segunda-feira, 16 de março de 2015

Roth Libertado. O escritor e seus livros.

Poucas vezes tive tanta curiosidade em ler um livro. Eu entrei em contato com a obra de Philip Roth, a partir de um grupo de leitura, organizado pelos professores do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Positivo, quando lemos A Marca Humana.  Posteriormente li outros, mas o que mais me impressionou e que me tornou curioso em torno de sua vida e de seus posicionamentos foi o memorável e arrasador O Complexo de Portnoy. A isso eu chamaria, tomando de Nietzsche, usar o martelo e destruir todo o processo de socialização e de seus valores, tanto da cultura judaica, quanto da americana.
O escritor e os seus livros. A sua vida está presente em seus livros. Uma biografia literária.

Cláudia Roth Pierpont fez um trabalho memorável ao escrever a biografia daquele que é hoje considerado como o maior escritor vivo. Ela mesmo se admira que possa ter escrito um livro tão pouco extenso, ao retratar um escritor tão intenso e uma obra tão vasta e profunda. A vida e obras são examinadas ao longo das 477 páginas do livro Roth Libertado - O escritor e seus livros. Ao todo Roth escreveu 31livros, dos quais 22 foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras. Apesar dos temas complexos tratados em sua literatura ele vende tanto quanto escritores de literatura fácil como Dan Brown. O que você consegue imaginar em termos de humano, está na obra de Roth.
"Parte biografia, parte ensaio, este livro é uma tentativa de entender um grande escritor por meio de sua arte". Na contracapa do livro.

Como diz o subtítulo, o escritor e seus livros Pierpont analisa todos eles, abrangendo a escolha dos temas, o seu envolvimento com eles e as circunstâncias do autor quando as produziu, bem como a sua recepção pela crítica especializada. Os seus livros são bastante autobiográficos e refletem bem o quanto a sua vida entrou e se incorporou em seus personagens. Particularmente apreciei duas citações que revelam essa relação entre o autor e a obra. Uma é de Czeslaw Millosz, que afirma que "quando nasce um escritor em uma família, a família está acabada" e Roth acrescentava que, às vezes, era até perigoso ser amigo de um. A outra é de Flaubert que diz: "Seja metódico e ordeiro em sua vida como um burguês, assim você poderá ser violento e original em sua obra". Parece que seguiu à rica essas duas frases.

Uma das pessoas mais atingidas em seus livros foi Maggie Williams, com quem foi casado. Ela ganha um livro como tema central, melhor, a relação entre eles ganha o Letting Go. Uso uma palavra de Pierpont para sintetizar a relação, "cicatrizes". Roth sempre carregou a acusação de que a sua literatura é misógina. Mas a primeira grande polêmica em que se viu envolvido foi com a questão judaica. Ele é descendente de imigrantes judeus poloneses que tiveram muitas dificuldades e que sofreram com o antissemitismo incrustado na cultura americana. São citados como notórios antissemitas, Henry Ford e o padre Coughlin. Newark, uma colônia judaica pobre, é presença constante em seus livros. Roth também nunca se deu bem os rabinos.
O livro de 1969 foi o primeiro grande êxito de público. Um livro arrasador. Possivelmente o seu livro mais importante.

O caso de Maggie o levou à psicanálise. Ficou por anos se tratando com o Dr. Kleinschmidt e lhe pagou caro, mas teve amplo retorno de seus gastos. A psicanálise lhe abriu novos caminhos na literatura. Agora ele não poupa mais nem o pai, autoritário e nem a mãe, uma superprotetora irritante. Surge o seu primeiro grande livro, que o tira de todo e qualquer atoleiro financeiro O Complexo de Portnoy. É subversão em uma época subversiva. São os famosos anos 1960. Iconoclastia pura. São vendidos 400 mil exemplares em um ano e O Poderoso Chefão perde o seu primeiro lugar como o livro mais vendido. O livro se firmou e permaneceu ao longo do tempo, passando a ser visto como uma obra clássica e não como uma relíquia.

A psicanálise o levou a implicar com a mãe e com os rabinos. Mais tarde ele acertaria as contas com o pai em Indignação. Outro livro de extraordinária repercussão foi Pastoral Americana em que complexos temas da cultura americana são retratados, mas a obra se centra na guerra do Vietnã e os efeitos que ela produziu sobre a juventude americana. Com o pai acertaria as contas mais tarde, indo para uma Universidade bem distante da casa dos pais para se ver livre da opressão paterna. E a guerra da Coreia pairava no horizonte, caso fracassasse.
Acerto de contas com o pai. Um livro já da fase final do escritor.


Um grande escritor sempre foi necessariamente um bom leitor. Roth foi um grande leitor. Admirava os americanos, com destaque para Sinclair Lewis, Hemingway e John dos Passos, mas as influências mais fortes foram as de Kafka e de Tchékhov, passando também por Flaubert e Orwell. Praticamente todos os clássicos referenciam a sua obra. Além dessas influências, a repercussão de seus livros entre a crítica especializada, é um dos grandes méritos do livro.

Quanto a sua vida pessoal, exposta sem limites, os destaques vão para as influências judaicas de sua educação familiar, para a sua formação de um cidadão americano, patriota do pós segunda guerra e para a sua rumorosa vida sexual. Se envolveu com muita gente famosa e passou por vários casamentos. Teve até um breve lance com Jaqueline Kennedy. Um de seus relacionamentos mais duradouros foi com Claire Bloom, artista famosa, que teve uma vida glamourosa com artistas não menos famosos como Richard Burton, Laurence Oliver e Yul Brynner. Estes personagens tanto fizeram parte de sua vida, quanto de sua obra. São facilmente encontrados ao longo de sua obra. A sua vida também é repleta de dor e sofrimento. Dores nas costas, próstata e problemas cardíacos também fazem parte de sua vida e obra.
Com A Marca Humana comecei a me aproximar de Philip Roth, o maior escritor vivo do mundo.


O último capítulo do livro é bastante revelador. Mostra um Roth vivo, ainda profundamente envolvido com a escrita, mas não mais com a ficção. Cartas, ensaios e muita leitura ocupam o seu tempo. A despedida da ficção ocorreu com Nêmesis. Neste capítulo merece destaque a repercussão e o reconhecimento de sua obra. Em 2011, ao receber a National Humanities Medal, das mãos do presidente Obama, não recebeu apenas a medalha, mas também palavras muito significativas e bem humoradas: "Quantos jovens não aprenderam a  pensar lendo sobre as façanhas de Portnoy e seus complexos?" E ainda declara que a arte americana, incluindo aí obra de Roth, foi um dos maiores "instrumentos de mudança e de progresso, de revolução e de efervescência".

Roth Libertado - o escritor e seus livros, de Cláudia Roth Pierpont é um lançamento de fevereiro de 2015, da Companhia das Letras. Uma publicação muito oportuna da editora, que assim complementa e ajuda na compreensão da obra do autor, editada quase que por inteiro pela editora. É um livro para leitores, que adoram a leitura que penetra em toda a profundidade nos mistérios do que é o humano. Ler este livro foi muito revelador e gratificante. Além de atender a minha curiosidade  também me entranhou na obra de Roth e na própria cultura americana.

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