sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Porecatu: A guerrilha que os comunistas esqueceram. Marcelo Oikawa.

Uma curta conversa com O Dr. Cláudio Ribeiro sobre a a guerrilha de Porecatu me instigou profundamente. Ele falava da importância do movimento, pioneiro em praticamente tudo, de seu significado  e do total esquecimento deste importante fato histórico pelo PCB, o Partidão. Chegando em casa, acionei o Google e a Estante Virtual. Aí localizei o livro Porecatu: a guerrilha que os comunistas esqueceram, de autoria do jornalista Marcelo Oikawa, lançado em 2012, pela Expressão Popular. O comprei e deixo hoje aqui a resenha.
O belo livro de Marcelo Oikawa. Expressão popular.

Marcelo realizou um belo trabalho. Somou as dissertações e teses que envolvem o tema, vasculhou os arquivos de Delegacias e Fóruns de Londrina e Porecatu e do DOPS, a imprensa da época e, em síntese, vasculhou tudo o que já havia sido escrito sobre o caso e produziu um belo livro com 401 páginas, divididas em pequenos capítulos. O seu linguajar é contagiante e, por várias vezes, eu me senti como um participante das lutas travadas.

O caso de Porecatu envolve os anos de 1940 até 1951, estendo-se para um pouco além, em função dos inquéritos policiais e judiciais que se seguiram. O caso envolveu a colonização de férteis terras que, com o plantio de café, ganharam rápida valorização e despertaram a cobiça de latifundiários e políticos. Os governos federal e estadual (Getúlio e Manoel Ribas) incentivaram a colonização, prometendo titulação para as terras que efetivamente estivessem produzindo. Os colonos foram atraídos, mas os governos caem e são trocados por Dutra e Lupion. Lupion vende estas mesmas terras para os grandes e o conflito está instaurado. E o PCB entra na história, trazendo táticas de guerrilha de Mao para a região. O conflito é generalizado. As cidades envolvidas são: Jaguapitã, Guaraci, Centenário do Sul e Porecatu, como o epicentro.

Vou selecionar dois depoimentos que sintetizam a história. O primeiro é de Antônia, esposa de José Billar, o primeiro dos colonos que chega, em entrevista para a Revista O Cruzeiro, de 14 de julho de 1951. Escreve o repórter: "- Não era uma La Passionária que tínhamos pela frente, mas uma mulher sucumbida pelo sofrimento e pelas privações. A dor está presente nos seus gestos, no seu olhar e até no seu sorriso. O seu depoimento foi todo entrecortado por lágrimas. Ela revivia as passagens mais cruéis de sua vida.

-Não pensem que foi o meu marido que me mandou aqui. Não o vejo há muitos meses. Recebi instruções para falar com os senhores. E vim porque ainda não perdi a fé em Deus e acredito que há homens de boa vontade que queiram nos ajudar, que desejem contribuir para que a paz volte a reinar neste sertão. Vou lhes contar a nossa história que é mais ou menos a história de todos os posseiros. Verão que não somos bandidos, nem assassinos, nem políticos. Que apenas lutamos pelos nossos direitos, pela nossa terra. Chegamos aqui há mais de dez anos. Tudo era virgem. Para buscar mantimentos, tínhamos que montar em lombo de burro e cavalgar mais de 100 km até Presidente Prudente. Derrubamos o mato, erguemos as nossas casas, fizemos os nossos roçados. A civilização chegou depois. E viemos com a situação legalizada. Procuramos antes o Departamento de Terras em Londrina, onde nos informaram que estas terras eram do governo e que o governo venderia aos colonos os lotes que eles ocupassem e plantassem. Temos o protocolo, temos o recibo de vinte e cinco contos que pagamos ao governo, temos os recibos dos impostos que durante dois anos nos cobraram. Ninguém pode imaginar como éramos felizes, como vivemos despreocupados por oito anos. Formamos cafezais, milharais, plantamos feijão, arroz, criamos porcos, galinhas e também o nosso gado. A família também cresceu, prosperou como tudo. Nossos filhos eram cinco. Em 1948 já éramos em 25. Quatro barracas abrigavam a nossa gente. Aos domingos todos vinham comer em casa e passávamos o dia contando histórias para os nossos netinhos. Estávamos no mundo de Deus.Até que um dia - em 1947 - a polícia chegou" (páginas 192-3).

A história é comovente e triste. E muitos erros foram cometidos. O governo quis negociar, sendo governador, agora Bento Munhoz da Rocha Neto, mas o PCB tinha um projeto de poder e não o de resolver este problema camponês. Mas vamos a mais uma história, esta retirada de um manifesto da vereadora curitibana Maria Olímpia Carneiro Mochel, do PCB, com a visão do Partido, obviamente.

"... Afirma que os posseantes de Porecatu não são intrusos, são homens do povo, lavradores honestos e trabalhadores que vieram para a região entre 1940 e 1942 trazidos pelo interventor Manoel Ribas. Que eles requereram  suas terras e fizeram as posses, plantaram café e cereais, ali vivem há muitos anos, mas que as terras valorizaram e despertaram a cobiça de deputados, políticos, negocistas, a começar por Lunardelli, grande proprietário de terras no norte do Paraná. Que, incapaz de cumprir as promessas eleitorais, Bento Munhoz baixou um decreto de desapropriação dessas terras propositadamente confuso e que não foi cumprido até agora. Que nomeou uma comissão de donos de terras interessados em grilos e que jamais foi a Porecatu..." (256) e por aí segue o manifesto, nominando os membros da comissão. Um dos jagunços notáveis que aparece citado várias vezes ao longo do livro, que depois virou fazendeiro e até, pasmem, deputado estadual, foi Fuad Nacli.

A pacificação só voltou à região após quatro expedições militares e pela desconfiança que os colonos passaram a ter com relação a orientação dada pelo Partidão. O Capitão Carlos, o comandante, enviado pelo Partido, delatou a todos. Em vez de acordo propôs a radicalização. Até assalto a banco propôs. Isso tudo é discutido em profundidade neste belo livro.

A importância do movimento está no seu caráter pioneiro, surgindo desta região e deste movimento a formação das primeiras Ligas Camponesas e os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais. Já a presença do Partidão, que estabeleceu fortes bases na cidade de Londrina, ajudou a organizar as bases de vários sindicatos de trabalhadores urbanos na cidade e na região. Dois nomes ganharam grande projeção. O médico Dr. Newton Camara e o Véio Mané, Manoel Jacinto Correia, que se elegeram vereadores em Londrina. Creio que muitos londrinenses ainda se identificam com estes nomes. 

Muitos camponeses permaneceram no local, outros se espalharam pela região, aceitando terras em outros locais que lhes foram ofertadas nas negociações com o governo, em Campo Mourão, Paranavaí e Umuarama. Muitos voltaram para São Paulo e outros ainda se engajaram na militância do PCB. Foi também a primeira atividade camponesa do partidão e a primeira ação em termos de ação militar após a Intentona Comunista de 1935. Ela surgiu em torno de posições assumidas pelo Manifesto de Agosto de 1950 do PCB, manifesto anexo ao livro.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Os Sobrinhos de Judas. Délcio Monteiro de Lima.

Recorro à apresentação da obra para iniciar este post. Ela é feita por Antônio Houaiss. Precisa mais? Tomo duas frases desta apresentação. A primeira é uma referência ao título da obra e a segunda, uma referência à culpa dos sobrinhos, no caso, os empresários sobre as mazelas históricas deste país. Vamos lá:

"Aqui, Délcio Monteiro de Lima, escalpela Os sobrinhos de judas, seja, o empresariado brasileiro, cada um de cada representante pode ser um sábio e santo, mas que no conjunto são sobrinhos de Judas, os que abjuram de tudo para reterem suas trinta e três moedas só par si". E a apresentação continua:

"Não se pense que há aqui maniqueísmo - pois não há, apenas, empresários de um lado, e, de outro, vítimas. Mas há realidades impostergáveis: num território basicamente rico, com uma população extremamente equilibrada, senão que pequena, os empresários brasileiros, herdeiros dos monopólios coloniais, conseguem fazer deste país o padrão mais sociopatológico do mundo em concentração da riqueza, num mecanismo em que a alardeada 'modernidade' para entrar no Primeiro Mundo é desnecessária: desnecessária, porque a fração da Belíndia que somos é um esplendor de fazeres e saberes, e desnecessária, porque nossos empresários dão lição de opulência, hedonismo, requintes suntuários e gozos dilapidatórios de inveja do primeiro Mundo afora".
 A edição de Os sobrinhos de Judas, da Francisco Alves.

Creio que já deu para sentir um pequeno gostinho do livro. Ele é uma imagem da realidade brasileira, uma radiografia de seu empresariado. Ele analisa em profundidade a mentalidade e o comportamento da classe empresarial, e, por consequência, a sua elite econômica e política. Existe uma referência à origem escravocrata de nossa sociedade, ao contrário da origem feudal da sociedade europeia. A respeito gostaria de deixar duas referências, que não são analisadas no livro, mas que vão de encontro a esta nossa origem. A primeira é de Joaquim Nabuco, quando ele fala que a escravidão corrompe todas as instituições de uma sociedade e assim a degradam e, outra de Manoel Bonfim, que fala das origens parasitárias de nossa civilização e que nestas sociedades a morte ou a debilitação é de ambos, parasitado e parasita. Ai do povo que cultiva o bandeirante como o seu heroi.

O livro é estruturado em seis diferentes capítulos. O primeiro, Ideologia do lucro, começa relatando uma cena que reflete a ideologia do empresário brasileiro, quando um deles, vendo a marmita de um trabalhador da construção civil e vê nela ovo e carne, se espanta que um trabalhador tenha estes dois componentes em sua refeição. Um luxo descabido. Analisa pesquisas do IBOPE, encomendadas pelo empresariado em que é constatada a sua pouca popularidade na sociedade brasileira e, sentindo-se em função disso, extremamente injustiçados. Analisa ainda o pensamento deste empresariado através  de uma organização sua, o PNBE, Pensamento Nacional das Bases Empresariais. Mostra ainda a origem escravocrata deste empresariado, mostrando ainda a base da formação da nossa classe trabalhadora é essencialmente composta de imigrantes europeus.

O segundo, Idolatria da esperteza, se centra exatamente em cima desta palavra esperteza e mostra todos os meios usados para a obtenção do lucro fácil, usando tanto meios lícitos, quanto ilícitos sem nenhuma preocupação com o bem estar geral da sociedade. São examinadas as relações promíscuas junto aos governos, a sonegação de tributos, a falsificação de produtos e numa análise de imagem, são os banqueiros ficam o com o troféu da pior imagem. Traça ainda a concepção existente em torno do salário mínimo, visto como uma cesta básica, sendo a manutenção física do trabalhador vista como a única aspiração. Passa ainda pela análise da organização da classe trabalhadora e de seus instrumentos de luta.

O terceiro, Cultura da ambição, mostra a organização dos trabalhadores frente a esta cultura do meio empresarial. Mostra que a relação capital x trabalho no Brasil sempre foi de desconfiança mútua e jamais de cooperação e que nunca vigoraram relações de igualdade, mas sim as de arrogância e prepotência. Mostra as principais doenças adquiridas em função do trabalho bem os acidentes que ocorrem em virtude de desleixos e de falta de cumprimento da legislação. Mostra ainda o grande sonho das organizações patronais em extinguir a mediação do Estado na relação capital x trabalho e a extinção da Justiça do Trabalho. Vejam bem que este tema está agora, voltando a tona. Também a tentativa de aumentar a jornada de trabalho e de diminuir o período de férias é abordada. Conhecemos bem esta questão neste momento atual do governo golpista de Temer. A questão ficara latente durante os governos petistas.

O quarto, Deformação do caráter, mostra dados da ONU sobre os índices de desenvolvimento humano no Brasil, situados entre os piores do mundo, em contraste com a vida de ostentação e fausto levada pelo empresariado, entre a sua frota de jatinhos particulares e um mundo de fraudes. Estas se corporificam com CPFs falsos, sonegação de impostos, empréstimos subsidiados e falsificação de produtos, como os de origem animal, com o uso de anabolizantes, mistura da água ao leite e os bonificados da indústria farmacêutica. Também camisinhas, marca passos e internações hospitalares integram este quadro. Vejam e observem o título, deformação do caráter.

O quinto, Pragmatismo irresponsável, mostra a acomodação do empresariado, especialmente, pela sua cultura de não inovar, requerendo proteção governamental e suborno aos órgãos fiscalizadores. Talvez neste campo o Brasil tenha avançado bastante neste período de tempo que separa a escrita do livro (1992), com os dias atuais. Especialmente em função da abertura econômica que foi promovida. Mostra também os desperdícios que ocorrem na produção do campo, na comercialização dos produtos e na construção civil e, ainda, toda a questão do desleixo e menosprezo pela questão ambiental.

O sexto, Reputação duvidosa, é extremamente interessante, especialmente, se você examinar a questão com um olhar de continuidade em todos os casos de corrupção generalizada em que vivemos nos dias de hoje. Contas na Suíça, paraísos fiscais e offshores no Uruguai são examinadas. Mostra também um interessante estudo sobre o lobby, como ele atua nos Estados Unidos, onde é uma instituição de respeito, em contraste com a sua atuação despudorada no Brasil. Mostra ainda um paralelo no comportamento das chamadas "classes produtivas" brasileiras, em contraste com as de outros países em suas ações de filantropia. Termina apontando rumos e possibilidades, apontando sempre para novos desafios para a classe trabalhadora.

Que livro! Délcio Monteiro de Lima é pouco conhecido na academia, o que é uma pena. Talvez seja pela sua linguagem, fortemente militante e não muito acadêmica seja o principal motivo, embora ele ancore todas as suas afirmações em dados de pesquisa. Ele é autor do famoso livro Os demônios descem do norte. Délcio Monteiro de Lima merece muito ser muito mais lido


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Os Demônios Descem do Norte. Délcio Moneiro de Lima.

Não consegui dados biográficos sobre Délcio Monteiro de Lima. O máximo que consegui, foi saber que ele é mineiro e que tem uma série de livros publicados como o Comportamento sexual do brasileiro (1976), Brasil: o retrato sem retoque (1978), Os senhores da direita (1980), Os homoeróticos (1983), e Os demônios descem do norte (1987), que acabo de ler. Pelo que vi, os seus últimos trabalhos são Os sobrinhos de Judas (1992), apresentado por Antônio Houaiss, o que sem dúvida nenhuma, muito o referencia e, ainda um outro livro, que também enfoca o tema religioso, Enquanto o diabo cochila, datado de 1990.
A edição de Os demônios descem do norte, da Francisco Alves.

Sobre Os demônios descem do norte, tenho que chamar primeiramente a atenção para a data de sua publicação, o ano de 1987. Portanto, ele tem os seus limites. Muita coisa aconteceu depois, especialmente, o surgimento de seitas genuinamente brasileiras, com destaque para a igreja universal do reino de Deus. O livro é grandioso e na orelha da contracapa tem uma nota da CNBB, relativa ao livro, assinada por Dom Sinésio Bohn, que muito referencia o livro. Quando Dom Sinésio era ainda apenas padre, ele esteve presente em minha formação, no seminário em Viamão.

O livro constitui-se num belo estudo sobre a presença das religiões e seitas que desceram do norte, isto é, que vieram dos Estados Unidos. De uma maneira geral elas tem em comum serem pentecostais, serem essencialmente conservadoras e cumprirem uma importante função estratégica na política da guerra fria, contribuindo com a sua pregação anti comunista, com a detenção do avanço comunista pela América Latina, onde ele encontrava fértil campo de expansão, em função da miséria social sempre presente e crescente. Muitas delas agiram em comum acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos.

O livro está estruturado em cinco capítulos. No primeiro, Uma disputa de espaço, o autor mostra a eficiência organizacional destas igrejas, tomando como exemplo os adventistas do sétimo dia. Nem o obstáculo de não trabalharem aos sábados impediu o seu rápido crescimento no Brasil. Dedicam-se às áreas de educação e saúde e tem até marcas próprias de produtos seus como os da conhecida marca Superbom. São um dissidência da igreja batista. Barrar o comunismo e os avanços da teologia da libertação são a marca registrada de seu conservadorismo e puritanismo. O autor ainda mostra a reação católica ao avanço destas religiões. Um dos grandes valores do livro está em mostrar a origem histórica de todas estas religiões e seitas, tanto nos Estados Unidos, quanto no Brasil.

O segundo capítulo, A ideologia dos deuses, mostra a presença das religiões nos Estados Unidos, 2/3 de protestantes e 1/3 de católicos. Um país de protestantes tradicionais, fundadores de Harvard e Yale. Ao final do século XIX e, especialmente, no início do século XX surgem as chamadas igrejas ligadas ao pentecostalismo e, integrando uma forma americana de ser, unindo Deus, pátria, e família, marcada pelo extremo conservadorismo e sendo ancorados na infalibilidade da Bíblia, na crença da virgindade de Maria, na Ressurreição corporal e na segunda vinda de Jesus Cristo. Estas religiões e seitas assumem o lugar do protestantismo tradicional, que apresenta rápida queda no número de adeptos, convivendo também com o fenômeno das renovações e reformulações dentro do protestantismo histórico. Numa segunda parte do capítulo mostra a chegadas destas igrejas ao Brasil, onde antes havia uma boa convivência entre o catolicismo e o protestantismo tradicional. Promoviam ações de ecumenismo, que passaram a ser sistematicamente rejeitadas pelo pentecostalismo. Ainda é mostrada a fundamentação individualista destas religiões e seitas, e até a falsificação de textos bíblicos para assim obterem mais facilmente a docilidade indígena. Também a organização católica OPUS DEI ganha alguns comentários nada elogiosos.

O terceiro capítulo, Exorcizando fantasmas, é maravilhoso. Descreve uma por uma as principais organizações que aqui se estabeleceram, mostrando suas origens nos Estados Unidos e o seu estabelecimento no Brasil. Assim são examinadas a Assembleia de Deus, a igreja do Evangelho Quadrangular e a Congregação Cristã do Brasil. Nesta altura também entram na análise as primeiras igrejas brasileiras, surgidas já por dissidências dentro do pentecostalismo. As religiões dos cunhados, Manuel de Melo da Brasil para Cristo e de Davi Miranda, Deus é amor. Este é também o período do início da utilização dos meios eletrônicos na evangelização, bem como o do envolvimento na política partidária, visando barrar influências progressistas na Constituição de 1988. Também o Movimento de Renovação Carismática Católica entra na análise do autor. Elas atuam na mesma linha do protestantismo pentecostal.

O quarto capítulo, O original e o bizarro, é dedicado às seitas, isto é, para aquelas que não são reconhecidas como religiões cristãs, nem mesmo pelos protestantes tradicionais. Neste quadro entram os mórmons, as testemunhas de Jeová e a seita do reverendo Moon. É mostrado o enorme poder que aglutinam através da exacerbação de seu conservadorismo e anti comunismo, sendo que a seita do reverendo Moon teve íntimas relações com as ditaduras militares da América Latina, pela sua proximidade com a Ideologia da Segurança Nacional.

O quinto capítulo, Geopolítica da fé, mostra a visão mundial destas organizações que se unem na chamada União das Entidades Evangélicas, que atuam em setores de grande visibilidade, como guerras e tragédias, no esporte, com movimentos tipo atletas de Cristo, atuando, ainda, junto a populações indígenas. São constantemente acusadas de agir de acordo com entidades políticas dos Estados Unidos, cumprindo missões de espionagem de movimentos sociais e de vigilância sobre riquezas naturais estratégicas. Mais uma vez é ressaltada a importância da atuação estratégica dentro da doutrina geopolítica dos Estados Unidos. Atuam mais como organizações parareligiosas do que efetivamente como religiões. Desenraízam culturas e impõem o estilo americano de vida para as populações mais pobres e carentes do mundo. Todo o foco está voltado para se posicionar dentro do espírito da Guerra Fria, ocultando e se omitindo por completo quanto a questão desenvolvimento e subdesenvolvimento.

Em suma, um livro extraordinário com forte caráter de denúncia e, neste sentido, é um livro muito corajoso. É evidente que ele tem os limites do tempo. Muita coisa aconteceu neste campo depois de 1987, a data limite, quando o livro foi escrito. Citaria apenas como complemento o livro Trajetória das desigualdades - Como o Brasil mudou nos últimos cinquenta anos, um livro de 2015, que em seu capítulo 12 faz uma análise das transições religiosas no Brasil, analisando dados estatísticos do IBGE. Me chamou a atenção o dado de que em  estados como Rondônia e Rio de Janeiro a população evangélica já se constitui como maioria, tendo suplantado a população de católicos. Tudo isso é muito preocupante, especialmente, porque cada vez mais estão atuando politicamente.




terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O amanuense Belmiro. Cyro dos Anjos.

Cheguei a este livro através de O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, de autoria de Dênis de Moraes. A certa altura do livro ele relata o caso em que a revista Acadêmica solicitou do biografado a indicação dos dez melhores romances brasileiros. Este fato se deu no ano de 1938. Um dos romances indicados foi precisamente, O amanuense Belmiro, do escritor mineiro Cyro dos Anjos. 
Edição de O amanuense Belmiro, comemorativa do centenário de nascimento de Cyro dos Anjos.


Cyro nasceu na cidade de Montes Claros em 1906, formou-se em direito e ao longo de sua vida sempre esteve envolvido com o serviço público e com a imprensa, vivendo em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília, como também em Lisboa e no México. Morreu no Rio de Janeiro em 1994, vivendo assim, mais de setenta anos, que profetizara ao final de O amanuense Belmiro. O romance foi escrito em 1937 e tem como cenário o escritório de Fomento Animal da Secretaria da Agricultura, da cidade de Belo Horizonte, onde o amanuense trabalhava.

A narrativa do romance se dá entre o carnaval de 1935, ultrapassando um pouco o do ano seguinte. O amanuense, isto é, aquele que escreve textos a mão, copista ou simplesmente secretário, tem muito tempo ocioso, tendo em consequência, muito tempo para pensar. O seu mundo se resume à casa, que divide com as irmãs, Francisquinha e Emília, ambas muito problemáticas, com um e outro vizinho e os colegas de repartição. Alcir Pécora, no posfácio do livro, estabelece uma relação com Bernardo Soares do Livro do desassossego, ou seja, com a função burocrática exercida por Fernando Pessoa em Lisboa.

O livro tem uma estrutura extremamente complexa e, de imediato, se percebe a extrema erudição do narrador que é o personagem central do livro. Alcir Pécora, em seu posfácio, desvenda essa estrutura de antinomias e procura qualificar o livro entre um simples diário, um livro de memórias e um romance, para concluir que ele é os três. Os três grandes focos narrativos são um amor pouco cultivado por Camila, na infância, que transcende para Carmela no tempo em que o livro foi escrito, amor que nunca se concretiza em função da pouca vontade que Belmiro tem como alguém sedutor, que se lança na busca da conquista. O outro foco se dá nos diálogos mantidos com os colegas do escritório, especialmente com Silviano, o filósofo nietzschiano, que se afirma católico por ser este o meio mais fácil de viver, por renunciar ao próprio viver. Aí está a antinomia. E o terceiro foco está na crise existencial que é uma constante ao longo de todos os escritos.

Destaco algumas passagens do livro, que é o seu próprio viver. "Este caderno, onde alinho episódios, impressões, sentimentos e vagas ideias, tornou-se a minha própria vida, tanto se acha embebido de tudo o que de mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância". Outra passagem em que se autodenomina como o Donzel da rua Erê, o seu endereço, e que silencia sobre a moça, Carmela, já envolvida com outro e se conformando com grande resignação: "Pelo sim, pelo não, melhor será não sabotar o Belmiro flautista. Deixá-lo esparramar-se no papel, reduzi-lo a coisa escrita é o meio mais eficaz de liquidá-lo e, com ele, a donzela. Esta literatura íntima é a minha salvação". Como percebem a psicanálise também está presente.

Na contracapa do livro tem uma bela explanação sobre a qualidade do romance. "A receita de tal sucesso não é nem um pouco simples, ainda que aparentemente o pareça: um homem comum, funcionário público, narra em um diário seu pequeno cotidiano tentando encontrar algum significado para a sua vida. E mesmo pouco encontrando, consegue não se desesperar porque tem dois triunfos consigo: a saída pela ironia, que mitiga a falta de nexo da realidade, e, para além da ironia, o reencantamento do mundo que a poesia pode oferecer aos homens".

A orelha do livro, escrita por Ronald Polito também é linda. Começa assim: "Que o leitor se prepare, pois está diante de uma obra-prima de nossa literatura, daquelas que convidam a ser relidas em profundidade sobre a condição humana. A partir da vida de um pequeno homem (portanto de todo mundo), que registra pouco mais de um ano de seu cotidiano, vamos sendo confrontados com delicadas situações de toda ordem que, na aparência insignificantes, tornam-se decisivas para os destinos do narrador e dos envolvidos".

Eu também gostei muito do personagem chamado Redelvim, que era um comunista mais introspectivo do que ativista, passou por grandes dificuldades com a Intentona Comunista. Lembrem-se que o ano descrito é o de 1935. Outro grande personagem é Jandira, por todos desejada mas que não se afeiçoava a ninguém. Por sua vez a Carmélia idealizada é a própria Dulcineia do Cavaleiro da Triste Figura.

Pois é. Entre antinomias e aporias você está efetivamente diante de uma grande romance. Seus personagens expressam a condição humana, a matéria prima de todos os grandes romances. Belmiro e os outros são seres humanos, atemporais e universais. Graciliano Ramos, ao indicar este livro entre os melhores romances brasileiros, o fez porque sabia das coisas. Outra coisa interessante. A presença de muitos chopes. "O Florêncio nos espera no local de costume, para o chope do costume. O chope é uma solução, pelo menos por algumas horas". Como não gostar de um livro desses!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Doidinho. José Lins do Rego.

Doidinho é o livro do meio de uma trilogia. O primeiro é Menino de Engenho (1932), o segundo é Doidinho (1933) e o último é Banguê (1934). O cenário do primeiro é o Engenho Santa Rita, no município de Pilar, na Paraíba. Nele é retratado o menino, dos quatro aos doze anos. Ou seria um auto retrato? No segundo é um internato, também na Paraíba, na cidade de Itabaina. Um ano basta para fazer a terrível descrição. Quanto a Banguê, ainda preciso lê-lo.
A bela edição da José Olympio. Doidinho.

Já no Menino de engenho é feito o anúncio de que o colégio era visto como um reformatório, "recorriam ao colégio como a uma casa de correção" (pag.137). Pois bem, é neste colégio que Carlinhos, o neto de seu Zé Paulino, chega com a idade de doze anos. Ali ele fica por dois semestres, o segundo deles incompleto. O intervalo entre eles foi marcado pelas festas de junho, em especial a de São Pedro, festa que coincidia com o aniversário do poderoso avô.
 
Fiquei bastante curioso sobre este colégio de Itabaina, por ser de um proprietário privado. O livro, como já registramos, foi escrito em 1933 e na época os colégios particulares eram praticamente todos confessionais, pertencentes às diversas ordens religiosas. O senhor Maciel era o diretor, ajudado por sua esposa e pelo sogro. Além disso um militar comandava os ensaios para os desfiles cívicos. Ao final do livro existe uma dica sobre o número de alunos. Numa solenidade, da qual Carlinhos fora excluído, marchavam setenta alunos. Havia alunos internos e externos. Entre os externos havia meninas, também fato raro. Os colégios não eram mistos.

O colégio tinha fama pelo rigor da sua disciplina. Seu Maciel aplicava bolos para os meninos que não sabiam as lições, até os braços cansarem. O seu método era o terror. Carlinhos levou muitos, uns pelo motivo de não saber as lições e, outros tantos, sem motivo nenhum. Os pais, de maneira geral, buscavam o colégio por este motivo da força da disciplina. Poucos o contestavam. Carlinhos detestava o colégio.

Quem leu Menino de engenho sabe que Carlinhos era um menino solitário. Muito cedo ficou órfão da mãe e o pai foi para o sanatório, onde morre. A sua morte, inclusive, é contada em Doidinho. Fora criado pelo avô. O menino pouco sabia de carinho e afeto. No colégio progride rapidamente, mas é nota zero em adestramento para desfiles militares.  Vive pensando em fuga para Santa Rita em seus momentos de abandono. Se relaciona com dificuldade com os colegas, exceto o Coruja, um menino pobre com quem se dá bem, até ele ser nomeado decurião, uma espécie de bedel. A função era a de entregar os colegas em suas aprontadas. Coruja passou a estudar de graça, graças a delação dos colegas. Carlinhos não se conformava. Como podem observar, já na época havia a tal da delação premiada.

O educandário/reformatório chamava-se Colégio Nossa Senhora do Carmo. Ao longo dos 36 capítulos vão aparecendo os diferentes problemas que podem ocorrer num internato. Quem neles estudou, conhece perfeitamente estes problemas: a infância, a adolescência, a perda da inocência, os temas tabus como o sexo e o homossexualismo. Também a não adaptação, a violência e a revolta são vividos por Carlinhos e seus colegas. Outros temas presentes no livro e na vida de Carlinhos foram as questões da lealdade, amizade, traição e intriga.

Quero ainda fazer alguns destaques. O primeiro aparece no capítulo oito. As aulas de catequese e as dúvidas entre a fé e a razão. Decorar era a regra. "E neste jogo de palavras, de confusões, lá iam nos ensinando a doutrina cristã. Davam-se as lições de religião no mesmo jeito com que no engenho ensinavam aos papagaios". Este é um capítulo magistral.

Outro destaque que aponto está no capítulo vinte e dois. Se Carlinhos via a miséria no engenho como um fenômeno natural, agora na escola começava a tomar consciência do problema. "Os livros começavam a me ensinar a ter pena dos pobres".

Outra questão muita bonita é abordada no capítulo vinte e nove. A novidade do cinema na cidade. Eu sempre defendi a ideia de que o professor deve ser uma espécie de agitador cultural. Ele sempre deve ter, em suas aulas, a presença de questões culturais. "A verdade, porém, era que o cinema nos educava, mostrava-nos cidades da Europa, terras coloridas da Itália. Lá estava Florença, a terra do pequeno escrevente florentino. O Arco do Triunfo de Napoleão em Paris. Roma com igrejas grandes. Gênova, donde Marcos saíra para a sua viagem". O maior entusiasmo, porém, ficava por conta das bondades de Jean Valjean de Os miseráveis.

Em suma, um romance de formação. Como aprecio enormemente o gênero, o anotei na minha lista. O romance sempre é citado em paralelo com O Ateneu, paralelo traçado pelo próprio autor ao final de Menino de engenho. O livro de Raul Pompeia foi escrito em 1888 e o Ateneu era um colégio particular do Rio de Janeiro e reflete a situação de um menino profundamente atribulado. O livro e mais precisamente a trilogia, mostra o período da decadência dos engenhos que cedem o seu espaço para as modernas usinas. Em 1938 Graciliano Ramos indicou Doidinho como um dos dez melhores romances da literatura brasileira.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Sociedade 20 por 80. Uma nova civilização?

Trago comigo um livro particularmente valioso. Ele foi lançado na Alemanha em 1996 e no Brasil, pela Editora Globo, em 1998. Este também foi o ano em que eu o adquiri. Trata-se de A Armadilha da Globalização - O assalto à democracia e ao bem-estar social, dos social democratas alemães  Hans Peter Martin e Harald Schumann. A partir daí, o primeiro capítulo deste livro sempre fez parte do currículo que eu preparava, para as aulas de Teoria Política.
 Um livro que me acompanha. Não apenas o primeiro capítulo.

Este primeiro capítulo tem por título A sociedade 20 por 80. Dirigentes mundiais rumo a uma nova civilização. Nele os autores relatam um encontro da elite mundial no Fairmont, um dos mais luxuosos hotéis do mundo, situado em São Francisco da Califórnia. Com este título pré anunciam uma realidade absolutamente trágica. Nós, aqui no Brasil, não sentimos tanto esta tragédia, porque em 2002 foi eleito um governo contrário às políticas postas em prática por estes globalplayers. Como hoje, a partir do golpe 2016, sentimos os efeitos perversos de um sistema alinhado com estas políticas é que eu retomo este texto.

Os cerca de 500 globalplayers foram comandados por Mikhail Gorbachev e eram constituídos pelos políticos mais influentes do mundo, pelos donos do planeta do mundo industrial da alta tecnologia, pelos magnatas da comunicação e pelos economistas (de notório saber - só para ajudar a banalizar o termo) das grandes universidades estadosunidenses, Harward, Stanford e Oxford, em particular. A presença feminina ficou restrita a belas moças, munidas de placas para o controle do tempo e curtas saias. Eram as sereias, cujos (en)cantos não podiam ser usufruídos, pois o conclave tinha como fim precípuo, ou como escopo, usando outra palavra da moda, anunciar as bases para uma nova civilização.

Um dos painéis mais concorridos era o que vaticinava sobre o futuro do trabalho. O dono de uma grande corporação, com mais de 16.000 trabalhadores diz que apenas 7 ou 8 seriam absolutamente necessários. Os outros não resistiriam a qualquer racionalização que a empresa quisesse efetivar. Todos poderão ser contratados ou demitidos por computador. As inimagináveis massas de desempregados são vistas com a maior naturalidade. O que fazer? E uma constatação: No futuro não serão mais criados novos empregos decentes nas sociedades tecnologicamente avançadas.

Duas novas expressões ganharam força nestes três dias de seminário. A primeira é a do título: 20 por 80. Isto, é, apenas 20% da população será necessária para fazer a roda da economia girar. Isto tanto no trabalho como  no consumo. Os outros 80% simplesmente ficam fora de qualquer perspectiva.  Para cuidar deles, os 80% de sobrantes, outro notório ofereceu a sua contribuição. Zbigniew Brzezinski ex assessor de Jimmy Carter e especialista em geoestratégias, trouxe ao debate a expressão tittytainement, um acoplamento das palavras entertainemt (diversão) e tittys (seios ou tetas na gíria estadosunidense). Mas, mesmo somando a palavra seios e diversão, o sisudo homem não pensou em sexo. Por seios, ele entendia leite, alimento.

Por tittytainement ele entendia diversão anestesiante e alimento. Nada de novo. Apenas uma re verbalização da velha expressão romana do pão e do circo. Assim 4/5 da humanidade viverão às custas de 1/5 dos privilegiados. E estes 1/5, ou os 20% ainda poderão ser felizes também no outro mundo. Pois, facilmente ganharão a vida eterna, pois com a sua caridade (que poderá ser fartamente praticada com a existência de tantos pobres) e com a sua intransigente defesa da vida (pela criminalização do aborto para o mundo dos pobres) garantirão os melhores camarotes celestiais, eternizando assim o seu mundo de privilégios pelos séculos dos séculos. E que assim não seja. Amém.

Recentemente, ao ler O Cortiço, vi na imagem descrita em 1890, o futuro do Brasil. No livro A Luta contiunua crônicas da resistência, escrevi um texto sob o título 50 em 5. Para trás, enfatizando o desmonte da democracia e da cidadania em tempo recorde e agora mostro a visão de dois cientistas políticos sobre o futuro da humanidade. Apenas apliquei um pouco desta realidade ao Brasil. Uma pátria, uma nação que quer se transformar em "mercado emergente",conforme expressão de FHC, como uma mera plataforma de uma livre zona de exportação.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Elis. O documentário de Hugo Prata.

Fui  ver o documentário de minha conterrânea, Elis, e já na primeira cena fui acometido de uma profunda nostalgia. Ela vinha, junto com o seu pai, em um ônibus rodando pela estrada que a levaria de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, em busca da realização de sua carreira. Mais ou menos na mesma época, pela mesma estrada, eu vinha, sozinho, até Curitiba, também em busca de trabalho, na qualidade de professor. Além do Rio Grande do Sul, tenho em comum com Elis, o ano de 1945, como o ano do nascimento.
Cartaz promocional do filme. Andreia Horta interpreta Elis.

Enquanto eu me firmava no norte do Paraná, mais precisamente em Umuarama, Elis se firmava, primeiramente no Rio de Janeiro, depois em São Paulo e depois pelo mundo inteiro. O documentário sobre Elis Regina mostra esta sua trajetória de venturas e desventuras, até chegar à condição de maior cantora do Brasil e ser reconhecida por todo o mundo. Mas o seu começo não foi nada fácil.

Nas primeiras tentativas esteve acompanhada pelo olhar atento e protetor do pai. O dinheiro trazido era curto e o novo custava a entrar. O pai volta a Porto Alegre, a filha fica no Rio de Janeiro. Os primeiros contatos ocorrem com Ronaldo Bôscoli e Miéle. A veem com um certo desdém, como uma menina de voz boa mas totalmente desajeitada. Depois de algumas aulas de trabalho corporal, Bôscoli a chama de Hélice Regina pelo exagerado movimento de seus braços. Também a  qualifica como uma cantora de churrascaria.

Depois de algumas apresentações no Rio e em São Paulo o sucesso lhe vem pela televisão. Com Jair Rodrigues apresentará o programa O Fino da Bossa. Se aproxima mais de Bôscoli e de Miéle, que passam a dar algumas orientações em sua carreira. Observam que ela não poderia continuar se apresentando ao lado de um artista que plantava bananeiras no palco. O programa já sofria forte concorrência de um outro programa, o da Jovem Guarda.

Esse tempo também marca a passagem de Elis - da Bossa Nova para a Música Popular Brasileira, com toda a polêmica do uso, ou não, da guitarra elétrica. Este também é um tempo em que Elis se profissionaliza completamente, cuidando da construção de sua imagem, ficando muito mais bonita. Aí começa a atrair os olhares de um cara que namorava todas as meninas do Rio de Janeiro, Nara Leão em particular. Trata-se de Ronaldo Bôscoli. Logo, logo, Elis estará casada com ele (1967-1972). Ciúmes e gênio marcam a brevidade deste casamento.

Outro foco será a carreira internacional da atriz. O palco das grandes estrelas do mundo da música  também será o seu palco de triunfos. As grandes capitais da música se renderão à sua voz e ao seu talento. É também tempo de entrevistas, sempre sob o olhar atento de seu empresário, mas este não consegue conter a espontaneidade de suas falas. Na Itália falará da ditadura militar, chamando os seus comandantes de gorilas.

Na volta terá que prestar contas. Para não sofrer implicâncias maiores terá que se apresentar em solenidades militares. Se livra assim dos chamados gorilas, mas não de seus amigos pessoais. Compra uma enorme briga com Henfil, para quem, em duas oportunidades procura dar explicações, sem ser ouvida. Esta questão envolvendo militares e o Henfil é um dos pontos altos do filme. Também é tempo de novos amores e um novo casamento, agora com César Camargo Mariano (1973-1981). Se gostam muito. Mas Elis era terrível. Era a Pimentinha. Gênio forte. A relação traz muitos sofrimentos, bebida e droga e, também um final.

Elis entra em profunda crise existencial. Em novas cenas é mostrada a sua briga com a indústria fonográfica. Esta preocupada em vender e ela preocupada com a arte. Reclama da absoluta falta de liberdade. Este é outro ponto notável do filme. O remédio para as suas crises vem em doses diárias, cada vez maiores, de álcool e droga, - aquela que fazia Aldous Huxley escrever. Enquanto ela vivia o auge de sua carreira, esta será interrompida no dia 19 de janeiro de 1982, quando o Brasil é surpreendido com a morte de sua maior cantora, por uma overdose. Foi sensível demais para suportar as dores do existir. 

A crítica foi implacável com o documentário. Apenas a parte musical foi elogiada, como também a interpretação de Andreia Horta, no papel de Elis. A crítica não perdoa o estilo mini série do documentário, o estilo rede globo de televisão. Para a maioria deles não existem aprofundamentos em nada e muitas cenas permanecem meio inconclusas. Ainda segundo a crítica, quiseram mostrar tudo e este tudo ficou apenas na superfície. Seria apenas uma introdução para uma futura mini série e uma mera introdução à vida da grande artista. Ela teria merecido coisa bem melhor.

Como eu não sou um especialista, nem em música popular brasileira, nem das técnicas do cinema e, ainda mais, por conhecer pouco da própria vida da artista, devo dizer que eu gostei muito, confessando ainda, que saí do cinema com um gosto meio amargo das dores da existência. Creio que o momento político atual do Brasil contribuiu para isso. Sempre se tramaram e se tramam golpes contra o povo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Reforma da Previdência. 17 pontos que marcam o fim da seguridade social.

No dia 5 de dezembro de 2016, a noite, o golpista Michel Temer enviou para a Câmara dos Deputados a PEC 287, da chamada Reforma da Previdência, que na verdade a destrói. A alegação da necessidade de fazê-la faz parte do discurso de que é a única forma capaz de manter os pagamentos. Em outras palavras, é melhor receber pouco do que nada. As medidas vem na contramão dos princípios da Constituição de 1988 que instituiu o conceito de Seguridade Social.
A projeção da imagem de pessoas idosas diante do projeto de Reforma da Previdência. Aumento da preocupação e insegurança.

Tomo como fonte O Globo, e alguns recheios da página do UOL para apresentar 17 itens básicos desta proposta de reforma/demolição:

1. Idade mínima: Ninguém poderá se aposentar antes de completar 65 anos de vida. Esta idade deverá  subir gradativamente;

2. Tempo mínimo de contribuição: Será elevado de 15 para 25 anos de contribuição. Para receber integralmente serão necessários 49 anos de contribuição e 65 de idade;

3. Quem será atingido: Todos os que tem menos de 50 anos (homens) e 45 anos (mulheres). Os que tem mais pagarão 50% de pedágio por cada ano que faltar. Se faltar um ano, deverá trabalhar mais 1,5 anos.

4. Entrada em vigor: Logo após a promulgação da lei, isto é, depois de aprovada pelo Congresso e assinada pelo presidente;

5. Para quem tem mais de 45 anos (mulher) e 50 anos (homem): Regime de transição, 50% sobre cada ano que faltar;

6. Cálculo do benefício: 51% sobre a média da contribuição, mais 1% a cada ano de trabalho a mais;

7. Atual fórmula 85/95: Vai acabar e vigorará a idade mínima de 65 anos e 25 de contribuição. Aposentadoria integral apenas com 49 anos de contribuição;

8. Funcionários públicos: A idade avançará dos atuais 55 (mulheres) e 60 anos (homens) e 30 ou 35 de contribuição, para a idade de 65 anos para todos;

9. Diferença entre homens e mulheres: Ela desaparecerá. Persistirá apenas para os que tem mais de 45 ou 50 anos de idade, que entrarão no regime de transição;

10. Regimes especiais: Os professores não terão mais. PMs e bombeiros não serão atingidos pela reforma:

11.Pensão por morte: Hoje é de 100% e passará para 50%, mais 10% por dependente;

12. Trabalhadores rurais: Hoje se aposentam com 55 e 60 anos. Todos passarão a 65 anos e também deverão contribuir, tipo MEI (micro empreendedor individual):

13. Benefícios assistenciais: LOAS. Hoje são concedidos a partir dos 65 anos e passarão para 70 anos e serão desvinculados do Salário Mínimo;

14. Desvinculação do Piso da Previdência do Salário Mínimo. Por medo jurídico esta medida atingirá apenas os benefícios e as pensões;

15. Fim da paridade entre servidores da ativa e aposentados: Retira a obrigatoriedade do reajuste concedido a todos na mesma data. Isso valerá para os que ingressaram no serviço público a partir de 2003. Em síntese, os aposentados que entraram no serviço público após 2003 não precisam receber os mesmos reajustes dos da ativa;

16. Alíquota de contribuição dos funcionários públicos federais: elevação da taxa de contribuição de 11 para 14%, servindo também de alíquota proposta para os governos estaduais:

17. Militares e as forças armadas: não serão atingidos por esta reforma. Serão atingidos através de outro projeto.

Uma observação final para os bobinhos que foram para a rua lutar contra a corrupção, fora Dilma e fora PT. Viram o que vocês foram pedir? Eu não fui. Preferi ficar em casa estudando política. Mas, lamentavelmente todos serão atingidos por esta e mais outras reformas. Creio ainda, que a medida que mais economia gerará, será a das muitas mortes precoces que ocorrerão.


Menino de engenho. José Lins do Rego.

Este livro, Menino de engenho, estava na lista faz um bom tempo. Este é um dos raros livros que eu posso dizer que eu já tinha lido.  Há tempos, para não passar vergonha, eu aprendi um truque. Quando se fala de livros, nunca diga: este livro eu não li. Sempre diga: este eu preciso reler ou faz muito tempo que o li e não me lembro de quase nada. De fato, deste eu lembro muito pouco, apenas das sacanagens de uma sexualidade precoce. A leitura não fez parte da minha formação de seminário. A gente não precisava saber destas coisas, nos diziam.
Bela edição da José Olympio.

Mas vamos ao Menino de engenho. E, como de hábito, vamos situar e datar José Lins do Rego, o seu autor. Ele nasceu num engenho, na cidade de Pilar, no interior da Paraíba no ano de 1901. Ainda no ano de seu nascimento se tornou órfão de mãe. Esta, em sua doença e antevendo a morte, pedia a familiares para que o filho não fosse educado pelo pai. E, de fato, a sua educação foi confiada ao avô. Conheceu assim o mundo patriarcal dos engenhos.

José Lins do Rego é acima de tudo um memorialista. Precisão em recordar e descrever fatos, recheando-os com a imaginação. Assim são os seus romances. Menino de Engenho, seu romance de estreia, foi escrito em 1932. Para situá-lo melhor, o seu amigo Gilberto Freyre lançará o Casa-Grande & Senzala em 1933. São retratos do nordeste. São retratos do Brasil.

José Lins do Rego nos apresenta um nordeste rural vivendo uma grande fase de transição, a passagem do mundo dos vários engenhos e de seus grandes senhores para o mundo das poucas usinas e de seus poderosos usineiros. Uma transfiguração que é vista pelos olhos extremamente atentos do escritor. Este será o tema que o consagrará, com uma série de livros, que culminarão com Fogo Morto, livro de sua consagração, escrito em 1943, mas já presente em Menino de Engenho.

Como já o qualificamos como um memorialista, podemos afirmar que o romance é autobiográfico. A orfandade do menino se dá com o assassinato da mãe pelo seu pai e ele passa a ser educado pelo avô. O moleque é criado solto no meio do engenho, entre as moendas, os canaviais e trabalhadores, muitos deles ex escravos, que não quiseram trocar de vida. Ficaram satisfeitos com o fim dos castigos físicos. As suas memórias retrocedem até a sua idade de quatro anos. Lembra de sinhazinha, a má e o terror de todos e as histórias de Totonha, que exerceu uma forte presença em sua vida.


O atento menino observa os costumes do engenho. O mandonismo do avô, o recato das mulheres, o comportamento sexual das negras, com quem se iniciou nos prazeres e nas doenças do sexo, da observação do sexo entre os animais e também com eles, os desmandos e o desejo de vingança contra Sinhazinha, as visitas aos parentes de outras fazendas, a vinda dos meninos da cidade e o seu crescimento em meio aos moleques, sem muita preocupação com a sua educação.

As memórias se estendem até os seus doze anos, quando ele é mandado para o colégio em Recife. O colégio conserta tudo, pensavam no Engenho. Mas o momento alto do livro são os momentos de solidão vividos. Aí marcava os encontros consigo mesmo e lhe surgiam as primeiras pontadas de uma angústia existencial. Não foi educado nos princípios da religião e nem no temor de Deus. Quem o matava de medo era o Lobisomem. Os dois últimos capítulos são um extravasar de suas angústias. Deixo aqui registrada, como uma das partes mais marcantes do livro, a sua ida ao colégio.
José Lins do Rego(1901-1957).  Menino de Engenho foi escrito em 1932.


"Em junho iria para o colégio. Estava marcado o dia da minha partida.
- Lá ele endireita.
Recorriam ao colégio como uma casa de correção. Abandonavam-se em desleixos para com os filhos, pensando corrigi-los no castigo dos internatos. E não se importavam com a infância, os anos mais perigosos da vida. Em junho estaria no meu sanatório (Seu pai morrera no sanatório). Ia entregar aos padres e aos mestres uma alma onde a luxúria cavara galerias perigosas. Perdera a inocência, perdera a grande felicidade de olhar o mundo como um brinquedo maior que os outros. Olhava o mundo através dos meus desejos e da minha carne. Tinha sentidos que desejavam as botas do polegar para as suas viagens".

Na partida, recebe o último conselho do avô: "Não vá perder o seu tempo. Estude, que não se arrepende". E aí seguem as reflexões finais: "Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha do que o meu corpo. Aquele Sérgio, de Raul Pompeia, entrava no internato de cabelos grandes e com uma alma de anjo cheirando a virgindade. Eu não: era sabendo de tudo, era adiantado nos anos, que ia atravessar as portas do meu colégio.
Menino perdido, menino de engenho".

O livro que eu li foi o da José Olympio Editora. Um primor. Tem três apresentações, sendo uma de Rachel de Queiroz para a edição de quarenta anos do livro. Ao final tem glossário, dados bibliográficos e biografia do autor. São ainda traçadas algumas característica do escritor, além de um panorama da época. Duas coisas interessantes. Quando foi morar no Rio de Janeiro passou a ser amigo, mas amigo mesmo, de Graciliano Ramos e foi torcedor fanático do Flamengo, chegando inclusive, a ocupar cargos na direção do clube. 

Tem mais. A continuidade virá com as narrativas posteriores aos 12 anos. Não será mais o menino de engenho, mas Doidinho. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Casa de Pensão. Aluísio Azevedo.

Em 1938 a Revista Acadêmica solicitou a Graciliano Ramos a indicação dos dez melhores romances brasileiros. Entre eles figurava Casa de Pensão de Aluísio Azevedo. Evidentemente que esta indicação me deu motivação para a sua leitura. Do autor já tinha lido O Cortiço, do qual eu gostei muito. Então, retomar o autor, foi tarefa fácil. E para  satisfazer a curiosidade seguem as nove outras indicações: Inocência: Visconde de Taunay; Dom Casmurro: Machado de Assis; Jubiabá: Jorge Amado; Os Corumbas: Armando Fontes; Doidinho: José Lins do Rego; As Três Marias: Rachel de Queiroz; Amanhecer: Lúcia Miguel Pereira; O Amanuense Belmiro: Cyro dos Anjos e Os Caminhos da Vida: Octávio de Faria. A fonte está na biografia de Graciliano O Velho Graça, de autoria de Dênis Moraes.

Antes de falar de Casa de Pensão, vamos falar um pouco de seu autor, Aluísio Azevedo. Ele nasceu em 1857 em São Luís e veio a falecer em La Plata, no exercício de função diplomática em 1913. Casa de Pensão foi publicado sob forma de folhetim em 1883 e, no ano seguinte, sob a forma de livro. Em 1876 ocorrera no Rio de Janeiro um rumoroso caso criminal em que um jovem paranaense, que fora estudar na cidade, foi morto na pensão onde se hospedava, por ter se envolvido com a irmã do dono da referida pensão. O caso teve muita repercussão. Muito jornal foi vendido.
A bela edição da Ateliê Editorial.


Este caso serviu de mote para Aluísio construir o seu romance.  Antes ainda, é importante lembrar que o escritor, que começara a escrever sob o romantismo, já havia feito a sua transição para o realismo, na sua vertente mais forte, que foi o naturalismo. É sob esta escola que os fatos passam a ser vistos. O escritor gosta de ajuntamentos humanos mais permanentes para fazer a caricatura de seus personagens. Isso ocorre agora com Casa de Pensão e depois em O Cortiço.

Então vamos lá. No romance, o estudante já será um maranhense. Certamente o narrador puxou a história para mais próximo da realidade por ele conhecida. Seu nome é Amâncio Vasconcelos. Quando ele chega ao Rio de Janeiro irá se hospedar na casa de um próspero comerciante, o sr. Campos, que devia favores ao pai do rapaz. Um gesto de gratidão o faz ser recebido como alguém da família. Dona Hortênsia, sua esposa, oferece alguma resistência. Amâncio quer mais liberdade para viver plenamente o espírito da cidade que abriga a corte. Busca um lugar mais privado.


Amâncio, após se encontrar com um colega do Liceu de São Luís é apresentado a um outro estudante que é dono de uma pensão. É o senhor João Coqueiro. Este, percebendo que Amâncio tem grande poder aquisitivo, praticamente o arrasta para morar na sua pensão. Coqueiro era casado com Madame Brizard, uma francesa bem mais velha do que ele. Tem também uma bela irmã, que ganhará maior importância ao longo do romance. Trata-se de Amélia, ou Amelinha.

Os personagens, à medida que são revelados, mostram a enorme descrença do escritor na humanidade. Nos três grandes focos narrativos, apenas a família Campos é organizada economicamente e aparenta certa estabilidade emocional afetiva, mas nada que não abale a firmeza de Hortênsia, vacilante e meio arrependida de não ter dado mais atenção ao menino vindo da Atenas brasileira. Uma carta a ela endereçada pelo Amâncio dará muito pano para manga. Campos tem a virtude da gratidão e do reconhecimento. Padece de certa ingenuidade.

O jovem Amâncio é um típico jovem de classe abastada, que pensa apenas em usufruir as benesses da cidade da corte. Benesses significam gastos perdulários em festas e com as mulheres. Estudar lhe é uma tarefa extremamente dolorida. Alimenta bons sentimentos com relação a mãe, fonte de sua fortuna e tem muitos amigos porque era um bom pagador de contas. Se enfiou em questões amorosas, revelando-se extremamente ingênuo.

Mas um horror de família mesmo é a do Coqueiro. É puramente interesseira. Para eles tudo é mercadoria passível de troca. Nesse sentido, a melhor mercadoria de que dispunha era a sua irmã, que rendeu o pagamento de todas as despesas da pensão, sua reforma, mobílias, além de uma casa em Laranjeiras. A situação foi se agravando na exata dimensão da ambição de Amélia e de Coqueiro. Enquanto isso, madame Brizard ficava na retaguarda, articulando tudo.
Dados biográficos de Aluísio Azevedo.


Amâncio consegue passar nos exames do primeiro ano de seus estudos e resolve visitar a mãe, que enviuvara, na sua cidade natal. Amélia não o permite e Coqueiro trama para que ela não ocorra. Coqueiro, através de um advogado chicaneiro consegue reter o estudante no Rio de Janeiro, mas ao final de três meses ele será absolvido. O crime de que é acusado foi o de ter seduzido a irmã do Coqueiro. O caso ganha repercussão e, especialmente, o mundo estudantil toma o partido de Amâncio, que passa a ser celebrado em rumorosas  festas.

Coqueiro se arma do revólver, herdado do pai, e, após a fonte de seus pagamentos ter secado, hesita entre o suicídio e o homicídio, optando pelo segundo. Mata o jovem estudante no hotel em que este estava hospedado. Coqueiro irá a julgamento e mais uma vez o povo e a mídia tomam partido. Só que desta vez, cada vez mais, em favor do assassino. O romance termina com Dona Ângela vindo ao Rio de Janeiro, quando fica sabendo da morte do dileto filho.

Eu li a edição da Ateliê Editorial. Esta edição tem apresentação e notas de Marcelo Bulhões. O que o livro tem de especial é uma nota do próprio escritor - Antes de principiar -. É interessante ver, porque houve uma interrupção na publicação dos capítulos finais, enquanto ainda era um romance de folhetim. Teriam sido mudanças de posicionamento? O texto de introdução, com o título Jornalismo,Crime e Ficção Naturalista: A Escrita de Casa de Pensão, traça um belo paralelo entre o jornalismo e a literatura. O romance fazia esta trajetória do jornal ao livro. E que livro!


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

50 anos em 5 meses. Para trás.



Hoje, 2 de dezembro será lançado o livro "A Luta continua- Crônicas da resistência" na cidade de Curitiba. O livro tem apresentação da senadora uruguaia Lucía Topolansky, esposa do ex presidente José Mojica e um belo poema de Fernanda Takai. Depois seguem em torno de oitenta "crônicas da resistência".  Compareço com um texto, buscando as raízes históricas do nosso processo de formação e o comportamento de nossas elites, pouco imbuídas de um espírito democrático e republicano. Segue o texto.

50 anos em 5 meses. Para trás.


Escrevo simultaneamente à votação do processo de impedimento da presidente Dilma. Estou tomado por um profundo sentimento de indignação e asco. Mais que uma análise, faço um registro para a história. 31 de agosto de 2016. Escrevo como um personagem vivo e consciente e esta é a razão da minha indignação. Como a análise é inevitável, começo apresentando duas características da elite brasileira: o seu caráter escravocrata e predador, espírito bandeirante.
O livro foi lançado oficialmente em Salvador no dia 25 de novembro. Hoje, 2 de dezembro ocorrerá o seu lançamento em Curitiba.


Joaquim Nabuco nos alertava que não bastava abolir a escravidão. Também a sua obra deveria acabar, porque ela corrompia todas as instituições. O caráter predador, bandeirante, é aliado da escravidão, inclusive a indígena. 

Sob estas características não se constrói uma nação. Pioneiros tem zelo e visão de futuro. Bandeirante pensa em rapina, em lucro fácil. A ideia da sucessão das gerações não passa pela cabeça. Uma grande nação se constroi com um mercado interno forte, com justiça nas relações sociais e com sentimento de pertencimento.

Aliado ao caráter escravista-predador está o caráter golpista. Cada vez que o poder político contraria os interesses desta elite, ela recorre ao golpe de estado, em suas mais diferentes formas.

De 1930 a 1985, quando os alicerces da nação foram construídos, vivemos duas longas ditaduras e uma tentativa de golpe a cada três anos. Com a Constituição de 1988 vivemos a mais longa experiência democrática. Uma Constituição generosa e cidadã, porém jovem e frágil.

As teorias do neoliberalismo encontraram na elite brasileira terra fértil para germinar. A selvageria do livre mercado mata a ideia de futuro. A obtenção do lucro é contada em minutos e segundos. É o império do capitalismo financeiro, implantado no Brasil por FHC. Segundo ele o Brasil, não mais era uma nação, mas um mercado emergente.

Os resultados sociais foram devastadores e em 2002 o povo reverteu este quadro. Grandes avanços vieram: valorização do salário mínimo, uma previdência possível, expansão das ofertas na educação e cor de povo dentro da universidade. Políticas de complementação de renda riscaram o Brasil do mapa da fome.

A democracia mexeu na base da pirâmide social e este movimento gerou o ódio à própria democracia. Para a elite, ela deve apenas garantir a ordem da propriedade e do lucro predador e não os direitos sociais. Era uma democracia subversiva.

O limite de tolerância da elite foi estabelecido para as eleições presidenciais de 2014. Para isso todo um clima foi preparado. Este começou com a criminalização seletiva do mensalão, e com a manipulação midiática do junho de 2013. O JN transmutou uma pauta municipal em nacional e a popularidade da presidente despencou, mas não o suficiente para derrotá-la.

A história se repete. Vence, mas não governa. A crise será o grande cenário do golpe. Alianças se formam num tripé invencível, assim definido por Jessé Souza, em Radiografia do golpe: “É a articulação desses três elementos principais – mídia venal, Congresso reacionário e comprado e a fração mais corporativa e mais moralista de ocasião da casta jurídica – que municiou [...] o golpe. Esses três atores trocam vazamentos ilegais e todo tipo de ilegalidade antidemocrática com tanta habilidade como o time do Barcelona troca passes”.

Ainda de acordo com Souza, Lula - o campeão das políticas de combate à desigualdade rivaliza em popularidade com Sérgio Moro - o campeão da moralidade seletiva de ocasião.

Os golpistas venceram. "Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo [...] se desencadeiam sobre mim”. Venceram para quê? Para que o lucro imediato prevaleça sobre o trabalho como instrumento de cidadania e de nacionalidade para instaurar novas formas de trabalho escravo pela sua precarização.

Venceram para que as riquezas brasileiras sejam drenadas em favor dos interesses do grande capital, a começar pelo petróleo. O pré-sal, cujos royalties financiariam a educação brasileira, será integralmente destinado aos apetites do capital internacional. Venceram para acabar com as políticas de estado na construção da cidadania, para em nome da austeridade, todo o dinheiro arrecadado pelos impostos, seja destinado apenas para a pequena elite do topo da pirâmide social.

Com a vitória os golpistas já se apropriaram do lema 50 em 5 - de JK. Voltamos 50 anos atrás em apenas cinco meses de governo interino. E o que acontecerá com a efetivação desta malta golpista no poder? Substituirão um governo voltado para políticas públicas de construção cidadã, pela instituição de um estado de repressão social, uma vez que novas formas de trabalho escravo, aliadas ao lucro predador do capitalismo financeiro, são absolutamente incompatíveis com a ordem democrática.

Resta-nos a memória. Assim como a Alemanha se reconstruiu e se tornou mais democrática do que era, ao não esquecer os inomináveis crimes do nazismo assim devemos nós, pela nossa organização coletiva, perpetuar na memória os golpistas de plantão deste final de agosto de 2016.

Dias após a escrita do texto vi estes números significativos fornecidos pelo IPEA, que mostram a perversidade desta elite. Querem ganhar tudo, apenas eles. Entre 2003 e 2011, as classes D e E diminuíram de 96,2 milhões para 63,5 milhões. As classes A e B cresceram de 13,3 milhões para 22,5 milhões e a classe C saltou de 65,8 milhões para 105,4 milhões. Confirmou-se assim a expressão de Márcio Pochmann, que os pobres subiram pela escada, mas os ricos ascenderam pelo elevador.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Memórias de um sargento de milícias. Manuel Antônio de Almeida.

Depois de uma incursão na literatura universal, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, marcou a minha volta à literatura brasileira. A edição lida é da Penguin & Companhia das Letras, com um belo prefácio de Ruy Castro. Ao final aparece ainda uma cronologia da vida e obra do autor.
Memórias de um sargento de milícias. Edição da Penguin&Companhias das Letras.

Manuel Antônio de Almeida teve uma vida muito curta, fato que o impediu de ter uma vasta obra literária. Creio que podemos afirmar, sem medo de errar, que o escritor escreveu por necessidade. Ele precisava de sustento material, depois de precoce orfandade. Sua iniciação se deu pelo jornalismo. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1831 e morreu, por afogamento, em naufrágio numa viagem do Rio de Janeiro para a cidade de Campos, em 1861, com apenas 30 anos.

O livro foi escrito sob a forma de folhetim ao longo do ano de 1854 e, em livro, ainda em 1854 o seu primeiro volume e, no ano seguinte, o seu segundo volume. Apesar de forte apelo de que a edição estava se esgotando rapidamente, ela encalhou quase que por inteiro. Uma segunda edição apareceu apenas após a sua morte. Posteriormente foi juntada em um único volume. O autor foi um dos pioneiros tanto no jornalismo, quanto na literatura. Por sua mão é que Machado de Assis chegou ao jornalismo.

O que esperar de um escritor que escreve o seu romance aos 20 anos de idade? Faço esta pergunta não para lhe tirar os méritos mas, ao contrário, para afirmá-los. Manuel Antônio é um precursor, como veremos. Eu particularmente fiquei impressionado com a qualidade do narrador. Lembrando que a obra apareceu sob a forma de folhetim. Certamente é por isso que ela está dividida em pequenos capítulos, 48 no total. O narrador é um guia seguro que não te deixa em dúvida sobre as ações e intenções dos principais personagens.

Na época prevalecia a escola romântica, mas ele já é visto como um precursor do naturalismo, do romance de costumes, do romance de malandro. Leonardo, o sargento de milícias, é apontado como uma espécie de primeiro Macunaíma. Isso é falado com a autoridade qualificada de um Antônio Cândido. Ruy Castro aponta para o emprego pioneiro da palavra bossa. Isso mereceu destaque na contra capa da edição da Penguin & Companhia das Letras. "O menino tinha a bossa da desenvoltura, e isto, junto com as vontades que lhe fazia o padrinho, dava em resultado a mais refinada má-criação que se pode imaginar". Conseguiu enxergar também o pré Macunaíma, na citação?
Dados biográficos do escritor.
Na citação já encontramos dois dos principais personagens. O menino e o seu padrinho. Mas a história começa com o pai do menino, também Leonardo, Leonardo pataca ou ainda Leonardo patacão e com Maria da hortaliça. Eles se encontraram no navio que os trazia para o Rio de Janeiro, vindos de Portugal, e, em função de uma pisadela e um beliscão ao longo da viagem, nascerá o menino Leonardo, que se transformará no sargento de milícias da história. Isso "era no tempo do rei", a famosa primeira frase do romance. Esse dado nos ajuda a contextualizar o tempo e o espaço de seus personagens.

Maria não era muito afeita a questões de fidelidade e sentiu saudades de sua terra, voltando a ela. Leonardo fica entregue aos cuidados do padrinho, barbeiro por profissão, que muito se afeiçoa ao menino, que desde pequeno já carregava o demo no corpo. Essa era a opinião generalizada da vizinhança. Naquele tempo os barbeiros também eram cirurgiões, responsáveis pelas sangrias. Um entre parêntesis. O pai de Cervantes também fora cirurgião barbeiro. Numa viagem de navio o seu capitão morre após a aplicação de sangrias, mas não antes de lhe confiar o tesouro de moedas que consigo carregava.

Boa parte do livro está reservado às travessuras de Leonardo, que contava com a cumplicidade de seu padrinho, aquele que lhe deu a "má criação", e também de sua madrinha, que fizera o seu parto. Travessuras do pai, e depois também do filho, envolvem um outro personagem na história. Um personagem bem pitoresco do Rio de Janeiro imperial, o major Vidigal. Ele era a autoridade. Ele será o responsável pelos 'curativos' em Leonardo, mas que também será o seu grande protetor, em função de um outro acontecimento, em que entra na história uma tal de Maria Regalada.

Entre as travessuras do menino também figuravam os namoricos e as suas implicações. Ao final as histórias vão se fechando. Leonardo casará, em função de uma série de conveniências, com Luisinha, a sua primeira namorada, agora já viúva. Mas havia um impedimento. Leonardo se tornara um granadeiro da polícia, pela mão de Vidigal, mas a sua função como soldado na tropa de linha o impedia de casar. Nada que Vidigal, em função de reatamento amoroso antigo, com a tal da regalada, não conseguisse resolver. Assim, "podia ficar ele (Leonardo) sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as milícias". Eis o Sargento de milícias, cujas memórias são contadas neste belo livro.

Eita brasilzão! Mas isso "era no tempo do rei". Que venha Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter.