quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Elis. O documentário de Hugo Prata.

Fui  ver o documentário de minha conterrânea, Elis, e já na primeira cena fui acometido de uma profunda nostalgia. Ela vinha, junto com o seu pai, em um ônibus rodando pela estrada que a levaria de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, em busca da realização de sua carreira. Mais ou menos na mesma época, pela mesma estrada, eu vinha, sozinho, até Curitiba, também em busca de trabalho, na qualidade de professor. Além do Rio Grande do Sul, tenho em comum com Elis, o ano de 1945, como o ano do nascimento.
Cartaz promocional do filme. Andreia Horta interpreta Elis.

Enquanto eu me firmava no norte do Paraná, mais precisamente em Umuarama, Elis se firmava, primeiramente no Rio de Janeiro, depois em São Paulo e depois pelo mundo inteiro. O documentário sobre Elis Regina mostra esta sua trajetória de venturas e desventuras, até chegar à condição de maior cantora do Brasil e ser reconhecida por todo o mundo. Mas o seu começo não foi nada fácil.

Nas primeiras tentativas esteve acompanhada pelo olhar atento e protetor do pai. O dinheiro trazido era curto e o novo custava a entrar. O pai volta a Porto Alegre, a filha fica no Rio de Janeiro. Os primeiros contatos ocorrem com Ronaldo Bôscoli e Miéle. A veem com um certo desdém, como uma menina de voz boa mas totalmente desajeitada. Depois de algumas aulas de trabalho corporal, Bôscoli a chama de Hélice Regina pelo exagerado movimento de seus braços. Também a  qualifica como uma cantora de churrascaria.

Depois de algumas apresentações no Rio e em São Paulo o sucesso lhe vem pela televisão. Com Jair Rodrigues apresentará o programa O Fino da Bossa. Se aproxima mais de Bôscoli e de Miéle, que passam a dar algumas orientações em sua carreira. Observam que ela não poderia continuar se apresentando ao lado de um artista que plantava bananeiras no palco. O programa já sofria forte concorrência de um outro programa, o da Jovem Guarda.

Esse tempo também marca a passagem de Elis - da Bossa Nova para a Música Popular Brasileira, com toda a polêmica do uso, ou não, da guitarra elétrica. Este também é um tempo em que Elis se profissionaliza completamente, cuidando da construção de sua imagem, ficando muito mais bonita. Aí começa a atrair os olhares de um cara que namorava todas as meninas do Rio de Janeiro, Nara Leão em particular. Trata-se de Ronaldo Bôscoli. Logo, logo, Elis estará casada com ele (1967-1972). Ciúmes e gênio marcam a brevidade deste casamento.

Outro foco será a carreira internacional da atriz. O palco das grandes estrelas do mundo da música  também será o seu palco de triunfos. As grandes capitais da música se renderão à sua voz e ao seu talento. É também tempo de entrevistas, sempre sob o olhar atento de seu empresário, mas este não consegue conter a espontaneidade de suas falas. Na Itália falará da ditadura militar, chamando os seus comandantes de gorilas.

Na volta terá que prestar contas. Para não sofrer implicâncias maiores terá que se apresentar em solenidades militares. Se livra assim dos chamados gorilas, mas não de seus amigos pessoais. Compra uma enorme briga com Henfil, para quem, em duas oportunidades procura dar explicações, sem ser ouvida. Esta questão envolvendo militares e o Henfil é um dos pontos altos do filme. Também é tempo de novos amores e um novo casamento, agora com César Camargo Mariano (1973-1981). Se gostam muito. Mas Elis era terrível. Era a Pimentinha. Gênio forte. A relação traz muitos sofrimentos, bebida e droga e, também um final.

Elis entra em profunda crise existencial. Em novas cenas é mostrada a sua briga com a indústria fonográfica. Esta preocupada em vender e ela preocupada com a arte. Reclama da absoluta falta de liberdade. Este é outro ponto notável do filme. O remédio para as suas crises vem em doses diárias, cada vez maiores, de álcool e droga, - aquela que fazia Aldous Huxley escrever. Enquanto ela vivia o auge de sua carreira, esta será interrompida no dia 19 de janeiro de 1982, quando o Brasil é surpreendido com a morte de sua maior cantora, por uma overdose. Foi sensível demais para suportar as dores do existir. 

A crítica foi implacável com o documentário. Apenas a parte musical foi elogiada, como também a interpretação de Andreia Horta, no papel de Elis. A crítica não perdoa o estilo mini série do documentário, o estilo rede globo de televisão. Para a maioria deles não existem aprofundamentos em nada e muitas cenas permanecem meio inconclusas. Ainda segundo a crítica, quiseram mostrar tudo e este tudo ficou apenas na superfície. Seria apenas uma introdução para uma futura mini série e uma mera introdução à vida da grande artista. Ela teria merecido coisa bem melhor.

Como eu não sou um especialista, nem em música popular brasileira, nem das técnicas do cinema e, ainda mais, por conhecer pouco da própria vida da artista, devo dizer que eu gostei muito, confessando ainda, que saí do cinema com um gosto meio amargo das dores da existência. Creio que o momento político atual do Brasil contribuiu para isso. Sempre se tramaram e se tramam golpes contra o povo.

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