enviados pessoais, quer dizer, representantes do poder central.

O instrumento escrito era constituído pelas capitulares ou ordenações, algumas particulares, destinadas a uma região, como as capitulares dos saxões, e outras gerais, como a capitular de Herstal (ou Heristal) sobre a reorganização do Estado (779), a capitular De Villis, sobre a administração dos domínios reais e a capitular De litteris colendis, sobre a reforma da instrução. O instrumento humano era constituído pelos missi dominici, pessoas importantes de proveniência laica ou eclesiástica enviadas anualmente para fiscalizar os representantes do soberano - condes e, nas fronteiras, marqueses ou duques - ou reorganizar a administração. Acima, os mais importantes membros da aristocracia eclesiástica e laica do reino reuniam-se anualmente, ao fim do inverno, numa Assembleia Geral com o soberano. Esta espécie de parlamento aristocrático - a palavra populus  que os designa não deve nos enganar - que garantia a Carlos Magno a obediência de seus súditos viria, ao contrário, impor a seus fracos sucessores a vontade dos grandes do reino.

Com efeito, no decurso do século 9º, a grandiosa construção carolíngia viria a se desorganizar rapidamente sob os golpes conjugados de inimigos externos - novos invasores - e de fatores internos de desagregação". LE GOFF, Jacques. A civilização do mundo ocidental. Florianópolis, Edusc. 2005. Páginas 43- 46.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O Processo. Franz Kafka.

Mais uma vez me deparo com Franz Kafka. Dessa vez, pela retomada dos livros da Biblioteca Folha, pelo livro de número 17, O Processo. Lembro de Kafka pelo cinema e pela leitura, em 2007, quando cheguei até o terceiro capítulo (o livro da L&PM Pocket). O preparo de aulas e outros focos de interesse serviram de pretexto para a interrupção. No filme, que passou tarde da noite, houve a interrupção pelo sono. Tudo se justifica. O livro não é de leitura fácil, embora o título dos capítulos te dê as pistas sequenciais da descrição.
O Processo. Biblioteca Folha. 2003. Primeira edição em 1925. Tradução de Modesto Carone.

A primeira das frases sintetiza bem o livro: "Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". Esse é o começo de um enorme emaranhado de circunstâncias sem saída e de um envolvimento cada vez mais complicado, com juízes, tribunais, cartórios, advogado, sacerdote, pintor, meninas, num enrendar cada vez mais comprometedor. Como o mais importante de uma obra literária é entender o que o autor quis dizer e como se trata de uma das mais importantes obras da literatura universal, recorro à voz de dois especialistas.

O primeiro é Modesto Carone, autor de um belo posfácio, para a edição da Biblioteca Folha. O seu posfácio tem sete tópicos dos quais tomo o de número cinco, sobre as possíveis interpretações da obra. Lembrando que a obra foi escrita a partir de 1914, com interrupções e publicada postumamente em 1925, por Max Brod, amigo e testamenteiro literário. Kafka teve uma problemática e curta vida (1883- 1924). Deixo o link de uma biografia sua. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2014/08/franz-kafka-por-louis-begley.html  Mas vamos a Carone:

"Esses pormenores (dados biográficos, influências e contextualizações) ajudam a localizar algumas circunstâncias de caráter histórico e pessoal capazes de alimentar o impulso de fabulação do romancista na época em que estava gestando O Processo. Mas é evidente que nenhum deles pretende ou pode dar conta da obra enquanto generalização artística da experiência. A esta tarefa se lançam, com assiduidade, as interpretações do romance, cujo número, nas mais variadas vertentes (teológicas, filosóficas, socio-políticas, psicanalíticas, estético-formais etc.), aumenta à medida que se amplia a posição de Kafka como um clássico da Weltliteratur. É compreensível que as notas de um posfácio não comportem nem mesmo um sumário dessas exegeses, mas isso não impede que sejam citados alguns exemplos interessantes.

Na linha teológico-existencial, há um grupo bem numeroso de intérpretes que veem no romance a representação da culpa do homem contemporâneo, já que o livro não trata de um processo criminal que se desenrole diante de uma corte de justiça convencional. Outros, pela mão contrária, descartam qualquer viés alegórico desse tipo e afirmam, baseados na História, que nada é mais real (ou realista) que O Processo, pois o entrecho reflete a desumanização burocrática da Monarquia do Danúbio. Os que não concordam com esta tese, entretanto, argumentam que a administração austro-húngara nada tinha em comum com as imagens de O Processo, além do que a avaliação da burocracia, feita pelo Kafka funcionário público, não era a de um súdito impotente diante de uma máquina impessoal e aniquiladora. Mas há críticos que consideram de outra natureza o realismo de Kafka - para eles um escritor habilitado a oferecer, a partir do seu ângulo específico de observação histórica, uma visão esteticamente eficaz e nada metafísica do que ainda estava por acontecer; por isso, O Processo pode ser concebido como uma profecia do terror nazista, em que a detenção imotivada, os comandos de espancamento, as decisões incontrastáveis das esferas de poder e o assassínio brutal faziam parte do cotidiano. Seguindo uma linha análoga de raciocínio, que procura por em evidência a lucidez de um autor 'desengajado' (e podado pelo stalinismo), constam também da bibliografia análises que percebem no romance o esforço bem-sucedido de mapear por dentro a alienação encoberta do dia-a-dia através das peripécias de K. pelas instâncias reificadas do mundo administrado. Vistos desse ângulo 'protocolos herméticos' como O Processo desvendam a gênese social da esquizofrenia; ou então um universo sem esperanças, de onde foi banido o mito da salvação. Com menos sutileza, existe quem perceba, nesta como em outras narrativas de Kafka, a expressão do 'vanguardismo decadente' de um pequeno-burguês angustiado, que hipostasiou o medo ao invés de superá-lo pela análise concreta.  Já na vertente psicológica ou psicanalítica, o leitor encontra afirmações no sentido de que a ação romanesca de O Processo reflete um caso de neurastenia, ou então que as desventuras objetivas de K. são apenas um sonho, quando não a imagem delirante de um indivíduo entregue ao isolamento e à exaustão. Uma vez porém que a história é narrada da perspectiva do personagem, não faltam os que reconhecem, nos acontecimentos do livro, ora um mundo de aparência, ora um mero 'processo de pensamento' de Josef K.

O contraste entre essas teses dá uma ideia do que ocorre na fortuna crítica do romance - a tal ponto que soa plausível pretender, como fazem alguns estudiosos, que as questões relativas ao 'sentido' da obra continuam em aberto. Mesmo os trabalhos centrados na organização formal do romance acabam por tratá-lo como uma espécie de 'metáfora absoluta', que remete aos seus próprios termos, retirando-lhe assim a dimensão do conhecimento. Mas é evidente que, agindo desse modo, essas análises se transformam no avesso vazio das interpretações que se propõem como definitivas".

Já a edição da L&PM Pocket tem um prefácio assinado por Marcelo Backes, em que apresenta o autor e a obra. Ela apresenta a obra da seguinte maneira:
O Processo. L&PM Pocket. 2007. Tradução Marcelo Backes.

"A obra de Kafka já foi analisada por todos os ângulos, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desespero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de seus livros. Seus personagens são vítimas de um enigma insolúvel - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala a ausência de luz no fim do túnel. Ele é o escritor do lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.

O realismo de Kafka é mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes, irônico, mas, no fundo, sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escreve é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra; seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impessoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito: 'Escrever como forma de oração', e Kafka fez de sua arte sua reza.  Em outra passagem o autor diria: 'Um livro tem de ser o machado para o mar congelado do nosso interior'. O Processo - e toda a obra de Kafka - é um exemplo perfeito disso.

George Lukács, marxista ortodoxo, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'os protocolos herméticos de Kafka contêm a gênese social da esquizofrenia', e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno".



quinta-feira, 10 de setembro de 2020

7 de setembro - 2020. O discurso histórico de LULA.



No dia 7 de setembro de 2020, o ex-presidente LULA fez um pronunciamento à Nação brasileira. Um memorável discurso, apontando caminhos e mostrando os descaminhos do atual governo, originário do golpe de 2016. Um discurso de estadista que marcou a sua disposição de voltar à presidência da República, pelo processo eleitoral de 2022. "Estou pronto", disse o presidente. Não vou me ater a comentários para dar voz ao presidente.

Uso o espaço do blog, por ser um instrumento de maior tempo de permanência e de fácil localização. Um documento para ser estudado no futuro da história desse nosso país, a NAÇÃO, Pátria e Mátria de todos os brasileiros e brasileiras. Um registro histórico. Eis o pronunciamento, primeiro o seu teor escrito e depois a sua versão falada.
7 de setembro - 2020. O histórico pronunciamento do presidente LULA

“Minhas amigas e meus amigos.
Nos últimos meses uma tristeza infinita vem apertando meu coração. O Brasil está vivendo um dos piores períodos de sua história.
Com 130 mil mortos e quatro milhões de pessoas contaminadas, estamos despencando em uma crise sanitária, social, econômica e ambiental nunca vista.
Mais de duzentos milhões de brasileiras e brasileiros acordam, todos os dias, sem saber se seus parentes, amigos ou eles próprios estarão saudáveis e vivos à noite.
A esmagadora maioria dos mortos pelo Coronavírus é de pobres, pretos, pessoas vulneráveis que o Estado abandonou.
Na maior e mais rica cidade do país, as mortes pelo Covid-19 são 60% mais altas entre pretos e pardos da periferia, segundo os dados das autoridades sanitárias.
Cada um desses mortos que o governo federal trata com desdém tinha nome, sobrenome, endereço. Tinha pai, mãe, irmão, filho, marido, esposa, amigos. Dói saber que dezenas de milhares de brasileiras e brasileiros não puderam se despedir de seus entes queridos. Eu sei o que é essa dor.
Teria sido possível, sim, evitar tantas mortes.
Estamos entregues a um governo que não dá valor à vida e banaliza a morte. Um governo insensível, irresponsável e incompetente, que desrespeitou as normas da Organização Mundial de Saúde e converteu o Coronavírus em uma arma de destruição em massa.
Os governos que emergiram do golpe congelaram recursos e sucatearam o Sistema Único de Saúde, o SUS, respeitado mundialmente como modelo para outras nações em desenvolvimento. E o colapso só não foi ainda maior graças aos heróis anônimos, as trabalhadoras e trabalhadores do sistema de saúde.
Os recursos que poderiam estar sendo usados para salvar vidas foram destinados a pagar juros ao sistema financeiro.
O Conselho Monetário Nacional acaba de anunciar que vai sacar mais de 300 bilhões de reais dos lucros das reservas que nossos governos deixaram.
Seria compreensível se essa fortuna fosse destinada a socorrer o trabalhador desempregado ou a manter o auxílio emergencial de 600 reais enquanto durar a pandemia.
Mas isso não passa pela cabeça dos economistas do governo. Eles já anunciaram que esse dinheiro vai ser usado para pagar os juros da dívida pública!
Nas mãos dessa gente, a Saúde pública é maltratada em todos os seus aspectos.
A substituição da direção do Ministério da Saúde por militares sem experiência médica ou sanitária é apenas a ponta de um iceberg. Em uma escalada autoritária, o governo transferiu centenas de militares da ativa e da reserva para a administração federal, inclusive em muitos postos-chave, fazendo lembrar os tempos sombrios da ditadura.
O mais grave de tudo isso é que Bolsonaro aproveita o sofrimento coletivo para, sorrateiramente, cometer um crime de lesa-pátria.
Um crime politicamente imprescritível, o maior crime que um governante pode cometer contra seu país e seu povo: abrir mão da soberania nacional.
Não foi por acaso que escolhi para falar com vocês neste 7 de Setembro, dia da Independência do Brasil, quando celebramos o nascimento do nosso país como nação soberana.
Soberania significa independência, autonomia, liberdade. O contrário disso é dependência, servidão, submissão.
Ao longo de minha vida sempre lutei pela liberdade.
Liberdade de imprensa, liberdade de opinião, liberdade de manifestação e de organização, liberdade sindical, liberdade de iniciativa.
É importante lembrar que não haverá liberdade se o próprio país não for livre.
Renunciar à soberania é subordinar o bem-estar e a segurança do nosso povo aos interesses de outros países.
A garantia da soberania nacional não se resume à importantíssima missão de resguardar nossas fronteiras terrestres e marítimas e nosso espaço aéreo. Supõe também defender nosso povo, nossas riquezas minerais, cuidar das nossas florestas, nossos rios, nossa água.
Na Amazônia devemos estar presentes com cientistas, antropólogos e pesquisadores dedicados a estudar a fauna e a flora e a empregar esse conhecimento na farmacologia, na nutrição e em todos os campos da ciência – respeitando a cultura e a organização social dos povos indígenas.
O governo atual subordina o Brasil aos Estados Unidos de maneira humilhante, e submete nossos soldados e nossos diplomatas a situações vexatórias. E ainda ameaça envolver o país em aventuras militares contra nossos vizinhos, contrariando a própria Constituição, para atender os interesses econômicos e estratégico-militares norte-americanos.
A submissão do Brasil aos interesses militares de Washington foi escancarada pelo próprio presidente ao nomear um oficial general das Forças Armadas Brasileiras para servir no Comando Militar Sul dos Estados Unidos, sob as ordens de um oficial americano.
Em outro atentado à soberania nacional, o atual governo assinou com os Estados Unidos um acordo que coloca a Base Aeroespacial de Alcântara sob o controle de funcionários norte-americanos e que priva o Brasil de acesso à tecnologia, mesmo de terceiros países.
Quem quiser saber os verdadeiros objetivos do governo não precisa consultar manuais secretos da Abin ou do serviço de inteligência do Exército.
A resposta está todos os dias no Diário Oficial, em cada ato, em cada decisão, em cada iniciativa do presidente e de seus assessores, banqueiros e especuladores que ele chamou para dirigir nossa economia.
Instituições centenárias, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, que se confundem com a história do desenvolvimento do país, estão sendo esquartejadas e fatiadas – ou simplesmente vendidas a preço vil.
Bancos públicos não foram criados para enriquecer famílias. Eles são instrumentos do progresso. Financiam a casa do pobre, a agricultura familiar, as obras de saneamento, a infraestrutura essencial ao desenvolvimento.
Se olharmos para o setor energético, veremos uma política de terra arrasada igualmente predadora.
Depois de colocar à venda por valores ridículos as reservas do Pré-Sal, o governo desmantela a Petrobrás. Venderam a distribuidora e os gasodutos foram alienados. As refinarias estão sendo esquartejadas. Quando só restarem os cacos, chegarão as grandes multinacionais para arrematar o que tiver sobrado de uma empresa estratégica para a soberania do Brasil.
Meia dúzia de multinacionais ameaçam a renda de centenas de bilhões de reais do petróleo do Pré-Sal – recursos que constituiriam um fundo soberano para financiar uma revolução educacional e científica.
A Embraer, um dos maiores trunfos do nosso desenvolvimento tecnológico, só escapou da sanha entreguista em função das dificuldades da empresa que iria adquiri-la, a Boeing, profundamente ligada ao complexo industrial militar dos Estados Unidos.
O desmanche não termina aí.
O furor privatista do governo pretende vender, na bacia das almas, a maior empresa de geração de energia da América Latina, a Eletrobrás, uma gigante com 164 usinas – duas delas termonucleares – responsável por quase 40% da energia consumida no Brasil.
A demolição das universidades, da educação e o desmonte das instituições de apoio à ciência e à tecnologia, promovidos pelo governo, são ameaça real e concreta à nossa soberania.
Um país que não produz conhecimento, que persegue seus professores e pesquisadores, que corta bolsas de pesquisas e nega o ensino superior à maioria de sua população está condenado à pobreza e à eterna submissão.
A obsessão destrutiva desse governo deixou a cultura nacional entregue a uma sucessão de aventureiros. Artistas e intelectuais clamam pela salvação da Casa de Ruy Barbosa, da Funarte, da Ancine. A Cinemateca Brasileira, onde está depositado um século da memória do cinema nacional, corre o sério risco de ter o mesmo destino trágico do Museu Nacional
Minhas amigas e meus amigos.
No isolamento da quarentena tenho refletido muito sobre o Brasil e sobre mim mesmo, sobre meus erros e acertos e sobre o papel que ainda pode me caber na luta do nosso povo por melhores condições de vida.
Decidi me concentrar, ao lado de vocês, na reconstrução do Brasil como Nação independente, com instituições democráticas, sem privilégios oligárquicos e autoritários. Um verdadeiro Estado Democrático e de Direito, com fundamento na soberania popular. Uma Nação voltada para a igualdade e o pluralismo. Uma Nação inserida numa nova ordem internacional baseada no multilateralismo, na cooperação e na democracia, integrada na América do Sul e solidária com outras nações em desenvolvimento.
O Brasil que quero reconstruir com vocês é uma Nação comprometida com a libertação do nosso povo, dos trabalhadores e dos excluídos.
Dentro de um mês vou fazer 75 anos.
Olhando para trás, só posso agradecer a Deus, que foi muito generoso comigo. Tenho que agradecer à minha mãe, dona Lindu, por ter feito de um pau-de-arara sem diploma um trabalhador orgulhoso, que um dia viraria presidente da República. Por ter feito de mim um homem sem rancor, sem ódios.
Eu sou o menino que desmentiu a lógica, que saiu do porão social e chegou ao andar de cima sem pedir permissão a ninguém, só ao povo.
Não entrei pela porta dos fundos, entrei pela rampa principal. E isso os poderosos jamais perdoaram.
Reservaram para mim o papel de figurante, mas virei protagonista pelas mãos dos trabalhadores brasileiros.
Assumi o governo disposto a mostrar que o povo cabia, sim, no orçamento. Mais do que isso, provei que o povo é um extraordinário patrimônio, uma enorme riqueza. Com o povo o Brasil progride, se enriquece, se fortalece, se torna um país soberano e justo.
Um país em que a riqueza produzida por todos seja distribuída para todos – mas em primeiro lugar para os explorados, os oprimidos, os excluídos.
Todos os avanços que fizemos sofreram encarniçada oposição das forças conservadoras, aliadas a interesses de outras potências.
Eles nunca se conformaram em ver o Brasil como um país independente e solidário com seus vizinhos latino-americanos e caribenhos, com os países africanos, com as nações em desenvolvimento.
É aí, nessas conquistas dos trabalhadores, nesse progresso dos pobres, no fim da subserviência, é aí que está a raiz do golpe de 2016.
Aí está a raiz dos processos armados contra mim, da minha prisão ilegal e da proibição da minha candidatura em 2018. Processos que – agora todo mundo sabe – contaram com a criminosa colaboração secreta de organismos de inteligência norte-americanos.
Ao tirar 40 milhões de brasileiros da miséria, nós fizemos uma revolução neste país. Uma revolução pacífica, sem tiros nem prisões.
Ao ver que esse processo de ascensão social dos pobres iria continuar, que a afirmação de nossa soberania não iria ter volta, os que se julgam donos do Brasil, aqui dentro e lá fora, resolveram dar um basta.
Nasce aí o apoio dado pelas elites conservadoras a Bolsonaro.
Aceitaram como natural sua fuga dos debates. Derramaram rios de dinheiro na indústria das fake news. Fecharam os olhos para seu passado aterrador. Fingiram ignorar seu discurso em defesa da tortura e a apologia pública que ele fez do estupro.
As eleições de 2018 jogaram o Brasil em um pesadelo que parece não ter fim.
Com ascensão de Bolsonaro, milicianos, atravessadores de negócios e matadores de aluguel saíram das páginas policiais e apareceram nas colunas políticas.
Como nos filmes de terror, as oligarquias brasileiras pariram um monstrengo que agora não conseguem controlar, mas que continuarão a sustentar enquanto seus interesses estiverem sendo atendidos.
Um dado escandaloso ilustra essa conivência: nos quatro primeiros meses da pandemia, quarenta bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 170 bilhões de reais.
Enquanto isso, a massa salarial dos empregados caiu 15% em um ano, o maior tombo já registrado pelo IBGE. Para impedir que os trabalhadores possam se defender dessa pilhagem, o governo asfixia os sindicatos, enfraquece as centrais sindicais e ameaça fechar as portas da Justiça do Trabalho. Querem quebrar a coluna vertebral do movimento sindical, o que nem a ditadura conseguiu.   
Violentaram a Constituição de 1988. Repudiaram as práticas democráticas. Implantaram um autoritarismo obscurantista, que destruiu as conquistas sociais alcançadas em décadas de lutas. Abandonaram uma política externa altiva e ativa, em favor de uma submissão vergonhosa e humilhante.
Este é o verdadeiro e ameaçador retrato do Brasil de hoje.
Tamanha calamidade terá que ser enfrentada com um novo contrato social que defenda os direitos e a renda do povo trabalhador.
Minhas queridas e meus queridos.
Minha longa vida, aí incluídos os quase dois anos que passei em uma prisão injusta e ilegal, me ensinou muito.
Mas tudo o que fui, tudo o que aprendi cabe num grão de milho se essa experiência não for colocada a serviço dos trabalhadores. 
É inaceitável que 10% da população vivam à custa da miséria de 90% do povo.
Jamais haverá crescimento e paz social em nosso país enquanto a riqueza produzida por todos for parar nas contas bancárias de meia dúzia de privilegiados.
Jamais haverá crescimento e paz social se as políticas públicas e as instituições não tratarem com equidade a todos brasileiros.
É inaceitável que os trabalhadores brasileiros  continuem sofrendo os impactos perversos da desigualdade social. Não podemos admitir que nossa juventude negra tenha suas vidas marcadas por uma  violência que beira genocídio.
Desde que vi, naquele terrível vídeo, os 8 minutos e 43 segundos de agonia de George Floyd, não paro de me perguntar: quantos George Floyd nós tivemos no Brasil? Quantos brasileiros perderam a vida por não serem brancos? Vidas negras importam, sim. Mas isso vale para o mundo, para os Estados Unidos e vale para o Brasil.
É intolerável que nações indígenas tenham suas terras invadidas e saqueadas e suas culturas destruídas. O Brasil que queremos é o do marechal Rondon e dos irmãos Villas-Boas, não o dos grileiros e dos devastadores de florestas.
Temos um governo que quer matar as mais belas virtudes do nosso povo, como a generosidade, o amor à paz e a tolerância.
O povo não quer comprar revólveres nem cartuchos de carabina. O povo quer comprar comida.
Temos que combater com firmeza a violência impune contra as mulheres. Não podemos aceitar que um ser humano seja estigmatizado por seu gênero. Repudiamos o escárnio público com os quilombolas. Condenamos o preconceito que trata como seres inferiores pobres que vivem nas periferias das grandes cidades.
Até quando conviveremos com tanta discriminação, tanta intolerância, tanto ódio?
Meus amigos e minhas amigas,
Para reconstruirmos o Brasil pós pandemia, precisamos de um novo contrato social entre todos os brasileiros.
Um contrato social que garanta a todos o direito de viver em paz e harmonia. Em que todos tenhamos as mesmas possiblidades de crescer, onde nossa economia esteja a serviço de todos e não de uma pequena minoria. E no qual sejam respeitados nossos tesouros naturais, como o Cerrado, o Pantanal, a Amazônia Azul e a Mata Atlântica.
O alicerce desse contrato social tem que ser o símbolo e a base do regime democrático: o voto. É através do exercício do voto, livre de manipulações e fake news, que devem ser formados os governos e ser feitas as grandes escolhas e as opções fundamentais da sociedade.
Através dessa reconstrução, lastreada no voto, teremos um Brasil um democrático, soberano, respeitador dos direitos humanos e das diferenças de opinião, protetor do meio ambiente e das minorias e defensor de sua própria soberania.
Um Brasil de todos e para todos.
Se estivermos unidos em torno disso poderemos superar esse momento dramático.
O essencial hoje é vencer a pandemia, defender a vida e a saúde do povo. É pôr fim a esse desgoverno e acabar com o teto de gastos que deixa o Estado brasileiro de joelhos diante do capital financeiro nacional e internacional.
Nessa empreitada árdua, mas essencial, eu me coloco à disposição do povo brasileiro, especialmente dos trabalhadores e dos excluídos.
Minhas amigas e meus amigos.
Queremos um Brasil em que haja trabalho para todos.
Estamos falando de construir um Estado de bem-estar social que promova a igualdade de direitos, em que a riqueza produzida pelo trabalho coletivo seja devolvida à população segundo as necessidades de cada um.
Um Estado justo, igualitário e independente, que dê oportunidades para os trabalhadores, os mais pobres e os excluídos.
Esse Brasil dos nossos sonhos pode estar mais próximo do que aparenta.
Até os profetas de Wall Street e da City de Londres já decretaram que o capitalismo, tal como o mundo o conhece, está com os dias contados. Levaram séculos para descobrir uma verdade inquestionável que os pobres conhecem desde que nasceram: o que sustenta o capitalismo não é o capital. Somos nós, os trabalhadores.
É nessas horas que me vem à cabeça esta frase que li num livro de Victor Hugo, escrito há um século e meio, e que todo trabalhador deveria levar no bolso, escrita em um pedacinho de papel, para jamais esquecer:
“É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos…”
Nenhuma solução, porém, terá sentido sem o povo trabalhador como protagonista. Assim como a maioria dos brasileiros, não acredito e não aceito os chamados pactos “pelo alto”, com as elites. Quem vive do próprio trabalho não quer pagar a conta dos acertos políticos feitos no andar de cima.
Por isso quero reafirmar algumas certezas pessoais:
Não apoio, não aceito e não subscrevo qualquer solução que não tenha a participação efetiva dos trabalhadores.
Não contem comigo para qualquer acordo em que o povo seja mero coadjuvante.
Mais do que nunca, estou convencido de que a luta pela igualdade social passa, sim, por um processo que obrigue os ricos a pagar impostos proporcionais às suas rendas e suas fortunas.
E esse Brasil, minhas amigas e meus amigos, está ao alcance das nossas mãos.
Posso afirmar isso olhando nos olhos de cada um e de cada uma de vocês. Nós provamos ao mundo que o sonho de um país justo e soberano pode sim, se tornar realidade.
Eu sei – vocês sabem – que podemos, de novo, fazer do Brasil o país dos nossos sonhos.
E dizer, do fundo do meu coração: estou aqui. Vamos juntos reconstruir o Brasil.
Ainda temos um longo caminho a percorrer juntos.
Fiquem firmes, porque juntos nós somos fortes.
Viveremos e venceremos.”
Luiz Inácio Lula da Silva

Segue o link do discurso. https://www.youtube.com/watch?v=1H9KuXvxpP4

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Uma aula de história do Brasil. Lília Schwarcz no "Roda Viva".

Hoje, oito de setembro de 2020, acordei com uma mensagem do meu amigo professor Romeu Gomes de Miranda me perguntando se eu estava vendo o "Roda Viva" especial da independência com a professora Lilia Schwarcz. Eu já estava dormindo. Mas, ao ler a mensagem, me levantei imediatamente para ver o programa. Creio que não preciso dizer que sou fã incondicional dela e muito do pouco que eu sei sobre o Brasil, eu aprendi com ela.
A antropóloga, historiadora, escritora e professora Lilia Moritz Schwarcz.

Uma vez também mantive um contato com ela, via e-mail, para efeitos de uma palestra. Precisa ver uma pessoa atenciosa. Infelizmente ela não tinha agenda, mas ela procurou, inclusive, mudar atividades profissionais suas para atender ao nosso convite. Era um convite para uma palestra para o nosso grupo da APP-Independente. Hoje, ela divide o seu tempo entre a USP, a Universidade de Princeton, nos Estados Unidos e a Companhia das Letras. Ao final do post apresento a resenha de três livros seus.

O programa foi maravilhoso. Uma rara e maravilhosa aula de história do Brasil, analisando os seus principais problemas, bem como as suas origens, já a partir do processo da independência, passando pelo Império, República e terminando nos dias atuais, com a pandemia e Bolsonaro na Presidência. De uma forma ou de outra ela abordou os temas trabalhados em seu mais recente livro Sobre o autoritarismo brasileiro, quais sejam: Escravidão e racismo; mandonismo; patrimonialismo; corrupção; desigualdade social; violência; raça e gênero e intolerância.

O programa foi maravilhoso e a apresentadora (Vera Magalhães) e os entrevistadores (as) (Yasmin Santos, Pedro Doria, Fábio Cardoso, Paula Carvalho e Adriana Ferreira Silva) foram extremamente respeitosos (as) com a convidada. Respeito oriundo da autoridade (de autoria) da professora. Não vou me deter em comentar para dar voz, junto com o convite para usarem fartamente essa entrevista em salas de aula ou em qualquer espaço de formação. Deixo o link do programa.


Como adendos, deixo primeiramente o link da maravilhosa biografia de Lima Barreto, que, como ela falou no programa, morreu vítima de racismo. Lima Barreto - Triste visionário é o título:


Outro livro seu, em co-autoria com Heloísa Starling é Brasil - uma biografia, cuja leitura eu recomendo muito. Segue o link:


O outro é o seu trabalho mais recente e de extrema atualidade, Sobre o autoritarismo brasileiro.


Outro livro seu é um livro referência sobre o Segundo Reinado. As barbas do imperador.

E... um pequeno aperitivo. A pergunta final. Há perigo de golpe institucional clássico? A resposta. Bolsonaro é o golpe. Ele está corroendo todas as instituições democráticas do Brasil. Não há a necessidade do golpe clássico.


sábado, 5 de setembro de 2020

O caso Morel. Rubem Fonseca.

Mais um livro da coleção Biblioteca Folha (2003). É uma coleção de 30 livros, contemplando literatura brasileira e universal. O livro da vez foi o de número 7, O caso Morel, de Rubem Fonseca. (1925- 2020). É o terceiro livro que leio desse escritor, recentemente falecido. Anteriormente li Agosto, um bom livro e O seminarista, do qual não gostei. Também tive dificuldades em ler O caso Morel. Questões de gosto.
O caso Morel. 2003. Biblioteca Folha.


Creio que todos sabem que a especialidade de Rubem Fonseca é o romance policial. Ele mesmo foi comissário de polícia no início de sua vida profissional, conhecendo bem, portanto, o seu novo campo de trabalho, abraçado posteriormente, o da literatura. O caso Morel é o seu primeiro romance. Também enveredou pelo campo do cinema. O livro é datado do ano de 1973, no auge do regime civil/militar, instaurado pelo golpe de 1964.

O romance, como o título indica, é um típico caso policial. Paul Morel é um artista e como tal é uma pessoa bem articulada na elite econômica e social do Rio de Janeiro. O romance ganha valor à medida em que ele é uma crônica do cotidiano da vida pobre dessa gente rica. Sexo, em todas as formas possíveis, e morte perpassam todo o romance. As práticas sado/masoquistas ganham grande destaque. Heloísa Wiedecker adorava apanhar enquanto tinha relações sexuais. Paul Morel lhe satisfazia esses desejos até seus limites extremos. Essa relação é a essência do Caso Morel. Heloísa aparece morta na praia e começam as investigações. Essas se misturam com a escrita de Morel.

A insatisfação do ser humano está onipresente. Freud estava certo. O desejo e a sexualidade movem o ser humano. Morel é um eterno insatisfeito, assim como as mulheres que frequenta. Ele, inclusive, inventou uma nova relação familiar. Se não for nova, a palavra harém também pode designar a sua invenção. José Geraldo Couto, colunista da Folha, dá informações precisas sobre o livro, na sua contracapa:

"O artista de vanguarda Paul Morel, preso por um crime violento que ele próprio não sabe se cometeu, resolve escrever um livro contando sua vida. Para isso, pede ajuda ao escritor e ex-delegado Vilela, a quem entrega trechos do manuscrito à medida que vai escrevendo.

O caso Morel intercala o relato do prisioneiro - repleto de orgias e de reflexões irônicas sobre a arte e a cultura de nosso tempo - com seus desencantados diálogos com Vilela, uma espécie de alter ego de Rubem Fonseca, que havia surgido em A coleira do cão (1965) e reapareceria depois em vários contos e romances do escritor, especialmente em A grande Arte (1983).

Publicado em 1973, O caso Morel é o primeiro romance de Rubem Fonseca e contém todos os elementos que fariam dele um dos escritores mais influentes da literatura brasileira das últimas três décadas. A narrativa veloz, incisiva, a observação aguda do lado mais obscuro do comportamento humano, o hábil domínio dos diálogos, a presença da violência sob todas as sua formas - física, psicológica, moral -, o trânsito frequente entre o registro culto e o popular, o exame implacável das contradições sociais, tudo isso faz deste livro um dos grandes romances policiais de nossa época e uma das obras mais fortes de um autor obcecado pelas pulsões básicas do homem: sexo e morte".

O livro é narrado em 22 pequenos capítulos e um FIM. Desse Fim tomo uma informação interessante sobre a ilustração do crime. Além de Morel, também um ladrão era suspeito do mesmo.

"Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista. 
Matos foi visitar Morel, contou para ele os últimos acontecimentos: a morte de Félix, a reabertura do inquérito, as perspectivas de liberdade imediata.
No entanto ele não parecia muito satisfeito".



quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A consciência de Zeno. Italo Svevo.

Se o grande romance é aquele que mais consegue expor o ser humano em suas diferentes dimensões, não haverá dúvidas de que A consciência de Zeno, de Italo Zvevi, contempla esse quesito e, com certeza, frequenta a lista dos grandes romances da literatura universal. O livro foi lançado na Itália no ano de 1923 e traz dentro de si profundos reflexos da primeira guerra mundial. O cenário do romance é a hoje cidade italiana de Trieste, que na época pertencia ao império austro húngaro. O último capítulo do livro tem quatro datas, três de 1915 e uma de 1916. O livro demorou um pouco para ser publicado.
A consciência de Zeno. Biblioteca Folha. 2003. Tradução de Ivo Barroso.

Italo Zvevo é o pseudônimo de Ettore Schmitz, nascido em Trieste no ano de 1861. Morreu em Motta de Livenza (Itália) em 1928, num acidente de carro. As dificuldades financeiras o levaram cedo ao trabalho em banco mas, já neste período, se dá a sua iniciação no campo da literatura. O sucesso só lhe veio quando James Joyce apresentou A consciência de Zeno a críticos literários franceses, que se encantaram com o escritor e recomendaram sua publicação na França. Zvevo foi aluno de inglês de Joyce e este passou a ser um grande admirador seu. 

Em 1915, com a guerra, que o levou à inatividade, iniciou a sua carreira de escritor. A fama lhe veio com esse livro, após a recepção favorável pela crítica. Na orelha de capa do livro encontramos dois parágrafos bem ilustrativos da obra:

"Já no fim da vida, Zeno Cosini, um bem-sucedido empresário de Trieste (norte da Itália), decide fazer um balanço de suas experiências no divã de um analista. Ali, deitado no estreito sofá, ele começa a dar conta de que toda a sua história, passada e presente, se compõe de pequenos fracassos: o casamento com uma mulher que ele não escolheu, o trabalho que não lhe agradava, as tentativas falhadas de parar de fumar ou de simplesmente mudar de rumo, ter outro destino. A lenta escavação dos fatos e das impressões pela memória é então submetida à visão implacável, irônica e às vezes hilariante de Zeno - que assim, de certa forma, consegue libertar-se da 'doença', mas não de suas neuroses.

Imediatamente aclamada por autores do porte do romancista James Joyce e do poeta Eugênio Montale, esta obra-prima de Italo Svevo (1861-1928) põe do avesso as distinções entre sanidade e loucura, sucesso e derrota, ao mesmo tempo em que expõe ao ridículo os valores da moral burguesa. Valendo-se de recursos próprios da psicanálise, como a livre associação de ideias, o romance faz ainda uma sátira da ciência criada por Freud - de quem Svevo, aliás, foi tradutor. É assim que Zeno chega à conclusão de que sua vida, afinal 'foi mais bela do que a dos assim chamados sãos'. Italo Svevo morreu cinco anos depois de alcançar a consagração literária com este romance".

O seu relato, profundamente autobiográfico, é relativamento longo. São 383 páginas de letra bem miudinha. Estou falando da edição da Biblioteca Folha (2003). Ele está dividido em seis capítulos, após um pequeno prefácio e preâmbulo. Nos capítulos são relatados os seus problemas: no primeiro o seu vício com o fumo; no segundo, a morte prematura de seu pai; no terceiro, a história meio trágico-cômica de seu casamento; no quarto, conta a história de sua relação com a amante, que assim como o cigarro, um milhão de vezes prometeu largar; no quinto, o mais trágico de todos conta as desventuras de uma sociedade comercial que manteve com o seu cunhado, que ao final das trapalhadas consegue cometer o suicídio. Já o sexto e último capítulo é dedicado a psicanálise.

Fiz algumas anotações no capítulo da psicanálise, o mais irônico de todos: A primeira é geral, sobre o tratamento. "Minha cura devia acabar porque minha doença fora descoberta. Era a mesma que em seu tempo o falecido Sófocles diagnosticara em Édipo: eu amava minha mãe e queria matar meu pai". A segunda reflete a sua decepção, quando procura um médico e não mais o psicanalista: "Dr. Paoli examinou minha urina em minha presença. A mistura coloriu-se de negro e o médico ficou pensativo. Era finalmente uma análise de fato, não uma psicanálise". Por fim ele diz que foi curado pelo comércio.

As últimas páginas, dentro do capítulo sobre a psicanálise, são dedicadas ao estouro da primeira guerra e a uma análise de seu tempo. Selecionei uma passagem, altamente profética sobre o futuro: "A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos animais, contaminou o ar, limitou o espaço livre. Mas o pior está por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da natureza. Paira no ar uma ameça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza... no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se livrará da falta de ar e de espaço? Sufoco só de pensar nisso! E infelizmente não é tudo".

E uma última observação, que tomo de Bernardo Ajzenberg, contida na contracapa da edição da Biblioteca Folha: "O romance de Italo Svevo, não por acaso, é um daqueles nos quais o protagonista mais se desnuda. Ele expõe, a um tempo, com ironia e detalhes surpreendentes de tão ínfimos, não apenas o desencontro público e privado de um indivíduo sem eixo, mas também a decadência da classe e do período histórico que ele, sem saber, representa". Super recomendo.