sexta-feira, 27 de março de 2015

Uma História Comestível da Humanidade. Tom Standage.

Na esteira de Memórias Gastronômicas e de Pequena História da Culinária de Alexandre Dumas, comprei também, na promoção da Jorge Zahar, Uma história comestível da humanidade, de autoria de Tom Standage. Se o livro de Alexandre Dumas está cheio de humor e de ironia, o livro de Standage não tem nada disso, pelo contrário, é um livro de história e é um livro escrito com toda a seriedade. O autor é editor de negócios e tecnologia da revista The Economist e comentarista da Rádio BBC. Boas credenciais.
Logo depois da leitura desta preciosidade de um humor refinado, continuei com o tema do alimento.

Ao final do livro, nos agradecimentos o autor fala de seu livro sobre alimentos, e adverte que ele nada tem a ver com o prazer de comer. "Em matéria de livros sobre comida, este é incomum porque fala muito pouco sobre sabor ou sobre o prazer de comer". Ao mesmo tempo, diz que muito da concepção do livro surgiu com colegas e amigos, enquanto desfrutavam deste prazer do comer.  Mas já na introdução, a natureza do livro está descrita: "Este livro contempla a história de uma maneira inteiramente  diferente: como uma série de transformações causadas ou influenciadas pela comida", e não datas, fatos ou impérios.
Um outro título para este livro poderia ser: Como o mundo foi se estruturando através dos alimentos.

O livro divide-se em seis partes e doze capítulos. A primeira parte do livro é destinada aos fundamentos da civilização, sobre as origens da agricultura e aos três alimentos básicos dos primórdios da humanidade: o milho, o trigo e o arroz. A história de cada um ganha uma descrição. Também a sequência entre os caçadores e coletores é confrontada com a agricultura. A agricultura é apresentada como antinatural, pois ela representa uma intervenção humana na natureza, em proveito do ser humano.

A segunda parte trata do alimento e as suas influências sobre a estruturação da sociedade. Vai desde a estrutura igualitária da sociedade de coletores e caçadores até o surgimento de coeficientes de poder, com a agricultura e a sedentarização. Desse espírito nômade, aponta, é que teria surgido a ideia do bom selvagem, homem igualitário, presente em Marx e Engels. Não surgiram apenas estruturas de poder, mas com a agricultura e, especialmente, com a irrigação surgiram os primeiros homens com muito poder. Com a sedentarização surgiram também os fatores de sedimentação social, através dos mitos e da religião, visando o reforço da ordem social.
A evolução do milho. Um dos mais importantes alimentos de todos os tempos. Originário de México.


A terceira parte do livro já é dedicada às especiarias, que deveriam ter sido algo realmente muito especial. Elas estão presentes, desde o tempo dos gregos, de Roma e de Alexandria. Pelo seu valor, desde cedo, ganharam notoriedade e passaram a ser usadas como meio de pagamento de tributos. As especiarias estão ligadas aos capítulos tradicionais das navegações e dos descobrimentos marítimos. As especiarias foram as grandes responsáveis pelo semear de grandes impérios e, a semelhança das grandes riquezas de hoje, causaram muitas desavenças e guerras. É sintomática a frase de Voltaire, datada de 1756. "Depois do ano 1500 não se encontrava em Calicute nenhuma pimenta que não estivesse tingida de sangue".

A quarta parte é destinada à análise do período da industrialização e aos novos alimentos que possibilitaram a urbanização, como a batata. O autor faz uma arguta observação sobre o período das navegações, quando circularam plantas, animais, pessoas, doenças e ideias. A batata tem toda uma história particular a ser contada, desde uma planta amaldiçoada, por não constar das plantas bíblicas, (haja ignorância!) até a grande saciadora da fome dos povos europeus e a causadora das mais violentas fomes, quando do surgimento de pragas em seu cultivo. Com a industrialização e a readequação da agricultura como consequência, surgiu também uma nova estruturação da sociedade.
Este quadro bem nos dá uma ideia da importância dos alimentos nas guerras. Fator decisivo.


A quinta parte é dedicada aos alimentos e o seu emprego como arma, ou então, o impacto dos alimentos sobre as guerras. Gostei muito deste capítulo. É feita a abordagem de como fazer as guerras e alimentar os exércitos e também os seus impactos sobre a estratégia militar. Ganham destaque as guerras napoleônicas, a Guerra da Secessão e as duas guerras mundiais, além do abastecimento de Berlim, já no contexto da guerra fria. Ainda neste mesmo contexto é mostrada a industrialização dos alimentos, o seu enlatamento, visando uma maneira mais fácil para o seu transporte.
O açúcar, um dos produtos que mais impactou a organização da sociedade e o mundo do trabalho.

A sexta parte também é muito interessante e atual. Trata da alimentação dentro da perspectiva do rápido crescimento populacional. Aí passam a ser tratados os temas mais atuais e candentes, como a fertilização dos solos, o uso dos venenos no combate às pragas, a questão dos transgênicos e  o uso dos recursos hídricos. Outros dois temas também tem uma abordagem especial: a coletivização das fazendas agrícolas, sob o domínio de Stálin e de Mao, sob os regimes comunistas. Período de milhares de mortos em função de uma ideologia. Pelo currículo do autor, devem ter percebido, a sua vinculação com o liberalismo. Mas independente disso, foi um período de terror e até de canibalismo, para saciar a fome. A China e a Índia, enquanto os países mais populosos do mundo, ganham uma análise especial sobre a sua revolução agrícola.
Tom Standage, o autor do livro. Visões plurais e múltiplas para a melhor compreensão de um tema.

O Epílogo é destinado ao armazenamento das sementes. Elas merecem toda a segurança e cuidados, como as grandes preciosidades do futuro da humanidade.  Gostei. Tenho comigo uma frase de Saramago: "Para conhecer há que dar a volta". Em outras palavras, para conhecer é preciso ver a mesma realidade sob diversos ângulos e perspectivas diferentes. É isso que esse livro faz. E com isso ajuda a melhorar a compreensão da história.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Os Deficientes Cívicos. Milton Santos.

Em meus arquivos encontrei este precioso texto do geógrafo, professor da USP, Milton Santos. Este artigo foi publicado pela Folha de S.Paulo, no dia 24 de janeiro de 1999. Eu o usei em sala de aula à exaustão. Ele faz uma análise da educação em tempos de Globalização. A globalização foi um dos grandes temas do final de sua vida. Os resultados da educação em tempos de globalização foram desastrosos. Formou verdadeiros deficientes cívicos. Como Milton Santos morreu em 2001, este artigo também pode ser considerado como uma de suas despedidas da vida. Vejamos.

Os Deficientes Cívicos.

O artigo do professor Milton Santos. Os deficientes cívicos seriam o resultado do processo educacional sob os valores da globalização. A competição substituiu a solidariedade.


"Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações.

Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo.

O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na ideia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente.
Uma formação plena se daria pelo equilíbrio entre a formação filosófica e a formação para o trabalho.


Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da ideia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçada em uma solidariedade cada vez mais sofisticada.

As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo.

Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro). Daí, os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas de mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essa as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente  como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie.
O professor Milton Santos foi exilado político durante a ditadura militar. Na volta, professor na USP.


A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador.

Em tais circunstâncias, a ideia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade. O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo do "salve-se quem puder", do "vale tudo", justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada.

É nesse campo de forças e a partir desse caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho com a busca do saber prático.
A globalização foi tema que muito preocupou o grande estudioso. Ela poderia ter efeitos perversos.


Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto que é preciso formar os estudantes  para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania  a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma  instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.

Daí a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e a educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a acumulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos.
Já os gregos se preocupavam a formação integral do ser humano. Um dos mais belos livros sobre a educação.  O homem -"Constituído de modo correto e sem falhas, nas mãos, nos pés e no espírito".


É a própria realidade da globalização - tal como é praticada atualmente - que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram ideias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos - os ideais de universalidade, igualdade e progresso -, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, cometa o processo de formação das novas gerações".

segunda-feira, 23 de março de 2015

Alexandre Dumas. Pequena História da Culinária.





O livro de Alexandre Dumas sobre a história da culinária inicia contando sobre as suas origens, coincidindo com os períodos e povos que conhecemos pela história, pela religião e pelos mitos. Assim mostra Eva e Perséfane como os primeiros exemplos da gula e lamentando as consequências, especialmente da de Eva, já que a da outra, só ela mesma se prejudicou. “Sua punição foi mais grave, tendo se estendido a nós, que não a suportamos mais”. Azar nosso e coitada da Perséfane, teve que pagar sozinha.
Dois livros em um só. Memórias Gastronômicas e Pequena História da Culinária.

Também os personagens bíblicos Esaú e Jacó estão arrolados, passando-se depois a contar sobre as primeiras maneiras de comer e sobre as iguarias das cozinhas dos diferentes povos, como a dos egípcios, gregos e romanos. Com os povos bárbaros tudo parecia perdido. Veja a respeito: “As incursões das hordas bárbaras, que duraram cerca de três séculos, lançaram uma noite profunda sobre a civilização antiga”. Tudo parecia perdido pois, “quando não houve mais cozinha no mundo, não houve mais literatura, não houve mais inteligência cultivada e perspicaz, não houve mais inspiração, não houve mais ideia social”. 

Dumas observa que em Roma houve duas brilhantes civilizações: “A sua civilização guerreira e sua civilização cristã. Depois do luxo de seus generais e imperadores, teve o de seus cardeais e papas”.  Volta ao tema dos bárbaros, constatando que felizmente eles não acabaram com tudo, pois “os mosteiros haviam permanecido como locais de refúgio para as ciências, artes e tradições da cozinha”.
Segunda parte do livro. O humor continua entranhado com a história. Uma leitura muito agradável.

As suas pesquisas continuam sobre o surgimento de toalhas e guardanapos, talheres e vidro, constatando que as facas são anteriores aos garfos, devido a sua maior utilidade. No capítulo sobre as especiarias, raras e preciosas, é relatado um fato extremamente relevante. Conta-se que um abade tinha um favor imenso a pedir ao rei Luís, o jovem, e fez com que o seu pedido fosse acompanhado com cartuchos de especiarias. Dumas ainda observa que o termo se preservou, passando a significar os presentes que se davam aos juízes. Especiarias - em espécie, sempre sobra alguma semelhança.. Sob Luís XIV o café ganhou importância e passou a ser “o diamante da sobremesa”.
O livro vem acompanhado de belas ilustrações. Boa comida sempre esteve ligada a poder.

Dumas conta também a história dos cabarés, das tabernas e dos restaurantes. Nas tabernas se vendia comida e nos cabarés era vendido o vinho. O cabaré chegou a ter uma definição muito peculiar: “É um lugar onde se vende loucura engarrafada”. Aliás, a forma de se vender o vinho também passa pelas anotações do grande escritor. As garrafas só apareceram na França ao longo do século XIV, sendo antes usadas as ânforas. O primeiro restaurante apareceu em Paris, em 1765 com os seguintes dizeres à sua porta: “Venites omnes, qui stomacho laboratis, et ego restaurabo vos”, que traduzido significa o seguinte: “Venham todos que trabalham com o estômago, e o restaurarei”.

Antes dos restaurantes a comida era servida nos albergues e era difícil conseguir porções individuais, até que “surgiu um homem de talento”, observa espirituosamente, que empreendeu uma nova criação, a partir de uma observação simples: “compreendeu que, se um freguês havia se apresentado para comer uma asa de galinha, outro não podia deixar de se apresentar para comer a coxa”.  
Nas obras de gastronomia de Alexandre Dumas o humor merece grande destaque.

Fornece ainda uma receita de sucesso para os restaurantes: “a variedade dos pratos, a estabilidade dos preços e o cuidado dedicado ao serviço”, estando a qualidade em primeiro lugar. Aponta ainda que os restaurantes existiam em maior número em Paris e em São Francisco e se espanta com um cardápio de um restaurante chinês nesta cidade, que tinha em seu cardápio sopa de cachorro, costeletas de gato, assado de cachorro e ratos na brasa. É, cozinha também é uma questão cultural.

O livro termina com uma série de novas receitas, incluindo entre elas a de D’Artagnan. Estas receitas foram retiradas do Grande dicionário de culinária. Também existem receitas para fazer molhos. Quem se habilita?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Alexandre Dumas. Memórias Gastronômicas.




Quem me levou a este livro foi o nome de Alexandre Dumas, somado a uma promoção da editora Jorge Zahar. Dumas é mais conhecido pelos seus romances como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo,  mas praticamente não houve um único tema sobre o qual ele não tenha escrito. Também a culinária e a gastronomia fizeram parte de seus escritos e, diga-se de passagem, com que propriedade. Fiquei imaginando como é que ele fazia as suas pesquisas.
O belo livro de Alexandre Dumas. É história, é gastronomia e, acima de tudo, muito humor.

Um dos hábitos que conservo dos tempos de professor é o de sempre situar e datar os personagens ou os fatos a serem estudados e a partir daí fazer uma contextualização da época. Assim tudo fica mais fácil. Alexandre Dumas nasceu na França em 1802 e morreu em 1870. Viveu, portanto, logo após o evento da Revolução Francesa e o advento de Napoleão Bonaparte. Um tempo bem agitado.

A sua vida também era bem agitada  e, seguramente, mereceria a leitura de uma boa biografia. Viveu tempos de fartura e de penúria. Creio que não é errado afirmar que levou uma boa vida de burguês, senão o tema da gastronomia não o teria interessado a ponto de pesquisar e escrever sobre ela. Já não sei, após a leitura do livro, se o hábito da boa mesa é algo inerente aos monges ou aos burgueses. Na dúvida, digamos que é dos dois.
Dumas é muito mais conhecido pelos seus romances do que pelos seus livros de culinária.

O livro, na verdade, são dois livros. Observemos o título – Memórias Gastronômicas – seguido de Pequena História da Culinária. O tema mereceu ainda outro livro seu, o Grande Dicionário da Culinária. Creio nem ser necessário dizer que a sua leitura é uma tarefa agradável, pois a gastronomia implica em gente reunida e, gente reunida remete à alegria e ao humor. Farei alguns destaques do livro das memórias. Em outro post falarei da história.

A primeira passagem que destaco é um lamento seu sobre a mercantilização de tudo, numa época de revoluções burguesas. Assim os gourmands estão desaparecendo mais depressa do os próprios poetas. Não há mais emoção, só negócios. “Em nossos dias, ó profanação! Assistimos à venda no varejo das mais célebres caves parisienses. Aqueles mesmos que as haviam criado, preciosos empórios da alegria, da verve, do espírito, em suma, do amor dos homens, eles próprios introduziram nas caves a figura do provador – triste comensal que degusta os vinhos sem os beber, apenas para determinar o preço a ser cobrado por eles”. A partir daí o lamento se intensifica:
Tem cara de bom gourmet. Alexandre Dumas 1802 -1870. Uma vida atribulada. Merece a leitura de uma boa biografia.

“Simplesmente para obter dinheiro, o proprietário mandava vender os bons vinhos – o licor divino destinado aos amigos, aos poetas, às pessoas interessantes, às doces alegrias do lar! Dinheiro para substituir sorrisos, amáveis olhares, esperanças quase realizadas, lábios amorosos suavemente umedecidos!”.  Acho que todos nós continuamos com o justificado lamento de Dumas.

Anotei outra passagem de refinado humor, envolvendo Luís XV e o período da Regência: “Ele (o príncipe) e sua amante, filha do contratador Pléneuf, levaram quase um ano comendo o que restava de dinheiro nos cofres da França; depois, quando acabou o dinheiro, começaram a comer a própria França. Come-se muito, portanto, sob a regência do príncipe, mas não se comeu bem”. Me parece bastante atual este humor.
Uma ilustração do livro. Boa comida sempre foi privilégio para poucos.

E por falar em humor, num enunciado sob o título de Medicina e culinária, atribui-se à alimentação dos povos as diferentes fases da medicina. Assim sob Luís XIV “engordava-se, e todas as doenças, afirmavam os médicos, resultavam dos humores”. E a medicina mandava “sangrar, purgar, clysterum donare”. E sobre isso conta-se que “Luís XIV purgava-se duas vezes por mês, o que lhe desobstruía ao mesmo tempo o estômago e a cabeça, propiciando-lhe tão bom humor que era nos dias 15 e 30, na saída do water-closets, que os solicitantes o esperavam com suas demandas. Essa medicina durou, bem ou mal uma centena de anos”.
O livro das Memórias gastronômicas, da Zahar é seguido pela Pequena História da Culinária.

No capítulo sobre as saladas existe outra constatação interessante sobre a engorda de bois. Quando eles concorrem ao título de bois gordos eles são destinados a comer capim e a tomar água. Como conclusão, nem a água e nem o verde devem ser bons para se efetuar uma dieta.
Além de relatos acompanhados de muito humor, também encontramos em meio as suas histórias algumas receitas que mostram as preferências dos famosos desta época. Em suma é um livro muito divertido. Eu volto a Alexandre Dumas com a sua pequena história da culinária.

terça-feira, 17 de março de 2015

A Vocação golpista da elite brasileira.

O Brasil, embora as suas raízes profundas, começa a existir como país moderno a partir dos anos 1930, com a chamada revolução burguesa. Por país moderno entende-se o país que deu passos acelerados em direção à industrialização e urbanização e que teve, como consequência, uma sociedade plural. Isso só foi possível quando houve a ruptura com a oligarquia latifundiária agro exportadora, com a revolução que conduziu Getúlio Vargas ao poder.
Getúlio Vargas e a formação de uma Nação moderna. Seria o maior estadista brasileiro?

A revolução brasileira não guilhotinou os latifundiários e eles permaneceram muito vivos no Brasil e continuaram como um bloco de poder muito forte. Sempre estiveram aliados ao capital internacional, que comprava os seus produtos da agro exportação e com esse dinheiro satisfaziam suas sofisticadas necessidades de consumo. Segunda a sua ótica o Brasil tinha uma vocação agrária e não necessitava de uma política de industrialização. Mais tarde se uniram em torno de um partido político, a União Democrática Nacional (UDN). Eram partidários do livre mercado, doutrina que mais tarde desembocaria no neoliberalismo.

No poder estava a incipiente burguesia nacional. Como o Brasil é um país de capitalismo, ou de modernização tardia, as forças de mercado não tinham interesses na industrialização do país. Isso teria que ser feito por políticas indutoras, de intervenção do Estado. Era o período do nacional desenvolvimentismo. O Estado assumiu para si a infraestrutura para a industrialização e havia medidas claras de favorecimento ao produto nacional. Assim surgiram empresas estatais ligadas, especialmente  à siderurgia e à energia. Estão nesse contexto as marcas do nacionalismo brasileiro com a Companhia Siderúrgica Nacional e a Petrobras. Assim como tivemos a incipiente formação de uma burguesia nacional, também tivemos a formação de uma classe trabalhadora urbana. Estas forças se congregavam em torno de dois partidos o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD).
Neste livro, Chico Oliveira constata que de 1930 a 1984 tivemos duas ditaduras de longa duração e uma tentativa de golpe a cada três anos.

Assim se formaram dois grandes blocos de poder. O dos interesses das forças derrotadas, do modelo agrário exportador aliado ao capital internacional e o bloco das forças emergentes com a revolução de 1930. O governo mantinha, para a época, um forte esquema de comunicação e de interação com a sociedade. Essas forças, com interesses antagônicos estavam em constante conflito. A democracia brasileira começou a dar os seus primeiros passos através da sua institucionalização. É, no entanto, uma democracia incipiente e frágil. Essas forças se digladiam permanentemente.  O professor Francisco Oliveira nos dá um panorama desta fragilidade, ao nos fazer um resumo do período que vai de 1930 a 1984. Ele apresenta este período como "um gato sobre brasas" e não precisa mais do que três parágrafos para descrever a onda golpista que sempre pairou em nosso horizonte. Vou transcrevê-los e dar a fonte:

"No Brasil, de 1930 até o término da ditadura militar em 1984, temos uma média de uma tentativa de golpe para cada três anos. O que é espantoso! Mostra, no lado político, o que foi o esforço, a tensão, a violência e a reacomodação entre grupos econômicos sociais e regionais. A luta fratricida entre os grupos para lograr o que é, hoje, um país diferente e razoavelmente unificado do ponto de vista da circulação e produção de mercadoria, circulação e homogeneidade do capital.
Chico Oliveira nos mostra as constantes tentativas golpistas ao longo de nossa história.

Se fizermos a conta, de 1930 até 1932, 1934, 1935, 1937, 1945 e 1947, o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade através de um golpe legal porque, no Brasil, o Parlamento também dá golpes. Em 1954, houve o suicídio de Getúlio Vargas, a tentativa de dois golpes, sendo um da marinha  e outro da aeronáutica contra Juscelino, que havia sido eleito. Antes, tivemos a tentativa de impedir a posse de Juscelino, quando Lott retrucou com um pré-golpe, passeando aqui, na Baía da Guanabara, com o vice-presidente preso dentro  de um navio. Depois houve a renúncia de Jânio Quadros; uma tentativa de golpe. A seguir, uma tentativa de impedir a posse do vice, impasse resolvido através de um acordo para a aceitação do parlamentarismo; outro golpe legal dado pelo Parlamento. Logo depois, via um plebiscito, foi restaurado o presidencialismo. Em 1964, temos o golpe civil militar. Depois vieram os golpes dentro do golpe, como em 1967, 1968, a doença de Costa e Silva com a posse da Junta Militar, o caso do general Sílvio Frota no Governo Geisel e uma distensão lenta e gradual. Uma média de um golpe para cada três anos.

Espantoso, porém, é ver essa história de um país harmônico, que resolve suas disputas da melhor forma. Quero mostrar que esse violento processo dava pouco lugar à construção da hegemonia burguesa. Nós tivemos dois golpes de estado neste período, duas longas ditaduras: a de Vargas (15 anos) e a ditadura militar (20 anos)".
Um dos livros mais conhecidos de Chico Oliveira. Nele se encontra o texto do ornitorrinco.

Essas observações de Francisco Oliveira são encontradas no livro Teoria e Educação no Labirinto do Capital, organizado por Gaudêncio Frigotto e Maria Ciavatta. O artigo de Francisco Oliveira ocupa as páginas 51 a 77 e tem por título "A nova hegemonia da burguesia no Brasil dos anos 90 e os desafios de uma alternativa democrática".

Depois disso tivemos a Constituição de 1988 e com ela estamos vivendo a mais longa experiência democrática no Brasil. As forças políticas se bipolarizaram entre o PSDB e o PT e se alternaram no poder. No governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se pregou o esquecimento da era Vargas, se chamou a nação brasileira de mercado emergente e se promoveram as privatizações preconizadas pelo livre mercado. Depois o PT ascendeu ao poder. Promoveu uma política que podemos sintetizar de "crescimento com distribuição de renda" com políticas de estado que proporcionaram um aumento do poder aquisitivo do salário mínimo, expansão do ensino superior gratuito e a instituição de políticas afirmativas e de combate à miséria absoluta e da fome. Se consolidou no poder por doze anos e venceu uma nova eleição para mais um mandato de quatro anos.
A Constituição de 1988 nos deu o mais longo período democrático de nossa história.

Uma crise econômica está em franco processo, com crescimento em baixa e inflação em alta, uma crise moral que envolve a Petrobras, a grande empresa estatal sobrevivente do processo de privatizações e uma crise política de intrigas entre o PT e a sua base aliada, especialmente, com o PMDB. Embora cada processo eleitoral fosse uma verdadeira guerra, em que as forças conservadoras contavam com o auxílio de uma mídia panfletária, entreguista e inconformada, a democracia mostrava tendências para a sua consolidação.

Mas no domingo, dia 15 de março, uma data significativa para os golpistas, uma multidão saía às ruas, pedindo o fim da corrupção e... Até aí tudo bem. Mas uma leitura mais atenta das faixas nos indicava objetivos explícitos exigindo o fim da democracia, por um novo golpe militar. O discurso da oposição política não era tão explícito assim. Em suma, as elites políticas estão tramando um novo golpe. Não suportam tanto tempo ausentes do poder maior nesse país. O futuro nos dará respostas. Nuvens cinzentas antecedem temporais. As vezes eles não acontecem. O PT está sendo vítima de um ódio de classe, muito mais pelo que ele fez de positivo do que pelos seus erros.
Quem carrega uma faixa dessas, não quer a conscientização, não quer a democracia. É golpista.


Eu tenho comigo a seguinte convicção. Enquanto o Brasil tiver riquezas significativas e instrumentos de desenvolvimento como a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal o capital internacional, somado aos partidos entreguistas e uma mídia partidarizada, não sossegarão em se apoderar desta riqueza e, depois disso, ainda sobrarão objetos de cobiça para continuarem a sua sanha golpista em favor de uma concentração de renda e de aprofundamento das injustiças sociais no mais injusto dos países.
A democracia burguesa não deve ir além da defesa da ordem proprietária. Quando ela mexe na base da pirâmide, ela passa a ser odiada.


 Jacques Rancière recentemente escreveu um livro intitulado O ódio à democracia. Nele defende a tese, que nós comprovamos com facilidade, de que cada vez que a democracia mexe com a base da pirâmide social ela provoca a ira e o ódio do andar de cima. A democracia na era burguesa deve servir apenas para institucionalizar privilégios de classe.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Roth Libertado. O escritor e seus livros.

Poucas vezes tive tanta curiosidade em ler um livro. Eu entrei em contato com a obra de Philip Roth, a partir de um grupo de leitura, organizado pelos professores do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, quando lemos A Marca Humana.  Posteriormente li outros, mas o que mais me impressionou e que me tornou curioso em torno de sua vida e de seus posicionamentos foi o memorável e arrasador O Complexo de Portnoy. A isso eu chamaria, tomando de Nietzsche, usar o martelo e destruir todo o processo de socialização e de seus valores, tanto da cultura judaica, quanto da americana.
O escritor e os seus livros. A sua vida está presente em seus livros. Uma biografia literária.

Cláudia Roth Pierpont fez um trabalho memorável ao escrever a biografia daquele que é hoje considerado como o maior escritor vivo. Ela mesmo se admira que possa ter escrito um livro tão pouco extenso, ao retratar um escritor tão intenso e uma obra tão vasta e profunda. A vida e obras são examinadas ao longo das 477 páginas do livro Roth Libertado - O escritor e seus livros. Ao todo Roth escreveu 31livros, dos quais 22 foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Apesar dos temas complexos tratados em sua literatura ele vende tanto quanto escritores de literatura fácil como Dan Brown. O que você consegue imaginar em termos de humano, está na obra de Roth.
"Parte biografia, parte ensaio, este livro é uma tentativa de entender um grande escritor por meio de sua arte". Na contracapa do livro.

Como diz o subtítulo, o escritor e seus livros Pierpont analisa todos eles, abrangendo a escolha dos temas, o seu envolvimento com eles e as circunstâncias do autor quando as produziu, bem como a sua recepção pela crítica especializada. Os seus livros são bastante autobiográficos e refletem bem o quanto a sua vida entrou e se incorporou em seus personagens. Particularmente apreciei duas citações que revelam essa relação entre o autor e a obra. Uma é de Czeslaw Millosz, que afirma que "quando nasce um escritor em uma família, a família está acabada" e Roth acrescentava que, às vezes, era até perigoso ser amigo de um. A outra é de Flaubert que diz: "Seja metódico e ordeiro em sua vida como um burguês, assim você poderá ser violento e original em sua obra". Parece que seguiu à rica essas duas frases.

Uma das pessoas mais atingidas em seus livros foi Maggie Williams, com quem foi casado. Ela ganha um livro como tema central, melhor, a relação entre eles ganha o Letting Go. Uso uma palavra de Pierpont para sintetizar a relação, "cicatrizes". Roth sempre carregou a acusação de que a sua literatura é misógina. Mas a primeira grande polêmica em que se viu envolvido foi com a questão judaica. Ele é descendente de imigrantes judeus poloneses que tiveram muitas dificuldades e que sofreram com o antissemitismo incrustado na cultura americana. São citados como notórios antissemitas, Henry Ford e o padre Coughlin. Newark, uma colônia judaica pobre, é presença constante em seus livros. Roth também nunca se deu bem os rabinos.
O livro de 1969 foi o primeiro grande êxito de público. Um livro arrasador. Possivelmente o seu livro mais importante.

O caso de Maggie o levou à psicanálise. Ficou por anos se tratando com o Dr. Kleinschmidt e lhe pagou caro, mas teve amplo retorno de seus gastos. A psicanálise lhe abriu novos caminhos na literatura. Agora ele não poupa mais nem o pai, autoritário e nem a mãe, uma superprotetora irritante. Surge o seu primeiro grande livro, que o tira de todo e qualquer atoleiro financeiro O Complexo de Portnoy. É subversão em uma época subversiva. São os famosos anos 1960. Iconoclastia pura. São vendidos 400 mil exemplares em um ano e O Poderoso Chefão perde o seu primeiro lugar como o livro mais vendido. O livro se firmou e permaneceu ao longo do tempo, passando a ser visto como uma obra clássica e não como uma relíquia.

A psicanálise o levou a implicar com a mãe e com os rabinos. Mais tarde ele acertaria as contas com o pai em Indignação. Outro livro de extraordinária repercussão foi Pastoral Americana em que complexos temas da cultura americana são retratados, mas a obra se centra na guerra do Vietnã e os efeitos que ela produziu sobre a juventude americana. Com o pai acertaria as contas mais tarde, indo para uma Universidade bem distante da casa dos pais para se ver livre da opressão paterna. E a guerra da Coreia pairava no horizonte, caso fracassasse.
Acerto de contas com o pai. Um livro já da fase final do escritor.


Um grande escritor sempre foi necessariamente um bom leitor. Roth foi um grande leitor. Admirava os americanos, com destaque para Sinclair Lewis, Hemingway e John dos Passos, mas as influências mais fortes foram as de Kafka e de Tchékhov, passando também por Flaubert e Orwell. Praticamente todos os clássicos referenciam a sua obra. Além dessas influências, a repercussão de seus livros entre a crítica especializada, é um dos grandes méritos do livro.

Quanto a sua vida pessoal, exposta sem limites, os destaques vão para as influências judaicas de sua educação familiar, para a sua formação de um cidadão americano, patriota do pós segunda guerra e para a sua rumorosa vida sexual. Se envolveu com muita gente famosa e passou por vários casamentos. Teve até um breve lance com Jaqueline Kennedy. Um de seus relacionamentos mais duradouros foi com Claire Bloom, artista famosa, que teve uma vida glamourosa com artistas não menos famosos como Richard Burton, Laurence Oliver e Yul Brynner. Estes personagens tanto fizeram parte de sua vida, quanto de sua obra. São facilmente encontrados ao longo de sua obra. A sua vida também é repleta de dor e sofrimento. Dores nas costas, próstata e problemas cardíacos também fazem parte de sua vida e obra.
Com A Marca Humana comecei a me aproximar de Philip Roth, o maior escritor vivo do mundo.


O último capítulo do livro é bastante revelador. Mostra um Roth vivo, ainda profundamente envolvido com a escrita, mas não mais com a ficção. Cartas, ensaios e muita leitura ocupam o seu tempo. A despedida da ficção ocorreu com Nêmesis. Neste capítulo merece destaque a repercussão e o reconhecimento de sua obra. Em 2011, ao receber a National Humanities Medal, das mãos do presidente Obama, não recebeu apenas a medalha, mas também palavras muito significativas e bem humoradas: "Quantos jovens não aprenderam a  pensar lendo sobre as façanhas de Portnoy e seus complexos?" E ainda declara que a arte americana, incluindo aí obra de Roth, foi um dos maiores "instrumentos de mudança e de progresso, de revolução e de efervescência".

Roth Libertado - o escritor e seus livros, de Cláudia Roth Pierpont é um lançamento de fevereiro de 2015, da Companhia das Letras. Uma publicação muito oportuna da editora, que assim complementa e ajuda na compreensão da obra do autor, editada quase que por inteiro pela editora. É um livro para leitores, que adoram a leitura que penetra em toda a profundidade nos mistérios do que é o humano. Ler este livro foi muito revelador e gratificante. Além de atender a minha curiosidade  também me entranhou na obra de Roth e na própria cultura americana.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Relatos Selvagens

Antes de mais nada quero confessar a agradável surpresa que eu tive ao assistir este filme Relatos Selvagens, o representante argentino na indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Fui assisti-lo nesta condição de filme premiado. Não ganhou a estatueta mas, no mínimo, mereceria um empate com o polonês Ida, que foi o vencedor.  Certamente a preferência recaiu sobre o tema do filme polonês, denso e complexo. O filme argentino é uma comédia trágica. Trágica como é o ser humano e, especialmente, as instituições por ele criadas.
 Seis pequenas histórias que expõem o ser humano a situações limite. Ele é capaz de muita maldade.

Antes mesmo de o filme ser apresentado já é contada uma pequena história, em que todos os passageiros conhecem um determinado estudante de música. Por coincidência todos eram unânimes em contar sobre o seu fracasso. O susto vem quando ficam sabendo que ele está no avião como um de seus tripulantes e que tem poder sobre eles. Aí começa a narrativa de mais cinco pequenas histórias, que tem em comum, uma pessoa levada aos seus limites e a sua reação. Todas tem em comum um traço de humor refinado, porém cáustico.
A garçonete conta com a ajuda da cozinheira para realizar o seu plano de vingança.
 

Na sequência das pequenas histórias aparece uma garçonete de restaurante de beira de estrada, que recebe um conviva que arruinara a sua família e, se apresenta para ela a possibilidade de se vingar, envenenando a comida. A próxima história é mais carregada, apresentando dois motoristas distintos, também com carros distintos. Um é novo e blindado, o outro é feio e velho e atrapalha o trânsito. O motorista do carrão o insulta duplamente, por classe e por raça. A situação se complica quando o carrão tem um pneu estourado. No reencontro, a tragédia está anunciada. Está aí a presença da forte crítica social.
Talvez a mais densa das histórias. Será que precisava chegar a tanto? A vingança implacável.

A quarta história é um reflexo da vida cotidiana: o trânsito, a indústria das multas e dos guinchos e a absoluta impotência diante da burocracia de um Estado inoperante. Ninguém se importa com as pessoas e os seus problemas, nem mesmo diante do aniversário de uma filha. Ele poderá dar o troco. A quinta história é a minha preferida porque ela mostra a total podridão da sociedade e de suas instituições. Talvez seja pelo momento que estamos vivendo no Brasil em que as esperanças somem do horizonte. Os pais tentam proteger o filho que cometera mortes em suas diversões. Nada que a carteira do afortunado pai não resolva. Neste processo de corrupção, ninguém se salva. Não se discute a moral, apenas as cifras. Todo mundo é corrupto, de acordo com as suas possibilidades e todos se acusam mutuamente.

A última das histórias é disparadamente a mais cômica. A cena de um casamento. Seria a família a mais desacreditada de todas as instituições da sociedade, a tal ponto que ela já não dá certo nem no dia do casamento? Uma confissão de traição possibilita cenas inimagináveis, diante de familiares e convidados perplexos. Uma vingança mais do que perfeita, para um final mais surpreendente ainda.
A mais tragicômica das histórias. Uma festa de casamento, de constituição de uma família.


Este filme nos deixa uma grande interrogação. Onde estariam os limites do ser humano? Tanto para o bem quanto para o mal. No caso específico, para o mal. Do que o ser humano é capaz? O homem parece ser, como já constatara Maquiavel, o único ser que consegue infligir sofrimento e dor a outro ser. Para isso usa o instrumento da vingança. É capaz de praticar muita violência, tanto física, quanto simbólica, psíquica e moral. Verdadeiras torturas e tormentos. Conseguirá o ser humano aplacar a voz de sua consciência? O filme deixa impressão que sim, ao mostrar que não existem limites para a maldade humana, quando ele se depara com situações limite e, o pior, ele se defronta com estes limites, elas lhe são postas e o provocam a se expor por inteiro, nas mais banais e corriqueiras cenas de sua vida cotidiana.

Além da indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro ele é também é um sucesso de público, especialmente na Argentina. A direção e o roteiro é de Damián Szifron, possui um ótimo elenco de atores e leva uma assinatura de Pedro Almodóvar na produção. Com certeza esta é uma aposta que credencia, que referencia. Uma tragicomédia sobre o humano que provoca  contrações faciais e até risos irônicos, mas não gargalhadas em estardalhaço, como eu vi na sessão em que fui assisti-lo. Quase fui levado aos meus limites.




terça-feira, 10 de março de 2015

A Memorável Greve da Educação - 2015.

Comecei tendo dificuldades para dar um título a este post, devido a sua abrangência. Se a greve se centrou na educação, envolvendo professores e funcionários, na verdade, ela envolveu todo o funcionalismo público. Por ter sido um governador irresponsável e perdulário, em dezembro, ainda no seu primeiro mandato, Carlos Alberto Richa enviou para a Assembleia Legislativa o seu pacote de maldades - para ser votado em regime de tratoraço - contra o povo paranaense em geral e contra o funcionalismo público em particular. Para todo mundo, aumento generalizado de impostos e para o funcionalismo, uma reforma na Previdência, assacando os velhinhos e impondo teto aos novos.
Muita violência e deputados no camburão. Teve de tudo nesse vitorioso e histórico movimento.

Não bastasse isso, para sanar os cofres do Estado, esvaziados pela irresponsabilidade de seu governo, um novo pacote de maldades, desta vez absolutamente inimagináveis e, de novo, sob o infame regime de tratoraço. Desta vez a mão pesada liquidaria o plano de carreira, eliminando a base, o chão deste plano, eliminaria quinquênios e anuênios, e a possibilidade de ascensões pela via do PDE e tentou, ainda, um assalto ao dinheiro de futuros aposentados, apropriando-se de seu fundo de Previdência. A sua sanha por gastos irresponsáveis fez com que quisesse se apropriar de um fundo de 8 bilhões de reais.
Na primeira ocupação da assembleia uma cena bem brasileira, de misticismo religioso.

Já na educação havia mais outras questões. Como secretário da Educação ele nomeou um gestor, com histórico do tempo das privatizações, munido de uma tesoura e com o receituário do Banco Mundial para a educação. Não importa que a qualidade da educação pública caia, desde que se faça economia, foi o bordão. Vamos instituir a racionalidade técnica nas escolas, cortando gastos, aglutinando turmas, eliminando atividades que levariam a escola para a educação em tempo integral e, eliminando pedagogos e funcionários. Havia ainda pendências da greve anterior, de promoções não efetuadas, do não pagamento do terço de férias e das rescisões contratuais dos funcionários PSS, demitidos. As aulas não começaram.

Em assembleia os educadores decidiram pela greve, que, na verdade, já tinha sido decretada no interior de cada escola. O governador Carlos Alberto conseguiu um feito inédito. No reinício das aulas, nenhuma escola funcionou. Houve a notícia de que uma única escola abrira os seus portões. (Soube-se depois que o seu diretor é filiado e militante do PSDB, o partido do perdulário governador). Montou-se um acampamento em frente ao Palácio e da Assembleia. Afinal de contas, o pacote teria que ser votado. E é nesse campo que estão as conquistas desta greve, que aliás, ocorreu, não para acrescentar dinheiro ou direitos, mas para não perdê-los. Esta história precisa ser bem contada.
Duas ocupações da Assembleia legislativa e deputados andando de camburão. Fim do tratoraço.

A primeira votação foi marcada para o dia dez de fevereiro. Uns trezentos professores estavam nas galerias e uma multidão em frente. Quando houve o anúncio de que o regime de votação conhecido como tratoraço fora aprovado, o povo ocupou (não se invade aquilo que nos pertence) todas as dependências da Assembleia e os das galerias ocuparam o Plenário. Os deputados ainda tentaram se reunir num refeitório improvisado como Plenário, mas percebendo não terem condições, encerraram a sessão. Foi a primeira grande vitória do movimento. Mas o pior ainda estava por vir, ou o melhor, dependendo do enfoque. A ocupação da Assembleia continuou. A votação do tratoraço dividiu os professores em amigos e inimigos da educação. Confira a relação:
http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/02/os-deputados-amigos-e-inigos-dos.html

O perdulário governador não se deu por vencido. Exigiu nova votação, que foi marcada para o dia 12, de novo no refeitório improvisado como Plenário. A multidão em frente se transformou num mar de gente e a Assembleia foi cercada. Todas as entradas foram tomadas pelos manifestantes. Pela tarde, um palco de guerra se arma. Uma multidão de policiais, tropa de choque e cães amestrados contra a multidão armada de espírito de luta e algumas flores para serem oferecidas aos policiais. Um ônibus camburão se aproxima em meio a uma escolta policial nunca vista. No ônibus camburão estavam - vergonha suprema - os deputados inimigos da educação. Serraram-se grades e os deputados entraram na Assembleia e preparam-se para o início da sessão.
O histórico dia 12 de fevereiro. Tropa de choque, cães amestrados e bombas. Quase uma tragédia.

Um enorme temporal toma conta com forte chuva e trovoadas. As trovoadas foram engrossadas com o espoucar de bombas de gás lacrimogêneo, de pimenta e de efeito moral. Nunca vi coisa parecida. Nunca vi destemor maior por parte dos manifestantes. A Assembleia foi novamente ocupada pelos professores e, em meio a tudo isso houve uma ordem da suspensão da votação. A vitória foi inimaginável. O dia 12 de fevereiro entrará para a história política do Paraná. O governo fora posto na defensiva.  Por algumas frações de tempo não ocorreu ali, uma tragédia de dimensões inimagináveis. Nos dias seguintes, a cada dia, se contavam novidades sobre o ocorrido e que precisam ser contadas. Fatos pitorescos, inclusive.

Deputados amigos da educação pública. Prenúncio de vitórias. Nada foi votado no dia 12.

Soube-se depois que o Carlos Alberto exigiu a votação e encarregou o homem que prendeu o Abadia de arquitetar o plano. Comédia e tragédia se misturaram. Nunca deputados passaram tanto constrangimento, de andarem de camburão. A piada pronta exigia a sua condução para Piraquara. O pânico tomou conta do cortejo e aumentou nas proximidades da Assembleia. O ônibus foi sacudido, o valentão que prendeu o Abadia correu de um desarmado professor, enquanto uma das excelências não continha seus humores intestinais e, literalmente, se borrou nas calças e o chorume malcheiroso vazou. O nome da excelência que se borrou virou um pacto de juramento de morte. Destaco duas crônicas da Gazeta do Povo sobre o tema: O pacto malcheiroso de Dante Mendonça e a Crônica da viagem do ônibus do choque, do Rogério Galindo. Obras primas do humor político.
Assembleia da Vila Capanema. Mais de quinze mil educadores presentes. A greve continua.


Mais dois importantes fatos precisam ser mencionados. A passeata dos cinquenta mil e a assembleia do dia 4 de março. A passeata, realizada no dia 25 de fevereiro, teve dois pontos de saída. O interior saiu da praça Santos Andrade, enquanto que o pessoal de Curitiba se concentrou na praça Rui Barbosa. O encontro se deu na praça Tiradentes, chegando até o Palácio Iguaçu. A assembleia precisou de um estádio de futebol, o do Paraná Clube, para abrigar quase vinte mil participantes, que votaram pela continuidade da greve. A APP-Sindicato propôs uma mediação do judiciário, como solução do impasse. A mediação aconteceu, compromissos foram firmados e nova assembleia foi convocada para o dia 9 de março, de novo na Vila Capanema.
Assembleia na Vila Capanema, 4 de março. Mais um momento da votação. A greve continua.


Esta foi a maior greve de educadores já realizada na história do Paraná. Teve forte apoio popular e até setores da mídia paranaense  passaram a apoiar. Não, evidentemente, a comandada pelo Ratinho Jr., que se postou ao lado do perdulário governador, de quem é secretário. Saiu muito chamuscado entre os manifestantes e certamente comprometeu pretensões futuras suas. Mostrou a sua identidade. Da mesma forma os deputados do bancada do camburão encontrarão dificuldades em eleições futuras e até de se locomoverem em suas bases. Como foi uma greve de resistência e não de reivindicações, o governo foi praticamente obrigado a retroceder em todas as medidas do pacotaço de maldades. Recuou nos dois pontos mais importantes que eram os de destroçar o plano de carreira e por mão grande nos 8 bilhões de reais do Fundo de Previdência e a abolição da votação pelo famoso tratoraço.  Seus índices de popularidade chegaram a níveis tão baixos, como nunca um governador do Paraná havia atingido.
A frase eternamente verdadeira. "O governador pode muito - mas não pode tudo", dizia o deputado Tadeu Veneri.


Tudo foi muito bonito de se ver e todos os que efetivamente participaram deste fato histórico saem com a autoestima extremamente elevada. "Foi bonita festa pá! Fiquei contente. Ainda guardo renitente - um velho cravo para mim". A minha individualidade se transformou num coletivo, do tamanho do Paraná inteiro.
A documentação do fato. Eu estava lá. O meu cartão, entre milhares. A greve continua.

A assembleia do dia 9 de março marcou o fim deste histórico movimento. Compareceram em torno de sete mil grevistas. O alerta ficou ligado. O estado de greve continua. O governador está sob suspeita e carece de total falta de credibilidade. Aqui a austeridade, como nova forma de acumulação de capital, ao menos desta vez, não funcionou.


sábado, 7 de março de 2015

Chiquinha Gonzaga. A Pioneira na Luta pela Emancipação Feminina.

Estou lendo um interessantíssimo livro sobre sete personagens de nossa história do Brasil. Entre estes está Chiquinha Gonzaga (1847 - 1935). Chiquinha não costuma frequentar os livros oficiais de história do Brasil, embora isso devesse ser uma exigência e, assim muitos conheceriam a história de sua vida. Ela simplesmente foi a pioneira na luta pela emancipação feminina, em tempos em que isso era praticamente impossível, mas não para ela. Como gostei da sua história e como nós estamos nos aproximando do dia internacional da mulher, resolvi lhe dedicar este post.
Antes e Depois. Um dos personagens trabalhados neste livro é Chiquinha Gonzaga.


O livro em que a sua história está inserida é Antes e Depois - Um dia decisivo na vida de grandes brasileiros, quando pequenos. O livro é um lançamento da Companhia das Letrinhas. Literatura infantojuvenil, portanto. Mas que literatura! Tem muita qualidade. A autoria é de Flávio de Souza e tem ilustrações de Daniel Almeida. A história da compositora é escrita sob a forma de uma peça teatral, uma peça biográfica teatral.

Há pouco eu terminara de ler o livro da historiadora Mary del Priore, Histórias Íntimas - sexualidade e erotismo na história do Brasil. O livro não cita Chiquinha Gonzaga mas registra todas as dificuldades que as mulheres enfrentaram na luta pela causa da emancipação feminina. Vivia-se, aliás ainda se vive, uma cultura machista, absolutamente dominadora. A mulher teria que ser submissa ao homem e as mulheres que se separavam no casamento, teriam que viver praticamente confinadas, tal a rejeição social. Com Chiquinha Gonzaga tudo foi muito diferente.
A relação de Chiquinha Gonzaga com a música começou com um piano, que ganhou quando tinha 9 anos. Aos 11 já compunha. A ilustração do livro referente a Chiquinha Gonzaga.


A narrativa da peça teatral começa em 1935, o ano de sua morte, às vésperas do carnaval. Um mestre de cerimônia nos conta os primeiros anos de sua vida. É filha de pais não casados, o pai branco (militar) e mãe mulata. Aos 9 anos ganhou o seu primeiro piano e aos 11 fez a sua primeira composição. O seu personagem aparece em cena pouco antes de sua morte, aos 87 anos e anuncia: " Realizei quase todos os meus sonhos, desejos e anseios" e continua: "Sofri e chorei, porém também fui feliz e sorri. Dei passos gigantescos, abri algumas portas para nós, mulheres, e outras ainda deverão ser abertas por novas brasileiras que virão. Conheci meio mundo, criei quatro filhos, me sustentei com meia dúzia de profissões". Aí o mestre anuncia os seus principais feitos:

Primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil; primeira mulher compositora de música popular no Brasil; autora da primeira composição musical feita especialmente para o carnaval; uma das primeiras mulheres a se separar de um marido que a traía - no caso dela - de dois maridos, para viver em liberdade, desdobrando-se para se sustentar. Foi mãe de quatro filhos e professora de piano, canto, português, francês, geografia e história e compositora de trilhas sonoras para peças de teatro musicais; foi pianista em cinemas e lojas e maestrina. Foi abolicionista na teoria e na prática, também vendia partituras próprias para arrecadar fundos para a campanha e comprar a liberdade de escravos. Foi ainda pioneira na luta pela arrecadação de direitos autorais.
A cantora e compositora Chiquinha Gonzaga e uma referência ao seu maxixe no Catete. Corta-jaca.


O Palácio do Catete também entrou em sua vida. Nair de Tefé, a primeira dama da República a convidou para se apresentar na festa de despedida do presidente Hermes da Fonseca. Na solenidade,  como não bastasse a sua figura profana, houve música popular, com instrumentos populares e um maxixe, o corta-jaca, para a indignação geral e em especial a de Rui Barbosa, em discurso no Senado: "A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de Wagner". Como podem ver, a nossa cultura tinha muito pouco de brasilidade.
A ilustração mostra a soma que se deu em Chiquinha Gonzaga. A mulher, o trabalho e a música.


Um de seus maiores sucessos foi a peça teatral Forrobodó, que a princípio ninguém queria patrocinar, mas que, após muita insistência, foi contratada para uma semana de apresentações e que, na verdade, terminou sendo apresentada mais de 1.500 vezes. Ela assistiu a peça, depois de uma tourné pela Europa, com o seu novo amor, o Joãozinho. O encontro com ele se deu, quando ela tinha 52 anos e ele 16. Isso se somou aos escândalos anteriores, como ter nascido numa família que só se casou após o seu nascimento e depois de ter despachado dois maridos que lhe foram infiéis. Com o Joãozinho ela viveu bem e feliz. A energia para as suas composições lhe vinha da pilha de contas a pagar todo mês.
Uma grande pioneira. Na luta pela emancipação da mulher, pela afirmação da música popular brasileira e pelo uso de instrumentos populares .


Chiquinha Gonzaga era uma personagem viva do seu tempo. Nunca se omitiu em nada. Ainda  lutou em favor da abolição e contra a monarquia, pela causa republicana. Foram 87 anos de vida, de desafios bem enfrentados. Se tivesse sido uma mulher comum, sequer saberíamos de sua existência. Ela foi uma mulher abre-alas, mas muitas alas ainda precisam ser abertas para que se dê passagem a um mundo de igualdade e sem preconceitos. Imaginem como seria o mundo se todos tivessem tido a coragem da grande pessoa humana que foi Chiquinha Gonzaga, uma personagem símbolo na luta pela emancipação feminina e pela igualdade e dignidade do ser humano.