segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Dois papas. Fernando Meirelles.

Assim que soube que o filme, Dois papas, estava em cartaz, fui imediatamente ao cinema. Cine Passeio, um belo espaço cultural na cidade de Curitiba. Tenho verdadeira veneração pelo papa Francisco e pouca, pelos papas João Paulo II e Bento XVI. Os motivos são óbvios. O caráter humanitário e a preferência pelos pobres, por parte de Francisco e pelo reacionarismo e conservadorismo dos outros dois. Essas marcas estão fortemente presentes no filme.

A Civilização Ocidental é profundamente cristã e capitalista. Esses princípios estão em nós, pelas entranhas. Respiramos os seus valores. A sua influência sobre nós é até maior do que pensamos. Muitas vezes eu paro para refletir sobre a forma, sobre o como eu me constituí. Nasci em meio a uma família muito pobre, que imaginava ser muito feliz. A religião, no caso, o catolicismo foi o grande responsável por isso. Vivíamos sob a proteção de Nossa Senhora de Fátima, que nos protegia do nosso maior inimigo, o comunismo, que nem sequer conhecíamos.

Pensando sobre as mudanças em minha vida, mais uma vez a religião foi a grande responsável. Fui para o seminário na mais tenra idade e, um pouco mais crescido, veio o papa João XXIII e o Concílio Vaticano II. Depois veio Paulo VI. Aprendi então que a religião é muito mais presença no mundo do que espiritualidade. Presença humanizadora, para não desfigurar a criatura, criada à imagem do Criador. Por tudo que olhava, só via desfiguração. Mudanças na maneira de pensar e de ver o mundo foram tomando conta de mim. Passei a acreditar que a não desfiguração do humano passava muito mais por políticas públicas do que por orações, jejuns, confissões e similares.

Bem, mas vamos ao filme. Dois papas, um filme do grande cineasta brasileiro Fernando Meirelles, com roteiro escrito pelo biógrafo do papa, Anthony McCarten, é extraordinário. Leve, profundo e muito bem humorado. Os dois papas tem seus traços de personalidade revelados. E, acima de tudo, o filme é muito respeitoso e humano. Bento é alemão, um intelectual introspectivo, pouco dado ao debate e ao diálogo. Não gostava de ser contestado. Francisco é argentino, extrovertido, hábitos simples, de bem com a vida e extremamente popular.

A questão do papado é o tema central do filme. Como conduzir a Igreja em tempos de profunda crise. A missão foi confiada ao cardeal Ratzinger, um dos expoentes da igreja conservadora e autoritária. No filme chega a ser xingado de papa nazista. Ele não se dá bem na condução e a Igreja só vai perdendo fiéis e ele não vê culpa sua nisso. O cardeal Bergoglio o adverte sobre a questão, além de outras questões a mais, como os escandalosos abusos sexuais de pedofilia de padres que são ocultados, assim como relações de homosexualidade no Vaticano, além de questões financeiras. Na cabeça de Bento, ocultar seria preservar. E a idade avança.

Bergoglio também vê a idade avançando. Chega aos 75 anos e pensa em ir a Roma e solicitar para Bento a sua aposentadoria, assumindo apenas uma pequena paróquia em Buenos Aires. Ao mesmo tempo em que pensa ir ao Vaticano, Bento o chama para uma conversa. Essa se dará em Castel Gandolfo, o palácio de verão dos papas. Bento anuncia predisposição para a renúncia. Bergoglio reage. Isso não existe na Igreja. Bento lhe fala da renúncia de Celestino V. Sugere que Bergoglio o suceda.

Essa renúncia de Celestino V mereceu uma menção nada airosa por parte de Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, em que o papa renunciante não está nem no paraíso, nem no inferno. Por vacilar, nem Deus e nem o demônio o quiseram.  Mas, caso à parte, Bergoglio rejeita a indicação e aponta os motivos. É o momento em que o filme atinge o seu ponto máximo. Os dois papas fazem o acerto de contas com o seu passado. Bento fala de seus problemas, enquanto que Bergoglio rememora o seu passado e a sua ligação com a ditadura militar Argentina. Esse passado o atormenta. Em cena grandiosa, os dois se confessam e se absolvem mutuamente.

Além dos problemas à frente da Igreja, Bento vai envelhecendo e começa a fraquejar fisicamente. A cegueira o atinge em um de seus olhos. A renúncia passa a ser realidade. Bergoglio, que já tivera votos no conclave anterior, será o novo papa escolhido, inclusive, como uma indicação de Bento. Bergoglio se transforma em Francisco. Na abertura do filme aparece a imagem do jovem São Francisco recebendo de Deus a missão de reformar a sua igreja. E não era a igreja que Francisco frequentava. Era a reforma da própria Igreja como instituição. É a missão que aguarda Francisco.

Os dois papas ficam amigos e Bento dialoga constantemente com Francisco. Ele chega até a ser contagiado por alguns hábitos de vida de Francisco. Em cena memorável, os dois assistem juntos a partida decisiva entre Alemanha e Argentina, pela Copa do Mundo de 2018. E uma coisa notável. Bento se afasta completamente das decisões do Vaticano, agora confiadas a Francisco. A existência de dois papas não é uma ameaça à unidade da Igreja. 

Enfim, o filme é grandioso, misturando história e ficção. Ele atinge o humano em suas melhores partes e momentos. E o que dizer dos atores que dão vida aos personagens. Anthony Hopkins como Bento XVI e Jonathan Pryce, como Francisco. Uma produção da Netflix. Oscar à vista?

E uma última referência. Francisco é realmente uma bênção de Deus. Uma das únicas vozes, com poder de fala, numa época em que o mundo capitalista mergulha profundamente em trevas, que podem levá-lo à autodestruição. E que Francisco, assim como João XXIII e Paulo VI influenciaram um menino de outrora, que agora, Francisco inspire outros meninos a trilharem os seus passos.

O filme mereceu três indicações ao Oscar:
Melhor ator
Melhor ator coadjuvante
Melhor roteiro adaptado.

Não logrou nenhuma estatueta.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

À espera dos bárbaros. J. M. Coetzee. Nobel de Literatura - 2003.

Uma passada pelos Nobel de Literatura me fez encontrar com o sul-africano John Maxwell Coetzee, laureado com o prêmio no ano de 2003. O livro dele que mais mereceu a minha atenção foi o À espera dos bárbaros, uma publicação do ano de 1980. A primeira edição brasileira veio, certamente, na esteira do Nobel, no ano de 2006. A edição é da Companhia das Letras e a tradução é de José Rubens Siqueira. A edição que eu li é de 2018. Estava envolvido em leituras sobre o colonialismo. Uma intuição me fez crer que este seria o grande tema do livro. Eu estava certo.
A edição brasileira de À espera dos bárbaros.

A edição brasileira não tem apresentação, nem do escritor, nem do livro, a não ser as rápidas notas das orelhas do livro. Também não encontrei muitas referências em outras fontes. Sua leitura me causou um profundo mal-estar, certamente, pelos dias que estamos vivendo no Brasil de hoje, uma era de tributo à ignorância e de cultivo ao anti intelectualismo. Creio que o meu mal-estar já era anterior à leitura, apenas ele aprofundou situações que, ao menos para mim, são absolutamente visíveis e nada boas. Ignorância e arrogância sempre caminham juntas. No livro sobrou para o coronel Joll e a um subtenente. Isso me levou a pensar sobre a pretendida disseminação das disciplinadoras escolas militarizadas. 

Na contracapa temos uma transcrição que se refere ao fim da vida tranquila que o magistrado, ou  o administrador de uma distante colônia nos confins do império levava. Foram trinta anos de muita paz: "Eu não queria me envolver nisto. Sou um magistrado da roça, um funcionário responsável a serviço do Império, servindo meus dias nesta fronteira preguiçosa, esperando para me aposentar. Recolho o dízimo e os impostos, administro as terras comunais, cuido de que não falte nada para a guarnição, supervisiono os funcionários juniores, que são os únicos funcionários que temos aqui, fico de olho no comércio, presido o tribunal duas vezes por semana. De resto, vejo o sol nascer e se pôr, como e durmo, e estou contente. Quando morrer, espero merecer três linhas em letra miúda na gazeta imperial. Não pedi nada mais que uma vida tranquila em tempos tranquilos.

Mas no ano passado começaram a nos chegar da capital histórias de inquietação entre os bárbaros". A minha surpresa foi a de que essa passagem consta já das primeiras páginas do livro. Posso adiantar também que o "magistrado da roça" também cometia uns pecadinhos, aqueles que certamente você já está adivinhando. Elas foram prato cheio para os seus moralistas acusadores. Volto à apresentação, agora na orelha do livro:

"Num lugarejo da província ocidental de um império sem nome, um magistrado cumpre seus deveres cotidianos, à espera da aposentadoria próxima e do obituário em letra miúda na gazeta oficial. É um funcionário correto, exemplar sem ser fervoroso. Em nome de uma ordem que não lhe cabe questionar, recolhe impostos, dita sentenças e vez por outra afugenta os bárbaros maltrapilhos que habitam o deserto escaldante. Seus pensamentos mais íntimos e melancólicos ele sabe guardar para si, para as horas em que se dedica a escavar as ruínas vizinhas, cobertas pela areia.

Seus dias de modorra moral chegam a um fim abrupto pelas mãos de um certo coronel Joll, oficial da misteriosa Terceira Divisão da Guarda Civil (um corpo de guardas do Estado, devotos da verdade e doutores do"interrogatório", que vem da capital para investigar e reprimir, por todos os meios, um suposto movimento de sedição entre os bárbaros que vivem além das fronteiras imperiais. Os rumores a respeito são mais do que tênues, o que não impede o coronel de torturar prisioneiros e silenciar dissidentes - entre os quais o magistrado, que não soube tapar os ouvidos a tempo..

Partindo desses elementos mínimos, À espera dos bárbaros, livro de 1980, revela o radicalismo das preocupações éticas que fazem a força de toda a prosa do sul-africano J.M. Coetzee. Mas engana-se quem quiser ver aqui apenas uma alegoria da vida sob o apartheid. Os dilemas sul-africanos, que certamente estão na origem do romance, servem de veículo para uma profunda meditação sobre a natureza do poder, da censura, do compromisso e da moral em tempos difíceis. Ao narrar as tribulações do magistrado, Coetzee compôs uma fábula que reúne ecos da grande literatura modernista (Kafka, Buzzatti e o Kaváfis do poema "À espera dos bárbaros") e lança sua sombra sobre os impérios do presente".

Perfeito. O coronel Joll também é um perfeito retrato da força do termo "banalidade do mal", de Hannah Arendt. Ele executava burocraticamente, com a ausência total de qualquer sensibilidade, as mais horripilantes e inimagináveis torturas. E os guardas e até as crianças já participavam das "brincadeiras". Um subtenente era o seu discípulo imediato. E por falar em Hannah Arendt, também me lembrei de Adorno, em sua palestra de rádio "Educação após Auschwitz", quando pergunta quem poderiam ser as próximas vítimas dos holocaustos. Quem seriam os novos bárbaros? Os novos Aussländer, os novos habitantes para além das fronteiras. Ah sim! Ainda é preciso lembrar que nenhuma ideologia funciona se não criar um poderoso inimigo para combater.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano. Grada Kilomba.

Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano, de Grada Kilomba foi o livro mais vendido na FLIP - 2019, pela livraria da Travessa, a livraria oficial do maior evento literário brasileiro. Foram 648 livros vendidos. O livro demorou dez anos para chegar ao Brasil. Originalmente escrito em inglês, ele foi lançado em Berlim, em 2008. No Brasil ele foi lançado pela Editora de Livros Cobogó. O livro é a sua tese de doutoramento pela Freie Universität Berlim, a Universidade criada por Berlim Ocidental, após a divisão da cidade nas suas duas partes.
O livo da Grada Kilomba, da editora Cobogó, R.J. - 2019.

Grada nasceu em Lisboa, com raízes em Angola, São Tomé e Príncipe. Em Lisboa estudou psicologia e psicanálise. Atualmente mora em Berlim, tendo sido professora no Departamento de Gênero da famosa Humboldt Universität, a histórica e laureada universidade de Berlim, que conta com 29 prêmios Nobel em seus quadros. Na orelha da contracapa lemos mais sobre Grada. "Na esteira de Frantz Fanon e bell hooks, a autora reflete sobre memória, raça, gênero, pós-colonialismo, e sua obra estende-se a performance, encenação, instalação e vídeo. Kilomba cria intencionalmente um espaço híbrido entre as linguagens acadêmica e artística, dando voz, corpo e imagem aos seus próprios textos". O seu espaço de apresentação é o mundo todo.

O título do livro Memórias da plantação. Episódios do racismo cotidiano nos dá as primeiras pistas sobre os temas abordados. Talvez mais o subtítulo do que o próprio título, a não ser que mantenhamos o título no original inglês, plantations. A tradutora do livro, Jess Oliveira, em nota de rodapé, nos dá a definição de Plantation - "plantação em português, foi um sistema de exploração colonial utilizado entre os séculos XV e XIX, principalmente nas colônias europeias nas Américas, que consistia em quatro características principais: grandes latifúndios, monocultura, trabalho escravizado e exportação para a metrópole. Esse sistema criava ainda uma estrutura social de dominação centrada na figura do proprietário do latifúndio, o senhor, que controlava tudo e todas/os ao seu redor". Dá para perceber que não é muito diferente do agronegócio que hoje domina a agricultura brasileira.

Bem, agora já está claro, o tema do livro se compõe de duas categorias fundamentais: o colonialismo e o racismo, absolutamente indissociáveis. O subtítulo nos leva às cenas do racismo cotidiano. Cenas essas que tem origem num passado, que insiste em permanecer. São os depoimentos de duas mulheres negras, que vivem na Alemanha, Kathleen e Alícia, uma com ascendência estadunidense e outra, afro alemã. Elas foram as escolhidas, entre outras, pela riqueza de seus depoimentos. Grada faz a análise sob a luz da psicanálise. A tese mereceu, da exigente universidade alemã, um raro Summa cum Laude.

A edição brasileira ganhou uma carta de apresentação extremamente significativa. Grada conta um pouco de sua história e depois versa sobre as categorias básicas com as quais ela trabalhou no livro. Confesso que foi pela primeira vez que me deparei para refletir sobre a palavra sujeito na perspectiva de que, em nossa língua, ela não tem a forma feminina. Será que é uma alusão à impossibilidade de as mulheres se tornares sujeitos? Eita patriarcalismo. 

A introdução vale o livro. Ela tem, como frase em epígrafe o seguinte pequeno poema, pelo qual Grada mostra a sua preferência.

Por que escrevo?
Porque eu tenho de
Porque minha voz, em todos seus dialetos, 
tem sido calada por muito tempo.

Uma bela razão para escrever. No primeiro capítulo, A máscara, ela fala da "escrava Anastácia", de sua máscara, mais precisamente. A máscara a impedia de comer a cana de açúcar e os grãos de cacau, "mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento das/os chamadas/os "Outras/os": Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar?  Seria a máscara uma espécie de "Língua sem partido"?

Como não é tão extenso, tomo do próprio livro, de sua introdução, uma espécie de resenha: "O capítulo 1, A Máscara: colonialismo, Memória, Trauma e Descolonização,começa com a descrição de um instrumento colonial, a máscara, como um símbolo das políticas coloniais e de medidas brancas sádicas para silenciar a voz do sujeito negro durante a escravização: Por que a boca do sujeito negro deve ser amarrada? E o que o sujeito negro teria de ouvir? Esse capítulo aborda não apenas questões relacionadas à memória, ao trauma e à fala, mas também à construção da negritude como "Outra".

O capítulo 2, Quem pode falar?: Falando no Centro, Descolonizando o Conhecimento, discute questões similares no contexto acadêmico ou de erudição em geral: Quem pode falar? Quem pode produzir conhecimento? E o conhecimento de quem é reconhecido como tal? Neste capítulo, examino o colonialismo na academia e a descolonização do conhecimento. Em outras palavras, estou preocupada aqui com a autoridade racial e com a produção de conhecimento: O que acontece quando nós falamos no centro?

O capítulo 3,  Dizendo o indizível: Definindo o racismo.  Como se deveria falar sobre o que tem sido silenciado? Aqui, começo analisando o déficit teórico acerca do racismo e do racismo cotidiano e examino o que para mim é a metodologia adequada para falar sobre a realidade experienciada do racismo cotidiano de acordo com relatos de duas mulheres da Diáspora Africana: Alícia, uma mulher afro-alemã, e Kathleen, uma mulher afro-estadunidense que vive na Alemanha. Ambas narram suas experiências de racismo cotidiano a partir de suas biografias pessoais.

O capítulo 4, Racismo genderizado: "(...) Você gostaria de limpar nossa casa?" - Conectando raça e Gênero, é uma abordagem genderizada do racismo. Aqui, examino a interseção entre "raça" e gênero, bem como o fracasso do feminismo ocidental de se aproximar da realidade de mulheres negras no tocante ao racismo genderizado. Ademais, apresento os objetivos do feminismo negro.

Os capítulos seguintes constituem o verdadeiro centro deste trabalho. Aqui, as entrevistas com Alícia e Kathleen são analisadas em detalhes na forma de episódios e divididos nos seguintes capítulos: Capítulo 5: Políticas Espaciais; Capítulo 6: Políticas do Cabelo; Capítulo 7: Políticas Sexuais; Capítulo 8: Políticas da Pele; Capítulo 9: A palavra N (Neger) e o trauma; Capítulo 10: Segregação e contágio racial; Capítulo 12: Suicídio; Capítulo 13: Cura e Transformação. (Ao todo são examinadas 28 situações desse racismo cotidiano).

O livro conclui com o Capítulo 14, Descolonizando o Eu, no qual reviso e teorizo os tópicos mais importantes que vieram á tona neste livro, e também como possíveis estratégias de descolonização. Deixo as duas últimas frases: ... "Somos eu, somos sujeito, somos quem descreve, somos quem narra, somos autoras/es e autoridade da nossa própria realidade. Assim regresso ao início deste livro: torna-mo-nos sujeito.

Para terminar, mania de professor. Leitura obrigatória, como tarefa de humanização. Tem ainda seis páginas de referências bibliográficas sobre os temas abordados.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Histórias da gente brasileira. 4. República. Testemunhos (1951-2000). Mary del Priore.

História, memória ou lembranças? Ou tudo isso! Creio que sim. Esse é o belo quarto livro da coleção Histórias da gente brasileira. República. Testemunhos (1951-2000). Foi muito boa essa intuição da Mary del Priore, de contar a história recente desse nosso país através de testemunhas de historiadores, jornalistas, economistas, sociólogos e antropólogos, entre outros. As datas limítrofes dos anos de 1951 a 2000 nos mostram que foram anos de profundas mudanças, sob todos os aspectos da vida humana. Enquanto lia o livro, um filme/memória acompanhava a minha leitura, de um tempo, que com certeza, acompanhei de muito perto.
Completando a coleção: 4. República: 1951 - 2000.

Na orelha do livro lemos uma especie de síntese: "... O golpe que destituiu Jango foi mesmo um golpe? Ou, como preferem alguns, revolução? E como ficou o Brasil nas duas décadas de regime militar - ou ditadura? Os anos de chumbo foram mesmo tão pesados? Ou as condições econômicas favoráveis do período aplacaram o que, para muitos, era privação de liberdade e tortura?

O filme da vida é cheio de percalços, mas também de novidades e surpresas! Há embates com as sempre rígidas posições da Igreja: pílulas, não! Sexo é para procriação. As mulheres vão deixar passar essa chance de libertação? Para casar, tem de ser virgem? A família brasileira perde sua organização tradicional. O corpo 'pecado', aos poucos, começa a buscar os ventos da moda, a atender aos apelos do sol e do ar livre até virar corpo 'prazer'..."

Por essa pequena sínteses já dá para perceber a amplitude da obra. Ela é dividida em três grandes partes: I. Anos de chumbo e anos de ouro, seguidos de treze capítulos; II. Morar, comer, brincar, viver e sobreviver, com mais oito capítulos e III. O filme da vida: começo, meio e fim. Além disso tem prefácio, grandeza e pequenez da vida humana e conclusão, pontos de vista, pontos de vida. E ainda, preciosas referências bibliográficas. Tudo isso ao longo de 450 páginas, fartamente ilustradas.

A primeira parte cuida dos fatos políticos: Os capítulos tem os seguintes títulos: 1. "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"?; 2. O passado tão presente; 3. O vermelho e o medo; 4. A luta contra o mapa vermelho; 5. A revolução ou o golpe: duas faces da mesma moeda; 6. Marchas, orações e credos: "vermelho bom, só o batom; 7. Reações&resistência; 8. Repressão à "guerra suja"; 9. Os anos de chumbo e os anos de ouro; 10. Em transição...; 11.Diretas já; 12. A redemocratização; 13. A primeira crise "a gente não esquece". Em outras palavras, tudo o que se refere à modernização conservadora, ocorrida no Brasil nesse período.

A segunda parte foca nas grandes mudanças: na urbanização, na industrialização e nos hábitos. Vejamos os oito títulos: 1. Urbanização e seus novos atores: condomínios, apartamentos, favelas e shopping centers; 2. Paisagismo: verde que te quero verde; 3. Uma odisseia no espaço doméstico; 4. "Como, logo existo"... Mudanças nas panelas; 5. Em toda parte e em todo lugar (a televisão); 6. O apelo do sol e do ar livre; 7. Jovens, belos e saudáveis: do corpo "pecado" ao corpo "prazer" e 8. Os ventos da moda ou as modas ao ventos. 

A terceira parte enfoca a própria vida em suas diferentes fases e as modificações sofridas ao longo desse tão pouco tempo, sobre os costumes. Vejamos os seis títulos finais: 1. A guerra das pílulas; 2. Meu filho, meu tesouro; 3. De teenagers e "aborrecentes"; 4. Casamentos: começo, meio e fim...; 5. Nas margens: "mulé pelada", bichas, travestis, "pisteiras" e outros e 6. O fim do filme..., que obviamente trata da morte.

A conclusão é um tanto pessimista. Houve realmente uma metabolização dessas transformações todas, ou prevalece a frase de Millôr Fernandes, lembrada pela autora na conclusões: "O Brasil tem um enorme passado pela frente".E o que dizer, se estendêssemos a data de análise até o presente ano de 2019, passando pelo golpe jurídico, midiático e parlamentar de 2016. Quantos fantasmas do passado não retornaram com surpreendente vitalidade.  Deixo a frase final do livro: "Sem conhecer essa história, que me perdoem economistas, jornalistas e institutos de pesquisa que gostam de fazer previsões, o presente segue embaçado e o futuro será mera adivinhação".

Esse passado pela frente, de que nos fala Millôr, é analisado no magnífico livro de Lilia Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo brasileiro, onde busca as raízes de nossos problemas, a saber: escravidão e racismo; mandonismo; patrimonialismo; corrupção; desigualdade social; violência; raça e gênero; intolerância.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Dois tipos de ladrão. Voltaire. Não permita ser assaltado.

Nunca imaginei viver uma situação igual a essa que estamos vivendo. O anti intelectualismo é algo explícito e a ignorância é tida como virtude e até condição para ocupar cargos públicos. Perigosamente caminhamos para um obscurantismo, para um fundamentalismo evangélico neo pentecostal, da teologia da prosperidade, em nossa política. O que parece ser piada bem humorada é uma triste realidade. Em tempos de crise, monstros emergem de todos os tipos de cavernas. Nesses tempos também aparecem textos interessantes, sejam eles verdadeiros, ou não. Se inventados, são muito bem inventados.

Voltaire (1694 - 1778) e dois tipos de ladrão.

Dessa forma, deparei, primeiro, com um áudio, que falava de dois tipos de ladrão. O texto declamado era atribuído a Voltaire (1694-1778), o grande pensador do iluminismo filosófico e político francês e que figura entre os heróis no Panteon em Paris. Depois vi inúmeros textos no Google, comentando e dissertando a respeito. Ao filósofo é atribuído uma descrição sobre a existência de dois tipos de ladrão. Eis a descrição:


1 - O ladrão comum. É aquele que rouba o seu dinheiro, sua carteira, relógio, telefone, etc.

2. O ladrão político. É aquele que rouba o seu futuro, seus sonhos, seu conhecimento, seu salário, sua educação, sua saúde, sua força, seu sorriso, etc".

Depois de estabelecer essa diferença nos alerta para uma grande diferenças entre esses dois tipos. Fazer essa distinção é extremamente importante para identificar qual deles é o mais nocivo e qual pode ser evitado. É fácil diferenciar. Vejamos o texto:

"Uma grande diferença entre estes dois tipos de ladrões, é que o ladrão comum escolhe-o para roubar os seus bens enquanto o ladrão político é você que o escolhe para ele o roubar.

E a outra grande diferença, não menos importante, é que o ladrão comum é procurado pela polícia enquanto o ladrão político é geralmente protegido por um comboio policial".

Procurei pela veracidade da frase. Encontrei até o ano em que Voltaire a teria dito, o ano de 1742, mas não encontrei a fonte, o livro e o contexto. Ela me pareceu um tanto moderna demais. Uma acentuada diferença de épocas, de hábitos, como o do telefone, por exemplo. Pelo que consta, este teria sido inventado apenas em 1876. Mas como dizem os italianos: Se non è vero, è ben trovato.

No dia 4 de dezembro de 2019, os deputados estaduais do Paraná, votaram uma reforma da previdência extremamente nociva aos servidores públicos do Estado do Paraná. Mais idade e maiores descontos. Trabalhar mais e receber menos. A sessão em que ela foi votada foi transferida da Assembléia Legislativa para um labiríntico espaço privado ou privatizado, com um efetivo policial de mais de 800 policiais, multiplicado por dois, com a dobra de turno, ou como diz o texto, "por um comboio policial".

Não sei dizer de qual desses dois tipos de ladrão é mais fácil se livrar, uma vez que, no segundo tipo, são os assaltados que escolhem os seus ladrões. E como os escolhem! Com quanto gosto! Com quanto ódio e fanatismo! E eles são mais perigosos do que os ladrões ocasionais que te roubam os pertences em alguma ou outra oportunidade. Já os outros te fazem estragos permanentes, para o resto da vida, perpassando por toda a velhice. Te roubam "futuro, sonhos, conhecimento, salário, educação, saúde, força e sorriso".

E uma última observação. Para não incorrer em erro na hora de votar, o critério de um voto de classe é uma opção com poucas probabilidades de erro. Eu mesmo, na qualidade de trabalhador, só voto em trabalhador, identificado com um partido ligado a trabalhadores. Por esse critério, nunca me senti assaltado por aqueles em quem votei. Confira nessa relação se você votou, ou não, no ladrão que acabou de te assaltar:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/12/quem-mexeu-na-sua-previdencia-no-estado.html















quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Quem mexeu na sua previdência no Estado do Paraná. Confira os votos.

Dia 4 de dezembro de 2019. Um dia triste e fatídico. Eu narro os fatos.

Em 29 de abril de 2016, o então governador e hoje réu, Beto Richa, fez uma reforma da previdência contra os servidores públicos do Estado do Paraná. Aumentou cobranças e diminuiu benefícios. Além disso, praticamente, transformou o fundo previdenciário em conta corrente para o pagamento das contas do Estado. Em outras palavras, destruiu o fundo previdenciário.
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Agora, com as reformas generalizadas e entre elas a reforma da previdência, o governador Rato Júnior também fez a reforma da previdência dos servidores públicos do Estado do Paraná, bem como a recapitalização do fundo, destruído pelo seu antecessor e comparsa de governo. A mão foi pesada. Sobrou para todo mundo, aliás, não foi para todo mundo. Alguns privilegiados sobraram. Injustiças profundas, carreiras destroçadas e velhices transformadas em sofrimentos.

A primeira votação era para ter acontecido no dia 3. Acuados, os servidores foram para o ataque. Tomaram as dependências da Assembleia Legislativa e a votação não ocorreu. O que fez o inominável presidente da casa. Transferiu a sede do Poder Legislativo para a labiríntica Ópera de Arame e montou uma operação de guerra com a polícia militar. Diga-se, esta mesma polícia ficou de fora das atrocidades dessa reforma.
Ficou mais difícil, mas resistiremos. "Amanhã há de ser um novo dia", apesar de vocês.

A votação não seria simples, por se tratar de uma emenda à Constituição estadual. Ela teria um trâmite legislativo cheio de ritos, com interstícios entre as sessões. Teria que ser amplamente discutida. Nada disso foi considerado e a votação foi efetuada às pressas. A votação foi de goleada, tal a dominação ou a subserviência dos deputados ao governador, ou do legislativo ao executivo. A base do governador até cresceu em relação à maioria que o réu Beto Richa tinha na casa. O resultado: 43X9. Vamos aos votos e aos partidos dos votantes:

Votaram SIM - pela reforma e contra os servidores:

Alexandre Amaro -  Repub.;
Alexandre Cury - PSB;
Artagão Júnior - PSB;
Cantora Mara Lima - PSC;
Cobra Repórter - PSD;
Coronel Lee - PSL;
Cristina Silvestre - PPS;
Delegado Fernando Martins - PSL;
Delegado Francischini - PSL;
Delegado Jacovós - PL;
Delegado Recalcatti - PSD;
Do Carmo - PSL;
Douglas Fabrício - PPS;
Dr. Batista - PMN;
Emerson Bacil - PSL;
Evandro Araújo - PSC;
Francisco Bührer - PSD;
Galo - Podemos;
Gilson de Souza - PSC;
Homero Marchese - Pros;
Hussein Bakri - PSD;
Jonas Guimarães - PSB
Luiz Carlos Martins - PP;
Luiz Cláudio Romanelli - PSB;
Luiz Fernando Guerra - PSL;
Mabel Canto - PSC;
Marcel Micheletto - PL;
Márcio Pacheco - PDT;
Maria Victória - PP;
Mauro Moraes - PSD;
Michelle Caputto - PSDB;
Nelson Justus - DEM;
Nelson Luersen - PDT;
Paulo Litro - PSDB;
Plauto Miró - DEM;
Reichenbach - PSC;
Ricardo Arruda - PSL;
Rodrigo Estacho - PV;
Soldado Adriano José - PV;
Subtetente Everton - PSL;
Tercílio Turini - PPS;
Tiago Amaral - PSB;
Tião Medeiros - PTB.

Votaram NÃO - contra a reforma e a favor dos servidores.

Anibelli Neto - MDB;
Arilson Chioratto - PT;
Boca Aberta Júnior - Pros;
Goura - PDT;
Luciana Rafagnin - PT;
Prof. Lemos - PT;
Requião Filho - MDB;
Soldado Fruet - Pros;
Tadeu Veneri - PT.

Ademar Traiano, do PSDB, não votou, por ser o comandante da farsa toda e Gilberto Ribeiro, do PP esteve ausente da votação.

Surpresas. Sim e não. Os votos mais estranhos são os dois votos dos deputados do PDT. O que não diria o Leonel Brizola! Outros, que estiveram conosco em outros momentos, optaram pela momentânea zona de conforto das benesses governamentais.

Os deputados da oposição entraram com recurso judicial pedindo a anulação da votação por questões de não cumprimento regimental. Creio que isso não traz esperanças, uma vez que, nunca como agora, os três poderes são um só.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Ideias para adiar o fim do mundo. Ailton Krenak.

Cheguei a ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak, pela FLIP 2019, a maior feira literária do Brasil, onde o livrinho figurou em terceiro lugar entre os dez mais vendidos na livraria oficial do evento, a Livraria da travessa do Rio de Janeiro. Ailton Krenak é das uma das mais importantes lideranças indígenas, sendo decisivo no processo constituinte para inscrever o "Capítulo dos índios" na Constituição de 1988. O território do povo Krenak se situa junto ao vale do rio Doce, rio reduzido a resíduo da atividade industrial e extrativista.
O pequeno livrinho, uma edição da Companhia das Letras.

O pequeno livrinho é constituído de duas palestras e de um texto produzido a partir de uma entrevista sua, concedida a uma rádio portuguesa em 2017. A palestra na Universidade de Lisboa serviu de título para o próprio livro, ideias para adiar o fim do mundo. A segunda palestra, também foi realizada em Lisboa, em 2017, teve por título do sonho e da terra e integrou o ciclo de estudos e debates "Questões Indígenas - Ecologia, Terra e Saberes Ameríndios" e o texto da terceira parte tem por título "A humanidade que pensamos ser".

O livrinho de 85 páginas tem, além dos três textos do corpo do livro, referências bibliográficas, notas sobre o autor e sobre o livro. A contracapa e a orelha cumprem o papel de pequenas apresentações. Na contracapa lemos o seguinte, sob o título de: UMA PARÁBOLA SOBRE OS TEMPOS ATUAIS, POR UM DE NOSSOS MAIORES PENSADORES INDÍGENAS. "Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e ativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas todos".

Na orelha está reforçada a ideia da "humanidade" oficial, do rio como recurso, e, assim sendo, se transforma em resíduo industrial/extrativista. Assim combate a ideia do divórcio entre a vida e a natureza, que gera ausências no sentido de viver e menospreza os gestos profundos de vida como cantar, dançar e a própria alegria do estar vivo.

Da primeira fala sublinhei algumas passagens: A ideia de humanidade e o questionamento da marcha civilizatória; o questionamento das instituições econômicas mundiais e as suas imposições ao mundo; o mito da "sustentabilidade"; sobre a alienação e sobre os remédios químicos; as ilhas alternativas de aldeias e de quilombolas. Penetra também no segredo do adiar o fim do mundo, que consiste em sempre sobrar um tempo para contar mais uma história, de cantar, de dançar e de não nos homogeneizar e assim sermos atraídos e enriquecidos pelas nossas diferenças.

Em "Do sonho e da terra" fala-nos da atual tensão existente entre os índios e o Estado brasileiro, pois o Estado insiste em destruir a forma indígena de viver. Fala do rio Doce, um vale e um rio em coma, coberto por lixo tóxico, causado pro um suposto "acidente". Fala de seu povo, os Kre (cabeça) e Nak (terra). Terra não como um sítio, uma propriedade, mas como um modo de viver, de viver em comum e em harmonia com a natureza. Existem gentes que precisam do rio para viver e outros o veem como recurso e, assim, fazem dele um mero depósito de resíduos industriais e extrativistas.

Em "A humanidade que pensamos ser" critica a racionalidade técnica e científica que se incrustou no conceito de humanidade e na necessidade do consumo. Invoca a ideia de Pangeia e de Pachamama e mostra a bela imagem grega da deusa Fortuna. Uma mulher com um vaso em forma de chifre (cornucópia), derramando riquezas sobre o mundo. A imagem de Fortuna, acompanhada com o conceito de prosperidade e generosidade, é sempre representada por figuras femininas, enquanto que às imagens masculinas correspondem o depredar, o detonar e o dominar.

Creio que também são ideias para adiar o fim do mundo, além do contar sempre mais uma história, as leituras e a escrita que nos aproximam com o mundo da pluralidade e das diferenças, que, ao contrário de nos separar, nos aproximam e enriquecem. Foi uma leitura simples mas extremamente benfazeja. Ailton Krenak foi, merecidamente, agraciado com um título Doutor Honoris causa, pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Não verás país nenhum. Ignácio de Loyola Brandão.

Meio distante, sempre tive uma certa percepção de desconfiança com relação ao Ignácio de Loyla Brandão, que nada tinha a ver com o seu jesuítico nome. Com a revista Cult nº 245, de maio de 2019, essa minha percepção foi decifrada. Essa revista faz uma entrevista com o consagrado escritor e agora membro da Academia Brasileira de Letras e lhe pergunta sobre o seu posicionamento político e ele responde dessa forma:

"Não tenho partido, não sou de esquerda nem de direita, eu sou da tentativa de olhar em volta com lucidez. E de não aceitar imposições e dogmas. Não sou petista, mas estou de acordo com várias coisas do PT. Acho que o Lula fez um primeiro mandato muito bom. Porque eu estive no Nordeste e eu vi luz, vi uma série de coisas que não existiam, as pessoas com geladeira, televisão. Antes, tinham nem um pião. Então, sou um democrata, acho". Confesso que queria mais, tipo aquilo que transparece na sua literatura. Ao menos se confessar como um humanista.

A excelente entrevista da Cult me levou à leitura. Entre três livros, não verás país nenhum, zero e o seu dito preferido Dentes ao sol, optei pelo primeiro, especialmente, por ser uma distopia. Agora termino a sua leitura. Demorei mais do que o previsto. Não culpo o livro mas o mal estar que estamos vivendo. O livro distópico se transformou em realidade. Vejamos a resposta por ele dada à seguinte pergunta da entrevista: "Como você coloca  seus livros, em especial, Desta terra..., diante da realidade de hoje - a gente está se encaminhando para essa distopia toda"?
Edição da Global. 27ª edição - 4ª reimpressão, 2016

"A gente já está vivendo. A gente não tem um presidente sem cérebro? É ou não é o Bolsonaro? É um homem totalmente despreparado, totalmente sem cultura, totalmente sem escola, totalmente sem raciocínio. É igual aos meus presidentes em Desta terra... um tem doença, outro não tem cérebro, outro vive sem coração. Não existe mais anonimidade, a gente está sendo vigiado o tempo inteiro. Se for trepar, vão saber que está trepando, se for mijar, vão saber do mijo. Você é vigiado, fiscalizado. Não tem mais esse ser que se esconde. Você é coagido a consumir, compra coisas que não precisa...". No caso do não verás país nenhum, não há presidente, há o Esquema.

Daniel de Mesquita Benevides, o entrevistador da revista, assim abre o seu belo trabalho: "Se os grandes artistas são antenas que captam o espírito da época e iluminam suas complexidades nos mais diversos recônditos, Ignácio de Loyla Brandão foi um pouco além ao "prever" a figura de Bolsonaro, décadas antes. Em seu livro Não verás país nenhum, de 1982 (?), há um capitão ligado a "milícias" que carrega parte do intestino numa bolsa atada à cintura. O romance mostra um futuro próximo em que a Amazônia virou um deserto, cientistas são perseguidos e não há água potável - as pessoas têm de reciclar a própria urina para beber". 

No caso acima, Souza, o personagem principal, é um professor perseguido, casado com Adelaide, e o capitão civiltar é o seu sobrinho. Além dos civiltares existem também os miltecnos, os alimentos factícios e as empresas multiinternacionais. A distopia mostra as perdas progressivas do professor Souza. Perdas é uma palavra boa. Perdeu amigos, esposa, casa. Ganhou despersonalização e a vida debaixo de uma enorme marquise.

Creio que estes dados são suficientes para contextualizar a obra, lembrando que o livro é de novembro de 1981, editado pela Codecri, como lemos na página da catalogação do livro, que já está na 27ª edição (Global - 2008) - 4ª reimpressão (2016). O livro, como consta na contracapa, continua sendo vendido como se fosse um lançamento. Recentemente o escritor entrou na Academia Brasileira de Letras, através de uma escolha unânime. 

Na contracapa temos a seguinte apresentação do livro: "Um dia teremos de comprar nos shoppings cheiros da natureza, das plantas e das flores, da chuva e da terra molhada. O que dizer de um romance que tem 20 anos e continua a ser vendido como se tivesse sido lançado agora, pela sua atualidade? Ele fala do futuro que já está acontecendo. Romance policial, de aventuras, de amor. Ficção científica, documento sobre o meio ambiente. Um livro novo, inclassificável, daqueles raros que nos entretêm e fazem pensar.

De ação e reflexão, suspense (o que vai acontecer conosco?), amor (Elisa, mulher livre, é a nova forma do amor?) - (Considero essa descrição sobre sexo sem remorso e sem a questão da responsabilidade como uma das mais belas passagens do livro) - de questionamentos (Adelaide será a nova mulher?), de esperanças (Souza simboliza o último homem indignado contra a destruição de nós mesmos?). Leve humor e ironia profunda permeiam este livro em meio a uma atmosfera sufocante".

Washington Novaes faz uma pequena apresentação do livro, com um título muito apropriado: "Sufocados pela realidade". Nela ele conclui: "E neste livro, daquele ano, volta e meia o leitor tem de dizer a si mesmo "É ficção!", para não ser engolido e sufocado pelas realidades de hoje e pelas alegorias que povoam as páginas. É um livro captado por antenas de alta sensibilidade. Por isso é tão atual, tão lido - fora o estilo, que são outros quinhentos".

A nota introdutória é de 2008. E o que dizer de sua tualidade, hoje, 2019, em tempos de bozos, moros, guedes, damares, weitraubs, araújos, ratos e outros similares?

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Dos delitos e das penas. Prefácio do autor. Cesare Beccaria.

Como considero Dos delitos e das penas um dos mais importantes livros, não apenas do Direito, mas de toda a humanidade, resolvi apresentar o prefácio do autor, uma vez que nele, ele apresenta todo o seu espírito, sentido e significado. Para situar Beccaria, no tempo e no espaço, o apresentamos como nascido em Milão, em 1738 e morto na mesma cidade em 1794. Já o livro é de 1764. Pertence, portanto, ao movimento do iluminismo ou esclarecimento. Lançou o olhar da razão sobre a legislação penal, bem como sobre a aplicação das penas. Um enorme avanço na humanização. Como fiz a resenha do livro, apresento o link.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/11/dos-delitos-e-das-penas-cesare-beccaria.html

Vamos ao prefácio:

"Fragmentos da legislação de antigo povo conquistador, compilados por ordem de um príncipe que reinou, em Constantinopla, há doze séculos, combinados depois com os costumes dos lombardos e amortalhados em um volumoso calhamaço de comentários pouco inteligíveis, são o antigo acervo de opiniões que uma grande parte da Europa prestigiou com o nome de leis; e ainda hoje, o preconceito da rotina, tão nefasto quanto difundido, faz com que uma opinião de Carpozow (jurisconsulto alemão), uma velha prática preconizada por Claro (jurisconsulto piemontês), um suplício que Francisco (jurisconsulto italiano, célebre por sua crueldade) imaginou com bárbara complacência continuem sendo orientações friamente seguidas por esses homens, que deveriam tremer ao decidir da vida e da sorte de seus concidadãos.
Um dos livros mais influentes de todos os tempos.

É esse código sem forma, produto monstruoso de séculos mais bárbaros, que desejo examinar nesta obra. Ficarei limitado, contudo, ao sistema criminal, cujos abusos terei a ousadia de apontar aos encarregados de velar pela felicidade pública, sem me preocupar em impor ao meu estilo o encanto que faz a sedução dos leitores comuns.

Se me foi possível indagar com liberdade a verdade, se pude elevar-me acima das opiniões do vulgo, tal independência devo à indulgência e às luzes do governo sob o qual tenho a ventura de viver. Os grandes reis e príncipes que desejam a ventura dos homens, seus governados, mostram-se amigos da verdade quando esta lhes é indicada por um filósofo que, do fundo de seu retiro, demonstra uma resolução sem fanatismo e contenta-se em lutar com as armas da razão contra as empresas da violência e da intriga.

Ademais, quem examinar os abusos de que trataremos, verificará que eles constituem a sátira e a vergonha dos séculos passados, porém não do nosso século e de seus legisladores.

Se alguém desejar honrar-me criticando o meu livro, procure antes apreender bem a finalidade a que me propus. Muito ao contrário de pensar em diminuir a autoridade legítima, constatar-se-á que todos os meus esforços foram no sentido de engrandecê-la; e ela de fato se engrandecerá, quando a opinião pública puder mais do que a força, quando a indulgência e a humanidade puderem fazer que se perdoe aos príncipes o poder que têm.

Críticos houve, cujas intervenções não seriam honestas, que desfecharam ataques a esta obra, modificando-a. Devo interromper-me um momento, para reduzir ao silêncio a mentira azoinada, as iras do fanatismo, as calúnias soezes do ódio.

Os princípios de moral e de política que têm aceitação entre os homens derivam, quase sempre, de três fontes: a revelação, a lei natural e as convenções sociais. Entre a primeira e as duas últimas não se pode estabelecer comparação do ponto de vista dos seus fins principais; completam-se, contudo, ao tenderem igualmente a tornar os homens felizes na terra. Trazer à discussão as relações das convenções sociais não significa atacar as relações que podem ser encontradas entre a revelação e a lei natural.

Desde que esses preceitos divinos, ainda que imutáveis, de mil maneiras foram desnaturados nos espíritos corruptos, seja pela maldade humana, seja pelas falsas religiões, seja pelas ideias arbitrárias de virtude e de vício, parece que é necessário verificar (deixando de lado quaisquer considerações estranhas) os resultados das simples convenções humanas, quer tenham sido realmente realizadas essas convenções, quer se suponha que sejam vantajosas para todos. Todas as opiniões e os sistemas de moral devem obrigatoriamente reunir-se nesse ponto, e jamais seriam bastante enaltecidos os louváveis esforços feitos para reconduzir os mais obstinados e os mais incrédulos aos princípios que levam os homens a viver em sociedade.

Podem, portanto, distinguir-se três espécies de virtudes e de vícios, a fonte dos quais está do mesmo modo na religião, na lei natural e nas convenções políticas. Nunca essas três espécies devem estar em contradição entre si; não atingem, entretanto, os mesmos resultados e não obrigam aos mesmos deveres. A lei natural é menos exigente que a revelação, e as convenções na sociedade menos do que a lei natural. Desse modo, é de fundamental importância distinguir com cuidado os efeitos dessas convenções, isto é, dos pactos expressos ou tácitos que os homens fizeram entre eles, pois nisso é que deve residir o exercício legítimo da força, em tais relações entre homem e homem, que não requerem a missão especial do Ser Supremo.

Pode-se dizer, pois, com razão, que as ideias da virtude política variam. Seriam sempre límpidas e exatas as da virtude natural se as debilidades e as paixões humanas não ofuscassem a sua pureza. As ideias da virtude religiosa não mudam, são constantes, porque foram de imediato reveladas por Deus mesmo, que as mantém inalteráveis.

Pode, portanto, aquele que discorre sobre convenções sociais e seus resultados receber a acusação de que demonstra princípios em desacordo com a lei natural e a revelação, porque nada diz a esse propósito?... Se afirma que o estado beligerante precedeu a reunião dos homens em sociedade, deve-se compará-lo a Hobbes, que não supõe para o homem isolado nenhum dever, nenhuma obrigação natural?... Não se pode, ao contrário, considerar o que ele diz como um fato, que foi apenas a consequência da corrupção humana e da ausência de leis? Finalmente, não é errado criticar um autor que analisa os efeitos das convenções sociais porque não admite, de princípio, a própria existência dessas convenções?...

A justiça divina e a justiça natural são, por sua essência, constantes e imutáveis, pois as relações que existem entre dois objetos da mesma natureza não podem jamais mudar. Mas a justiça humana, ou, se se preferir, a justiça política, como não é senão a relação que se estabelece entre uma ação e o estado mutável da sociedade, pode igualmente variar, à proporção que essa ação se torne vantajosa ou imprescindível ao estado social. Só é possível determinar com exatidão a natureza dessa justiça examinando atentamente as relações complicadas das inconstantes combinações que governam os homens.

Se todos esses princípios, em sua essência diversos, chegam a se confundir, já não se pode raciocinar com clareza a propósito dos assuntos políticos.

É atribuição dos teólogos fixar os limites entre o justo e o injusto, de acordo com a maldade ou a bondade intrínsecas da ação. Ao publicista, cabe-lhe estabelecer esses limites em política, quer dizer, sob as relações do bem e do mal que a ação possa fazer à sociedade.

Essa última finalidade não pode provocar nenhum mal à outra, pois todos conhecem o quanto a virtude política está abaixo das virtudes imutáveis que fluem da Divindade.

Torno a dizer, portanto, que, se desejarem dar ao meu livro a honra de uma crítica, não principiem atribuindo-me precitos contrários à virtude ou à religião, porque esses preceitos não são os meus; em vez de me apontar como ímpio ou sedicioso, contentem-se em demonstrar que sou um mau lógico, ou ignorante em matéria política; não tremam a cada proposição em que faço a defesa dos interesses da humanidade; constatem a inutilidade de minhas máximas e os perigos que minha opinião pode ocasionar; façam que eu veja as vantagens das lições recebidas.

Dei um testemunho público de meus princípios religiosos e de minha submissão ao soberano, quando respondi às Notas e observações que foram publicadas contra minha obra. Devo guardar silêncio quanto aos escritores que de agora em diante só me opuserem as mesmas objeções. Contudo, aquele que fizer a sua crítica com a decência e o respeito que os homens honestos se devem entre si, e aquele que tiver esclarecimento suficiente para não me obrigar a demonstrar-lhe os princípios mais elementares, de qualquer natureza que sejam, encontrará em mim um homem menos apressado a fazer a defesa de suas opiniões particulares do que um tranquilo amigo da verdade, pronto a confessar seus erros".

Mostro ainda os dois últimos parágrafos da introdução: "Sentir-me-ia muito feliz se não tivesse outro mérito além do de ter sido o primeiro a apresentar, na Itália, com maior clareza, o que outras nações ousaram escrever e já começaram a por em prática.

Contudo, se, por sustentar os direitos do gênero humano e da verdade invencível, contribuí para salvar da morte atroz algumas das trêmulas vítimas da tirania ou da ignorância igualmente prejudicial, as bênçãos e as lágrimas de apenas um inocente reconduzido aos sentimentos da alegria e da ventura confortar-me-iam do desprezo do resto dos homens".




quinta-feira, 14 de novembro de 2019

O homem que sabia javanês. Um conto de Lima Barreto.

O homem que sabia javanês é um conto muito bem humorado e profundamente irônico de Lima Barreto. Ele foi publicado originalmente pela Gazeta da Tarde, em abril de 1911. É uma clara metáfora sobre o que ocorria no Rio de Janeiro republicano, em termos de falta de zelo, de desleixo e de burocracia inútil nestes anos de nossa República positivista, se é que isso pode existir. Os termos se contradizem.
O conto de Lima Barreto, na edição da EDUSC de Bauru.

O conto é muito simples e de facílima compreensão. O absurdo é que é imenso. Castelo é o homem que sabia javanês, que na verdade nada sabia dessa língua, se encontra com o amigo Castro numa confeitaria do Rio de Janeiro. Estão a tomar cervejas e Castelo conta ao amigo a sua metidez, ao afirmar que sabia javanês e que a partir desse fato passou a se dar bem na vida e ser bem sucedido no mundo da diplomacia da República.

Tudo começa quando Castelo lê um anúncio que solicita os préstimos de um professor de javanês. Alguns dias de preparo na Biblioteca Nacional em que se apropria do alfabeto, de algumas palavras chave, algumas respostas básicas e um mínimo de conhecimento sobre a ilha, o fazem procurar o endereço indicado. O interessado era um velho e influente barão, o barão de Jacuecanga. Este o recebe e ouve a sua história. O candidato se apresenta como sendo da Bahia, filho de pai javanês, tripulante de navio mercante, que se estabelecera em Canavieiras, onde casou e o teve como filho. Eis o seu aprendizado de javanês. O barão interessado quer cumprir um juramento de família. Fala de seus parentescos e chega próximo a D. Pedro I e da herança de um livro, ao qual, por não tê-lo lido e, até mesmo esquecido, é que se abateram tantas desgraças sobre a sua família.

Da família lhe restara apenas uma filha casada e um único neto. Castelo recebe o livro, cujo prefácio estava escrito em inglês, leu-o e esnobou sabedoria. Causou ótima impressão. Acertaram aulas e preços. Nas aulas, toda a aprendizagem de um dia caía no esquecimento no dia seguinte. Porém, o barão, agora ocupado, fazia progressos em sua saúde e estado de espírito, para o contentamento de filha e genro, este, nada mais e nada menos, que um desembargador. O barão desiste dos estudos e lhe encomenda a tradução do livro, que Castelo fez a seu bel prazer, contando uma história bem animada.

Em meio a isso o barão recebe uma herança de Portugal, que ele credita à leitura do livro e contempla o nosso esperto malaio em generosa lembrança em seu testamento. Para Castelo as dificuldades da vida passaram a fazer parte de seu passado e tudo tendia a melhorar ainda mais. Por ser um expert em javanês o barão o recomenda ao visconde de Caruru, para que lhe proporcionasse o ingresso na carreira diplomática. Só êxitos. O seu aspecto físico fez com que fosse trabalhar nos consulados da Ásia e da Oceania e a participar de congressos na Europa.

Ganhou fama e reputação. Escreveu nos jornais mais influentes, fazendo cópias de dicionários. Na Europa passou a ser conhecido como o mensageiro de Bale e, na volta ao Brasil, ganhou inclusive banquete na presidência da República. Vejamos a parte final do conto:

"Não perdi meu tempo nem dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais, e o presidente da República, dias depois, convida-me para almoçar em sua companhia no palácio.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas Malaia, Melanésia e Polinésia".

Uma única vez passou por dificuldades. Um marinheiro malaio fora preso em confusão, mas quando  chegou ao local, ele já havia sido solto. Um conto doído e sofrido de um homem que em sua vida sofreu muitas privações, por causa de sua raiz, de sua cor. Para quem quiser conhecer Lima Barreto recomendo a monumental biografia sua, escrita pela Lília Schwarcz.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2017/08/lima-barreto-triste-visionario.html

O pequeno livrinho é editado pela EDUSC, de Bauru, e é ilustrado por Daniel Razabone. Tem apresentação de Vitor Biasoli, de quem destaco um parágrafo: "O conto O homem que sabia javanês (publicado em livro em 1916) é a expressão desse olhar crítico em relação aos modos como o poder intelectual imperava no Rio de Janeiro mundano e cosmopolita, então capital da República. O foco recai sobre os falsos doutores, os sofisticados malandros que, armados por um conhecimento sorvido em informativos verbetes de enciclopédia, se faziam passar por homens cultos e galgavam altos postos do serviço público. Não apenas malandros sofisticados, mas astutos lutadores pela própria sobrevivência no espaço das classes dominantes".



Dos delitos e das penas. Cesare Beccaria.

Já tive conversas, usei citações e já fiz várias consultas ao famoso livro de Cesare Beccaria,  Dos delitos e das penas, mas confesso que ainda não o tinha lido na sua íntegra. Isso se deu agora, por razões que me parecem absolutamente óbvias. É que os tempos de despotismo, de fanatismos, de obscurantismo e de ignorância estão de volta e, diga-se, com absoluta desfaçatez. Me refiro especialmente ao que está acontecendo no Brasil, e agora, se estendendo a toda a América Latina. É leitura imprescindível e profundamente iluminadora. Ah! As atuações do Poder Judiciário.
Um dos mais importantes documentos da história da humanidade, no rumo de um processo civilizatório.

Cesare Bonesana, marquês de Beccaria (observem o marquês) nasceu em Milão em 1738 e morreu na mesma cidade em 1794. A sua obra data de 1764. São os tempos do iluminismo, ou se preferirem, do esclarecimento. No livro existem referências diretas a Montesquieu (1689 - 1755) e a Rousseau (1712 - 1778), entre outros iluministas franceses e para situá-lo melhor dentro do iluminismo dou também as datas de Kant (1724 - 1804) e Hegel (1770 - 1831), quando a Aufklärung chega ao seu apogeu. Possivelmente seja Cesare Beccaria o grande nome desse movimento no campo do Direito, com especificidade no Direito Criminal e Penal, como indica o título de seu livro.

O livro não é longo e a razão de seu êxito se situa no campo do humanismo. Ele lançou sobre os apenados um olhar de amor, de compaixão e comiseração, voltado à recuperação de quem cometeu delitos. Por essa razão o livro é dos maiores documentos, não apenas restrito ao mundo do direito, mas de toda a humanidade. E isso faz muito sentido. Vejamos a contracapa da edição da Martin Claret:

"Inserida no movimento filosófico e humanitário da segunda metade do século XVIII, Dos delitos e das penas é uma verdadeira obra-prima de Cesare Beccaria - jurista italiano contemporâneo de Voltaire, Rousseau e Montesquieu.

Na época de Beccaria, as penas judiciais constituíam uma espécie de vingança coletiva, de modo que um criminoso, na maioria das vezes, sofria castigos muito mais severos e cruéis do que os próprios males que havia praticado. Penas de morte, torturas, prisões deploráveis e banimentos eram comuns e se aplicavam mesmo aos crimes mais banais.

Cesare Beccaria foi a primeira voz a se levantar contra essas práticas, defendendo que cada crime merecia uma pena proporcional ao dano causado, ou seja, que as punições deveriam ser justas. Para ele, só assim a sociedade conseguiria evoluir ética e moralmente e diminuir seus índices de criminalidade".

Esses são os grandes temas do livro. Basicamente são os princípios que norteiam o Direito Penal e o Direito Processual Penal. O livro tem uma fundamentação filosófica como prefácio e 42 tópicos dessa especificidade do Direito. O livro tem ainda dois apêndices: O primeiro - "Respostas às Notas e observações de um frade dominicano sobre o livro Dos delitos e das penas, duas basicamente. I. Da acusação de impiedade e II. Acusações de sedição. Precedidas de uma bela nota introdutória. O segundo apêndice apresenta o "Extrato da correspondência de Beccaria e de Morellet sobre o livro Dos delitos e das penas". O livro termina com dados biográficos.

Dos 42 tópicos, na verdade 40, pois tem introdução e conclusão, quero chamar atenção para dois deles, que também merecem algumas páginas a mais que os outros temas. O tópico XVI, sobre a pena de morte e o de número XLI - dos meios de prevenir crimes. Desse tópico quero destacar o parágrafo sobre a educação: "Finalmente, a maneira mais segura, porém ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos propensos à prática do mal, é aperfeiçoar a educação". Nesse tópico ainda presta uma homenagem ao grande educador Jean Jacques Rousseau.

Como vou fazer um post especial sobre o prefácio, para bem mostrar o espírito da obra, apresento aqui a sua conclusão. Não precisa de muito espaço para definir tudo: "De tudo o que acaba de ser exposto pode-se deduzir um teorema geral de muita utilidade, porém pouco conforme ao uso, que é o legislador comum dos países. É que, para não ser um ato de violência contra o cidadão, a pena deve ser, de modo essencial, pública, pronta, necessária, a menor das penas aplicáveis nas circunstâncias dadas, proporcionada ao delito e determinada pela lei".

Creio que esta última parte da frase "proporcionada ao delito e determinada pela lei" é uma espécie de síntese de todo o pequeno livro. As leis tem que ser objetivas e claras, conhecidas o máximo possível pela população, com a certeza de serem cumpridas e que visam efetivamente o bem comum, sem nenhum tipo de distinções. Jamais devem se constituir em instrumento de vingança.

Para ter noção da repercussão da obra, apresento ainda, a introdução do autor para as Respostas às Notas e observações de um frade dominicano sobre o livro Dos delitos e das penas:

"Essas Notas e observações são apenas uma coleção de injúrias contra o autor do livro Dos delitos e das penas, que é classificado como fanático, impostor, escritor falso e perigoso, satírico desenfreado, sedutor do público. É acusado de destilar o fel mais acre, de reunir a contradições odiosas os traços pérfidos e escondidos da dissimulação e de ser obscuro por perversidade. O crítico pode ficar seguro de que não irei responder às injúrias pessoais.

Ele apresenta o meu livro como uma obra horrível, virulenta e de uma licenciosidade deletéria, infame, ímpia. Nele encontra blasfêmias impudentes, insolentes ironias, anedotas indecentes, sutilezas perigosas, pilhérias escandalosas, calúnias grosseiras.

A religião e o respeito que se deve aos soberanos são o pretexto para as duas mais pesadas acusações que se encontram nessas Notas e observações. Estas serão as únicas às quais me considerarei obrigado a responder".



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Numa e a ninfa. Lima Barreto.

Na penúltima página do romance Numa e a ninfa, de Lima Barreto, depois de um discurso horroroso de Numa na Câmara de Deputados, lemos:"- Vocês admiram-se! Não é cousa do outro mundo. O Numa lá de Roma acertava quando consultava a ninfa; com este dá-se a mesma cousa". É o teor do romance. Muito mais do que um romance, uma crônica de época. Vamos a uma contextualização, a partir da contracapa do livro:
Numa e a ninfa. A crônica de seu tempo. O livro tem composições entre 1911 e 1915.

"Originalmente publicado como conto pela Gazeta da Tarde, em 1911, e em folhetins diários três anos depois pelo jornal A Noite, o romance recebeu sua forma final em 1915". Na apresentação do livro feita por Antonio Arnon do Prado, encontramos outra importante anotação, num subtítulo: - Um relato híbrido. Nele lemos: "Um dos aspectos relevantes na configuração desse processo é que a primeira versão da história do Numa aparece num momento de aberta radicalização libertária, que antecede de pouco, [...] a publicação  da sátira "As aventuras do dr. Bogóloff", da qual, aliás, sairia uma das personagens farsescas mais exorbitantes na desarticulação do romance". Para essa desarticulação ver o prefácio e a introdução do livro.

Ao ver as datas dos escritos, dos textos dos folhetins à edição do romance, 1911 a 1915, vamos a uma observação da contracapa: "Retratando de forma crítica o ambiente político do governo Hermes da Fonseca, este romance satírico conta a história de Numa Pompílio de Castro, jovem bacharel em direito pouco afeito aos estudos e ao trabalho. Interessado apenas nos cargos e proventos que o título lhe permitiria alcançar, casa-se com Edgarda Cogominho, filha de um oligarca, e elege-se deputado graças à influência do sogro". O sogro era influente senador.

A descrição de sua formação acadêmica, já no primeiro capítulo, é uma das passagens mais cômicas, lembrando o sistema educacional descrito em Os bruzundangas. Estudava, ou melhor, decorava as anotações dos colegas e só errava questões na prova, quando as anotações estavam erradas. Era medíocre, mas as notas eram boas. A sua profissão mesmo era ser genro do senador Cogominho. Deputado eleito, integrava a bancada do governo e só veio a se destacar quando Edgarda, a ninfa, lhe cobrou notoriedade e lhe preparou um discurso. Aí foi alçado à fama.

Na edição da Penguin & Companhia das Letras tem o prefácio de João Ribeiro, apresentado pela primeira vez em 1917. João Ribeiro  faz o seguinte comentário, entre outros, a respeito do livro: "Numa e a ninfa é um estudo da vida social e política do nosso tempo. É realmente um dos raros livros que espelham, com verossimilhança senão com fidelidade, os vícios e costumes da sociedade política". Vejamos um pouco mais:

"No Brasil, em quase todos os ramos da vida, o "arrivismo" (eu facilito com o Aurélio - Pessoa inescrupulosa, que quer vencer na vida a todo custo) é uma arte consumada e perfeita; sem ela, seria impossível explicar o triunfo e a evidência de indivíduos quase nulos, insignificantes, incultos e ridículos que, entretanto, ocupam as melhores posições. À inteligência substitui-se a esperteza que é também, não há negar, uma qualidade do espírito. Já não é pouco verificarmos que, por exemplo, na política, se não temos a verdade, temos pelo menos o sofisma. Contentemo-nos com aparências lógicas e com arremedos simiescos.

Dessa desordem fundamental dos nossos costumes traçou Lima Barreto com mão firme um esboço tão parecido à realidade que com ela se confunde". Bem, o que mais? Vou chamar atenção dos principais personagens. Primeiro os do núcleo familiar: Numa, Edgarda e o senador Cogominho. O doutor Bogóloff, um russo, ex anarquista, que cansou das lides de roça e foi trabalhar em Ministério, como diretor da Pecuária Nacional. Planos mirabolantes devidamente fundados na ciência. Quadruplicar peso de bois e porcos (Não há referências a terraplanismos, afinal eram tempos de ciência, de positivismo). Destaco ainda Lucrécio Barba de Bode, que mora na Cidade Nova, que resultara dos planos de saneamento do Rio de Janeiro, do soterramento dos morros, como o do Castelo. Dele João Ribeiro fala o seguinte:

"...tipo quase secundário no livro, mas intensamente significativo pela verdade flagrante dos seus gestos. É um mísero mulato sem emprego, que, eternamente e por instintivo olfato, descobre o futuro árbitro das graças". Outro personagem notório é Fuas Bandeira, jornalista ou dono de jornal. O tema é grato a Lima Barreto. Mais duas referências... As milícias já atuavam e atormentavam e, como estamos num governo de marechal, as mulheres de militares vivem a reclamar e a mendigar benefícios. Afinal de contas são os seus maridos que se sacrificam pela pátria.

Enfim, selecionei uma passagem do capítulo dez, logo em sua abertura, para estabelecer um paralelo com os dias de hoje. "Os sequazes de Bentes (O general candidato) acharam  que o melhor meio de fazê-lo presidente do Brasil era impedir que houvesse eleições na capital do país. Todas as tendenciosas passeatas de batalhões, a inundação da cidade por valentões e capangas, as ameaças de perda de emprego não lhes deram segurança de vitória; e houve neles, tal era o vigor da população, temor que se efetivasse, redundasse ela em trabalho mecânico, inesperado e abrupto, uma erupção contra o sindicato que se acovardara diante das baionetas e iludia a própria consciência fingindo entusiasmo.
Uma biografia fantástica do triste visionário.

Cada dia fico mais fã do Lima Barreto. Pena que ele tenha sido um cronista de uma outra época. Se fosse dos tempos de hoje, com certeza que tomaríamos juntos algumas boas doses de cachaça. E uma recomendação final. A maravilhosa biografia, escrita pela Lília Schwarcz.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A classe média brasileira e suas frações. Jessé Souza - A elite do atraso.

No novo livro de Jessé Souza, A elite do atraso - Da escravidão a Bolsonaro, o autor apresenta uma pesquisa em que mostra a classe média brasileira e as suas diferentes frações. Por ser inédito, resolvi apresentar uma pequena síntese, no intuito de atiçar a curiosidade para a leitura do livro e, em particular, o capítulo a respeito. O tema da classe média é constante nos livros de Jessé.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/11/a-elite-do-atraso-da-escravidao.html 

A tese principal de A elite do atraso - da escravidão a Bolsonaro é a de que a elite brasileira, após a derrota para uma sub elite regional, em 1930, fez com que ela celebrasse um pacto com a classe média para se manter no poder para sempre. O mecanismo desse pacto foi a criação de meios simbólicos de dominação, com a invenção e a difusão de interpretações de Brasil, que conspirassem contra o povo pobre, que deveria ser mantido sob o tacão e os estigmas da escravidão. Esse saber seria criado na universidade e a sua difusão se daria pelas editoras e pela mídia. Assim foi criado um saber colonizado com as teorias do vira-latismo brasileiro, amplamente difundido pelos meios de comunicação que explicaria os entraves para o nosso desenvolvimento. Jessé contra-argumenta, situando essas travas na escravidão, sempre perpetuada e nunca verdadeiramente abolida.

 O mais recente livro de Jessé Souza. Sempre a classe média.

A classe média brasileira, que teve uma rápida formação no Brasil, especialmente após 1930, tem as suas especificidades, embora preserve profundas semelhanças. Depois da análise histórica dessa formação, já na parte final do capítulo sobre as classes sociais no Brasil moderno, ele mostra as suas diferentes frações. Assim as apresenta: "Os quatro nichos ou frações de classe que reconstruímos a partir desse trabalho ainda em andamento se referem às que denominamos como fração protofascista, fração liberal, fração expressivista - que costumo apelidar de "classe média de Oslo - e a menor delas, a fração crítica". Todos os dados desse post são retirados das páginas 184 a 189 do livro. Vamos a números e caracterizações.

Primeiro os números: "Em termos quantitativos, a fração liberal é a maior, com cerca de 35% do total, seguida pela fração protofascista, com cerca de 30%. Os 35% restantes compõem aquilo que poderíamos chamar de classe média com mais alto capital cultural, ou capital cultural reflexivo [...] Cerca de 60% dessa casse média mais instruída - ou 20% do total de toda a classe média - forma aquilo que podemos  chamar de fração expressivista [...] Na outra ponta desses 35% de maior capital cultural comparativo, temos a menor fração entre todas, que é a fração que denomino crítica. Ela perfaz 15% do total da classe média". Temos assim 35% de liberais, 30% de protofascistas, 20% de expressivistas e 15% de críticos.

Vamos à caracterização. Jessé analisa a facção dominante de liberais e protofascistas, inicialmente, sem separá-los, para ao final diferenciá-los com a profundidade necessária: "Essa é a classe média tradicional do conhecimento técnico, ou seja, daquele tipo de conhecimento que serve diretamente às necessidades do capital e de sua reprodução e tem menor contribuição para uma transformação da própria personalidade. Esta inclusive, a própria personalidade, não é vista como um processo de descoberta e criação. O distanciamento em relação a si mesmo e o distanciamento reflexivo em relação á sociedade exigem pressupostos improváveis. Daí que sejam raros, mesmo na classe média privilegiada". Continuo pela importância dessa descrição.

"Para que se perceba a vida como invenção, é necessário saber conviver com a incerteza e a dúvida, duas das coisas que a personalidade tradicional e adaptativa mais odeia. A convivência com a dúvida é afetivamente arriscada e demanda enorme energia pessoal. O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e certeza da própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa". E continua.

"Essas são as frações da sociedade mais suscetíveis à imprensa e a seu papel de articular e homogeneizar um discurso dominante para além das idiossincrasias individuais. O que a grande empresa de imprensa vende a seu público cativo é essa tranquilidade das certezas fáceis, tornando o moralismo cínico da imprensa - que nunca tematiza seu próprio papel nos esquemas de corrupção - o arranjo de manipulação política perfeito para esses estratos sociais. É esse compartilhamento afetivo e emocional, já advindo da força da socialização familiar anterior, que faz com que essas pessoas procurem o tipo de capital cultural mais afirmativo da ordem social. Nele, o capataz da elite, que ajuda a reproduzir na realidade cotidiana todos os próprios privilégios, está em casa".

Uma diferenciação entre o protofascista e o liberal: "O moralismo é muito diferente. Ele pula todas as etapas arriscadas e incertas e abraça só o produto fácil, vendido a baixo custo pela mídia e pela indústria cultural construída para satisfazer esse tipo de consumidor: a boa consciência das certezas compartilhadas. É nesse terreno que o liberal se afasta do protofascista. Para o liberal, os rituais da convivência democrática são constitutivos, ainda que possa ser convencido das necessidades de exceções no contexto democrático.

O protofascista, que, na verdade, se espraia da classe média para setores significativos das classes populares, é bem diferente. O golpe lhe trouxe o mundo onde pode expressar legitimamente seu ódio e seu ressentimento. O ódio às classes populares é aqui aberto e proclamado com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente [...] Como nunca aprendeu a se criticar, o protofascista tem uma sensibilidade à flor da pele e qualquer crítica aciona uma reação potencialmente violenta. [...] Essa banalidade do mal não existia entre nós. Ela foi criação midiática, ainda que ninguém na Rede Globo ou nas outras mídias, agora, queira assumir a responsabilidade pelo que fez".

Mas vamos falar dos 20% de expressivistas: "Mais importante ainda, pode-se agora ser expressivista sem qualquer crítica social que envolva efetiva distribuição de riqueza e poder. Expressivismo, também em país de maioria pobre como o nosso, passa a ser a preservação das matas, o respeito às minorias identitárias e temas como a sustentabilidade e responsabilidade social de empresas. [...] Esses temas são, na verdade, fundamentais. [...] Em um país onde tantos levam uma vida miserável e indigna deste nome, a superação da miséria de tantos é a luta primeira e mais importante. [...] Tudo se dá como se esse pessoal "bem intencionado" morasse em Oslo, e não no Brasil, e tivesse apenas relações com seus amigos de Copenhage e Estocolmo. Para um sueco que efetivamente resolveu os problemas centrais de injustiça social e distribuição de riquezas, não é estranho que se dedique à preservação de espécies raras e faça dessa luta sua atuação política principal. Que um brasileiro faça o mesmo e se esqueça da sorte de tantos seres humanos tão perto dele é apenas compreensível se ele os torna invisíveis. Por conta disso, decidi chamar essa fração de "classe média de Oslo". Ela é fundamental para que possamos compreender o Brasil moderno". E continua.

"Os eleitores da candidata Marina Silva são exemplos clássicos desse tipo de classe média". Aí eu paro. Essa caracterização é absolutamente suficiente para compreendê-la. Vamos aos 15% restantes, os denominados "críticos".

"O que faz com que eu a denomine de crítica não é nenhuma tomada de posição particular, mas sim, uma atitude singular em  relação ao mundo. O mundo social é percebido como algo construído, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa atitude básica se contrapõe à percepção do mundo como dado, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar. A forma de adaptação mais comum é se sentir pertencente a correntes dominantes de opinião. A pequena fração crítica tem que navegar em mares turvos, já que está em luta constante contra a corrente dominante. Ela mostra a dificuldade de se chegar a formas de liberdade pessoal e social e de autonomia real no contexto de uma sociedade perversa e repressiva. Por conta disso, ela também é prenhe de contradições, como todas as outras frações".

Na parte final  ele apresenta exemplos, por citações, de como cada fração dessa classe média percebeu as interpretações do vira-latismo brasileiro. Deltan Dallagnol representa os protofascistas, o ministro Barroso, os liberais e Fernando Haddad, apresentado como um intelectual refinado, a fração crítica.