terça-feira, 10 de setembro de 2019

Paulo Freire. O andarilho da utopia.

Curitiba seis de setembro de 2019, sexta feira., à noite. Vésperas do Independence Day. Esta escrita já obedece aos ditames do nacionalismo dos bozos. Ali, no campus Rebouças da UFPR, estávamos reunidos para praticar um ato de rebeldia dos bem grandes. Ler Paulo Freire e, pior, lê-lo e debatê-lo coletivamente. E, pior ainda, confrontá-lo com as políticas educacionais dos governos estadual e federal. O livro escolhido é Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa, o livro testamento de Paulo.
Richard, ou Paulo Freire, em cena.

O momento era festivo e havia motivos para isso. Iniciávamos o II Ciclo de Leitura e Debate da Obra de Paulo Freire. O primeiro ocorrera ao longo de 2018, em comemoração aos 50 anos da primeira edição do Pedagogia do oprimido. Cerca de 40 grupos e mais de 500 pessoas estiveram envolvidas no projeto. O II Ciclo é uma iniciativa coletiva dos núcleos sindicais da APP-Sindicato Curitiba Norte e Londrina, do DEPLAE e do NESEF, ambos do setor de educação da UFPR e também do IFP, campus Curitiba. Segundo levantamentos preliminares, em torno de 1300 pessoas estão inscritas para a participação, extrapolando, inclusive, o território paranaense.

Na abertura se fez presente um grupo musical, com um nome bem sugestivo - Balbúrdia sonora. Logo depois vieram as saudações e as apresentações formais. Mas a noite estava reservada para um grupo de teatro, que veio do Rio de Janeiro, para encenar a peça Paulo Freire, o andarilho da utopia. Eu posso dizer que conheço relativamente bem a obra de Paulo Freire e tive a feliz oportunidade de com ele conviver em alguns momentos. Richard, este é o nome do ator que o representou, conseguiu nos trazer, tanto a pessoa de Paulo quanto uma síntese extraordinária de sua obra.

A peça começa com um pensamento do Paulo, que eu costumo apresentar como - voa livre pelo mundo que tem raízes plantadas em algum lugar. Assim Paulo partiu do regional, de sua Recife, de seu Pernambuco, de seu nordeste e de seu Brasil, para o universal atingindo a América Latina e o mundo. Um globo terrestre esteve presente ao longo de toda a peça. A peça passou por Angicos e pela prisão, 70 dias em Olinda. Na prisão, perguntado se podia alfabetizar os prisioneiros comuns, ele respondeu que, exatamente pelo seu trabalho de alfabetização é que ele estava preso.

A peça discorreu sobre toda a obra, terminando com os seus últimos livros, Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa e Pedagogia da indignação - cartas pedagógicas e outros escritos. Deste livro, sabiamente tomaram o mote do seu entusiasmo com as marchas do MST, em particular uma delas, a sua marcha em Brasília. Isso foi em 1996.Tomo a liberdade de transcrever os quatro últimos parágrafos, com duas ideias básicas, tão bem incorporadas à peça, o entusiasmo com as marchas e o rechaçar das ideias de fatalismos apregoadas com a ideologia do fim da história. Depois disso, Paulo ainda conseguiu manifestar a sua indignação com o botar fogo em Galdino, o índio pataxó, num banco em praça de Brasília. Mas vamos aos quatro parágrafos:
Um cartaz chamando para a participação do II Ciclo de Leituras.

"O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tão ético e pedagógico quanto cheio de boniteza, não começou agora, nem há dez ou quinze, ou vinte anos. Suas raízes mais remotas se acham na rebeldia dos quilombos e, mais recentemente, na bravura de seus companheiros das Ligas Camponesas que há quarenta anos foram esmagados pelas mesmas forças retrógradas do imobilismo reacionário, colonial e perverso.

O importante porém é reconhecer que os quilombos tanto quanto os camponeses das Ligas e os Sem Terra de hoje todos em seu tempo, anteontem, ontem e agora sonharam e sonham o mesmo sonho, acreditaram e acreditam na imperiosa necessidade da luta na feitura da história como 'façanha da liberdade'. No fundo, jamais se entregariam à falsidade ideológica da frase: 'a realidade é assim mesmo, não adianta lutar'. pelo contrário, apostaram na intervenção para retificá-lo e não apenas para mantê-lo mais ou menos como está.

Se os Sem Terra tivessem acreditado na 'morte da história', da utopia, do sonho; no desaparecimento das classes sociais, na ineficácia dos testemunhos de amor à liberdade; se tivessem acreditado que a crítica ao fatalismo neoliberal é a expressão de um 'neobobismo' que nada constrói; se tivessem acreditado na despolitização da política, embutida nos discursos que falam de que o que vale hoje é 'pouca conversa, menos política e só resultados', se, acreditando nos discursos oficiais tivessem desistido das ocupações e voltado não para suas casas, mas para a negação de si mesmos, mais uma vez a reforma agrária seria arquivada.

A eles e elas, Sem Terra, a seu inconformismo, à sua determinação de ajudar a democratização deste país devemos mais do que às vezes podemos pensar. E que bom seria para a ampliação e a consolidação de nossa democracia, sobretudo para sua autenticidade, se outras marchas se seguissem à sua. A marcha dos desempregados, dos injustiçados, dos que protestam contra a impunidade, dos que clamam contra a violência, contra a mentira e o desrespeito à coisa pública. A marcha dos sem-teto, dos sem-escola, dos sem-hospital, dos renegados. A marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível".

Enfim, Paulo, por inteiro, esteve presente na peça. E o importante, sob outra forma de linguagem. Paulo fala muito de que também devemos atentar para a estética em nosso trabalho, revesti-lo de amorosidade e de belezura. Foi o que o grupo fez com maestria. A resposta dos participantes também se fez por inteiro: palmas, gargalhadas, olhares e lágrimas cheias de emoção e o coração leve e cheio de sonhos, utopias e uma fé inabalável, bem ao estilo de Paulo, de que a transformação do mundo é possível. O que não é possível é desistir do humano.

A ideia de escrever e de representar Paulo Freire. O andarilho da utopia está assim descrito no Projeto Oficial do grupo: "Encontrar com Nita Freire foi o nosso primeiro passo para iniciarmos a nossa andarilhagem. Ela nos encharcou de amorosidade e plantou em nós uma semente chamada Paulo Freire. O andarilho da utopia. O grupo é formado por Richard Riguetti, Junio Santos e Luiz Antônio Rocha.

Richard é ator, diretor, professor, fundador do grupo off-sina, companhia de Circo Teatro de Rua, itinerante e de repertório, com 10 anos de atividades, fundador da Escola Livre de Palhaço - ESLIPA, primeira escola do gênero da América Latina e a única gratuita. Tem formação em Teatro, Gestão Cultural e Música e já se apresentou em becos, ruas e vielas, nas praças e palcos de 3.232 cidades brasileiras.

Júnio é um dos principais nomes da cena cultural do nordeste. É ator, dramaturgo, diretor, poeta e palhaço. Como palhaço atende pelo nome de Cuz-cuz e atua junto a diversos grupos.

Luiz Antônio Rocha é produtor, autor, cenógrafo, figurinista e diretor teatral. É apontado como um dos mais conceituados diretores do teatro brasileiro e as suas peças tem forte marca autoral, valorizando o ator e a palavra. Entre as suas últimas peças estão Frida Kahlo, a deusa Tehuna e Zilda Arns, a Dona dos Lírios. e, por óbvio, o Andarilho da Utopia.
No sete de setembro O andarilho da Utopia esteve na Vigília do Lula Livre.

Mas as emoções não se limitaram à noite na universidade e estendida ao Gilda bar e restaurante.  No dia seguinte, pela tarde, a apresentação seria levada à Vigília do Lula Livre. As emoções, os aplausos, as gargalhadas e as lágrimas novamente tomaram conta de todos, especialmente, creio eu, dos grandiosos seres humanos revestidos de atores para levar com toda a força a bela e humana mensagem do grande e imortal Paulo Freire. No dia seguinte andarilharam por Ponta Grossa, em evento da Secretaria Municipal de Educação e assim vão seguindo o seu destino, pois o caminho se faz de novas andanças, lembrando que a utopia nos presta este serviço de sempre continuar a andar.

Para trazer o grupo passamos o chapéu por vários sindicatos ligados à educação, da educação fundamental e básica até a superior. Digo isso para deixar a dica de como levar o espetáculo para as escolas e para as cidades. Eles são um grupo altamente profissional e vivem de sua arte. Deixo os contatos: Luiz Antônio Rocha. 21 96917-8180 ou luizsntoniorocha2015@gmail. com e Richard Rihuetti. 21 99535-3983 ou instituto eslipa.gestor@gemail.com

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Bacurau. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Ver um filme com a assinatura de Kleber Mendonça Filho é hoje uma obrigação para todos aqueles que, mesmo minimante, acompanham o cinema. Ele não decepciona nunca, pelo contrário, a cada novo filme ele se supera. Isso não foi diferente com o seu novo filme, Bacurau, uma espécie de western no sertão nordestino, um nordestern, como já foi chamado. Gosto dos filmes de autoria, quando a mesma pessoa é responsável, tanto pelo roteiro, quanto pela direção. No caso os mesmos. Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.
O cartaz promocional de Bacurau.

Quando vou ao cinema não busco muita informação antes de ir. Apenas o mínimo necessário para me situar, para ter uma pequena contextualização em torno. Não procuro me contaminar com a crítica. Isso eu faço depois. Assim também foi dessa vez. O encontro que você tem, com a tua percepção, sempre é muito bom. A primeira vez que olhei o relógio, já tinha passado mais de uma hora do filme. Isso mostra o seu ritmo. Ele prende a tua atenção até a última cena.

Por falar em cena, ou cenário, uma linda paisagem do sertão nordestino. Bacurau é a resistência à barbárie fascista, construída por uma longa história de patrimonialismo, de ódios que lhe são movidos pelos olhares do sul e sudeste desenvolvidos, agravados a partir do golpe e da eleição do presidente mais desqualificado de nossa história. Li que o filme começou a ser gestado há mais tempo, a partir do ano de 2009. O prefeito da cidade é uma figura muito simbólica. Representa bem a classe política, inimiga e traidora do povo.

Bacurau é uma Canudos sem Antônio Conselheiro. Um povo sofrido, mas sem um líder carismático, sem as vestimentas do nosso tão peculiar misticismo. Bacurau é um povo sofrido, todos em sua forma particular de sofrimentos, que encontram defesa apenas na sua união e solidariedade. Sim, é isto mesmo, estes sentimentos ainda existem, nem que seja apenas sob a forma de resistência, de defesa e, também de ataque.

Bacurau são os descendentes de Carmelita. São o professor, a médica (Domingas - Sônia Braga), o cangaceiro, a prostituta e o michê, o poeta, o caminhoneiro que traz a água e povo sedento e faminto. Tiros lhes roubam a água e a cobiça a terra.  Bacurau é invadida. Figuras bem conhecidas. A conduta, os drones, as armas e até mesmo as suas fisionomias. São os estadosunidenses, um deles, o chefe, com passado alemão. Eles não trazem abraços e muito menos solidariedade. Trazem a marca da traição, até entre os membros do próprio grupo. Trazem a marca do capital e da acumulação. Trazem uma velha forma de apropriação, marcada pela invasão. 

Tarantino entra em cena. Muitos tiros, muita violência, muita morte e cabeças decapitadas. A população solidária de Bacurau vence os invasores. Depois de tudo, o prefeito aparece para dizer que nada tinha a ver com tudo aquilo. Para ele também não mais existia espaço. Como o Kleber Mendonça Filho, em entrevista à TV Trip, falou que não é para ver o filme com olhos cartesianos, e que era para, em nossa mente, construir filmes paralelos, eu me permiti ver, na figura do prefeito, um bozo vendendo a nossa terra, mesmo sob as roupagens de um falso nacionalismo.

Enfim, Bacurau é uma metáfora da realidade brasileira, da realidade nordestina, acometida de uma revolução simbólica, para a qual já temos as bandeiras, talvez não as armas. O filme ganhou o Prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes.

Enquanto deixo o post descansando para fazer a revisão final, recebo esta mensagem de um grande amigo pernambucano, torcedor do Sport. Ela veio nestes termos, depois de uma proposta para discutir o filme no Gilda bar e restaurante: "Pedro Elói. Não adianta deixarmos vocês  do centro-sul (sou gaúcho radicado no Paraná), tocarem o país. A despeito de almas (o meu amigo é um bom cristão) bem intencionadas como a tua, o desastre sempre é inevitável.

O que Bacurau também faz o Nordeste nos dizer é: puta que pariu, vamos ter que salvar o país de novo. Fazemos isso desde 1654, porra, mas esse povo não aprende. Uma hora cansa".

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O que os donos do poder não querem que você saiba. Eduardo Moreira.

Vamos direto para a resposta. Ela está no terceiro capítulo, que versa sobre o capitalismo. Parte da resposta está escrita em negrito. Reproduzo: "O capitalismo é um modelo que depende intrinsecamente da desinformação em massa. Não haveria qualquer outra forma de um sistema tão cruel e injusto como ele permanecer de pé que não fosse essa". Página 43. Estou falando do livro de Eduardo Moreira, O que os donos do poder não querem que você saiba. É óbvio que o livro veio para trazer muita polêmica.
Livro que desvenda, desvela. Provocativo.

Conheci Eduardo Moreira ao longo dos debates sobre a Reforma da Previdência, na Câmara dos Deputados. Me chamou atenção o fato de um banqueiro se posicionar contra esta reforma, ao menos da maneira como estava sendo proposta, quando esta, ao menos em meio ao mundo financeiro, era praticamente uma unanimidade. Eduardo é mesmo um banqueiro? Vejamos um pouco da sua apresentação na orelha do livro. "É um dos sócios fundadores e membro do comitê executivo do Banco Brasil Plural - grupo com mais de 500 colaboradores, 6 escritórios no Brasil e exterior e mais de 40 bilhões de ativos sob gestão - e foi responsável global pela mesa de Repo (Repurchase Agreements) do banco suíço UBS, quando teve sob sua gestão um volume de ativos que superavam U$ 20 bilhões". É, portanto, um homem que sabe lidar com o dinheiro.

Desinformação em massa... Para ilustrar, ele apresenta um exemplo significativo. A propaganda de um sabonete que mata 99% dos germes. Depois de apresentar exemplos da execrável concentração de rendas ele recorre à propaganda do sabonete. "E a comparação com o sabonete é ótima para mostrar a primeira grande artimanha publicitária desse sistema. O capitalismo usa o 1% das bactérias que sobrevivem como seus garotos-propaganda! Pronto, se elas sobrevivem é porque o sistema dá chances. Assim, ele tira a responsabilidade da desigualdade e concentração de renda do sistema... e a joga para as pessoas". Página 45. É a ideologia da meritocracia, que, em contrapartida, inventa a vagabundagem dos não vencedores. 

O pequeno livro (apenas 136 páginas) tem introdução e conclusão e seis capítulos, a saber: 1. O valor da informação; 2. O maravilhoso e lucrativo mundo das finanças; 3. O capitalismo; 4. Esse estranho bicho homem; 5. O modelo ideal de governo; 6. Os impostos no capitalismo. Creio que o título do livro é o próprio mote para o primeiro capítulo, assim como para todo o livro. É a informação combatendo a desinformação. O segundo capítulo, tema de sua atividade cotidiana, desvenda este mundo da acumulação, da qual cito apenas uma ideia, que é norteadora. O que é bom para o banco não é bom para você. Desvenda também o mundo das tarifas, pagas por quem tem pouco dinheiro. No terceiro capítulo estão as informações com que abrimos a resenha, mostrando ainda, ser o capitalismo o sistema da "mão invisível". O quarto capítulo se dedica a psicologia? Creio que sim. Um ser humano sempre cheio de insatisfações e, em busca. Tem também uma boa análise do termo empatia. O quinto capítulo é dedicado às sugestões e no sexto ele mostra que assim como os rios correm para o imenso mar, também os impostos dos pequenos são direcionados para a voracidade imensa e infinita do capital, especialmente, para seu setor financeiro.

É certo que o livro receberá muitas críticas. Mas o autor já reservou esta tarefa para si, nas conclusões. A principal seria a contradição de ele trabalhar no sistema financeiro. Ele já contava com as críticas, não ao livro, mas para o autor, mas assumiu o risco, crente de que deveria escrevê-lo. "Temos todos uma breve passagem por esta vida. Depois de partir, deixamos somente memórias e ideias. As primeiras costumam durar pouco. As segundas podem durar mais.

Os últimos reveses de saúde que sofri me fizeram pensar muito sobre a vida de uma forma mais ampla. Sobre o que tanto buscamos ao longo de nossos dias. Por que levamos uma vida que, assim que deixamos a infância para trás, passa a ser sofrida até o fim. Trabalhar, sofrer e ansiar, todos os dias, com pequenas pausas de alívio e prazer". Eduardo ainda nos conta que escreveu o livro de um fôlego só.

Ainda, a apresentação do livro em sua contracapa. "Nesta obra, Eduardo Moreira revela como funciona o complexo sistema financeiro, econômico e político do capitalismo. O autor desvenda as estruturas que regem o poder e denuncia as maneiras pelas quais alguns poucos privilegiados influenciam opiniões para manter a ordem vigente.

O que os donos do poder não querem que você saiba apresenta, como o próprio autor provoca, 'as coisas como elas são' e oferece ferramentas para se fazer as perguntas corretas com autonomia, para que o leitor possa tomar as rédeas do seu dinheiro e da própria vida". Se não fossem os vigilantes do "Escola sem Partido" eu recomendaria o uso deste livro para os alunos do nosso ensino médio. Faço esta observação lembrando de uma frase de Heirich Heine: "Onde se lançam livros às chamas, acaba-se por queimar também os homens". Eu acrescentaria, também os leitores e os propagadores de leituras.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Sobre o autoritarismo brasileiro. Lilia Moritz Schwarcz.

É impossível não gostar dos livros da Lilia Moritz Schwarcz. Vou fazer referência apenas aos seus últimos livros e dos quais eu fiz a resenha. Brasil: uma biografia, escrito em parceria com Heloísa M. Starling e a majestosa biografia Lima Barreto - triste visionário. Hoje termino de ler Sobre o autoritarismo brasileiro, que ela terminou de escrever em março de 2019. Mais atual é impossível. Já ao final do livro lemos, sobre a função da história e, por consequência, também deste livro:"A função da história, é, assim, 'deixar um lembrete' sobre aquilo que se costuma fazer questão de esquecer". No caso, as origens, ou as raízes do autoritarismo brasileiro.
Só se muda aquilo que se conhece. As nossas raízes autoritárias.

Embora, como a própria autora diz, trata-se de um pequeno livro (273 páginas) mas que vai a fundo no tema, além de uma vasta indicação bibliográfica. E as fontes! É toda uma vida de dedicação à história e à antropologia e todo um reconhecimento das universidades em que ela trabalha, na de São Paulo e na de Princeton, nos Estados Unidos. Não a conheço pessoalmente, mas com ela mantive contatos para agendamento de palestra, que, infelizmente, a sua agenda não permitiu. Mas preciso testemunhar, ela ela foi a gentileza feito pessoa.

Na abertura do livro temos duas epígrafes extremamente bem postas. A primeira é de seu triste visionário, o Lima Barreto: "Nós, os brasileiros, somos como Robinsons: estamos sempre à espera do navio que nos venha buscar da ilha a que um naufrágio nos atirou". O triste visionário bem que testemunhou, com o seu sofrimento, este país de Robinsons. A outra é de George Santayana, retirada do The Life of Reason (1905): "Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la". Creio que podemos afirmar que a nossa, nós não a conhecemos, pois, estamos repetindo seus erros e parece que estamos distantes para a mudança de rumos. Bons momentos sempre foram seguidos de tormentos.

Por isso no corpo do livro, precedido de uma introdução, história não é bula de remédio, temos elencados oito temas, que são os pontos cruciais que fundamenta o autoritarismo brasileiro. São eles: 1. Escravidão e racismo; 2. Mandonismo; 3. Patrimonialismo; 4. Corrupção; 5. Desigualdade social; 6. Violência; 7. Raça e gênero; 8. Intolerância. Termina com uma espécie de conclusão, sob o título quando o fim é também o começo: nossos fantasmas do presente. Esta conclusão é antecedida de duas epígrafes magistrais. "O Brasil tem um enorme passado pela frente", de Millôr Fernandes e "Toda história é um remorso", de Carlos Drummond de Andrade. A minha formação cristã me obriga a uma pergunta. O remorso ou a culpa levam ao arrependimento? Creio que não.

Creio que Lilia também acredita que não. O seu livro é um mergulho nas nossas raízes históricas, todas, invariavelmente, ainda presentes. Vejam o primeiro parágrafo da conclusão.

 "A história costuma ser definida como uma disciplina com grande capacidade de 'lembrar'. Poucos se 'lembram', porém, do quanto ela é capaz de 'esquecer'. Há ainda quem caracterize a história como uma ciência da mudança no tempo.Quase ninguém destaca, no entanto, sua genuína potencialidade para reiterar ambiguidades e repetir. E a história brasileira não tem como escapar a essas ambiguidades fundamentais: se ela é feita do encadeamento de eventos que se acumulam e evocam alterações substanciais, também anda repleta de seleções e lacunas, realces e invisibilidades, persistências e esquecimentos. Além do mais, enquanto na sucessão cronológica do tempo destacam-se as alterações cumulativas, marcadas por fatos e eventos isolados - alterações de regime, golpes, mudanças econômicas, sociais e culturais -, não é difícil notar a presença de problemas e contradições estruturais que continuam basicamente inalterados, e assim se repetem, vergonhosamente: a concentração de renda e a desigualdade, o racismo estrutural, a violência das relações, o patrimonialismo".

Nas interpretações de Brasil, costumamos ter uma visão edênica de nosso país. Os oito temas aqui tratados nunca foram problema. A começar pela nossa escravidão, que, ao contrário da dos Estados Unidos, foi branda, as nossas diferenças raciais sedimentaram a tolerância racial e promoveram harmoniosa miscigenação e até a nossa ditadura militar, mesmo sob brilhante Ustra e Fleury, foi uma ditabranda. Mascaramos a nossa história com o homem cordial e com o fato de 'sempre se encontrar um jeito', o jeitinho brasileiro. Com uma bela escrita Gilberto Freyre fala da formação brasileira a partir da integração harmoniosa de três raças e discursa euforicamente como deputado constituinte em 1946 que "O passado nunca foi, o passado continua". Em outras palavras, o nosso maravilhoso passado precisa continuar, ele não pode mudar. No horizonte, sempre a perspectiva da 'modernização conservadora', do mudar para não mudar.

É também preciso evidenciar que estes oito fatores agem em interação. Um provoca e reforça o outro, tudo principiando pela escravidão. Esta gera o racismo, o mandonismo, e fundamenta a sociedade patrimonialista, causa maior de toda a permissividade, responsável e legitimadora da corrupção, pela confusão entre o público e o privado. Como consequência temos a horrível desigualdade social, responsável pelos abismos sociais e pela violência descabida e que cria 'os marcadores sociais da diferença', como a raça e o gênero e que gera, para além da intolerância, um ódio de extermínio ao que se apresenta como diferente.

Todos estes temas são apresentados com profundo conhecimento das raízes históricas e das interpretações de Brasil, sob o olhar da possibilidade da transformação, na perspectiva da superação. Para que possamos, numa visão humanística, formar uma sociedade mais igualitária e justa em que todos possam viver melhor, sem a necessidade de conviver com tantos problemas que a todos afligem. A sociedade, um país ou uma nação, para ser boa, precisa ser, necessariamente, boa para todos.

Como interferi demais nesta resenha, volto ao texto original, para os dois últimos parágrafos do livro.

"Direitos conquistados nunca foram direitos dados, e os novos tempos pedem, de todos nós, vigilância, atitude cidadã e muita esperança também. A sociedade civil brasileira tem dado mostras de que sabe se organizar e lutar por seus direitos. As mulheres não vão voltar para o fogão, os negros e negras que completaram o ensino superior e hoje se encontram em lugares de liderança não recuarão de suas posições, a população LGBTTQ vai continuar a andar de braço dado pelas ruas, os indígenas lutarão e farão valer seus direitos às terras hoje invadidas, líderes de religiões de matriz muçulmana e afro-brasileira cultuarão seus deuses abertamente.

Toda crise pode ser deletéria quando produz um déficit não só econômico como social, político e cultural. Mas toda crise é capaz de abrir uma fresta, pequena que seja, de esperança. Foi Guimarães Rosa, em Grande sertão:veredas, quem explicou que 'O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem'. Uma maravilha de livro. E, para terminar, uma frase na qual acabo de tropeçar: "Tudo o que é já foi". Do livro de Eduardo Moreira, O que os donos do poder não querem que você saiba.


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa.

No ano de 2018 comemoramos os 50 anos do lançamento do livro Pedagogia do Oprimido, do Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire. Como o grupo de professores que integra a chamada APP-Independente, um grupo que faz oposição à atual direção da APP-Sindicato, tem na formação um de seus pilares básicos, aproveitou esta efeméride para promover a leitura de sua obra, fundamental e necessária, tanto para a prática educativa, quanto para a sindical. Os núcleos sindicais da APP. - Curitiba Norte e Londrina se responsabilizaram pela realização da tarefa.
Pedagogia da autonomia. O livro testamento de sua presença no mundo.


Parcerias foram procuradas para aliar aos trabalhos de formação, a progressão na carreira, de todos os envolvidos na educação, funcionários e professores. Fomos à UFPR e firmamos uma parceria com o NESEF e o DEPLAE, ambos do setor de educação desta universidade. O NESEF emitiria um certificado de participação no seminário de leituras, fixadas em setenta horas. Junto aos parceiros, cinco livros foram escolhidos. O formato constou de abertura, quatro encontros que seriam feitos pelos grupos de leitura e, estas experiências de grupo seriam relatadas em um encontro final. Mais de quarenta grupos foram formados, envolvendo mais de quinhentos educadores, das mais diversas cidades paranaenses.

O grupo considerou a experiência altamente exitosa e resolveu repeti-la, dando-lhe porém outro formato, deliberado junto com os parceiros da UFPR, desta vez com o acréscimo, também do Instituto Federal do Paraná, campus Curitiba e do GTPR-APUFpr. O livro de leitura escolhido foi Pedagogia da Autonomia - saberes necessários à prática educativa, que terá interfaces com os temas educacionais que estão sendo debatidos nas escolas. Isso foi considerado absolutamente relevante diante do quadro da atual política brasileira, que numa só palavra, reduz os conceitos e as práticas educativas da formação a meros treinamentos, atendendo aos interesses do mercado.

Bem, diante disso, li o livro. Pedagogia da autonomia - saberes necessários à prática educativa é a última obra de Paulo, publicada em vida, no ano de 1996. Ele integra a última fase de sua vida, quando deixou a Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo, exatamente com a finalidade de escrever, de deixar o seu legado definitivo. Nita, a sua companheira assim se refere ao livro, nos dois últimos parágrafos da sua apresentação, em suas orelhas:

"Quanto mais nos aprofundamos na leitura deste livro mais percebemos que Paulo se fez texto! O seu bem-querer pelos seres humanos, a gentidade de seu eu pessoa/eu educador e a sua fé na educação estão vivamente presentes, evidenciando ter sido um apaixonado pelo mundo e pela vida.

Pedagogia da autonomia sintetiza a sua pedagogia do oprimido e o engrandece como gente. É o livro-testamento de sua presença no mundo. Ofereceu-se nela por inteiro na sua grandeza e inteireza". Destaco, "é o livro-testamento de sua presença no mundo".

Na minha visão Pedagogia da autonomia é, antes de tudo. um livro de humanidade, de amor à humanidade. A partir disso, reflexões simples, porém profundas, passam a ser feitas. São estabelecidas as condições para que a prática pedagógica conduza efetivamente o ser humano à sua condição de humanidade. Eu formularia uma síntese, nos seguintes termos: somos seres inconclusos que estão em permanente busca de sua completude. É uma grande reflexão sobre as características fundamentais do ser humano, do ponto de vista da emancipação e não da perspectiva da dominação. Por isso, para o educador, torna-se necessário revestir-se da esperança e da utopia, desfazendo-se dos  determinismos e fatalismos que impedem uma visão transformadora e humanizadora de mundo.

O livro é dividido em três partes: Na primeira são feitas algumas reflexões básicas da prática docente; na segunda, parte-se do princípio de que ensinar não é uma simples transferência de conhecimentos e na terceira, se afirma que o ato de ensinar é um ato da especificidade humana. Em cada capítulo, algumas questões são sugeridas para embasar a formação docente. São nove tópicos em cada capítulo. Vejamos:

No primeiro, as primeiras reflexões, temos: 1. ensinar exige rigorosidade metódica; 2. Ensinar exige pesquisa; 3. Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos; 4. Ensinar exige criticidade; 5. Ensinar exige estética e ética; 6. Ensinar exige a corporificação das palavras pelo exemplo; 7. Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação; 8. Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática; 9. Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural.

No segundo, as reflexões em torno de que o ensinar não é transmitir conhecimento, temos: 1. Ensinar exige consciência do inacabamento; 2. Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado; 3. Ensinar exige respeito à autonomia de ser do educando; 4. Ensinar exige bom-senso; 5. Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores; 6. Ensinar exige apreensão da realidade; 7. Ensinar exige alegria e esperança; 8. Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível; 9. Ensinar exige curiosidade.

No terceiro, que ensinar é uma especificidade humana, temos: 1. Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade; 2. Ensinar exige comprometimento; 3. Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo; 4. Ensinar exige liberdade e autoridade; 5. Ensinar exige tomada consciente de decisões; 6. Ensinar exige saber escutar; 7. Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica; 8. Ensinar exige disponibilidade para o diálogo; 9. Ensinar exige  querer bem aos educandos.

Quero destacar os múltiplos "estudar exige". São as exigências que se põe para um educador progressista e  humanista. Não são mandamentos. São proposições para iniciar trabalhos de formação, proposições para o diálogo em seu entorno, que elevam o ser docente para uma maior compreensão de sua tarefa, de um ser no mundo, sempre inconcluso, em busca do "ser mais". Deixo ainda um texto de filosofia, que, no meu entendimento, ajuda a compreender o ser humano em suas características fundamentais:
 http://www.blogdopedroeloi.com.br/2018/02/o-homem-ser-no-mundo-caracteristicas.html

E um convite. Participem no nosso segundo ciclo de leituras de Paulo Freire, acrescido de reflexões sobre conceitos e práticas educativas desses nossos novos e terríveis tempos. Procure a APP Independente.
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2222756824512822&set=a.136654553123070&type=3&theater

E, uma pouco da beleza do texto de Freire, já na parte final do livro: "É esta percepção do homem e da mulher como seres "programados para aprender" e, portanto, para ensinar, para conhecer, para intervir, que me faz entender a prática educativa como um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia  de educadores e educandos. Como prática estritamente humana jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura racionalista. Nem tampouco jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse o rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual".

O livro da Lilia tem um capítulo sobre a educação brasileira. Nela encontra-se a "escola perfeita" de Drummond de Andrade

PS. Já ia publicar o post quando, na leitura do belo livro da Lilia Moritz Schwarcz, Sobre o autoritarismo brasileiro, me deparo com a "escola perfeita", do livro Contos plausíveis. de Carlos Drummond de de Andrade. Como seria esta escola? A resposta está na página 151: "Era uma escola festiva, em que os macacos, as borboletas, os seixos de estrada não só faziam parte do material escolar como davam palpites sobre a matéria, por esse ou aquele modo peculiar a cada um deles. O entusiasmo foi tamanho que pais e filhos chegaram à conclusão que melhor fora transformar o estabelecimento, já então sem sede fixa nem necessidades de tê-la, numa escola natural de coisas, em que tudo fosse objeto de curiosidade, sem currículo, e sem diploma, onde todos aprendem de todos, na maior alegria e falta de cerimônia, até que o Incra ou outro organismo civilizador qualquer se lembre de dividir as terras de Sambaíba em fatias burocráticas e legais. Será a escola perfeita". 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Europa 2019. 10. VIENA e a Áustria.

Dia 31 de agosto. Quarta feira. O nosso tour estava chegando ao seu destino final. Viena. Mas antes, no caminho, ainda passaríamos por Bratislava, a capital da Eslováquia. Fizemos uma parada e almoçamos. Ela tem uma população em torno de 500.000 habitantes e tem no castelo e na catedral as suas duas maiores atrações turísticas. Ali Hans Christian Andersen recolheu a história da menina da caixa de fósforos, que morreu de frio, às vésperas do ano novo.
Em Bratislava, o castelo.

A Eslováquia tem uma história bastante conturbada, assim como toda a região. O último grande fato foi a conquista de sua autonomia, numa negociação com a República Tcheca, em 1993. Tem uma população em torno de 5,5 milhões de habitantes e é considerado como o país que mais está crescendo economicamente em toda a União Europeia, à qual o país pertence desde o ano de 2004. Em 2009, aderiu também ao euro. Pertence também à OCDE e à OTAN. Grandes empresas internacionais tem importantes sedes no país, com destaque para a Volkswagen.
Ainda em Bratislava, a sua catedral.

Ao final da tarde entramos em Viena e imediatamente fizemos o tour panorâmico pela cidade, indo diretamente para a sua versão de Versalhes, o Palácio de Schönbrunn, a bela fonte. O palácio data do século XVII, mas ganhou as formas de real grandeza, no século seguinte, com a imperatriz Maria Teresa e o seu governo de quarenta anos e com Francisco José e a sua esposa Elizabeth Amália von Wittelsbach, unindo a poderosa família da Baviera aos Habsburgos do Império Austro-Húngaro. Elizabeth é a famosa imperatriz Sissi, cuja complicada vida e culto à beleza foi imortalizada no cinema, pela interpretação da grande atriz Romy Schneider. Um filme para ser agora revisto. O palácio também abrigou importantes encontros políticos, com destaque para o ocorrido em 1961, entre Kennedy e Khruschev.
Uma primeira vista do Palácio de Schönbrunn.

A nossa parada foi rápida, apenas para ver a sua fachada. Faríamos um tour no dia seguinte pela sua parte interna e jardins, porém, não conseguimos formar o grupo. Uma pena. De lá seguimos para o centro da cidade, andando pelos principais monumentos históricos da cidade. Viena não é uma cidade fácil de ser visitada a pé. Seus principais palácios, igrejas, teatros, museus e casas históricas estão espalhadas por toda a cidade, são muitos e o rio Danúbio não é referência. Ele não atravessa o centro da cidade.
Mais uma vista da Versalhes vienense. 

Fizemos mais uma parada, num palácio e com uma vista fabulosa e uma parada final num local onde havia grande concentração popular, num movimentado mercado, onde não podíamos deixar de experimentar a cerveja vienense. Antes de voltar ao ônibus descobrimos o Volksgarten, junto ao Palácio de Hofburg, outra das importantes famílias austríacas. Um jardim de beleza impressionante. O maior número de roseiras juntas que já vi em minha vida. Todas catalogadas e troncos grossos, denunciando a sua vida longeva. Um dos mais belos jardins que já vi em minha vida.
Outro palácio vienense de impressionante beleza.

O dia seguinte, primeiro de agosto seria inteiramente livre. Como nas proximidades havia um grande mercado, com feira popular permanente, foi esta a nossa opção de passeio. Enorme e com a venda de tudo o que se possa imaginar. Frutas, hortigranjeiros, artesanatos e bugigangas mil, além das bancas de comidas e muitas cervejas. Foi o tempo para a compra de souvenirs. A tarde, um passeio por uma das grandes avenidas, mas não chegamos às grandes atrações da cidade. No dia seguinte faríamos o translado para o aeroporto de Viena, que está sendo triplicado e o primeiro susto do tour. Um atraso no voo em mais de uma hora e uma conexão apertada no enorme aeroporto de Frankfurt. Teríamos em torno de 40 minutos para o embarque. Enfim, deu tudo certo.
Em Viena, no Volksgarten. Belíssimas roseiras.

Ainda algumas coisas sobre Viena e a Áustria, sem enveredar em sua longa e grandiosa história. Apenas alguns lances de sua atualidade. Quanto aos austríacos famosos, apenas vimos o Café Landtmann, fundado em 1873, num endereço famoso, frequentado por famosos. Era o preferido de Freud e de Gustav Mahler. Como Viena era a capital da música, a cidade também hospedou o alemão Beethoven. Wolfgang Amadeus Mozart e Franz Schubert são filhos ilustres.. Confesso que queria andar mais tempo e bem a esmo nesta famosa e encantadora cidade.
Viena, a capital da música. 

A Áustria é um dos países mais ricos do mundo. A sua riqueza é composta de serviços, indústria e turismo, e com um mercado fortemente integrado com os vizinhos da União Europeia, com a Alemanha em particular. Suas empresas atuam sob a forma de conglomerados integrados, tornando-os mais fortes. A sua população gira em torno nove milhões de habitantes, morando quase dois milhões deles, em Viena. Viena é um canteiro de obras, com a triplicação do tamanho de seu aeroporto e a ampliação dos serviços do metrô. Ao lado do hotel havia obras do metrô, com trabalho ininterrupto nas 24 horas do dia. A sua universidade data de 1365, sendo considerada a mais antiga do mundo em língua alemã. Nela estudam mais de noventa mil alunos. De Viena, o que eu posso dizer mais... Sobrou um enorme desejo de conhecê-la melhor.


terça-feira, 20 de agosto de 2019

Europa 2019 - 9. BUDAPESTE e a Hungria.

29 de julho. Segunda feira. Um longo caminho pela frente. Teríamos que vencer 560 quilômetros para chegar em Budapeste. Pelo caminho passamos por Brno, a segunda cidade da República Tcheca, uma cidade eminentemente industrial, e fizemos uma parada em Lednice, uma cidade ao sul, na região da Morávia. A cidade é Patrimônio Cultural da Humanidade, por abrigar um enorme e belo Palácio de caça, em estilo gótico e que pertence hoje a família dos Luxemburgo. Paramos ainda em Gyor, já na Hungria, mas apenas para almoçar.
Em Lednice, um palácio de caça. Patrimônio Cultural da Humanidade.

Por volta das 18h00 chegamos em Budapeste e nos recolhemos ao hotel e ainda ensaiamos uma primeira saída junto a um pessoal que optou por fazer um passeio noturno. Optei pelo descanso, que no dia seguinte faríamos um tour pela cidade com guia local. Nele fizemos duas paradas. A primeira foi no Parque da Cidade. Sobre ele transcrevo um trecho do livro/fotografia que comprei: O Parque da Cidade: É o maior parque de Budapeste. Esta área, antes pantanosa, era zona de caça real. Maria Teresa mandou que fosse drenada e se plantassem árvores. O imperador Leopoldo ofereceu o parque à cidade e no século XIX foi transformado em estilo inglês. O ponto mais importante da sua história foi em 1896, quando se montou aí a exposição comemorativa dos mil anos da formação do Estado húngaro. Os edifícios que aí se construíram pretendiam mostrar a cultura, o rural e o urbano, a indústria, a economia, o comércio e a agricultura da Hungria. Foi por esta ocasião que se construiu o primeiro comboio subterrâneo (metrô) do continente, o Museu de Belas Artes, o Castelo de Vajdahunyad e a Praça dos heróis".
No Parque da Cidade. Mil anos do Estado húngaro.

No Monumento do Milênio - na Praça dos Heróis - lemos o seguinte: "A composição com duas fileiras de pilares em semicírculo e um pilar de grandes dimensões é dedicada á história da Hungria. Entre os pilares estão os reis da Transilvânia, perto do grande pilar central encontram-se as estátuas equestres dos "Sete Chefes". O monumento foi erigido  para a comemoração dos mil anos da fundação da nação húngara". Ali também está o Monumento em Memória do Soldado Desconhecido. Assistimos ali a apresentação de uma delegação polonesa, que viera ali para depositar uma Coroa de Flores, em um belo cerimonial.
Uma delegação polonesa depositando flores em homenagem ao soldado desconhecido.

Ao longo destes mil anos muitas coisas aconteceram. Lembrando que estamos na região central da Europa, onde as influências chegaram também da parte oriental, além da ocidental. Por ali passaram citas e celtas, romanos, hunos, tártaros e mongóis. Por 150 anos as cidades foram dominadas pelos turcos. Após esta dominação começou o domínio dos Habsburgos e a formação do Império Austro Húngaro, que durou até o final da Primeira Guerra, quando a região deixou de ser protagonista, como fora até então. Após a Segunda Guerra os soviéticos impuseram uma dura dominação, após extrema violência, em 1956. Hoje Budapeste, a sétima cidade mais visitada da Europa é, além da capital da Hungria, também considerada a capital da Europa Central.
No Parque da cidade - o monumento do milênio.

Mas vamos para a nossa segunda parada, que foi na Colina, no bairro do castelo. Este castelo remonta ao século XV, mas ganhou importância maior com os Habsburgos ao longo dos séculos XVIII e XIX. Ali estão o Palácio Real, A fonte Matias e a Igreja Matias, além de uma vista maravilhosa para o rio dividindo a cidade e com grande destaque para o maravilhoso conjunto que abriga o Senado. Sobre as três atrações do alto da Colina, lemos o seguinte: O Palácio Real: Sem dúvida que é o edifício mais imponente da Colina do Castelo, o Antigo Palácio Real, construído originalmente no século XIII. Reconstruído no século XIX por Miklós Ybl e Alajos Hauszmann em estilo neo-barroco. Sofreu danos durante a Segunda Guerra Mundial e foi novamente remodelado nos anos 50".
Do alto da colina, uma vista do Parlamento.

Sobre a Fonte de Matias temos o seguinte: "Este conjunto de estátuas de art nouveau foi transportado para este local durante a reconstrução do Palácio real em estilo neo-barroco. Representa o rei Matias a caçar e Ilonka Szép, de beleza lendária dos falcões reais". E sobre a Igreja Matias, o que segue: "Foi construída como igreja principal do castelo, depois serviu  para a coroação. Durante a ocupação turca foi transformada em mesquita, sendo reconstruída entre 1874 e 1896 em estilo neo-gótico, segundo o projeto de Frigyes Schulek. É um lugar onde se realizam concertos de orquestra, corais e de órgão. A parte inferior da igreja funcionou como museu. Do alto, me chamou muita atenção o conjunto que abriga o Senado, às margens do Danúbio.
No alto da colina, a bela igreja Matias.

Depois de um breve descanso, percebi que nos fundos do hotel passava o rio Danúbio. Foi o que bastou para que eu me lançasse numa caminhada às suas margens e chegasse a uma das pontes mais famosas sobre o Danúbio, a ponte Szécheny Lánchid, uma ponte dos anos 1800. As pontes não são meramente funcionais à infraestrutura da cidade, são também verdadeiras obras de arte. Não é por nada que Budapeste é considerada como a Paris do leste. Logo após a ponte um dos mais imponentes conjuntos arquitetônicos da cidade, o Parlamento. Como já estava bem longe do hotel, tomei o caminho da volta. Como é fácil andar em cidades em que um rio é o seu centro divisor.
Uma pequena parte do imponente prédio do Parlamento.

A noite estava reservada para uma das grandes atrações. Um jantar tipicamente húngaro, com direito a danças magiares. Este jantar nos foi assim oferecido: "Saímos no ônibus com nosso guia rumo aos frondosos bosques de Budapeste. Cruzando entre charmosas e densas árvores, chegaremos a um de seus famosos e típicos restaurantes, onde poderemos desfrutar de uma degustação gastronômica típica local, resultado de uma larga evolução histórica da milenária cultura magiar de mais de 1000 anos de antiguidade. Também desfrutaremos de uma colorida demonstração de danças folclóricas de diferentes regiões do país". Foi uma das noites mais agradáveis deste tour.
Na recepção ao jantar. Uma bebida de abertura dos trabalhos.


Uma última observação. A guia local nos falava que não havia liberdade de imprensa no país, mas não fez maiores referências. Procurei no EL País e vi que a situação é bem pior do que eu imaginava. Vivem sob uma ditadura com poucos disfarces. Desde 2010 está no poder o grupo Fidesz - União Cívica Húngara, dominado pelo primeiro ministro Orban. Vi também que a legislação eleitoral em vigor, praticamente, impede qualquer tipo de mudança. Orban é, constantemente, chamado de fascista. O país pertence à União Europeia, à OTAN e à OCDE, mas ainda não reúne condições econômicas para aderir ao euro, a moeda comum. Os salários são baixos, os menores da região. O país recebe mais de dez milhões de turistas ano e Budapeste, com dois milhões de habitantes, é o principal atrativo. São considerados como um povo altivo e de pouca tradição democrática. Sua população está em torno de onze milhões de habitantes. O Florim é a sua moeda.




segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Europa 2019. 8. PRAGA - Na República Tcheca.

Dia 27 de julho. Sábado. Confesso, que de toda a viagem, este era o dia que mais me gerara expectativas. A grande fama da cidade de Praga e, uma espécie de simpatia, sem causas e explicações pela República tcheca, geraram esta visão positiva. E, para mim, um motivo todo particular. Praga é a cidade de São João Nepomuceno, padroeiro da paróquia de Harmonia (RS), a minha cidade natal. Iria ver a sua estátua, na famosa Ponte Carlos. Pelo caminho já ouvíamos o contar da história da República Tcheca, país formado pela união de três povos: os da Boêmia, da Morávia e da Silésia.
No Castelo de Praga.

Na saída de Berlim, no rumo de Praga, passamos novamente pela cidade de Dresden, que já conhecíamos pelo tour pelas cidades alemães. Inclusive, desta vez, tivemos mais tempo para apreciá-la. Como já falei sobre ela, vamos em frente. Ela é imponente e impressionante. Visitamos uma loja com a sua porcelana famosa, a Meissen. Artigos raros e de alto luxo.
Mais do Castelo de Praga.

Ao final da tarde estávamos às portas da cidade. Imediatamente o guia local se apresentou. Passamos por um detector de metal e com fones no ouvido iniciamos o tour pela maravilhosa cidade, começando pelo seu famoso palácio, o Castelo de Praga, atual sede do governo, construído no século IX, para abrigar os reis da Boêmia. Todo o bairro em volta, dominado por ruas comerciais, faz parte do chamado Castelo de Praga. No nosso tour atravessamos a Ponte Carlos e chegamos ao destino final na praça do relógio e no Museu dedicado a Kafka.
Na Ponte Carlos, o santo padroeiro de Harmonia. São João Nepomuceno.

O guia local foi um atleta e um artista. Atleta porque tinha que chegar ao relógio astronômico, no prédio da Prefeitura, as dezanove horas, para uma pequena apresentação e, um artista pelo forma como nos apresentou o país e a cidade. Mostrou e demonstrou ser o povo tcheco um povo muito bom e extremamente simpático. Este povo é uma mistura de eslavos e celtas, herdando o melhor destes dois povos, especialmente, incorporando a alegria e a gaita dos celtas e o seu gosto, acima de todos os outros, pela cerveja. A cerveja merece todo um longo capítulo à parte.
O relógio astronômico da cidade, uma das grandes atrações.

Ele nos contou da formação histórica do povo e de seu espírito generoso e pacífico. Suas origens remontam ao Sacro Império Romano Germânico e, mais recentemente, ao Império austro-húngaro, dos Habsburgos. Após a Primeira Guerra Mundia constitui-se a República da Tchecoslováquia. Ela teria vida curta e, ao longo do século XX, passaria por duas ditaduras: a da anexação nazista e a comunista. Ela se reconstituiu a partir do ano de 1989 mas já em 1993, pacificamente entrou em acordo com a Eslováquia, formando a partir de então duas repúblicas autônomas. A tcheca e a da Eslováquia.
A Ponte Carlos. Acima de tudo - uma obra para expor a arte.

Lembro das belas palavras do guia. Mais ou menos assim. Somos um povo pacífico. Nunca tivemos pretensões imperialistas. Nunca tivemos uma única colônia. Resistimos e lutamos contra a opressão, tanto da imposta pelos nazistas como pela dos comunistas. Em 1968 anunciamos ao mundo o nosso apreço pela liberdade, com a Primavera de Praga, ousadia pela qual pagamos muito caro. Quando a Eslováquia quis autonomia, pacificamente entramos em acordos e a autonomia foi concedida. Hoje somos explorados, com salários baixos. Temos empregos mal remunerados e, por isso, os refugiados não buscam se estabelecer na cidade. Convivemos com a inflação, mas brigamos e brigamos muito, quando procuram nos aumentar o preço da cerveja. Praga tem a fama de ter a melhor e a mais barata cerveja do mundo. São também seus maiores bebedores.
Praga é também a cidade de Franz Kafka.

No dia seguinte, um domingo, teríamos o dia inteiro livre pela cidade. Praga é uma cidade para se conhecer a pé. Optamos pela compra de um tour especial ao preço de trinta euros. Mais uma vez, com guia local e fones nos ouvidos, nos embrenhamos pela cidade. Assim conhecemos os jardins do palácio de Wallenstein, sede do senado tcheco, a monumental igreja gótica de São Nicolau, onde, pela primeira vez foi apresentado o famoso "Requiem" de Mozart e, ainda a praça dos Cavaleiros de Malta, um dos locais da filmagem de "Amadeus". Um dos pontos altos deste passeio foi o de conhecer a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde se encontra o famoso Menino Jesus de Praga, um dos maiores centros de peregrinação do mundo. Um passeio de barco, com direito a um drink, pelo rio Moldava e uma caminhada pelo antigo bairro judeu da cidade, complementaram este magnífico tour, que terminou no ponto central da cidade, no famoso relógio astronômico e nas proximidades da casa Museu de Kafka.
A mais popular das cervejas tchecas. Urquell.

Como ainda não estávamos no meio da tarde permanecemos na cidade, andando a esmo. Na busca por lembrancinhas da cidade, conheci Petra, uma artista que vende a sua arte numa casa de souvenir. Dela encontrei uma gravura do relógio astronômico, que comprei. Mas estabeleci com ela uma negociação. A República Tcheca ainda não adotou o euro como a sua moeda, mas eles aceitam pagamentos em euro mas devolvem o troco em coroas, a moeda local, sem valor internacional. Assim eu pedi para Petra me devolver o troco em euros. Nos entendemos na língua alemã, fato que muito interessou a ela, pois pretende vir ao Brasil para expor e vender os seus trabalhos. Perguntou se ela poderia chegar ao Brasil e se conseguiria se virar o suficiente falando alemão. Aí falei para ela da colonização alemã no vale dos rios dos Sinos e do rio Caí, lhe indicando como referência a cidade de São Leopoldo, quando um senhor se apresentou e disse ser natural da cidade de São Leopoldo. Apenas uma coincidência, para a qual muito contribuiu o fato de eu estar vestido com o manto do imortal tricolor. Resultado comprei o relógio de Petra, lhe encomendei um trabalho de Kafka e já somos amigos no facebook. Assim,Petra se tornou a minha primeira amiga tcheca.
O Menino Jesus de Praga em seu santuário.

Voltei ainda para a Ponte Carlos, para ter uma conversa com o São João Nepomuceno. O santo padroeiro de Harmonia pertenceu ao século XIV. Foi morto após intrigas palacianas pelo rei Venceslau IV, pelo fato de ter sido o confessor da rainha. Venceslau teve dúvidas com relação a sua fidelidade e exigiu que o santo lhe contasse os segredos revelados em confissão. Mesmo sob tortura ele manteve os segredos e por isso foi jogado ao rio, sendo considerado o santo dos segredos da confissão e o padroeiro contra as calúnias. Se tornou santo no século XVIII, quando teria sido encontrado o seu corpo desfeito  mas a língua preservada, milagre que o levou à santidade.
Mais uma vista do relógio astronômico. 

Ainda alguns dados sobre o país. A palavra tcheco é uma palavra da Boêmia e significa membro do povo ou parente. Sua moeda é a Coroa e com 25 delas se adquire um euro. A República tcheca pertence hoje à União Europeia, à OTAN e à OCDE, com promessa para aderir também ao euro, mas para o qual ainda não reúne condições. A partir dos anos 1990 vendeu ou privatizou suas empresas, como os carros da marca Skoda, sua indústria bélica e de telecomunicações. São notáveis também os famosos cristais da Boêmia. Alemães e japoneses foram os grandes compradores. E, uma velha regra da economia. Quem compra enriquece e quem vende empobrece. Possui em torno de 10,5 milhões de habitantes e, destes, 1,3 milhões moram em Praga. O turismo representa quase 10% de seu PIB. Praga é a quinta cidade mais visitada da Europa, ficando atrás de Londres, Paris, Istambul e Roma. Alguns apontam que Amsterdã também está à sua frente. São mais de trinta milhões de turistas por ano, com predomínio para os alemães.
Aos pés da estátua de São João Nepomuceno.

A língua falada é a tcheca, próxima ao polonês. Não encontrei o significado da palavra Praga. A curiosidade me veio pelo seu sentido pejorativo na língua portuguesa. Pronuncia-se Praha e talvez tenha relação com o rio e o local da construção do castelo (o maior do mundo) sobre a rocha. Devo ainda maiores explicações sobre o relógio astronômico (Orloj) que data do ano de 1410 e está encravado em uma das torres da Prefeitura velha da cidade. E também sobre João Huss, que estudou na Universidade Carolina de Praga e foi, tanto um reformador religioso, quanto social, do século XIV - XV. Fico devendo, ou abrindo a possibilidade para a sua pesquisa. Amanhã estaremos no caminho para Budapeste, a sétima cidade mais visitada da Europa.

domingo, 18 de agosto de 2019

Europa 2019. 7. GOSLAR - BERLIM - POSTDAM.

25 de julho. Quinta feira.  Lembrando que 25 de julho é a data da imigração alemã no Brasil. Neste dia, no ano de 1824 chegavam em São Leopoldo, os primeiros imigrantes alemães vindos da região de Hunsrik, em virtude das consequências das guerras napoleônicas e de um acordo celebrado com o Império brasileiro. Esta história é muito pouco conhecida aqui na Alemanha. Mas voltando ao roteiro, praticamente repetimos o tour do dia anterior na cidade. Isso ocorreu porque turistas vindos de outras regiões se integraram ao nosso grupo.

Igreja destruída de Hannover. Monumento Memória e a águia, o símbolo de Goslar.

O primeiro destino do dia seria a encantadora cidade de Goslar, de 40.000 habitantes, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade. Cidade de muita história, que vem desde o Sacro Império Romano Germânico, e passa pela Liga Hanseática, uma Liga Comercial ligada ao mar Báltico. É a cidade da mineração de prata e em que muitos se dedicaram à atividade da caça. É cidade de muitos carvalhos e faias e, acima de tudo, de muitas lendas, de muita imaginação e, por isso mesmo, de muita literatura. Ali estiveram os irmãos Grimm recolhendo contos populares, que tanto inspiraram Walt Disney. Ali também esteve Goethe, recolhendo histórias da mitologia nórdica, para a composição do seu maravilhoso Fausto.
Aspectos de Goslar. Assistimos até a uma apresentação.

Era uma cidade sede, cidade de eleitor, do Sacro Império Romano Germânico. A construção de seu palácio, remonta ao ano de 1005. É, portanto, uma cidade fortemente medieval e católica, conhecida como a Roma do norte, em virtude de suas muitas igrejas católicas. E onde o catolicismo dominou, há histórias de intolerância e de bruxas. Conta-se que havia muitas bruxas na cidade, o que se deve a forte presença da mitologia nórdica, numa região de muita magia, florestas e encantos. As bruxas são o souvenir mais típico da cidade. Bruxas boazinhas, nos dizem os vendedores destas lembrancinhas. Outra história interessante é a de que a cidade retirou um título de cidadania que concedera a Adolf Hitler, durante a época do nazismo.  Como é bom não ser muito precipitado nestas coisas.
Consegui flagrar uma bruxa boazinha.

Saímos deste encanto de lugar para chegarmos a Berlim, ainda no final da tarde. Repetimos os mesmos lugares que visitamos no primeiro dia em Berlim, isto é, o Portão de Brandemburgo, o Monumento do Holocausto e os lugares de Memória do Muro de Berlim. Fim de tarde com descanso para, no dia seguinte, iniciar o nosso segundo roteiro, que incluiria várias capitais europeias. O dia seguinte estaria reservado para a visita para a cidade imperial da Prússia, em Postdam, em cujos palácios se reuniram Churchil, Truman e Stalin para debater o futuro da humanidade, pós Segunda Guerra Mundial.
Começamos o dia com um passeio de barco no Lago Wansee.

Iniciamos a visita a Postdam com um passeio de barco pelo Lago Wansee para chegarmos ao Cecilienhof, o palácio dos Hohenzollern, construído durante a primeira guerra mundial e no qual foi realizada a Conferência de Postdam que selou os destinos da Europa no pós Segunda Guerra Mundial. O Cecilienhof é hoje, parte museu e parte hotel. Ficou em poder dos soviéticos durante o período da Guerra Fria. Em janeiro de 1942, neste mesmo local, o comando nazista aprovou a chamada "solução final", pela qual começaram a executar os judeus em seus campos de concentração. A partir deste momento começou a política de extermínio nos campos de concentração. Como veem, muita história, terrível história.
O famoso Cecilienhof, um palco vivo da história.


Depois do Cecilienhof, fomos aos jardins do Palácio de Sanssouci, isto é, ao Palácio sem preocupações, construído entre os anos de 1745 e 1747, por Frederico o Grande, o rei soldado, de formação e de gosto francês. Este gosto está refletido na construção do palácio em estilo rococó, da fase pré romântica. Mais os jardins do que o palácio, o fazem ser comparado a Versalhes. Os jardins são realmente magníficos e que a partir de 1990 receberam os restos mortais do imperador, conforme era o seu desejo. Durante o período da Guerra Fria estes locais eram extremamente vigiados e transformados nos locais de espionagem e controle dos soviéticos. É um dos locais mais visitados da Alemanha, recebendo anualmente mais de dois milhões de turistas. Terminamos o dia no bairro holandês, que simbolicamente representa os muitos intercâmbios realizados após a Segunda Guerra. No dia seguinte o desdito seria a cidade de Praga.
Aspectos do palácio de Sanssouci em Postdam.

Mas, antes ainda, uma palavra sobre a Alemanha atual. Ela é composta de 16 Estados, sendo três deles cidades Estado. Vejamos: Baden - Wüttenberg (Stuttgart) - Baixa Saxônia (Hannover) - Baviera (Munique) - Berlim (cidade Estado) - Brandemburgo (Postdam) - Bremen (cidade Estado) - Hamburgo (cidade Estado) - Hesse (Wiesbaden) - Mecklemburgo - Pomerânia Ocidental (Schwerin) - Renânia do Norte/Westfália (Düsseldorf) - Renânia-Palatinado (Mogúncia/Mainz) - Sarre (Saarbrücken) - Saxônia (Dresden) - Schleswig-Holstein (Kiel) e a Turíngia (Erfurt). Ela se formou a partir da reunificação no ano de 1990.
Os 16 estados da República Federal da Alemanha.

É hoje a quarta economia do mundo, com 4,2 trilhões de dólares de PIB, ocupando a quarta posição mundial, atrás dos Estados Unidos, da China e do Japão, respectivamente. Sua população gira em torno de 83 milhões de habitantes. A economia está em grande desenvolvimento, goza de pleno emprego e de absoluta estabilidade política. Ângela Merkel está no poder desde o ano de 2005 e integra a coligação conservadora da CDU. O país, conforme pude constatar, é um único canteiro de obras. É muita riqueza e determinação.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Europa 2019. 6. DÜSSELDORF - ZOLLVEREIN - HAMELIN - HANNOVER.

24 de julho. Quarta feira. No dia de hoje conheceríamos a região que tornou a Alemanha poderosa. A Alemanha dos vales do rio Reno e do Ruhr. A Alemanha que fez a Revolução Industrial. A Alemanha da mineração do carvão e da siderurgia, da indústria pesada. A Alemanha em suas origens, com a concepção do Zollverein, o embrião do que viria a ser a Alemanha. O Zollverein (1834) foi uma união aduaneira de 39 estados, sob a inspiração da Prússia, que ficou atuante até 1871, o ano da unificação, ou do surgimento da Nação alemã. É também a região alemã mais densamente povoada.
Zollverein. União aduaneira, industrialização e origens da Alemanha.

Estive nesta região no ano de 1995, quando participei de cursos de formação sindical, num convênio entre a CUT e a DGB (Deutscher Gewerkschaftsbund), a poderosa central sindical alemã, com sede em Düsseldorf. Passei a primeira semana da minha estadia na cidade de Duisburg, uma espécie de Volta Redonda alemã, se é que esta comparação pode ser feita. Fui indicado para esta participação por um requisito que me privilegiou, saber a língua alemã, que eu herdei de berço. Vim aprender o português, apenas na escola. Foi um aprendizado maravilhoso.
Düsseldorf, às margens do rio Reno.

Düsseldorf é uma cidade que se reinventou. Após a fase da indústria pesada, ela virou a capital da moda e da publicidade. Nela tem sede mais de 600 grandes agências. A cidade remonta ao século XVIII e o seu centro histórico preserva esta memória. Grandes marcas internacionais são comandadas a partir desta cidade. É totalmente cosmopolita, abrigando, inclusive, a maior colônia japonesa da Alemanha. Percorremos o seu centro histórico, às margens do Reno, até a praça do mercado. O cineasta Wim Wenders é um filho seu, ilustre.
A caminho da praça do mercado.

Seguimos na mesma região, a que engloba as cidades de Dortmund, Duisburg, Wuppertal, Bochum e Essen, no vale do Ruhr, o antigo centro industrial alemão. Em Essen visitamos a famosa mina do carvão, Patrimônio Cultural da Humanidade, que é a marca maior do poder econômico alemão, originário de sua industrialização, possibilitada pelas suas imensas minas. Estas foram desativadas em 1986. Em uma dessas minas foi instalado o Museu da Mina, Patrimônio Cultural da Humanidade. Do ponto de vista histórico foi a visita mais importante que fizemos ao longo de todo o tour.
Um bloco do precioso minério e um de seus marcos.


A cidade e a região se reinventaram para preservar o seu poder econômico. Passaram a ganhar dinheiro, muito dinheiro, a partir do imaginário. Essen é hoje a capital do Design e do planejamento e arquitetura urbana. A Universidade de Duisburg-Essen é considerada como a primeira universidade do século XXI. Possui em torno de 40.000 alunos. Nesta região nasceu, ou se desenvolveu, também a concepção arquitetônica conhecida sob o nome de Bauhaus, o modernismo na arquitetura e no design. A Bauhaus exerceu uma das maiores influências mundiais em termos de concepção arquitetônica. E, por incrível que pareça, a cidade de Essen, a capital da coqueria e siderurgia se transformou na capital verde da Alemanha. Um dia extraordinário. Me lembrei de 1995, quando às margens do Ruhr, eu me cutucava e perguntava se era eu mesmo que estava ali. Aula viva e de extrema importância da história mundial. É óbvio que nem todos apreciaram.
As boas vindas ao mundo do Design. O poder do imaginário, da concepção.

O próximo destino seria bem mais leve. Enveredaríamos para a literatura. O destino seria a cidade de Hamelin. Hamelin lembra a história da flauta mágica. Nesta cidade os ratos se transformaram na grande atração turística. Eles estão nas calçadas, nos cardápios bem humorados dos restaurantes, nos souvenirs, na carne enlatada e nos raticidas. O conto é do folclore alemão, recolhido e tornado famoso através dos irmãos Grimm. A história é simples. O rato é um dos mais temidos animais, devido a transmissão da peste negra ou da peste bubônica. Inúmeras cidades tem colunas de preces para o extermínio da praga. Hamelin estava acometida desta peste e o rei ofereceu um saco de moedas de ouro para quem oferecesse uma solução para o caso.
O homem que com a sua flauta eliminou a praga dos ratos.

Aí entra em cena o flautista mágico, que topou a proposta. Tocou a flauta e encantou os ratos. Ele foi tocando e andando e levou os ratos até o rio Weser, onde eles se afogaram. Indo ao rei, receber a recompensa, o rei a recusou, alegando que ele nada fizera. O flautista não se intimidou e foi com a sua flauta tocar em frente a igreja. Desta vez encantou as crianças, levando-as até um monte, onde as crianças se perderam. Como percebem, a história tem um fundo moral. Trouxe o souvenir dos ratos para meus netos e agora vou comprar a história, devidamente ilustrada. Vejam o final da história, contada pela Wikipédia: "Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza. E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança".
A flauta mágica e os ratos fizeram a fama de Hamelin.

O final do dia seria na cidade de Hannover. Esta também me avivou a memória. Lembrei perfeitamente da igreja em destroços e preservada como memória e das maquetes da cidade no prédio da prefeitura, mostrando a mesma antes e depois da guerra. Ela foi intensamente bombardeada. Nas suas imediações se localiza o campo de concentração de mulheres, de Bergen Belsen, onde esteve aprisionada Anne Frank. Estive neste campo em 1995, levado pelo Karl, um ser humano maravilhoso, que na época era um trabalhador aposentado da Volkswagen. Hannover é hoje uma cidade moderna, que conta com cerca de 500 mil habitantes. São famosas as Messe, as exposições, especialmente, as ligadas à robótica. O que aparece de novo no mundo - será mostrado em Hannover, diz uma propaganda da cidade. É também uma forte região agrícola e sede dos pneus da Continental. Já esteve vinculada à Coroa britânica. Nas proximidades está a cidade de Celle, belíssima, e a pequena Bad Minden, onde estive em 1995, uma semana em cada, participando de um seminário sobre ecologia e com o Betriebsrat da VW.
Uma igreja em destroços e outra com a homenagem ao reformador Lutero.

Nos hospedamos no Maritim, um hotel que por compromissos com reservas, recusou hospedagem para o presidente Obama e comitiva. Mas reunia as condições para tal. Fizemos tour pela cidade, tanto ao final da tarde, quanto pela manhã. Nesta manhã seguinte, o último dia deste tour, voltaríamos a Berlim, passando pela encantadora e mágica cidade das letras, Goslar, uma cidade dividida entre minas, bruxas e muita literatura.