sábado, 30 de agosto de 2014

Franz Kafka. Por Louis Begley.

Termino a leitura do livro mais gostoso que li nos últimos tempos. Talvez o meu gosto por biografias tenha influenciado neste julgamento. Sempre aprendo muito. Quando se estuda um autor, se estuda uma época, se estuda um contexto histórico, uma cultura e acima de tudo, uma vida. Outro componente para o meu julgamento é, obviamente, a qualidade do biografado. Franz Kafka (1883-1924). Não me atreveria ler Kafka, hoje, sem um bom guia para a sua interpretação. Louis Begley pode ser considerado um desses guias com o seu magnífico Franz Kafka - o mundo prodigioso que tenho dentro da cabeça. Um ensaio biográfico.
A maravilhosa biografia de Franz Kafka. A autoria é de Louis Begley.
Já ao final do livro encontramos uma frase de Nobokov. Ela diz o seguinte: "Os únicos leitores verdadeiros são os que releem". Depois que li esta biografia não hesito em dizer que, embora tendo lido, nunca li nada de Kafka. Somente agora me considero mais ou menos preparado para iniciar, digo, iniciar a leitura, ou reler com alguma possibilidade de êxito na sua compreensão. Toda a sua escrita é feita de metáforas e parábolas, que sempre tem a sua própria vida como tema. Uma vida sem paralelo, de tantas complicações. O que era ser judeu na Europa na virada do século XIX para o século XX e, ainda, mais precisamente, na Praga do império austro-húngaro e, ainda, ser filho de um pai, que embora tivesse ficado rico, permaneceu extremamente ignorante e autoritário, Acho que cometi um pleonasmo!
O pai e a mãe de Kafka. A relação com o pai foi um terror. A relação está registrada em Carta ao Pai.
O livro, após uma pequena introdução, é estruturado em cinco capítulos, a saber: 1. A vida é meramente terrível; 2. O que eu tenho em comum com os judeus; 3. O reino mais profundo da verdadeira vida sexual está fechado para mim...; 4. Sou feito de literatura, não sou nada além disso e 5. O machado para o mar congelado dentro de nós. A abordagem do livro leva em conta aspectos de sua vida particular, familiar, afetiva e sexual e termina com uma análise de sua literatura. Percorrer este caminho é algo muito bonito onde se penetra em profundos mistérios.

Sobre a vida lhe ser terrível, as suas duas primeiras grandes prisões que o atormentam, são a sua condição de ser judeu no império austro-húngaro, o que significa ser odiado e sofrer mil restrições em todos os campos de sua vida. A segunda prisão vem da relação com o pai, que mesmo sendo judeu, conseguiu enriquecer através do comércio, mas permanecendo absolutamente ignorante e autoritário. Em seu pai nunca encontrou um mínimo gesto de afeição ou ternura. Kafka não tinha a mínima vocação para os negócios e por isso era comparado a um tio que também não se interessava e, assim, eram considerados como os dois bobos da família. A relação com o pai está expressa na  Carta ao pai, que se destinava a ferir. A relação com a mãe, de sobrenome Löwy, era bem melhor.
As fotos da infância daquele que viria a ser um dos maiores escritores de todos os tempos.

O ambiente em sua casa era simplesmente constrangedor. Além das constantes humilhações que sofria por parte do pai, o ambiente era totalmente depressivo. Sofria com a falta de privacidade e reclamava do seu quarto, que muito mais que quarto, era um corredor de passagem. O seu trabalho, apesar de lhe conferir uma certa estabilidade de emprego, não o satisfazia. Era um trabalho absolutamente burocrático e, por isso mesmo, nada criativo, além de lhe exigir muito esforço e dedicação. Era numa companhia seguradora. A última frase desse primeiro capítulo diz assim: "A claustrofobia do mundo retratado em sua ficção espelha a de sua própria existência".

O segundo capítulo mostra as outras prisões em que o escritor ficou recluso: a sua aversão ao risco e a de não tomar nenhuma atitude em relação à aversão aos judeus. Assim ficou trabalhando a vida inteira num serviço burocrático e mal remunerado e, constantemente, se perguntava sobre o por quê de não tomar uma atitude frente ao ódio que lhe era dirigido pela sua condição de judeu. A emigração e o suicídio eram consideradas como possibilidades. Nem em um, e nem no outro caso ele tomava qualquer providência. Permaneceu tanto no emprego, quanto continuou morando em Praga. Embora essa sua condição, a frase final vem em seu auxílio e para o conforto de sua situação como escritor. O capítulo termina assim: "Em sua ficção ele transcendeu sua experiência judaica e sua identidade de judeu. Ele escreveu sobre a condição humana".
Eis a última foto de Franz Kafka, de 1923. 

O terceiro capítulo fala de sua sexualidade, "um mundo fechado para mim". Só teve desventuras. O relacionamento com Felice foi o mais prolongado. Sobre ela, assim ele se refere: "Seria bom nos encontrarmos; no entanto, não devemos fazê-lo [...] eu não poderia trazer-te nada além de decepções, monstro de insônia e dores de cabeça que sou". A impotência sempre rondou a sua vida.

O quarto capítulo trata de suas doenças e do desenlace final. Sua vida foi muito curta. Nasceu em 1883 e veio a morrer em 1924. Foi lentamente devastado pela tuberculose. Deixo para Milena, outra pessoa com quem teve desventuras, um dos mais belos depoimentos sobre ele: "Aqui poucos o conheciam, pois ele era um recluso, um homem sábio com medo da vida. [...] Ele escreveu em uma carta: quando o coração e a alma não podem mais suportar, o pulmão assume metade do fardo, para que este distribua mais equilibradamente - e assim foi com sua doença. Ela lhe emprestou uma ternura quase milagrosa e um refinamento intelectual quase horrivelmente inflexível [...] Ele era tímido, ansioso, meigo e gentil, e no entanto os livros que escreveu são aterradores e pungentes. Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis a dilacerar e destruir seres humanos indefesos. Ele era clarividente, demasiado inteligente para ser capaz de viver, e demasiado fraco para lutar..."
Milena Jesenká. Uma das mulheres com quem Kafka se relacionou. Ela dá um dos mais belos depoimentos sobre a sua vida.

O último capítulo é dedicado a análise de suas principais obras, algumas delas inconclusas, como o Castelo e Amerika. Castelo estava destinada a ser a sua obra prima, se tivesse sido concluída. Creio ainda ser muito importante dizer que Kafka publicou muito pouco em vida e, antes de morrer pediu insistentemente a Max Brod, o amigo de toda a sua vida, para que destruísse a sua obra. Brod, felizmente, não atendeu este pedido do amigo. Com isso, aos poucos, outras pessoas se sentiram animadas e toda a sua correspondência também foi publicada, exceto aquela que já fora extraviada.

2 comentários:

  1. Muito bom o seu artigo. Vou procurar pelo ensaio biográfico de Kafka.

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  2. E vale muito a pena. Obrigado pelo elogio, Catharina.

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