quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A guerra do fim do mundo. Mário Vargas Llosa.

 Uma série de leituras sobre a América Latina me levou a Mário Vargas Llosa. mais precisamente, ao seu Conversas no catedral. Resolvi continuar com o autor, apesar de algumas ressalvas diante da posição política que ele adotou, especialmente a partir dos anos 1990, ano em que foi candidato a presidente da República de seu país, perdendo as eleições para Alberto Fujimori. Disputou a eleição abraçando as ideias do neoliberalismo. O livro com o qual me deparei agora foi A guerra do fim do mundo. É óbvio que também fui movido por toda a curiosidade que o tema de Canudos, de Antônio Conselheiro e dos primórdios da República brasileira, não tão republicana, envolvem.

A guerra do fim do mundo. Mário Vargas Llosa. Alfaguara. 2021. Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman.

Creio ser necessário dizer que já tinha lido Os sertões, de Euclides da Cunha, um livro fundamental para entender a história desse nosso tão sofrido Brasil. A principal inspiração de Vargas Llosa para escrever A guerra do fim do mundo, foi Euclides da Cunha. À árida descrição jornalística acrescentou a força e o poder da escrita proporcionada pelo romance. A primeira edição do livro data do ano de 1980, publicado após exaustivas pesquisas em bibliotecas e nos sertões da Bahia e do Sergipe, palcos desses absurdos e inexplicáveis conflitos, ao menos sob um olhar oficial de nossa história. Vejamos antes a resenha de Os sertões. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/02/os-sertoes-euclides-da-cunha.html

O Livro de Vargas Llosa é longo. Muitos personagens, dos dois lados, foram inseridos. São ao todo 606 páginas, divididas em quatro partes, sem títulos, antecedidos de um prólogo, da dedicatória a Euclides da Cunha e Nélida Piñon e de uma simbólica frase em epígrafe. No prólogo nos revela que o livro foi escrito entre os anos de 1977 e o final de 1980. A epígrafe é a seguinte: "O antiCristo nasceu - Para o Brasil governar - Mas aí está o Conselheiro - Para dele nos livrar. Lembrando que o AntiCristo é a República. Deixo ainda alguns dados de contextualização. Euclides da Cunha nasceu em 1866 e morreu em 1909. Os sertões foi publicado em 1902 e a Guerra de Canudos ocorreu entre novembro de 1896 e outubro de 1897, no governo de Prudente de Morais, após quatro expedições.

A primeira parte de A guerra do fim do mundo tem sete capítulos. Neles são introduzidos os principais personagens, como o Conselheiro, Maria Quadrado, o fantástico anarquista Galileo Gall, João Grande, entre outros. Vai até a derrota da primeira expedição. A segunda parte é formada por três pequenos capítulos, com destaque para a entrada em cena dos jornalistas, em especial para um jornalista míope, que estará presente até o final do livro.

Da terceira parte eu tomo as questões que considero fundamentais no livro, como as causas do conflito, assim expressas por Beatinho, o segundo personagem em importância, logo após o Conselheiro, ao impor a João Grande o seguinte juramento para pertencer ao grupo: " -Juro que nunca fui republicano, que não aceito a expulsão do imperador, nem a sua substituição pelo AntiCristo - recitou Beatinho, - Que não aceito o casamento civil, a separação entre a Igreja e o Estado, nem o sistema métrico decimal. Que não responderei às perguntas do censo. Que nunca mais vou roubar nem fumar nem me embriagar nem apostar nem fornicar por vício. E darei a minha vida pela religião e pelo Bom Jesus. - Vou decorar, Beatinho - balbuciou João Grande (Página 228).

Pouco adiante temos uma fala de Moreira César o comandante militar derrotado numa das expedições contra Canudos sobre as obrigações da República: "...A República tem a obrigação de se defender daqueles que, por cobiça, fanatismo, ignorância ou astúcia atentam contra ela e servem aos apetites de uma causa retrógrada, interessada apenas em manter o Brasil no atraso para melhor explorá-lo". Logo após essa afirmação ele interroga aos jornalistas presentes se  esta mensagem chegará aos moradores da vila, ao que eles respondem que "tais palavras, proferidas em voz de trovão pelo pregoeiro, passam por esses seres silenciosos, atrás das sentinelas, como mero ruído" (Página 246). Eis as razões das ofensivas republicanas.

Também está expressamente manifesto um mal que assolou e continua assolando o país, a auto convicção da missão salvacionista do país por parte do poder armado do país, o poder militar. Vejamos um diálogo do coronel Moreira César com os chefes políticos da Bahia, que traduz essa posição:

"Há uma rebelião de pessoas que não aceitam a República e que derrotaram duas expedições militares - disse de repente o coronel, sem alterar sua voz firme, seca, impessoal. - Objetivamente, essas pessoas são instrumentos daqueles que, como o senhor, aceitaram a República apenas para traí-la melhor, apoderar-se dela e, trocando alguns nomes, manter o sistema tradicional. E estavam conseguindo, é verdade. Agora há um presidente civil, um regime de partidos que divide e paralisa o país, um Parlamento onde qualquer esforço para mudar as coisas pode ser atrasado e desvirtuado pelas artimanhas em que vocês são hábeis.  Já cantavam vitória, não é verdade? Falara-se até em reduzir à metade os efetivos do Exército, não é mesmo? Que vitória!. Pois bem, estão muito enganados. O Brasil não vai continuar sendo o feudo que vocês exploram há séculos. Para isto existe o exército. Para impor a unidade nacional, trazer o progresso, estabelecer a igualdade entre os brasileiros e construir um país moderno e forte..." (Página 241).

Dá para perceber que a questão era extremamente complexa, como mostra esta conversa entre os jornalistas que cobriam a guerra, entre eles, o jornalista míope, como Vargas Llosa se refere a Euclides da Cunha: "- Nós não entendemos o que está acontecendo em Canudos - responde ele. - É mais complicado do que eu pensava. - Bem, eu nunca acreditei que os emissários de Sua Majestade britânica tenham estado no sertão, se está falando disso - grunhe o jornalista mais velho. - Mas também não posso acreditar na conversa do padre de que só existe amor a Deus atrás de tudo isso. Há fuzis demais, estragos demais, uma tática bem concebida demais para que tudo seja obra de uns sebastianistas analfabetos" (Página 284).

A quarta parte, com seis capítulos, é a mais longa e de uma leitura um pouco mais cansativa. Tudo passa pelas batalhas, pelas táticas e estratégias dos povos que se juntam em torno do Conselheiro e das reações da República. O livro termina como efetivamente acabou Canudos. Com o dinamitar dos escombros, escombros do templo e dos escombros humanos, em meio a muitas vinganças e absurdos até para tempos de guerra. Creio que ainda é importante dizer que neste período histórico houve três grandes processos migratórios, conforme nos conta o livro: Para o norte, onde se desenvolvia o ciclo da borracha, para o sudeste, com a lavoura cafeeira e para o abrigo religioso de Canudos.

Deixo ainda as observações da orelha da contracapa: "Esse é um dos livros mais importantes de Mário Vargas Llosa, um épico latino-americano em que o autor de Travessuras da menina má reconta a Guerra de Canudos - conflito que está entre os mais importantes da história do Brasil -, com toda a genialidade que o consagrou como um dos grandes autores da íngua espanhola da atualidade.

A pesquisa para o livro demandou um esforço concentrado. Impressionado com a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha, Vargas Llosa se embrenhou em arquivos históricos do Rio de Janeiro e em Salvador, viajou pelo sertão da Bahia e de Sergipe e criou uma obra que, hoje, é reconhecida como seu tour de force. "Peregrinei por todas as vilas onde, segundo a lenda, o Conselheiro pregou", escreve ele, "e nelas ouvi os moradores discutindo ardorosamente sobre Canudos, como se os canhões ainda trovejassem no reduto rebelde e o Apocalipse pudesse acontecer a qualquer momento naqueles desertos salpicados de árvores sem folhas, cheias de espinhos".

Enfim, um grande livro. Monumental memo. Só me fica uma dúvida. Como um autor de tamanha envergadura,, que vivenciou tamanhas injustiças sociais, que tão vivamente sentiu as consequências da ausência do Estado, através de políticas públicas, conseguiu ser candidato a presidente da República em seu país pela banda dos pensadores neoliberais. Simplesmente, para dizer o mínimo, incompreensível. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

NIKETCHE. Uma história de poligamia. Paulina Chiziane.

Não tenho plena certeza de como cheguei a este livro. Se não me engano, foi por uma postagem do Marcos Bagno que transcrevia um trecho do livro em que Rami reclama de Deus, sobre a infidelidade dos homens. Um lamento profundo. Foi o que me motivou para a compra do livro e a consequente leitura. Estou falando de Niketche - uma história de poligamia, da escritora Paulina Chizane, a primeira mulher a lançar um romance em Moçambique. Isso ocorreu em 1990, com Balada de amor ao vento. Niketche teve a sua primeira edição em 2002. 

Niketche. Paulia Chiziane. Companhia de Bolso. 2021.

O trecho que eu li, bem que poderia ter sido esse: "Até na Bíblia a mulher não presta. Os santos, nas suas pregações antigas, dizem que a mulher nada vale, a mulher é um animal nutridor de maldade, fonte de todas as discussões, querelas e injustiças. É verdade. Se podemos ser trocadas, vendidas, torturadas, mortas, escravizadas, encurraladas em haréns como gado, é porque não fazemos falta nenhuma. Mas se não fazemos falta nenhuma, por que é que Deus nos colocou no mundo? E esse Deus, se existe, por que nos deixa sofrer assim? O pior de tudo é que Deus parece não ter mulher nenhuma. Se ele fosse casado, a deusa - sua esposa - intercederia por nós. Através dela pediríamos a bênção de uma vida de harmonia. Mas a deusa deve existir, penso. Deve ser tão invisível como todas nós. O seu espaço é, de certeza, a cozinha celestial" E continua:

"Se ela existisse teríamos a quem dirigir as nossas preces e diríamos: Madre nossa que estais no céu, santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino - das mulheres, claro -, venha a nós a tua benevolência, não queremos mais a violência. Sejam ouvidos os nossos apelos, assim na terra como no céu. A paz nossa de cada dia nos dai hoje e perdoai as nossas ofensas - fofocas, má língua, bisbilhotices, vaidade, inveja - assim como nós perdoamos a tirania, traição, imoralidades, bebedeiras, insultos, dos nossos maridos, amantes, namorados, companheiros e outras relações que nem sei nomear. Não nos deixeis cair na tentação de imitar as loucuras deles - beber, maltratar, roubar, expulsar, casar e divorciar, violar, escravizar, comprar, usar, abusar e nem nos deixes morrer nas mãos desses tiranos - mas livrai-nos do mal. Amem. Uma mãe celestial nos dava muito jeito, sem dúvida alguma" (Páginas 61-62).

Como percebem, o livro é um lamento, um lamento dolorido e profundo. É, como lemos no subtítulo, uma história de poligamia. Paulina Chiziane não se considera uma escritora, mas sim, uma contadora de histórias. Ela nos conta uma história de poligamia de sua terra, de sua estranha terra, aos olhos de nossa cultura, a sua Moçambique. E como tal, a sua história representa um enorme choque cultural. Todas as situações vividas pela poligamia, tanto pelo lado do homem, como por parte das mulheres, está destrinchada no livro. Dele nada posso contar, para não frustrar expectativas na sua leitura.

Recentemente eu li, da também moçambicana, Isabela Figueiredo, Caderno de memórias coloniais. O livro é um fortíssimo libelo contra a violência colonial praticada pelos portugueses na colonização -exploração do país. Mas um dado especial me chamou muito a atenção. A localização da sua capital, a cidade de Maputo, bem na extremidade sul. Deixo até um mapa para a constatação do fato. Esse dado também está presente em todo o livro de Paulina Chiziane. Como o livro é um relato sobre a cultura do país, podemos afirmar com certeza que ao longo da colonização a cultura do sul foi mais afetada do que as culturas, diríamos mais naturais ou menos tocadas pelas mãos e mentes da cultura dominadora. No caso do livro, os costumes relativos ao comportamento sexual e ao casamento. São do norte os costumes tribais e as danças, como a dança que dá título ao livro, Niketche. Vejamos uma descrição da dança, num diálogo entre Mauá (mulher do norte) e Rami (mulher do sul), ambas componentes dessa história de poligamia:

Mapa político de Moçambique. Observem a localização de Maputo, a capital.

"... Ah, vocês gente do sul! Fico amuada. Sempre fico quando a Mauá me fala assim. Mas penso na justeza das suas palavras. Esta gentalha é um esterco de superstições. - Exageramos, não acham? - repito. - Qual quê! diz a Mauá. Naquele dia, despia-me ao som ritmado dos batuques da minha terra e preparava a minha alma para dançar Niketche. - Niketche? - Uma dança nossa, dança macua - explica Mauá -, uma dança do amor, que as raparigas recém-iniciadas executam aos olhos do mundo, para afirmar: somos mulheres. Maduras como frutas, Estamos prontas para a vida! E continua:

" Niketche. A dança do sol e da lua, dança do vento e da chuva, dança da criação. Uma dança que mexe, que aquece. Que imobiliza o corpo e faz a alma voar. As raparigas aparecem de tangas e missangas. Movem o corpo com arte saudando o despertar de todas as primaveras. Ao primeiro toque do tambor, cada um sorri, celebrando o mistério da vida ao sabor do Niketche. [...] Nos jovens desperta a urgência de amar, porque o niketche é sensualidade perfeita, rainha de toda a sensualidade. Quando a dança termina, podem ouvir-se entre os assistentes suspiros de quem desperta de um sonho bom" (páginas 138-139).

Recentemente li em Lázaro Ramos, Na minha pele, que "a literatura sempre disse mais sobre o homem no Brasil que a sociologia - até hoje, muito preocupada apenas com a luta de classes. O cinema e a novela, com a força que tem hoje em nosso país, podem trazer um ataque forte aos preconceitos". Basta trocar Brasil por Moçambique e você terá uma bela aula de sociologia e de antropologia sobre a toda a realidade social de Moçambique. O livro é uma verdadeira imersão cultural no país. E como a cultura é doída, como faz sofrer. Como ela se entrelaça com a moral e a religião. Ah, Freud! O mal-estar...

Mas o livro nos dá também uma aula de história das lutas da independência e das dificuldades encontradas após, a partir de um relato de poligamia, fora do núcleo do livro: O relato nos diz que: "Há dias conheci uma mulher do interior da Zambésia. Tem cinco filhos, já crescidos. O primeiro, um mulato esbelto, é dos portugueses que a violaram durante a guerra colonial. O segundo, um preto, elegante e forte como um guerreiro, é fruto de outra violação dos guerrilheiros de libertação da mesma guerra colonial. O terceiro, outro mulato, mimoso como um gato, é dos comandos rodesianos brancos, que arrasaram esta terra para aniquilar as bases dos guerrilheiros do Zimbabwe. O quarto é dos rebeldes que fizeram a guerra civil no interior do país. A primeira e a segunda vez foi violada, mas à terceira e à quarta entregou-se de livre vontade, porque se sentia especializada em violação sexual. O quinto é de um homem com quem se deitou por amor pela primeira vez.

Essa mulher carregou a história de todas as guerras do país num só ventre. Mas ela canta e ri. Conta a sua história a qualquer um que passa, de lágrimas nos olhos e sorriso nos lábios e declara: Os meus quatro filhos sem pai nem apelido são filhos dos deuses do fogo, filhos da história, nascidos pelo poder dos braços armados com metralhadoras. A minha felicidade foi ter gerado só homens, diz ela, nenhum deles conhecerá a dor da violação sexual" (páginas 241-242).

Para uma melhor noção do livro, deixo a contracapa: "Rami é uma esposa fiel e subserviente. Ela faz o que manda a tradição, mas nem assim consegue ser amada por Tony, com quem é casada há vinte anos. Certo dia rami descobre que o marido tem várias amantes - e filhos - por todo o Moçambique, e decide conhecê-las uma a uma. 'Eu, Rami, sou a primeira-dama, a rainha-mãe. [...] O nosso lar é um polígono de seis pontos. É polígamo. Um hexágono amoroso', diz. A partir desse encontro surpreendente, todas terão a vida completamente transformada.

De origem humilde, Paulina Chiziane foi a primeira mulher moçambicana a publicar um romance - apesar de não se considerar romancista, mas uma contadora de histórias. Em Niketche, ela mistura bom humor, consciência social e lirismo para traçar um vigoroso painel da condição feminina e da sociedade de seu país. Esta história de poligamia é contada ao longo de 43 pequenos capítulos, em 293 páginas. O livro é em formato de bolso.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

De volta ao mapa da fome. O desmonte das políticas públicas. Daniel de Souza.

Há um bom tempo que não republico materiais produzidos pelo Instituto Humanitas, da Unisinos, a grande universidade dos padres jesuítas do Rio Grande do Sul, com sede na cidade de São Leopoldo. Sempre que o fiz, eles tiveram grande repercussão, medida pelo grande número de acessos. Neste início de janeiro, O IHU publicou uma longa entrevista com Daniel Carvalho de Souza, o filho do grande Betinho, uma figura lendária deste país. Sempre ouvi dizer e concordo, que citar alguém, dando referência paterna, materna ou de outras pessoas próximas, diminui a identidade da pessoa citada. Creio, no entanto, que no caso do Betinho, isso se torna uma obrigação, tal a reverência que este nome provoca e  merece.

Uma imagem da fome. Venda de ossos como alimento.

A entrevista com o Daniel de Souza, que preside a ONG Ação da Cidadania, fundada pelo pai há trinta anos, teve como mote, tanto a campanha empreendida pelo movimento Natal sem Fome, como o fato de fazer uma retrospectiva do ano de 2021. A grande constatação mostrada pelo entrevistador é a volta do Brasil ao mapa da fome, causada pela ausência de políticas públicas para com as questões sociais brasileiras, agravadas a partir do Golpe de Estado de 2016 e a instituição de governos que não tem nenhuma sensibilidade social.  A ONG atua no Brasil inteiro, fato que permite uma radiografia do Brasil por inteiro. 55 milhões de brasileiros são hoje atingidos pelo flagelo da insegurança alimentar.

A ONG - Ação da Cidadania foi fundada pelo Betinho no governo do presidente Itamar Franco, de quem recebeu grande apoio. Daniel responsabiliza diretamente a ausência do atual governo nas questões sociais e convoca a todos para a resistência e para a reconstrução social e econômica do país, a partir de janeiro de 2023. Mas, como li, no livro do Lázaro Ramos, Na minha pele, que resistir não é um viver pleno, temos que partir para o existir dessa vida plena, uma tarefa para todos nós. E, uma vida plena passa longe da convivência com o maior de todos os flagelos sociais, que é o espectro da fome. 

Mas vamos à beleza e sensibilidade de Daniel Carvalho de Souza em sua entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos:

 https://www.ihu.unisinos.br/615535-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome-e-o-retrato-do-desmonte-de-politicas-publicas-entrevista-especial-com-daniel-de-souzahttps://www.ihu.unisinos.br/615535-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome-e-o-retrato-do-desmonte-de-politicas-publicas-entrevista-especial-com-daniel-de-souza

sábado, 8 de janeiro de 2022

A VERDADE e o espelho quebrado. Uma lenda africana.

A leitura de Na minha pele, de Lázaro Ramos, me colocou em contato com essa magnífica lenda africana, a lenda do espelho da VERDADE, ou do espelho quebrado. Ela aparece na página 65/66, sob o nome "O espelho da verdade". Como considero a VERDADE algo referencial e fundamental em qualquer trabalho de formação, optei por um post para contá-la. Em síntese, ela nos diz que o espelho da verdade foi quebrado e que o mundo da unidade da verdade passou a ter tantas verdades, quantas as partes quebradas do espelho. A partir de então cada um encontrou a sua verdade, na região em que caiu um pedaço desse espelho. A VERDADE seria então a busca pela reconstrução desse espelho, uma busca de enriquecimento, de somas e jamais de imposição.

Na minha pele. Lázaro Ramos. Aí encontramos a lenda "O espelho da verdade".

Como no livro de Lázaro Ramos existe uma adaptação dessa lenda, que, embora não prejudique a sua interpretação, a procurei em outras referências. A encontrei, num dos mais fantásticos programas de formação continuada de professores, instituída no estado do Paraná, no governo de Roberto Requião, no Programa de Desenvolvimento Educacional, o chamado PDE. A encontrei da seguinte forma, sem nela mexer:

"Outro conto Afro. Conta-se, na tradição oral de matriz africana, que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orum se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da Verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê. Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, sem querer, perdeu o controle do movimento ritmado que repetia sem parar e a mão do pilão tocou forte no espelho, que, então, espatifou-se pelo mundo. Desesperada, Mahura correu para se desculpar com Olorum, o Deus Supremo. Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado à sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de  Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não haveria mais uma verdade única para se observar, mas várias possibilidades de observação da verdade. E concluiu Olorum: “De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho, em qualquer parte do mundo, já pode saber que está encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho reflete sempre a imagem do lugar onde ele se encontra”. Portanto, para seguirmos a vontade do Criador, é preciso, antes de tudo, aceitar que somos todos iguais, apesar de nossas diferenças. E que a Verdade não pertence a ninguém, pois não está em nenhum pedaço especificamente – do espelho, do mundo ou do pensamento –, mas na união de todos: lugares, ideias e pessoas. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós. (Fonte: Conto de Tradição Oral)".

Como a lenda já está interpretada, essa tarefa me é dispensada, mas isso não me impede de fazer algumas considerações. A minha formação é de seminário católico (seminários de Bom Princípio, Gravataí e Viamão, todos no Rio Grande do Sul). Formação dogmática, portanto. 

Hoje, já com 76 anos de idade, devo dizer que sou socrático, no sentido de sempre fazer prevalecer a pergunta sobre a resposta e que as respostas obtidas, servem sempre, apenas, para a elaboração de novas perguntas. Também sou cartesiano, fazendo prevalecer a dúvida sobre a afirmação, normalmente, oriunda da fé. Assim, a fonte da busca da verdade é a dúvida e não a afirmação. 

Também recomendaria o livro O espelho do ocidente - o nazismo e a civilização ocidental, de Jean-Louis Vullierme. O nazismo brota da afirmação de verdade única, imposta e incontornável. Deixo a resenha deste livro: http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/03/espelho-do-ocidente-o-nazismo-e.html. Recomendo ainda a palestra de rádio de Theodor Adorno, transcrita no livro, Educação e emancipação, sob o título de "Educação após Auschwitz". Adorno nos adverte que o nazismo é originário de verdades incondicionais e pré-estabelecidas. É o suficiente. Contra a arrogância do saber, a humildade de sua busca.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Na minha pele. Lázaro Ramos.

Dias após um encontro em que discutíamos trabalhos de formação, recebi via WhatsApp, de meu amigo Sebastião Donizete Santarosa, uma foto da página 33 do livro Na minha pele, de Lázaro Ramos, com o seguinte teor: "Na minha infância, não tinha esse papo de ancestralidade. Mais recentemente, numa conversa com o professor Muniz Sodré, percebi que, mais do que a filosofia e a ciência, o que traz mudança mesmo são as representações coletivas, e a ficção tem um papel fundamental nessa construção. 'A literatura sempre disse mais sobre o homem no Brasil que a sociologia - até hoje, muito preocupada apenas com a luta de classes. O cinema e a novela, com a força que têm hoje em nosso país, podem trazer um ataque forte aos preconceitos', me disse o Muniz em uma entrevista para o Espelho. Eu incluiria a literatura infantil e as biografias nesse rol e acho que ele concordaria comigo".

Na minha pele. Lázaro Ramos. Objetiva. 2021.

Foi o que bastou para eu comprar e ler com a devida atenção o livro do Lázaro Ramos. Em nossos trabalhos de formação, tanto o Sebastião, quanto eu, temos a preocupação de evitar todo e qualquer tipo de doutrinação, ao estilo da catequese. Por isso nossos trabalhos se centram na formação de leitores. Por essa razão, por óbvio, concordamos plenamente com as afirmações do Lázaro e do professor Sodré. Mas vamos ao belo e benfazejo livro Na minha pele.

O próprio Lázaro tem dificuldades em classificar o seu livro. Seria uma biografia ou um livro de memórias? Lázaro é muito novo para isso. Eu, seguramente, o classificaria como um livro de formação, de relatos biográficos, de pontos de inflexão e de rupturas em uma trajetória de vida. Nascido na ilha do Paty, no município de São Francisco do Conde, no recôncavo baiano, Lázaro teria poucas opções para seguir uma trajetória própria de vida, de uma autodeterminação de seu destino. Sua ilha tem apenas duzentos habitantes, todos com a marca da origem negra e indígena. Sair de sua ilha era fundamental, levando porém, as suas origens, sem nunca delas se apartar.

Creio que o traço fundamental na construção de seu ser singular foi o seu encontro com o teatro, ao se inserir no Bando de Teatro Olodum. Pelo teatro procurava superar um traço característico seu, partilhado com tantos jovens, que é a timidez. O Bando de Teatro Olodum o colocou em contato com as suas origens, com a sua ancestralidade. Na representação de uma peça sobre Zumbi dos Palmares que "estabelecia uma relação direta entre uma favela e os quilombos" ele se descobriu. Nessa peça, segundo seu relato ele "fazia um garoto com poucas falas, o que me deu mais tempo para assimilar as informações da pesquisa: a importância de Zumbi dos Palmares; que a história negra é repleta de lutas e que eu não devia chamar meus ancestrais de escravos, e sim de africanos escravizados; que a liberdade não veio de uma canetada da princesa imperial, mas após muita luta. Esse foi mais um salto na compreensão sobre de onde vim e para onde eu podia ir". Observem bem, um salto. Um salto na formação. Uma tomada de consciência.

Eu teria a acrescentar um outro relato seu. Eles mesmos escreviam as peças que representavam. Um trabalho de  práxis. Não representavam ou, especificando melhor, não aplicavam um trabalho escrito por outros. Ah, como isso me fez lembrar dos livros didáticos e a simples aplicação de aulas! Isso aconteceu quando Lázaro já tinha dezessete anos. E por aí vai o livro: seus trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. O seu encontro com Taís Araújo e os filhos João Vicente e Maria Antônia. 

Considero o capítulo "Entre o laboratório e o palco" um dos mais bonitos do livro. É o seu desprender-se de amarras com o trabalho com carteira assinada, em sua opção pelo teatro e as opções que a vida lhe vinha proporcionando. Ele fala muito de seu trabalho na televisão, de seu programa Espelho, um programa de entrevistas, de relatos de vida. Essas entrevistas o colocaram em contato com muitas individualidades, das quais absorveu as diversidades, num belo e complexo campo de somas em sua formação. Foi aprendendo muito. Vejam o relato de uma conversa com Jaime Sodré, professor e doutor em história da cultura negra e ogã, após uma entrevista. É sobre filhos, Maria Antônia, em particular: "Você sabe que essa menina que está vindo aí é de Ogum, não é?".  Taís estava grávida de cinco meses da nossa filha, Maria Antônia. Eu disse: "Não sei, é?". Ele completou: "É. Crie ela livre. As vezes nós criamos nossos filhos cerceando a liberdade deles e isso cria seres atrofiados. O espírito dela é livre. Deixe-a ser plena".

Essa busca pela vida plena dá a tonalidade do livro. Na segunda parte ele aborda temas mais específicos como o empoderamento, a sororidade, o afeto e a autoestima. Analisa ainda as políticas públicas de ações afirmativas e da necessidade de criar um novo olhar que vise a potencialização do ser na sua realização humana, social e econômica, na busca de 'seres plenos'. Uma de suas reflexões finais é sobre o resistir e o existir. Apenas resistir é incompatível com o existir, com o viver em plenitude. E uma vida de muitos afetos, de afetos manifestos, como o simples fato de dizer constantemente que amamos! Ah, a minha ancestralidade germânica, tão ausente de dizeres, de afetos e de abraços.

Um livro belíssimo. Um livro repleto de belas intenções e de formas de sua concretização. Acima de tudo, um livro necessário. Um livro necessário para educadores, de educadores preocupados com a formação de seus alunos, de individualidades que vivem em grandes coletivos e que se preocupam com o viver bem, com a plenitude das potencialidades desenvolvidas. Afinal, não existe o viver, sem o conviver, pois viver é conviver. Grande Lázaro Ramos. O teu livro é uma verdadeira dádiva para os seus leitores. Ou, como diz o seu amigo Wagner Moura, na contracapa: "Na minha pele é um livro imenso, escrito por uma alma imensa, que nos oferece sua intimidade com coragem, generosidade e bom humor".

Antes de terminar, ainda duas questões. Voltarei ao livro em outro post, para contar uma lenda africana, a do "espelho quebrado" e a sua relação com a VERDADE. Belíssimo. E recomendações de leitura, tiradas do livro, duas em particular e que, eu mesmo as farei. A primeira é Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves e a segunda, O olho mais azul, de Toni Morrison, de quem eu já li Amada. Pelas informações contidas nesse post, o deixo aqui para acesso:

http://www.blogdopedroeloi.com.br/2019/05/amada-toni-morrison-primeira-negra.html