segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Numa e a ninfa. Lima Barreto.

Na penúltima página do romance Numa e a ninfa, de Lima Barreto, depois de um discurso horroroso de Numa na Câmara de Deputados, lemos:"- Vocês admiram-se! Não é cousa do outro mundo. O Numa lá de Roma acertava quando consultava a ninfa; com este dá-se a mesma cousa". É o teor do romance. Muito mais do que um romance, uma crônica de época. Vamos a uma contextualização, a partir da contracapa do livro:
Numa e a ninfa. A crônica de seu tempo. O livro tem composições entre 1911 e 1915.

"Originalmente publicado como conto pela Gazeta da Tarde, em 1911, e em folhetins diários três anos depois pelo jornal A Noite, o romance recebeu sua forma final em 1915". Na apresentação do livro feita por Antonio Arnon do Prado, encontramos outra importante anotação, num subtítulo: - Um relato híbrido. Nele lemos: "Um dos aspectos relevantes na configuração desse processo é que a primeira versão da história do Numa aparece num momento de aberta radicalização libertária, que antecede de pouco, [...] a publicação  da sátira "As aventuras do dr. Bogóloff", da qual, aliás, sairia uma das personagens farsescas mais exorbitantes na desarticulação do romance". Para essa desarticulação ver o prefácio e a introdução do livro.

Ao ver as datas dos escritos, dos textos dos folhetins à edição do romance, 1911 a 1915, vamos a uma observação da contracapa: "Retratando de forma crítica o ambiente político do governo Hermes da Fonseca, este romance satírico conta a história de Numa Pompílio de Castro, jovem bacharel em direito pouco afeito aos estudos e ao trabalho. Interessado apenas nos cargos e proventos que o título lhe permitiria alcançar, casa-se com Edgarda Cogominho, filha de um oligarca, e elege-se deputado graças à influência do sogro". O sogro era influente senador.

A descrição de sua formação acadêmica, já no primeiro capítulo, é uma das passagens mais cômicas, lembrando o sistema educacional descrito em Os bruzundangas. Estudava, ou melhor, decorava as anotações dos colegas e só errava questões na prova, quando as anotações estavam erradas. Era medíocre, mas as notas eram boas. A sua profissão mesmo era ser genro do senador Cogominho. Deputado eleito, integrava a bancada do governo e só veio a se destacar quando Edgarda, a ninfa, lhe cobrou notoriedade e lhe preparou um discurso. Aí foi alçado à fama.

Na edição da Penguin & Companhia das Letras tem o prefácio de João Ribeiro, apresentado pela primeira vez em 1917. João Ribeiro  faz o seguinte comentário, entre outros, a respeito do livro: "Numa e a ninfa é um estudo da vida social e política do nosso tempo. É realmente um dos raros livros que espelham, com verossimilhança senão com fidelidade, os vícios e costumes da sociedade política". Vejamos um pouco mais:

"No Brasil, em quase todos os ramos da vida, o "arrivismo" (eu facilito com o Aurélio - Pessoa inescrupulosa, que quer vencer na vida a todo custo) é uma arte consumada e perfeita; sem ela, seria impossível explicar o triunfo e a evidência de indivíduos quase nulos, insignificantes, incultos e ridículos que, entretanto, ocupam as melhores posições. À inteligência substitui-se a esperteza que é também, não há negar, uma qualidade do espírito. Já não é pouco verificarmos que, por exemplo, na política, se não temos a verdade, temos pelo menos o sofisma. Contentemo-nos com aparências lógicas e com arremedos simiescos.

Dessa desordem fundamental dos nossos costumes traçou Lima Barreto com mão firme um esboço tão parecido à realidade que com ela se confunde". Bem, o que mais? Vou chamar atenção dos principais personagens. Primeiro os do núcleo familiar: Numa, Edgarda e o senador Cogominho. O doutor Bogóloff, um russo, ex anarquista, que cansou das lides de roça e foi trabalhar em Ministério, como diretor da Pecuária Nacional. Planos mirabolantes devidamente fundados na ciência. Quadruplicar peso de bois e porcos (Não há referências a terraplanismos, afinal eram tempos de ciência, de positivismo). Destaco ainda Lucrécio Barba de Bode, que mora na Cidade Nova, que resultara dos planos de saneamento do Rio de Janeiro, do soterramento dos morros, como o do Castelo. Dele João Ribeiro fala o seguinte:

"...tipo quase secundário no livro, mas intensamente significativo pela verdade flagrante dos seus gestos. É um mísero mulato sem emprego, que, eternamente e por instintivo olfato, descobre o futuro árbitro das graças". Outro personagem notório é Fuas Bandeira, jornalista ou dono de jornal. O tema é grato a Lima Barreto. Mais duas referências... As milícias já atuavam e atormentavam e, como estamos num governo de marechal, as mulheres de militares vivem a reclamar e a mendigar benefícios. Afinal de contas são os seus maridos que se sacrificam pela pátria.

Enfim, selecionei uma passagem do capítulo dez, logo em sua abertura, para estabelecer um paralelo com os dias de hoje. "Os sequazes de Bentes (O general candidato) acharam  que o melhor meio de fazê-lo presidente do Brasil era impedir que houvesse eleições na capital do país. Todas as tendenciosas passeatas de batalhões, a inundação da cidade por valentões e capangas, as ameaças de perda de emprego não lhes deram segurança de vitória; e houve neles, tal era o vigor da população, temor que se efetivasse, redundasse ela em trabalho mecânico, inesperado e abrupto, uma erupção contra o sindicato que se acovardara diante das baionetas e iludia a própria consciência fingindo entusiasmo.
Uma biografia fantástica do triste visionário.

Cada dia fico mais fã do Lima Barreto. Pena que ele tenha sido um cronista de uma outra época. Se fosse dos tempos de hoje, com certeza que tomaríamos juntos algumas boas doses de cachaça. E uma recomendação final. A maravilhosa biografia, escrita pela Lília Schwarcz.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A classe média brasileira e suas frações. Jessé Souza - A elite do atraso.

No novo livro de Jessé Souza, A elite do atraso - Da escravidão a Bolsonaro, o autor apresenta uma pesquisa em que mostra a classe média brasileira e as suas diferentes frações. Por ser inédito, resolvi apresentar uma pequena síntese, no intuito de atiçar a curiosidade para a leitura do livro e, em particular, o capítulo a respeito. O tema da classe média é constante nos livros de Jessé.
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/11/a-elite-do-atraso-da-escravidao.html 

A tese principal de A elite do atraso - da escravidão a Bolsonaro é a de que a elite brasileira, após a derrota para uma sub elite regional, em 1930, fez com que ela celebrasse um pacto com a classe média para se manter no poder para sempre. O mecanismo desse pacto foi a criação de meios simbólicos de dominação, com a invenção e a difusão de interpretações de Brasil, que conspirassem contra o povo pobre, que deveria ser mantido sob o tacão e os estigmas da escravidão. Esse saber seria criado na universidade e a sua difusão se daria pelas editoras e pela mídia. Assim foi criado um saber colonizado com as teorias do vira-latismo brasileiro, amplamente difundido pelos meios de comunicação que explicaria os entraves para o nosso desenvolvimento. Jessé contra-argumenta, situando essas travas na escravidão, sempre perpetuada e nunca verdadeiramente abolida.

 O mais recente livro de Jessé Souza. Sempre a classe média.

A classe média brasileira, que teve uma rápida formação no Brasil, especialmente após 1930, tem as suas especificidades, embora preserve profundas semelhanças. Depois da análise histórica dessa formação, já na parte final do capítulo sobre as classes sociais no Brasil moderno, ele mostra as suas diferentes frações. Assim as apresenta: "Os quatro nichos ou frações de classe que reconstruímos a partir desse trabalho ainda em andamento se referem às que denominamos como fração protofascista, fração liberal, fração expressivista - que costumo apelidar de "classe média de Oslo - e a menor delas, a fração crítica". Todos os dados desse post são retirados das páginas 184 a 189 do livro. Vamos a números e caracterizações.

Primeiro os números: "Em termos quantitativos, a fração liberal é a maior, com cerca de 35% do total, seguida pela fração protofascista, com cerca de 30%. Os 35% restantes compõem aquilo que poderíamos chamar de classe média com mais alto capital cultural, ou capital cultural reflexivo [...] Cerca de 60% dessa casse média mais instruída - ou 20% do total de toda a classe média - forma aquilo que podemos  chamar de fração expressivista [...] Na outra ponta desses 35% de maior capital cultural comparativo, temos a menor fração entre todas, que é a fração que denomino crítica. Ela perfaz 15% do total da classe média". Temos assim 35% de liberais, 30% de protofascistas, 20% de expressivistas e 15% de críticos.

Vamos à caracterização. Jessé analisa a facção dominante de liberais e protofascistas, inicialmente, sem separá-los, para ao final diferenciá-los com a profundidade necessária: "Essa é a classe média tradicional do conhecimento técnico, ou seja, daquele tipo de conhecimento que serve diretamente às necessidades do capital e de sua reprodução e tem menor contribuição para uma transformação da própria personalidade. Esta inclusive, a própria personalidade, não é vista como um processo de descoberta e criação. O distanciamento em relação a si mesmo e o distanciamento reflexivo em relação á sociedade exigem pressupostos improváveis. Daí que sejam raros, mesmo na classe média privilegiada". Continuo pela importância dessa descrição.

"Para que se perceba a vida como invenção, é necessário saber conviver com a incerteza e a dúvida, duas das coisas que a personalidade tradicional e adaptativa mais odeia. A convivência com a dúvida é afetivamente arriscada e demanda enorme energia pessoal. O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e certeza da própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa". E continua.

"Essas são as frações da sociedade mais suscetíveis à imprensa e a seu papel de articular e homogeneizar um discurso dominante para além das idiossincrasias individuais. O que a grande empresa de imprensa vende a seu público cativo é essa tranquilidade das certezas fáceis, tornando o moralismo cínico da imprensa - que nunca tematiza seu próprio papel nos esquemas de corrupção - o arranjo de manipulação política perfeito para esses estratos sociais. É esse compartilhamento afetivo e emocional, já advindo da força da socialização familiar anterior, que faz com que essas pessoas procurem o tipo de capital cultural mais afirmativo da ordem social. Nele, o capataz da elite, que ajuda a reproduzir na realidade cotidiana todos os próprios privilégios, está em casa".

Uma diferenciação entre o protofascista e o liberal: "O moralismo é muito diferente. Ele pula todas as etapas arriscadas e incertas e abraça só o produto fácil, vendido a baixo custo pela mídia e pela indústria cultural construída para satisfazer esse tipo de consumidor: a boa consciência das certezas compartilhadas. É nesse terreno que o liberal se afasta do protofascista. Para o liberal, os rituais da convivência democrática são constitutivos, ainda que possa ser convencido das necessidades de exceções no contexto democrático.

O protofascista, que, na verdade, se espraia da classe média para setores significativos das classes populares, é bem diferente. O golpe lhe trouxe o mundo onde pode expressar legitimamente seu ódio e seu ressentimento. O ódio às classes populares é aqui aberto e proclamado com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente [...] Como nunca aprendeu a se criticar, o protofascista tem uma sensibilidade à flor da pele e qualquer crítica aciona uma reação potencialmente violenta. [...] Essa banalidade do mal não existia entre nós. Ela foi criação midiática, ainda que ninguém na Rede Globo ou nas outras mídias, agora, queira assumir a responsabilidade pelo que fez".

Mas vamos falar dos 20% de expressivistas: "Mais importante ainda, pode-se agora ser expressivista sem qualquer crítica social que envolva efetiva distribuição de riqueza e poder. Expressivismo, também em país de maioria pobre como o nosso, passa a ser a preservação das matas, o respeito às minorias identitárias e temas como a sustentabilidade e responsabilidade social de empresas. [...] Esses temas são, na verdade, fundamentais. [...] Em um país onde tantos levam uma vida miserável e indigna deste nome, a superação da miséria de tantos é a luta primeira e mais importante. [...] Tudo se dá como se esse pessoal "bem intencionado" morasse em Oslo, e não no Brasil, e tivesse apenas relações com seus amigos de Copenhage e Estocolmo. Para um sueco que efetivamente resolveu os problemas centrais de injustiça social e distribuição de riquezas, não é estranho que se dedique à preservação de espécies raras e faça dessa luta sua atuação política principal. Que um brasileiro faça o mesmo e se esqueça da sorte de tantos seres humanos tão perto dele é apenas compreensível se ele os torna invisíveis. Por conta disso, decidi chamar essa fração de "classe média de Oslo". Ela é fundamental para que possamos compreender o Brasil moderno". E continua.

"Os eleitores da candidata Marina Silva são exemplos clássicos desse tipo de classe média". Aí eu paro. Essa caracterização é absolutamente suficiente para compreendê-la. Vamos aos 15% restantes, os denominados "críticos".

"O que faz com que eu a denomine de crítica não é nenhuma tomada de posição particular, mas sim, uma atitude singular em  relação ao mundo. O mundo social é percebido como algo construído, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa atitude básica se contrapõe à percepção do mundo como dado, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar. A forma de adaptação mais comum é se sentir pertencente a correntes dominantes de opinião. A pequena fração crítica tem que navegar em mares turvos, já que está em luta constante contra a corrente dominante. Ela mostra a dificuldade de se chegar a formas de liberdade pessoal e social e de autonomia real no contexto de uma sociedade perversa e repressiva. Por conta disso, ela também é prenhe de contradições, como todas as outras frações".

Na parte final  ele apresenta exemplos, por citações, de como cada fração dessa classe média percebeu as interpretações do vira-latismo brasileiro. Deltan Dallagnol representa os protofascistas, o ministro Barroso, os liberais e Fernando Haddad, apresentado como um intelectual refinado, a fração crítica.

domingo, 3 de novembro de 2019

A elite do atraso. Da escravidão a Bolsonaro. Jessé Souza.

Considero hoje, sem favor nenhum, Jessé Souza como o melhor intérprete da atual conjuntura brasileira. O seu fôlego teórico equivale a, praticamente, reescrever o Brasil, no que se refere às suas maiores interpretações e intérpretes. Por essa razão, compro e leio, sistematicamente, todos os seus livros. Foi o que fiz agora com A elite do atraso - da escravidão a Bolsonaro. Já na capa do livro tem uma importante nota: edição revista e ampliada. Isto implica em dizer que o livro tem uma íntima relação com A elite do atraso, da escravidão à Lava Jato, de maio de 2017.
O novo livro do Jessé Souza.

Não sei se pelo conjunto da obra, ou pela influência desse livro que acabo de ler, é que o considero como o melhor dos livros de Jessé. O livro de 2017 contém inúmeras referências teóricas que não são de domínio fácil, mesmo no meio acadêmico. Essas referências são agora mais trabalhadas e, a elas se somam novos referenciais. Eu particularmente fiquei muito satisfeito com as referências feitas a Max Weber, sobre o patrimonialismo, a Habermas, sobre a formação dos espaços públicos e a Norbert Elias, sobre o processo civilizatório. É à luz deles que ele vê os intérpretes de Brasil, apontando os seus erros, que considera propositais.

Entre esses intérpretes, quase que por inteiro, isenta de culpa a Gilberto Freyre e as posições defendidas em seus dois grandes livros, Casa Grande&Senzala e Sobrados e Mucambos, sobre a escravidão brasileira, suas peculiaridades e diferenças da dos Estados Unidos e sobre o primeiro processo de urbanização brasileira. Os mucambos seriam a continuidade da senzala? Mas se ele isenta Freyre, ele não perdoa a Sérgio Buarque de Holanda e o seu Raízes do Brasil. Aponta para o conceito nele trabalhado do homem cordial, em oposição ao homem do espírito, racional, disposto ao discernimento e ao empreendedorismo, ao contrário do homem cordial, passional e sempre disposto ao jeitinho, já numa referência a Roberto da Matta.

Quem também é merecedor da mais ácida crítica é Raimundo Faoro, e ao seu erudito livro Os donos do poder, onde é desenvolvido o conceito do patrimonialismo, incrustado no Estado brasileiro, numa longa herança portuguesa, desde o século XIV.  Faoro desenvolve a tese da maldição do Estado em oposição às virtudes do mercado. Para ele os países virtuosos são os do livre mercado, ao contrário dos países onde há forte intervenção econômica que são dados à corrupção. Desses conceitos emana o famoso vira-latismo brasileiro e as teses decorrentes. É melhor entregar as nossas riquezas para os homens do espírito, racionais e empreendedores, do que para homens com apegos ao afeto e ao jeitinho e entregá-las à iniciativa privada, longe da corrupção do Estado, inata no Brasil por um longo processo histórico de herança portuguesa.

Essas interpretações surgiram após os reveses sofridos pela elite dominante em 1930, com a criação da universidade, a USP em particular, e o seu consórcio com as editoras e os meios de comunicação de massa. Se estabelece uma aliança entre a elite e a classe média, classe essa, substituta do capitão do mato do regime da escravidão. Os espaços que deveriam ser públicos sempre foram colonizados pela elite do dinheiro, numa aliança que sistematicamente impede avanços da "soberania popular", que eles odeiam profundamente. Aí surge um terceiro conceito, que Jessé pouco analisa, que é o conceito de populismo, desenvolvido por Francisco Weffort, em O populismo na política brasileira.

Por essa aliança tivemos dois golpes de Estado, o de 1964, civil e militar, e o "Golpeachment" de 2016, midiático/judicial/parlamentar. O que foi impedido por esses golpes? Os anos entre 1945 e 1975 foram considerados como os anos de ouro do capitalismo internacional, que tiveram reflexos também no Brasil. Para que o povo não usufruísse desses benefícios é que ele foi submetido às políticas de austeridade. E, se com a eleição de Lula em 2002, esse povo começou a usufruir algumas benesses através da implementação de políticas públicas, essas foram abortadas antes que as classes médias dividissem novos espaços com as classes pobres, que por uma herança da escravidão, a elite e as classes médias odeiam profundamente. Como consequência, as classes pobres são reduzidas à situações idênticas às vividas na escravidão. Essa é a tese do livro. O Brasil é tão desigual, não pelo "homem cordial", pelo patrimonialismo estatal ou pelo populismo, mas sim, pela herança da escravidão. Por pesquisas empíricas ele apresenta a atual classe média brasileira, da qual falarei em post específico.
O livro de Jessé Souza, de 2017.

Em síntese, são esses os grandes passos do livro, do qual dou agora a sua estruturação básica. Além de prefácio, posfácio e notas de referência o livro está divido em três capítulos, com subcapítulos. O prefácio tem por título "O racismo de nossos intelectuais: o brasileiro como vira-lata" e o posfácio - "Um país em transe: as razões irracionais do fascismo".

Os três capítulos são: I. A escravidão é nosso berço, com os seguintes subcapítulos: 1.O mundo que a escravidão criou; 2. Freyre contra ele mesmo; 3. Sobrados e mucambos ou o campo na cidade.

O II capítulo tem como título: As classes sociais do Brasil moderno, com os seguintes subcapítulos: 1. A criação da ralé (uma categoria com a qual o autor trabalha - não tem significado pejorativo) de novos escravos como continuação da escravidão no Brasil moderno; 2. Os conflitos de classe no Brasil moderno; 3. O pacto antipopular da elite com a classe média; 4. A classe média e a esfera pública colonizada pelo dinheiro; 5. O moralismo patrimonialista e a crítica ao populismo como núcleo do pacto antipopular; 6. O pacto elitista e sua violência simbólica; 7. A elite do dinheiro e seus motivos; 8. A classe média e suas frações.

O título do III capítulo é: A corrupção real e a corrupção dos tolos. Tem dois subcapítulos: 1. A corrupção real e a corrupção dos tolos: uma reflexão sobre o patrimonialismo; 2. Normalizando a exceção: o conluio entre a grande mídia e a Lava Jato. Uma leitura imprescindível para compreender o Brasil atual e as razões do golpe de 2016.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Omeros. Derek Walcott. Nobel de literatura - 1992.

Entrei em contato com a literatura de Derek Walcott através do livro O mundo da escrita - como a literatura transformou a civilização, de Martin Puchner. Esse autor selecionou 16 livros/temas que ele considerou os mais impactantes. No capítulo 15 ele apresenta o poeta e escritor caribenho e o seu Omeros. De O mundo da escrita seleciono dois parágrafos iniciais do capítulo quinze:
Omeros, de Derek Walcott. Companhia das letras.

"Nações novas precisam de histórias para lhes dizer que são, e isso nunca ficou tão claro quanto em meados do século XX, quando as nações europeias perderam o controle sobre suas colônias e dezenas de novas nações nasceram praticamente da noite para o dia.  O número de Estados/nação do mundo quadruplicaram - eram cerca de cinquenta, chegaram a duzentos. E a independência se tornou um tempo de prosperidade para a literatura. As novas nações enfrentaram desafios consideráveis porque os colonizadores europeus haviam traçado limites territoriais de acordo com sua conveniência, muitas vezes forçando grupos, comunidades linguísticas e tribos rivais a ficar dentro de uma única entidade administrativa. Esses desafios tornaram ainda mais importante que se criasse uma coesão e uma identidade cultural por meio de textos fundamentais. [...]

Sempre me fascinou o caso mais extremo disso: a pequena ilha caribenha de Santa Lúcia e seu escritor Derek Walcott, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1992, autor de Omeros, um poema épico na tradição de Homero". Vamos a algumas informações básicas sobre o país ilha, do Google mesmo.
Por esse fantástico livro cheguei a Omeros.

Santa Lúcia é uma nação insular no leste do Caribe com um par de montanhas cônicas, os Pitons, na costa oeste. No litoral, há praias vulcânicas, locais para mergulho em recifes, resorts luxuosos e vilarejos de pescadores. As trilhas na floresta do interior levam a cachoeiras como a Toraille, com 15 metros de altura, que desce por uma colina até um jardim. A capital Castries é um conhecido porto de cruzeiros. A população da ilha é de 178.844 habitantes e o cultivo da banana é a sua principal atividade econômica, seguida pela cana de açúcar e pelo turismo de luxo. Sua população é de afro americanos e a disputa territorial se deu entre franceses e ingleses, tendo os últimos levado a melhor. Em 1979 se tornou independente, integrando a Comunidade Britânica das Nações.

Vamos ao livro de um único poema, dividido em sete partes. Vamos à apresentação da contracapa: "Poeta mulato das Antilhas, Prêmio Nobel de literatura de 1992, Derek Walcott escreveu um poema destinado a permanecer entre os mais belos e instigantes do século XX. Com um desenho circular, que enfeixa tanto o mundo atemporal dos heróis gregos como o dia a dia de uma aldeia de pescadores do Caribe, Omeros (grego moderno para Homero) é, antes de tudo, uma história viva do oceano, dos povos e idiomas que por ele ressoam. Das raízes mediterrâneas aos grandes autores da língua inglesa, passando pelo patois crioulo das Antilhas e os sons africanos que pulsam até hoje nas margens do Caribe, este é um canto universal, que funde de modo magnífico o encontro de raças, línguas e culturas que se deu nas praias americanas".
Uma localização da ilha de Santa Lúcia.

A orelha do livro também é bem ilustrativa. Vamos a ela: "Derek Walcott é um poeta na confluência de dois mundos. De um lado o mar do Caribe, traçando círculos ao redor de sua ilha natal, a pequena Santa Lúcia, uma ex-colônia britânica encravada no arquipélago das Pequenas Antilhas; de outro, o legado da literatura inglesa, expressão maior de um império que se alastrou por quase todos os mares do planeta.

Desse choque de línguas e lugares resultou um canto poderoso que aproxima a Grécia, a África e o Caribe, subvertendo as noções culturais de centro e periferia, deslocando nossa percepção da história e enriquecendo de modo inteiramente inusitado o diálogo entre as nações do Novo e do Velho mundo.

Em Omeros, se o mar e os negros pescadores de Santa Lúcia fornecem a matéria-prima , um vasto arsenal de imagens, ritmos e texturas tropicais, são os arquétipos da Ilíada e da Odisseia, as personagens míticas de Aquiles, Helena, Heitor e Filoctete (além do próprio Homero, encarnado num pescador cego, de nome Sete-Mares), que definem as linhas mestras do poema.

Misto de poesia, mito, romance e roteiro de cinema, Omeros é também uma meditação sobre questões cruciais do mundo contemporâneo, como a destruição da natureza, a identidade das minorias e o desenraizamento individual e coletivo.

No entanto, apesar da magnitude de suas explorações, não é uma obra voltada para eruditos. Ao contrário, incrivelmente vivo em sua captação do particular e ciente de sua abrangência universal, Omeros fala de perto a todos que se interessam pela verdadeira cultura deste tempo. Tempo em que a história é um movimento sem fim, que não se funda em lugar algum, e tem nas mutações do mar seu espelho mais luminoso.

A edição brasileira de Omeros é da Companhia das Letras. A tradução é de Paulo Vizioli, que é também o responsável pelo prefácio à primeira edição (1994). Ela tem por título A epopeia das Antilhas. Essa leitura é imprescindível para a melhor compreensão da obra. O livro poema tem 436 páginas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quem substituirá o professor? Seriam os "clones virtuais"?

No grande livro denúncia - A escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público, de Christian Laval, em sua segunda parte, analisa " a escola sob o dogma do mercado". Logo depois de falar, no quinto capítulo, sobre "a grande onda neoliberal", no sexto, ele se debruça sobre "o grande mercado da educação". Nele, num subtítulo, sob o nome de "o mercado das novas tecnologias e as ilusões pedagógicas" ele vai fundo na questão da substituição dos professores pelas novas tecnologias. Deixo a íntegra do texto, me isentando de comentários:
O livro de Laval, do qual eu retirei esse texto sobre o não futuro dos professores.

"Um dos fenômenos mais significativos que surgiram na Europa nos anos 1990 foi a criação de um mercado de novas tecnologias para uso educativo. Para as empresas que buscam novos mercados, o ensino surgiu como uma espécie de Eldorado, em razão de seu tamanho e da importância dos equipamentos de informática que passou a exigir. Os Estados Unidos mostraram o caminho no fim dos anos 1980, tanto no que diz respeito aos contratos de escolas e universidades com grandes empresas (como a Microsoft) quanto no que se refere à experimentação, com as Apple Classrooms of Tomorrow [salas de aula do amanhã da Apple] (Acot). Nos estados Unidos, uma enorme concorrência entre fornecedores e um discurso de forte mobilização impulsionada pelos lobbies e pela grande imprensa aceleraram a equipação das escolas.

Nesse âmbito, a Europa não ficou para trás. No início de 1996, a Comissão Europeia propôs "estimular a pesquisa" com "programas educativos multimídia" e aumentar o orçamento já destinado a isso. A "parceria europeia para a Educação (1997) pretendia entregar o material e os programas necessários às escolas com a colaboração ativa dos industriais do setor. No mesmo ano Tony Blair lançou um plano amplo, patrocinado por Bill Gates, para conectar 32 mil escolas britânicas. Em março de 1997, Jacques Chirac exigiu solenemente que todos os estabelecimentos de ensino secundário fossem conectados à web, objetivo que depois se tornou prioridade no governo de Lionel Jospin. Mas o movimento começou muito antes. Nico Hirtt e Gérard de Sélys descreveram em pormenores a adesão dos governos europeus às virtudes do grande mercado das novas tecnologias. Destacaram, em particular, o entusiasmo com que a Comissão Europeia adotou as principais recomendações dos industriais a esse respeito. A ERT começou o movimento publicando um relatório intitulado "Educação e competências na Europa" em janeiro de 1989, em que preconizava a educação a distância", em especial para a formação permanente. Em março de 1990, a Comissão Europeia assumiu a tarefa com um documento de trabalho sobre "a educação e a formação a distância", Dizia: "O ensino a distância [...] é especialmente útil [...] para garantir um ensino e uma formação rentáveis". Em maio de 1991, a Comissão Europeia publicou um novo relatório: "A revolução informática desqualifica grande parte do ensino [...] Os conhecimentos úteis têm uma meia-vida de dez anos, com depreciação do capital intelectual de 7% ao ano, acompanhada de uma diminuição proporcional da eficiência da mão de obra". O ensino a distância permite a renovação necessária do "capital humano", transmitindo "conhecimentos úteis" graças ao impulso do home office. Falando em termos de "produtos" e "clientes", a Comissão Europeia garantia que desejava transformar o e-learning numa alavanca de transformação da escola: "A realização desses objetivos exige estruturas de educação que deveriam ser concebidas em função das necessidades dos clientes". Em 1994, a ERT publicou um novo relatório intitulado "Construindo as estradas da informação, no qual os industriais planejavam a criação de um sistema educacional virtual que associava setor privado e setor público em toda a Europa. No Livro branco sobre a educação e a formação,a Comissão Europeia afirmava que a época da regulamentação da concessão de diplomas pelos Estados havia acabado e era necessário adotar um "mapa pessoal de competências" que validasse as competências adquiridas no emprego e fosse concedido por organismos privados habilitados. Nessa visão futurista, a introdução das novas tecnologias no ensino deveria resultar numa gigantesca "rede de ensino a distância" e numa profissionalização muito mais incisiva de percursos acadêmicos com flexibilidade para se adaptar às necessidades das empresas. É profunda a interpenetração da Comissão Europeia e dos interesses privados nessa esfera. Com o pretexto de construir a e-europa, chegou-se ao ponto de as próprias empresas desenvolverem a base curricular das escolas e das universidades para ampliar seu mercado. O Consórcio Career Space, que agrupa onze grandes empresas do setor de tecnologia de informação e comunicação (TIC), europeias e principalmente norte-americanas (CiscoSystems, IBM, Microsoft, e Intel, mas também Philips, Siemens e outras), redigiu para uma publicação oficial das Comunidades Europeias um "guia para o desenvolvimento de programas de formação", cujo intuito era definir os "novos cursos de formação em TIC para o século XXI" que as universidades europeias deveriam oferecer.

O avanço do mercado das novas tecnologias educativas é acompanhado de um discurso "pedagógico" que anuncia o "fim dos professores". A informática e a internet não são vistas como objetos técnicos que devem ser estudados e compreendidos, ou como ferramentas suplementares úteis à aprendizagem, mas como alavancas "revolucionárias" que permitirão mudar radicalmente a escola e a pedagogia. Apostas comerciais e métodos pedagógicos se enredam de uma forma nunca vista. Se os defensores das pedagogias por projeto, ensino mútuo ou técnicas Freinet foram incensados tanto por parte do alto escalão administrativo e ministerial quanto pelos grandes desenvolvedores de material de informática, é porque, para os promotores dessa "revolução", a eliminação das relações pedagógicas tradicionais e a utilização das novas "máquinas de ensinar" estão estreitamente relacionadas. A introdução das novas tecnologias no ensino tradicional revelou um rendimento muito fraco, quase nulo, conforme a experiência com as Acot já havia mostrado nos Estados Unidos. Portanto, era preciso difundir a ideia de que a natureza do ensino tinha de mudar, que a aprendizagem é, sobretudo e fundamentalmente, busca "autônoma" de documentos e tratamento de informações, e que o papel do professor tem de ser totalmente revisto. Para a ERT, essa evolução pode ser resumida da seguinte maneira: graças às novas tecnologias, passamos de um "modelo de ensino" para um "modelo de aprendizagem". O papel do professor não é mais transmitir conhecimentos, mas motivar, orientar, avaliar. Ele se tornou "coach" e "pesquisador".  Os educational leaders à frente das escolas, formados em gestão privada, se dedicarão a introduzir essa guinada no modelo pedagógico e promover a difusão das novas tecnologias na nova "organização educadora".

Fazer com que se acredite que o professor deve ser um orientador de pesquisas pessoais e exercícios padronizados em suporte informático possibilita justificar a compra de equipamentos em nome de uma "substituição (inelutável) do trabalho pelo capital".  No futuro, a educação será uma indústria capitalista que funcionará com a ajuda dos "professores de silício", segundo a imagem proposta por um dos mais fervorosos defensores dessa revolução tecnológica. Especialistas preveem, mais radicalmente, que haverá um enfraquecimento mais ou menos rápido dos sistemas escolares tais como foram construídos ao longo de séculos, e que eles serão substituídos por um embate entre oferta e demanda, supostamente capaz de produzir uma "formação mais rentável". Essa concepção pedagógica mistura a utopia de uma "nova cultua escolar", construída pelos alunos por meio de "tentativa e erro", o uso intensivo das NTIC nas salas de aula e a adaptação da escola à globalização econômica e cultural. Dessa forma, estão garantidas a vitória do construtivismo pedagógico ("os alunos constroem o próprio saber") sobre a transmissão dos conhecimentos, o fim do mestre, a abertura da escola para o mundo e a comunicação horizontal entre os alunos. Alguns se precipitam e veem essas ferramentas como alavancas para uma evasão escolar geral: porque se descolar, se sujeitar a horários restritivos, aceitar a autoridade de um professor, quando se pode aprender em casa, no momento que se quiser, em pé de igualdade com os colegas?  O home schooling seria o futuro, porque resolveria o problema da escola eliminando-a. O jornal Le Monde, por ocasião do WEM de Vancouver, descreveu da seguinte maneira as futuras transformações, ou ao menos as que imaginam os mercadores da educação:

"Quer se trate de uso de tempo, de local ou de condições de estudo, o WEM promete um futuro radicalmente novo não somente para o estudante do século XXI, mas também para o educador. Basta de anfiteatros superlotados, em que alunos tomam nota de aulas expositivas durante horas a fio, páginas a fio. O estudante poderá realizar sua formação em casa, pelo computador, a seu ritmo. Ele poderá completá-la ao longo de toda a vida".

Quanto ao professor, ele será substituído por "clones virtuais", bem mais eficientes que os velhos fichários de autocorreção da pedagogia de Freinet".

LAVAL, Christian. A Escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo. Boitempo. 2019. Páginas 141-145.

Mais adiante, nas páginas 221-222, tem mais algumas frases que me entristeceram profundamente: "A promoção dessas tecnologias vai ao encontro das preocupações dos que querem reorganizar o ensino eliminando o cara a cara entre professor e aluno. É preciso acabar com essa "atividade artesanal", com essa "profissão liberal" ultrapassada, porque ela é pouco "racional". A ERT vai no mesmo sentido: "É mais que tempo de transformar a sala de aula com os mesmos benefícios conhecidos da tecnologia e das técnicas de gestão que revolucionaram cada local de trabalho na indústria e nos negócios". Confesso que sempre gostei dessa "atividade artesanal". Coisas da práxis. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

A escola não é uma empresa. O neoliberalismo em ataque ao ensino público. Christian Laval.

Sempre sigo alguns princípios quando faço a escolha dos livros para a leitura. Um deles é a escolha através dos autores. É o caso desse livro maravilhoso de Christian Laval, professor de sociologia da Universidade Paris-Ouest Nanterre - La Défense, A escola não é uma empresa - O neoliberalismo em ataque ao ensino público. Conheci Christian Laval por seus livros em parceria com Pierre Dardot, A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal e Comum - Ensaio sobre a revolução no século XXI. Pretendo ainda ler muitos outros.
Uma dura contestação à escola neoliberal. 

A escola não é uma empresa é uma forte defesa em favor da escola pública, uma longa construção histórica. Vou ficar aqui com apenas uma qualificação sua: ela é republicana. O livro se deve aos ataques que ela vem sofrendo por parte daqueles que querem alinhar a escola à lógica do capitalismo global. É sabido que a escola, historicamente, ficou um tanto imune a essa lógica, por ser um espaço de contraposição aos seus princípios. Passou a ser um raro espaço de humanização em meio a uma barbárie generalizada, com o avanço capitalista. Mas isso foi mudando, especialmente, no pós Segunda Guerra Mundial, quando são formuladas as teorias e a partir dos anos 1980, com a sua implantação.

O livro não é novo. A sua primeira edição é de 2003 (Brasil - 2004) e o Brasil ganhou uma nova edição, agora em 2019. Ele ganhou apenas um novo prefácio, para dizer de sua atualidade.  É óbvio que isso tem a ver com golpe de 2016.  Por ser um livro de 2003 ele não contém tanta novidade com relação aos princípios e aos fatos. O seu grande valor está no poder de análise e interpretação. Está muito bem fundamentado, tanto na apresentação dos referenciais teóricos, quanto nos documentos das agências internacionais que expõem a doutrina e as diretrizes para a sua implementação. Essas doutrinas representam um avanço sobre um incipiente e promissor mercado. Tudo está apenas começando. É óbvio que isso representa uma mudança profunda e é motivo de muitas preocupações e desalentos em meio aos profissionais envolvidos. 

O livro, além de introdução e conclusão, está estruturado em três partes, que tem os seguintes títulos: I. A produção de "capital humano" a serviço da empresa; II. A escola sob o dogma do mercado e III. Poder e gestão na escola neoliberal. São 326 páginas, com muitas notas ao pé de página (fontes) e uma bela indicação bibliográfica, ao final.

A primeira parte possui quatro capítulos, que envolvem essa mudança fundamental nos objetivos educacionais. São eles: 1. Novo capitalismo e educação; 2. O conhecimento como fator de produção; 3. O novo idioma da escola e 4. A ideologia da profissionalização. 

A segunda parte tem mais quatro capítulos, mas a numeração vai na sequência: 5. A grande onda neoliberal; 6. O grande mercado da educação; 7. A nova "gestão educacional" e 8. As contradições da escola neoliberal.

A terceira parte também tem quatro capítulos: 9. "A modernização" da escola; 10. Descentralização, poderes e desigualdades; 11. A nova "gestão educacional"; 12. As contradições  da escola neoliberal. Ainda na estrutura geral do livro, os capítulos são apresentados com sub-títulos, fato que torna a leitura bem mais fácil.

Creio que com os títulos dos capítulos é possível vislumbrar um grande sistema de mudanças. A escola, de uma instituição pública foi transformada numa "organização" e, de um espaço destinado à de transmissão de conhecimentos foi reduzida à aquisição de competências e, ainda, de espaço de inserção cultural foi reduzida a treinamento de habilidades. A escola não mais é feita para a criança entrar numa "relação metacognitiva com a linguagem e os saberes". Se transformou num espaço onde se exercita o anti-intelectualismo.

Na orelha do livro encontramos a novilíngua dessa escola: A educação vai deixando de ser um bem comum, público, e adquire cada vez mais o caráter de mercadoria, de bem privado comercializável, sofrendo os condicionamentos da lógica empresarial em termos de gestão e de resultados. Nessa nova lógica, devem ser usadas as ferramentas da "gestão participativa", em que o eufemismo dá o tom: o poder se tornou "pilotagem"; comando é "mobilização"; autoridade é "suporte"; supervisionar é "ajudar"; impor é "convencer"; dirigir não é mais comandar, mas "motivar", "exercer liderança", "animar" e, sobretudo, "educar".  O gestor é "um piloto que deve obter a adesão a um projeto".
O livro pelo qual conheci o autor. 

Deixo ainda duas citações e uma chamada para um post especial sobre o futuro dos professores. Vai aí a primeira delas: "A contradição da escola neoliberal se deve, sobretudo, ao fato de que nenhuma sociedade é capaz de funcionar se o vínculo social se resume às "águas geladas do cálculo egoísta". A perda de sentido da escola e do saber é apenas um dos aspectos da crise política, cultural e moral das sociedades capitalistas, nas quais a lógica predominante traz em si a destruição do vínculo social em geral e do vínculo educacional em particular". (300-1)

E o último parágrafo do livro: "A educação é um "fato social total", para usarmos a expressão de Marcel Mauss, mas a transmissão dos conhecimentos é seu eixo. A educação ocupa o centro da lógica da dádiva e da contradádiva entre gerações. Saberes, sim, mas também normas e valores. Essa lógica é o fundamento da instituição e lhe dá embasamento antropológico. O maior perigo, com a desigualdade, é a mutilação da vida por uma concepção redutora da cultura e da educação, concebida como uma formação com objetivos profissionais. É como passar de uma escola dependente de um nacionalismo cultural para uma escola corroída pelo egoísmo utilitarista. Essa concepção dominante da educação faz parte da visão de uma humanidade formada por combatentes da guerra econômica mundial. Por isso é que ela deve ser combatida". (307).

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Bolsa de estudos. Mestrado. Chevening (UK). Maria Luiza Khoury. Como conseguir.

Enquanto lia o livro de Christian Laval, A escola não é uma empresa - o neoliberalismo em ataque ao ensino público, eu via a postagem da Maria Luiza Khouri, acompanhada com um vídeo, onde ela explica detalhadamente como fazer para se habilitar a bolsas de estudos no Reino Unido. O livro de Laval é uma pesada crítica ao caráter cada vez mais concorrencial e competitivo que invade a educação em sua guinada de adaptação às exigência do mercado. Essa adaptação reduz o ser humano à unidimensionalidade, marcada pelo econômico. Historicamente a educação, em seu caráter republicano, usando a expressão do mesmo Laval, é marcada pelo seguinte tríptico: formar o trabalhador, instruir o cidadão e educar o homem.
Maria Luiza Khouri explicando como chegar ao mestrado em Londres, com bolsa do Reino Unido.

O post e o vídeo da Mari vem na direção oposta ao caráter concorrencial e competitivo do processo educacional e aponta para o compartilhamento de experiências e para a abertura de possibilidades para todos aqueles que desejam andarilhar pelos caminhos por ela já percorridos. Imediatamente a parabenizei, dizendo-lhe que o seu port representava um ato de generosidade e de bondade e me confessei orgulhoso por ter participado de seu processo de formação.

Maria Luiza Khouri foi minha aluna no curso de Publicidade e Propaganda na Universidade Positivo e, obviamente, sempre se mostrou uma aluna diferenciada. Determinação, atitudes positivas, liderança e espírito de organicidade sempre foram marcas de sua participação nas atividades escolares. Depois também fui distinguido na orientação do TCC de seu grupo. Tivemos assim uma aproximação maior e tive a honra de fazer a sua carta de apresentação para a universidade inglesa.

A finalidade do post é dupla. A primeira é a que a própria Mari deseja, que é a de oferecer a sua experiência para aquelas pessoas que desejam seguir os seus caminhos para obterem a tão sonhada bolsa proporcionada pelo governo do Reino Unido e, o segundo, e de minha parte a razão principal, que é a de exaltar a atitude que a Mari tomou. Compartilhar a sua experiência e abrir essa possibilidade para outras pessoas. Essa atitude é um reflexo da Mari que eu conheci. Ela é resultado de uma formação que ela recebeu, de valores que ela foi assimilando em seu processo de formação e de socialização. Família, escola e grupos de amizades tem a sua participação nesse processo.

A decisão de publicar esse post, em meio a leitura do livro de Laval,  me veio também pela lembrança de um evento de formação do qual participava o professor João Wanderley Geraldi, o nosso grande mestre da linguística. Nos contava ele a história de sua fisioterapeuta, que havia se formado graças a política pública do PROUNI. Dizia ela: "Professor, o PROUNI precisa acabar, ele não pode continuar existindo". Diante dessa afirmação o professor retrucou: Mas como é que você quer que esse projeto acabe, se foi por ele que você conseguiu se formar"? Ela prontamente respondeu, para desapontamento do professor. "Pois é, ele precisa acabar pois a concorrência é muito grande". Traduzindo, essa menina, formada pelo PROUNI, queria que as oportunidades que ela teve na vida não fossem mais oferecidas a ninguém. Queria uma reserva de mercado com o fechamento de oportunidades para novos profissionais.

Deixo para vocês a contraposição dessas duas atitudes e, para  a Mari, uma mensagem final, que retiro de Paulo Freire, que  recentemente usei como epígrafe.

"Ensinar exige alegria e esperança. A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e, segundo, se buscasse sem esperança". Paulo Freire. Pedagogia da autonomia.

Para mim, essa frase contém em si toda uma definição e todo um conceito de educação. Seres inacabados, limitados e finitos, na busca de completude. Essa é a travessia, a trajetória de formação que você vem trilhando com tantos êxitos e que, tenho certeza, te traz alegrias e novas esperanças. E, como já expressei na nossa comunicação pelo face, "que os teus voos pelo mundo continuem e parabéns pela tua vida de buscas e de realizações. Na tua volta comemoraremos".
Lembrança de uma comemoração da turminha aqui em casa.

Deixo aqui a mensagem que a Mari mandou hoje pela manhã (17/10/2019), diretamente de Londres. 
Bom dia, Brasil!
Tenho recebido mensagens de pessoas interessadas em aplicar para o programa Chevening, que concede bolsa de estudos integral para mestrados no Reino Unido, e que está com as inscrições abertas até o dia 05 de Novembro.
Para tentar ajudar quem tá aplicando, preparei um vídeo (bem caseiro, tá?) contando sobre a minha experiência e dando algumas dicas - bem pessoais - sobre o processo seletivo.
Fiquem à vontade para mandar para quem tiver interesse. Sabemos que não são muitas as opções de bolsas de estudos integrais, e muito menos as relacionadas com audiovisual, então quanto mais gente puder aproveitar essa oportunidade, melhor 
Besos diretamente do frio e chuva! Logo logo tô aí 

Para acessar o vídeo basta clicar. E quanto a Mari, deixo dela a imagem registrada num dos comentários à sua postagem no face: Henrique Sal Grosso Ouro Com certeza! Essa menina é de ouro! Abraços e Parabéns!

https://www.facebook.com/marialuizakhouri/posts/2564225776966803?comment_id=2564279173628130&reply_comment_id=2564419810280733&notif_id=1571321311498299&notif_t=feed_comment_reply

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Brasil: Racismo estrutural. Roger Machado.

No sábado, dia 12 de outubro, o técnico do Esporte Clube Bahia, Roger Machado, na tradicional entrevista pós jogo, não deu apenas uma entrevista, deu uma verdadeira aula de Brasil, sobre o racismo brasileiro que, segundo ele, é estrutural.

Roger Machado é um atleta consagrado no futebol brasileiro. Seu grande êxito como jogador está ligado ao Grêmio, onde jogou de 1994 até 2003. Seu maior título foi a conquista da Libertadores da América no ano de 1995. Roger iniciou a sua carreira de treinador também no Grêmio, onde é ídolo de seus torcedores.
Roger Machado dando a sua aula sobre o racismo estrutural brasileiro.

Depois de passagens pelo Atlético Mineiro e pelo Palmeiras, está atualmente treinando o Bahia e está obtendo êxitos. Ouvi, numa entrevista, que está entusiasmado em ser treinador do Bahia, por este clube estar fortemente ligado a projetos sociais na cidade de Salvador. Sem dúvida, Roger é alguém profundamente diferenciado dentro do futebol brasileiro.

No jogo de sábado não passou despercebido da imprensa, o fato de que os dois técnicos do jogo (Bahia e Fluminense) serem negros.  Daí, numa pergunta a respeito, veio a aula. Tenho estudado bastante o tema sobre a herança autoritária brasileira e, entre as suas causas, a questão do racismo sempre ocupa o primeiro lugar. A fala do Roger vai fundo na questão das tentativas do ocultamento deste mesmo racismo, defendido por vários intérpretes de Brasil, que falam da "comunhão pascal" das raças e da cordialidade do povo brasileiro. Reconhece que nos últimos 15 anos houve avanços, que, no entanto, estão sendo retirados agora.

No jogo havia faixas e cartazes, numa campanha contra o preconceito racial: CHEGA DE PRECONCEITO. Este foi o mote para a fala: O resto tomo do jornal baiano Correio. - Ao falar da campanha, Roger se estendeu sobre o tema e disse que a grande repercussão do encontro entre os dois únicos treinadores negros do campeonato é, em si, uma prova do preconceito que ainda existe.


"Essa é a prova que existe o preconceito, porque é algo que chama atenção. À medida que a gente tenha mais de 50% da população negra e a proporcionalidade não é igual, a gente tem que refletir e se questionar. Se não é há preconceito no Brasil, por que os negros têm o nível de escolaridade menor que o dos brancos? Por que a população carcerária, 70% dela é negra? Por que quem morre são os jovens negros no Brasil? Por que os menores salários, entre negros e brancos, são para os negros? Entre as mulheres negras e brancas, são para as negras? Por que, entre as mulheres, quem mais morre são as mulheres negras? Há diversos tipos de preconceito. Nas conquistas pelas mulheres, por exemplo, hoje nós vemos mulheres no esporte, como você (a repórter que fez a pergunta), mas quantas mulheres negras tem comentando esporte? Nós temos que nos perguntar. Se não há preconceito, qual a resposta? Para mim, nós vivemos um preconceito estrutural, institucionalizado", opinou.
Para o treinador tricolor, é preciso que a sociedade saia da fase de negação em relação ao racismo. "A gente precisa falar sobre isso. Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. 'Ah, não fala sobre isso'. Porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: 'Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui'. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui", finalizou.
Apresento ainda a íntegra da entrevista, que tomo do Esporte interativo.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Hereges. Leonardo Padura.

No dia 13 de agosto de 2019 fui ao espaço cultural Capela Santa Maria, para assistir a fala do escritor cubano Leonardo Padura. Embora a dificuldade natural do entendimento na comunicação, o que consegui apreender, foi notável, especialmente sua reflexões sobre a ilha de Cuba, o seu país. Já conhecia o escritor pelo seu notável romance O homem que amava os cachorros. Para marcar o evento, comprei outro livro seu, Hereges, movido em grande parte pelo seu título e por tudo o que ele envolve.
Hereges, o monumental livro do Leonardo Padura. Pela BOITEMPO.

Hereges, acima de tudo é um tributo à liberdade individual e um libelo em sua defesa contra todas as arbitrariedades que contra ela são cometidos. Vejamos as últimas frases do livro, na reflexão do detetive Conde, um dos personagens responsáveis pela beleza do livro: "Conde sentia essa história muito familiar e próxima. E pensou que talvez, em suas buscas libertárias, em algum momento Judy Torres houvesse estado mais próxima do que muita gente de uma verdade desoladora: já não há nada mais em que acreditar nem Messias a seguir. Só vale a pena militar na tribo que cada um mesmo escolheu livremente. Porque, se cabe a possibilidade de que até Deus, se é que existiu, tenha morrido, e a certeza de que tantos messias acabaram se transformando em manipuladores, a única coisa que resta, a única que na verdade nos pertence, é a nossa liberdade de escolha. para vender um quadro ou doá-lo a um museu. Para pertencer ou deixar de pertencer. Para acreditar ou não acreditar. E até para viver ou morrer".

O quadro em questão é o centro de todo o romance. Este quadro tem uma assinatura de Rembrandt (1606 -1669), o famoso pintor holandês do século XVII, o século de ouro da Holanda. Este quadro anda pelo mundo. Da Holanda vai para a Polônia, da Polônia vai para Cuba, de Cuba para a Venezuela, da Venezuela para os Estados Unidos e dos Estados Unidos para Londres, onde está em disputa judicial pelos herdeiros poloneses/cubanos do quadro. É em seu torno que o romance é construído, mas repito, o grande tema é a liberdade, a sua busca e as dolorosas consequências que geralmente a acompanham.

O livro está dividido em quatro capítulos ou livros: I. Livro de Daniel. II. Livro de Elias. III. Livro de Judith. IV. Gênesis. Na contracapa temos uma preciosa síntese do livro: "Um garoto judeu refugia-se em Cuba durante a Segunda Guerra Mundial. No século XVII, um aspirante a pintor rompe com os mandamentos de sua religião ao buscar os ensinamentos de Rembrandt. Nos dias atuais, uma jovem cubana busca afirmar suas paixões. Em seu novo romance, Leonardo Padura narra a história dessas três personagens que nutrem, em comum, um herético amor pela liberdade".

Na abertura do livro Padura divulga uma pequena e imprescindível nota do autor. Três parágrafos apenas: "Muitos dos episódios narrados neste livro se baseiam em uma ampla pesquisa histórica e, inclusive, foram escritos com base em documentos de primeira mão, como é o caso de Javein Mesoula (Le fond de l'abîme), de N.N. Hannover, um impressionante e vívido testemunho dos horrores do massacre de judeus na Polônia entre 1648 e 1653, texto com tal capacidade de comover que, com os necessários cortes e retoques, decidi retomá-lo no romance, cercando-o de personagens fictícios. Desde que o li soube que não seria capaz de descrever melhor a explosão de horror e muito menos de imaginar os níveis de sadismo e perversão a que se chegou na realidade vista pelo cronista e por ele descrita pouco tempo depois.

Mas, como se trata de um romance, alguns dos acontecimentos históricos foram submetidos à exigências do enredo dramático, em benefício de sua utilização, repito, romanceada. Talvez a passagem em que realizo esse exercício com maior insistência seja a que trata dos acontecimentos situados na década de 1640, que na realidade, são a soma dos eventos próprios desse momento com alguns da década seguinte, como a condenação de Baruch Spinoza, a peregrinação do suposto messias Sabbatai Zevi ou a viagem de Menasseh Ben Israel a Londres, com a qual conseguiu, em 1655, que Cromwell e o Parlamento inglês dessem aprovação tácita à presença de judeus na Inglaterra, coisa que logo depois começou a acontecer.

Nas passagens posteriores, sim, foi respeitada a estrita cronologia histórica, com pequenas alterações na biografia de alguns personagens inspirados na realidade. porque a história, a realidade e o romance funcionam como motores diferentes".

Os horrores do massacre polonês estão no livro de Gênesis (IV), a história da Holanda e do pintor Rembrandt está no livro de Elias (II) e o restante está no livro tanto de Daniel (I) e de Judith (III). Na contracapa ainda encontramos um nota do Jornal El País: "A combinação perfeita entre os romances histórico, social e policial. Uma aventura de tirar o fôlego. O melhor dos oito romances escritos por Padura nos quais Conde figura como personagem principal... Divirtam-se". Concordo com o divirtam-se e, em parte, com o melhor romance. Eu que não li os oito, ao menos o considerei superior ao O homem que amava os cachorros (A temática é mais profunda). Discordo que Conde seja o personagem principal, mas, em compensação, ele é o mais bonachão e o mais divertido. 
E ainda sobrou tempo para uma tietagem com o escritor.


Eu destacaria dois pontos altos do romance. O item número 5 do livro de Daniel e o de número 3 do livro de Elias. São os pontos mais elevados da compreensão humana, da liberdade e das fontes de sua repressão. Os repressores são os que se arvoram em representantes de Deus. 


Do livro de Daniel destaco este diálogo entre tio e sobrinho: "'A propósito', disse afinal, 'Você sabe porque não me casei com Caridad?' (Joseph - judeu e Caridad - cubana). Daniel se surpreendeu com a súbita entrada num assunto até então nunca mencionado pelo tio, pelo menos com ele, e ao qual, por respeito, jamais tinha se referido. 'Porque ela tem umas crenças e eu tenho outras. E não sou capaz de pedir que ela renuncie às dela. Não tenho esse direito, não seria justo, porque essa fé é uma das poucas coisas que pertencem de verdade a ela, e das que mais a ajudaram a viver. E eu não vou renunciar às minhas. Ela é inculta, mas é uma mulher boa e inteligente, e me compreende. Para nós dois, o mais importante agora é que nos sentimos bem quando estamos juntos, e isso nos ajuda a viver. Acima de tudo, não nos sentimos mais sós. E isso é um presente de Deus. Não sei se do dela ou do meu, mas uma graça divina'". Página 88. 

E do livro de Elias, para concluir, o diálogo se dá entre mestre e discípulo: "Nestes dias fiquei contente por seu avô estar morto. O velho teria sido capaz de matar Amós. Ele sempre foi um lutador, um homem piedoso, e o que mais admirava era a fidelidade e a razão. É, dissera Elias, e o que mais odiava era a submissão". Página 315.
Amós havia delatado o irmão Elias, por este ter escolhido o caminho para ser pintor, contrariando a lei judaica. Também assino com Eric Nepomuceno, o final da orelha do livro: "Fica, então, a advertência ao leitor: ler este livro até o fim pode mudar sua maneira de ver a vida e o mundo. Para melhor, é claro".

domingo, 13 de outubro de 2019

Sobre descritores, conhecimento e entorpecimento. Sebastião Donizete Santarosa.

Mais um texto maravilhoso do meu amigo Sebastião Donizete Santarosa. Quanta lucidez nesse momento de trevas e de antiintelectualismo na educação brasileira e, por extensão, paranaense. Até quando haverá tanta redução nos conceitos da educação e do ensinar? A educação pública pede socorro. A ignorância está sendo festejada. Mas, sem demoras, vamos ao texto.
XXXXXXXXXXX
"O que são descritores, menina?"

A aluna, bem comportada, competitiva e cumpridora de tarefas, daquelas chatas que não aceitam nota inferior à máxima, aproxima-se de mim e pergunta, à queima-roupa:
"Por que o senhor não está ensinando o que deveria estar ensinando pra nós, professor?"
"Como assim?! O que eu deveria estar ensinando pra vocês e não estou ensinando?"
"Os descritores! O senhor não ensina pra nós os descritores!"
Cabelos brancos já cobrem parte de minha cabeça lenta e cansada:
"O que são descritores, menina?"
"O professor fica ai perdendo tempo só lendo esses poemas, falando desse Drummond, desse outro tal de Pessoa, esses caras que só sabem falar mal de Deus e da vida, e não ensina pra gente o que tem que ensinar!"
E então, no de-repente, me dou conta da inutilidade de minha arte de ensinar, da inutilidade da escola, da ciência, da arte... De fato, a aluna tinha toda razão: pra que serve poesia? Por que dar ouvidos a ineptos idiotas como Pessoa e Drummond? Por que gastar tempo e dinheiro com versos, ritmos, metáforas? As dúvidas do existir vão se agigantando no sem-sentido do viver... Mas, com os pés novamente no chão, confesso timidamente a minha inquisidora implacável que não conseguia atinar sobre o que eram os tais 'descritores':
"O que são, minha querida, esses descritores. Juro, de verdade, juro que não sei. Não sei mesmo!"
E a aluna bem comportada, cumpridora de tarefas, cresce, peito estufado, olhar altivo:
"Sabe sim, professor, são os conteúdos da Prova Paraná, os conteúdos que a gente precisa saber e o senhor não quer ensinar pra gente! Aqui, olhe, eu separei vários deles. Por exemplo, o que é 'intencionalidade' do texto? O que é a 'tese' do texto? O senhor tem que ensinar isso pra gente!"
"Mas isso eu sempre ensino, em todas as leituras, em todos os debates, em todas as produções de textos, estamos sempre falando sobre onde e quando o texto foi publicado, o leitor a que ele se dirige, as relações que estabelece com outros textos, a ideia que o autor defende, os argumentos... A gente sempre tá falando dessas coisas..."
"Não vem não, professor. Eu quero que o senhor ensine desse jeito, do jeito que tá na prova. A gente tem que ir bem nessa prova. A gente quer que nossa escola seja a melhor... Tem que ensinar isso do jeito que está aqui! Não quero ficar perdendo meu tempo com essas conversas sobre juventude, trabalho, filmes, historinhas, poesias... A gente tem que ser responsável! O senhor sabe disso. São essas coisas da prova que cobram da gente..."
O sinal toca. Tenho vontade de dar um abraço na aluna. Nas próximas aulas, vou discutir com eles mais uma vez as especificidades de minha disciplina, conteúdos, metodologia, avaliação. Precisarei sistematizar e deixar claro para eles o que estamos aprendendo em cada aula, em cada prática de leitura, de escrita, de debate... Terei, ainda, que dizer como as estúpidas provas de controle de aprendizagem podem cobrar esses conteúdos nas estúpidas questões que formulam....
Terei muito o que fazer e refazer, o bicho e brabo e não sossega, em nome do conhecimento, de forma diabólica, vai tentando controlar a inteligência de professores e de estudantes, objetivando e burocratizando a vida, inibindo a curiosidade e a criatividade, reduzindo o ensino e a aprendizagem a treinamentos e a acomodações... Lembrei do antigo ensino da metalinguagem gramatical, quando os alunos cobravam dos professores de português o ensino de classificação de palavras e de frases. Hoje, " os descritores" tornam-se a metalinguagem utilizada para entorpecer inteligências e criatividade, para controlar a leitura de mundo e silenciar a poesia.
Sebastião D. Santarosa

terça-feira, 8 de outubro de 2019

O mundo da escrita. Como a literatura transformou a civilização. Martin Puchner.

Cheguei ao livro O mundo da escrita. Como a literatura transformou a civilização de Martin Puchner através de um belo presente do meu notável amigo, professor Sebastião Donizete Santarosa. Era um presente de aniversário. Que belo hábito, esse de presentear com livros. A origem do presente, por si só, revela a qualidade do livro. Um verdadeiro passeio, tanto pela literatura, quanto pela técnica da impressão e da difusão da escrita. Além desse passeio, conforme o anúncio do subtítulo, a ação da literatura sobre a sua importância na feitura do processo civilizatório.
O mundo da escrita, de Martin Puchner. Um livro de 2019, da Companhia das Letras.

Na orelha do livro, que busca o relato de uma síntese da obra, lemos: "Em suas campanhas militares, Alexandre, o Grande, levava consigo três objetos, que colocava embaixo do travesseiro todas as noites: um punhal, uma caixa e, dentro dela, uma cópia de seu texto favorito, a Ilíada. A obsessão pela narrativa homérica fez de Troia seu primeiro destino na jornada de conquista do Oriente.

A importância da literatura para o criador da biblioteca de Alexandria é o tema escolhido por Martin Puchner para o primeiro capítulo de seu monumental O mundo da escrita, obra que nos conduz a uma viagem maravilhosa pelo tempo e pelo globo, por meio de dezesseis textos fundamentais, selecionados em 4 mil anos de literatura mundial. O autor nos mostra como a escrita inspirou a ascensão e a queda de impérios e nações, o desabrochar de ideias políticas e filosóficas, e o nascimento de crenças religiosas".

Recorri a esta citação da orelha para dizer que o autor selecionou dezesseis obras fundamentais da literatura, que se tornou universal apenas a partir de Goethe, que ele considera as mais importantes na modelagem do mundo em que vivemos. Junto com os autores, ele mostra também a evolução da escrita e da técnica da impressão, desde o papiro da biblioteca de Alexandria, passando pelo pergaminho da biblioteca de  Pérgamo e pela impressora de Gutenberg até o fenômeno Harry Potter e o entretenimento dos festivais literários. Esses livros e a difusão de sua leitura é que deram consistência ao mundo, deram a sua consistência filosófica, política e, creio que podemos dizer sem medo de errar, a sua modelagem religiosa. E a partir daí, também a transformação do mundo em um grande palco de disputa de ideias e de conflitos sangrentos.

Ao final do capítulo 16, que nos põem em contato com Harry Potter, temos já uma espécie de conclusão, sob o subtítulo de o novo e o velho. Recorro a dois parágrafos, que são uma espécie de síntese: "A atmosfera festiva em Jaipur (um festival literário na Índia) me fez dar uma última olhada na história da literatura. Ela começou nos férteis vales dos rios da Mesopotâmia e seguiu sua marcha triunfal por todo o mundo. Ao longo do caminho, deixou de ser posse exclusiva de escribas e reis e alcançou um número cada vez maior de leitores e escritores. Essa democratização teve o auxílio de tecnologias, do alfabeto e do papiro ao papel e à impressão, que reduziram as barreiras de entrada, franqueando o acesso ao mundo literário a mais pessoas, que então introduziram novas formas - romances, jornais, manifestos - ao mesmo tempo que afirmavam a importância dos textos fundamentais mais antigos. Jaipur, com seus leitores de todo tipo e o choque entre textos antigos e novos, parecia um bom suporte de livros para essa história.

Lembrei também que essa expansão abrigava muitas voltas e reviravoltas, e muitas surpresas, pelo menos para mim: a história da literatura não era uma linha reta, mas tinha movimentos laterais e até para trás. A escrita foi inventada tanto no continente euroasiático como nas Américas. Histórias iam para lá e para cá na rede de coletâneas que se estendiam da Ásia à Europa. O surgimento da escrita provocou a oposição de professores carismáticos em diferentes partes do mundo. Novas tecnologias levaram a guerras de formatos, como aquela entre o rolo de papiro e o livro em pergaminho, enquanto textos sagrados eram muitas vezes os primeiros a adotar novos métodos de reprodução. Mas, apesar da enorme explosão da literatura, a narrativa oral persistiu, como mostra o exemplo dos bardos mandingos, com a história de Sundiata".

Bem, vamos ainda ao título dos dezasseis capítulos e as pistas para os respectivos livros: 1. O livro de cabeceira de Alexandre; 2. Rei do universo: a respeito de Guilgamesh e Assurbanípal; 3. Esdras e a criação da escritura sagrada; 4. Aprendendo com Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus; 5. Murasaki e o Romance de Genji: o primeiro grande romance da história universal; 6. Mil e uma noites com Sherazade; 7. Gutenberg, Lutero e o novo público da imprensa; 8. O Popol Vuh e a cultura maia: uma segunda tradição literária independente; 9. Dom Quixote e os piratas; 10. Benjamin Franklin: Empresário dos meios de comunicação na República das Letras; 11. Literatura universal: Goethe na Sicília; 12.  Marx, Engels, Lênin, Mao: Leitores do Manifesto do Partido Comunista, uni-vos; 13. Akmántova e Soljenítsin: Escrevendo contra o Estado soviético; 14. A epopeia de Sundiata e os artífices da palavra da África Ocidental; 15. Literatura pós-colonial: Derek Walcott, poeta do Caribe; 16. De Howgarts à Índia.
Outro livro extraordinário com temas similares.

Este é o livro. Ambicioso, erudito e bem sucedido. Ao Sebastião, os meus agradecimentos. A sua leitura me fez tomar duas decisões; Reler a Ilíada e conhecer Derek Walcot e o seu Omeros. Walcott é de Santa Lúcia, um país caribenho, ao norte e nas proximidades da Venezuela. Omeros, em importância, é comparado com a Eneida de Virgílio. Literatura fundadora, da América, no caso. E, mais ainda, Walcott é um Nobel de Literatura, do ano de 1992. O autor, Martin Puchner é professor de literatura comparada da Universidade Harvard. O livro me trouxe à memoria Uma história da leitura, de Alberto Manguel.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Delírio do poder. Psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação. Márcia Tiburi.

"O encolhimento das consciências, junto às mistificações, constitui uma catástrofe social que precisamos conter com educação e cultura, e por isso, apesar do momento difícil, cabe escrever mais um livro e, por meio dele, manter viva a linguagem, o pensamento, a busca da verdade". É o que lemos na página 72 do livro da Márcia Tiburi. E isso, em tempos de desinformação. É esse o desafio do livro.
A experiência política de Márcia Tiburi feita texto.

Em primeiro lugar devo afirmar a minha admiração pela Márcia Tiburi. Gosto de suas falas, de seus livros e acompanho os seus lançamentos. Assim já estou aguardando o seu próximo livro sobre "religião, capitalismo e machismo", livro já em preparo e interrompido em função da campanha eleitoral em que Márcia se envolveu como candidata a governadora do Estado do Rio de Janeiro, pelo Partido dos Trabalhadores, em 2018. O relato e as análises dessa sua experiência são o teor do livro Delírio do poder. Psicopoder e loucura coletiva  na era da desinformação. Gosto muito dos subtítulos dos livros. Loucura coletiva - era da desinformação - psicopoder.

O livro tem duas dedicatórias. "Para Lula, presidente e preso político" e "Em memória de Marielle Franco, vereadora, companheira de lutas, brutalmente assassinada em 14 de março de 2018, aos 38 anos". E uma frase em epígrafe: "A pequena burguesia ainda se arrepiava, imaginando os perigos de que se livraria em noite de bombardeios e sangueira, e os vencedores lhe surgiam como heróis a monopolizar a gratidão nacional". O livro tem apresentação de Luiz Inácio Lula da Silva.

Embora o livro tenha um formato voltado para uma leitura fácil, 77 pequenos capítulos, de duas a quatro páginas, a sua leitura exige pré requisitos, especialmente, conhecimentos de psicanálise, como o próprio título e subtítulo indicam. Delírio - loucura coletiva. Seria, aliás, o delírio a própria loucura coletiva? A era da desinformação e as fake news, o fenômeno novo das eleições de 2018, foram os agentes causadores desse delírio. E as consequências? O pesadelo que estamos vivendo.

Passando um rápido olhar pelos capítulos deparamos com categorias como poder, delírio, robôs, escravização digital, linguagem, alienistas e alienados, milícias midiáticas, política espectral, bullying, Totem e tabu, hipnose coletiva, entre outros tantos. A elucidação dessas categorias é feita à luz da experiência do cotidiano da campanha, reduzida a 45 dias. As experiências de uma mulher, filósofa, professora, intelectual e escritora como candidata ao executivo do estado do Rio de Janeiro. Estas análises constituem um belo material didático para a disciplina da teoria ou ciência política.

As páginas que mais me chamaram atenção são as dos relatos de campanha e a sua impotência na solução, ao menos imediata, dos problemas. São chocantes os relatos dos capítulos 49, a menina que vai à escola três vezes por semana; 50, aprisionada; 51, o menino e o carrinho sem pilhas e, de modo todo especial o 51, as mães meninas. Difícil não verter lágrimas. O livro traz também dados da realidade do Rio de Janeiro. 800 mil pessoas passaram a viver abaixo da linha da pobreza depois do golpe de 2016. E o que o capitalismo faz com essas pessoas?  "A desigualdade é uma arma que sangra o corpo dos que são por ela violentados. Quem a maneja são os donos do capital, que atacam como criminosos as suas próprias vítimas". É impressionante também o capítulo de número 58, o sonho com os morcegos.

Anotei ainda outras passagens, como esta sobre o capitalismo pós industrial: "...Vivem no capitalismo pós-industrial rentista, na era do capital improdutivo, aplicando dinheiro em empresas, o que permite aos ricos situarem-se em bolhas assépticas. Desconhecem a ideia de sociedade, de direitos, de regras democráticas que seriam boas para todos, na mesma medida em que se locupletam na bolha que é o ambiente virtual". E ainda sobre este mesmo capitalismo: "Porque não se trata mais de um capitalismo de produção e consumo, trata-se agora de uma busca por algo mais do que lucro. O neoliberalismo é um extremismo do capital que exclui de si a ideia de sociedade, de alteridade e, por isso mesmo, faz da destruição dos direitos básicos a sua metodologia. É uma regra econômica que não prevê espaço para considerações éticas".

Também anotei algumas observações sobre a corrupção, tema dominante na campanha e atribuída quase que exclusivamente ao Partido dos Trabalhadores e a Lula: "O discurso da corrupção foi disponibilizado publicamente sem que as pessoas, desacostumadas à análise crítica, pudessem desconfiar dele". E ainda, o mantra do moralismo, sempre falso: "É que o moralismo é justamente a degeneração da ética".

Recorro ainda a duas outras afirmações: "Agora sinto pena do Brasil, sabendo que seu futuro está comprometido" e a última, retirada do último capítulo, como uma espécie de síntese de tudo "A verdade já não importa e a justiça desmoronou". Me permitam, desMOROnou.

Ainda, a contracapa do livro: "Em Delírio do poder, Márcia Tiburi analisa como a intensificação da lógica neoliberal afeta as instâncias políticas - subjetivas e institucionais - que deveriam assegurar uma vida digna a todas, todes e todos, sem que importem a cor da pele e a classe social. A partir de fatos públicos e vivências pessoais, a filósofa reflete sobre questões políticas em variados matizes - incluindo sua experiência como candidata ao governo do estado do Rio de Janeiro em 2018. A apresentação foi escrita por Luiz Inácio Lula da Silva, quase um ano depois de sua prisão, resultado de um processo jurídico seletivo, marcado por ações questionáveis cometidas por quem deveria julgá-lo de modo imparcial".

Segundo constatei, Márcia obteve 5,85% dos votos, que totalizaram 447.376 sufrágios.