sexta-feira, 24 de abril de 2015

Retrato de Portinari. Antonio Callado.

Neste livro, Retrato de Portinari, de Antonio Callado, a relação entre o pintor e o modelo se inverteu. Em vez de Antonio Callado servir como tal, foi Candido Portinari que posou repetidas vezes, quase que diariamente, para que Callado lhe traçasse o perfil, que pintasse a sua maneira de ser para nos dar o grande retrato daquele que foi o maior nome da pintura brasileira, e uma das maiores expressões da pintura modernista mundial.. O resultado foi um trabalho maravilhoso, que nos deu a conhecer dois grandes artistas. A pintura de Portinari e a escrita de Antonio Callado.
Dois grandes artistas. Um da pintura e outro da palavra. Portinari e Callado.


O livro se divide em duas partes. A primeira foi escrita em 1956 e foi uma encomenda do MAM do Rio de Janeiro, com o intuito de divulgar o artista. A segunda parte foi escrita mais de 20 anos depois, em 1978, retratando os últimos anos de vida do pintor, ou seja, o tempo que separou a primeira parte do livro (1956) e o ano de 1962, o ano da morte. Como no livro ocorre o encontro de duas grandes personalidades, vamos datar os dois. Candido Portinari nasceu em Brodowski, SP., filho de imigrantes italianos, em 1903 e morreu no Rio de Janeiro em 1962. Já Antonio Callado nasceu em Niteroi, em 1917 e morreu no Rio de Janeiro em 1997.

Ana Arruda Callado, esposa de Antonio, assim apresenta a edição de 2003, da Jorge Zahar: "Antonio Callado e Candido Portinari, cada um com seus instrumentos próprios de trabalho, tentaram retratar o Brasil que amavam, para melhor compreendê-lo - e com sua interpretação levar os demais brasileiros a também amá-lo [...] Este livro fixa um momento de encontro e trabalho conjunto desses dois grandes artistas, o escritor e o pintor, e o nascimento de uma intensa amizade, baseada em mútua admiração e muitas afinidades [...] O resultado é mais que um diálogo rico de informações, é uma troca afetiva".
Portinari retratando Antonio Callado. O livro representa uma troca afetiva.


O menino Candido, como filho de imigrantes italianos, teve uma infância pobre em meio ao mundo rural, com destaque para as lavouras cafeeiras. Aos cinco ou seis anos já abandonou os primeiros rabiscos para desenhar conscientemente uma maçã. Ainda na infância chegou a trabalhar numa fábrica de carroças, pintando as letras iniciais dos donos, ajudando ainda na pintura da igreja e nas esculturas de seus santos, na sua cidade natal. De Brodowski segue para o Rio de Janeiro para a Escola de Belas Artes, sempre enfrentando muitos problemas em sua vida de menino pobre.

A vida começa a se modificar quando ganha uma bolsa de estudos, em Paris. Lá permanece por dois anos, praticamente sem produzir. Passa os seus dias entre o museu do Louvre e o palácio de Luxenbourg, a observar, a se dedicar à contemplação, a fonte de toda a arte. Callado faz uma exaltação à concessão de bolsas para jovens talentos como poucas vezes eu vi. Não é que a bolsa produza o artista mas o ajuda imensamente em sua formação. Se em Paris Portinari apenas observava, na sua volta, em menos de seis meses, produziu mais de quarenta quadros, que fizeram a sua fama. Instado sobre o fenômeno, simplesmente respondeu que de volta ao Rio de Janeiro não tinha para onde ir e, assim, dedicou-se a pintar.
Das reminiscências da infância, o tema do café. 1935.


Portinari sempre foi um artista engajado, retratando em seus quadros a grande injustiça social brasileira. Ficou célebre o caso em que, numa exposição em Paris, que tinha como tema os meninos de Brodowski e retirantes, o duque de Windsor, querendo lhe comprar um quadro, perguntou se não tinha umas flores... A resposta veio pronta: "Flores, não, só tenho miséria". Ele era indignado com o "divórcio entre a terra brasileira e a civilização que fingimos ter". Criticava o fato de ainda ter, "no interior, escravos que só o deixarão de ser quando completarmos a Abolição com uma Reforma Agrária". Os trabalhadores no café e os pés na terra retratam esta situação.
"Só tenho miséria". Cena de Os Retirantes. A injustiça social sempre presente .


Um dos capítulos mais bonitos do livro é o que leva por título A arte ri por último, especialmente quando trata da relação entre a arte e a ciência. São as críticas ao racionalismo e ao espírito científico por ele engendrado. A ciência não dá pintura. O que dá pintura são os mistérios e a contemplação. Embora a sua formação dentro do marxismo, também aplicava a mesma fórmula aos mistérios religiosos para a criação artística. 

Não posso terminar este post sem fazer uma referência ao seu espírito insubmisso e a sua intransigência com relação aos seus princípios.  Convidado para a inauguração de seus painéis, a Paz e a Guerra, no prédio das Nações Unidas, em Nova York, o departamento cultural da embaixada dos Estados Unidos lhe fazia uma exigência para conceder-lhe o visto. Lhe pediram uma assinatura num documento em declarava não mais pertencer ao Partido Comunista. Embora, já de longa data, não tivesse mais relação com o Partido, ele nunca, nem sequer, respondeu à Embaixada. "Deixou que os quadros se inaugurassem sozinhos".
Sempre em ótimas companhias. Em 1952. Graciliano e Pablo Neruda à esquerda e Jorge Amado à direita. Estes comunistas adoráveis.


Portinari morreu cedo, em consequência da pintura, mais precisamente, das tintas. Callado nos conta que, já antes, ele se tinha enamorado da morte. Depois da separação com a mulher, viveu uma intensa solidão. Contra as tintas Portinari conseguiu se defender, mas nunca da solidão. Gênio de artista genial. A sua grande amizade duradoura foi com Graciliano Ramos. Se entendiam perfeitamente no rigor dedicado ao trabalho. A sua morte prematura ocorreu quando tinha apenas 58 anos, nos deixando, espalhadas pelo mundo afora, em torno de quatro a cinco mil obras. O livro vem fartamente ilustrado e acompanhado de um informativo sobre o Projeto Portinari.




quarta-feira, 22 de abril de 2015

A arte de falar. Sem dizer nada.

Hoje recebi a visita de um mestrando atrás de bibliografia. Revi algumas revistas antigas e nelas encontrei uma folha com este texto, que eu guardei nos anos 1980. Até pensei que o havia extraviado. O Rolando Lero, personagem da Escolinha do professor Raimundo, é mera fichinha, perto desta ironia, em termos de enrolação. Como a sátira é absolutamente autoexplicativa, ela não precisa de explicitações. Vamos a ela:
Com muitos significados. Soar bem.

A ARTE DE FALAR.

"Segundo a revista NEWSWEK, o americano Philip Braughton fez, casualmente, a mais fantástica descoberta de sua vida de funcionário do governo. Analisando as razões do êxito e fracasso de seus companheiros, começou a notar que o modo de falar exercia grande influência na rapidez ou na lentidão das promoções.

Aqueles que usavam uma linguagem "caprichada", cheia de expressões técnicas, estavam sempre na crista da onda e os que optavam por uma fala simples, uma espécie de "feijão com arroz" de sempre, ficavam marcando passo. Feita a descoberta, Braughton não teve dúvidas e começou a preparar um "Manual do Triunfo", onde selecionou as palavras-chave para conversação capazes de levar o funcionário a subir rapidamente de posto. Agrupadas em três séries numeradas de 0 a 9, eis as 30 palavras mágicas.



Série I Serie II Serie I
0 Programação 0 Funcional 0 Sistemática
1 Estratégia 1 Operacional 1 Integrada
2 Mobilidade 2 Dimensional 2 Equilibrada
3 Planificação 3 Transicional 3 Totalizada
4 Dinâmica 4 Estrutural 4 Inferida
5 Flexibilidade 5 Global 5 Balanceada
6 Implementação 6 Direcional 6 Coordenada
7 Instrumentação 7 Opcional 7 Combinada
8 Retroação 8 Central 8 Estabilizada
9 Projeção 9 Logística 9 Paralela

A fórmula para usar as palavras-chave consiste em escolher-se um número qualquer de três algarismos e depois substituir estas pelas palavras da tabela. O número 614 por exemplo, dá-nos 'implementação operacional inferida', enquanto que o 573 'derrama sabedoria' ao anunciar  'flexibilidade opcional totalizada', mas não fica longe do número 731 que revela 'instrumentação transicional integrada'. O inventor  desta fórmula está muito contente, mas confessa, em tom de segredo, que na realidade ninguém sabe exatamente o que significam estas frases, mas todos acham muito prudente aplaudi-las, principalmente porque soam muito bem".

Espero retorno financeiro se alguém usar a fórmula e receber promoções com o seu uso.  Percebe-se visivelmente na minha folha original que ela foi batida a máquina. Eu me lembro que era uma complicação danada passar de uma linha para a outra. Nada era feito de forma automática.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A Música Alemã do Nosso Jeito.

Convidado pelo Rodrigo para saborear um bacalhau, o pai dele, seu Ruy me mostrou uma preciosidade que ele trouxe do Rio Grande do Sul, na última visita à sua terra natal, que, se não me engano, é a cidade de Estrela. O certo é que ele mantém bastante contato com a região. A preciosidade a que me refiro é um DVD - A música alemã do nosso jeito, ou Die Musik aus unsere Art und Weise. O DVD é comemorativo aos 190 anos de imigração alemã ou 190 Jahre deutsche Einwanderung in Brasilien. Como a imigração alemã se deu a partir de 1824, o DVD foi produzido ao longo do ano de 2014.
A música alemã do nosso jeito. DVD comemorativo dos 190 anos da imigração alemã.


É evidente que seu Ruy me mostrou este DVD porque sabe da minha origem, que é desta região. Eu nasci em Harmonia, no ano de 1945. Nesta época Harmonia era o terceiro distrito de Montenegro, que por sua vez era um dos maiores municípios da região. De Harmonia fui para Bom Princípio estudar no seminário, seguindo depois para Gravataí e Viamão. Terminei o curso de Filosofia em Viamão e, já no ano de 1969 comecei a minha vida de professor aqui no Paraná, na cidade de Umuarama. A partir de 1993 passe a morar em Curitiba, encerrando minhas atividades profissionais como professor na Universidade Positivo. Hoje exerço a profissão de "administrador de tempo livre".

A minha expansão pelo Rio Grande do Sul se limitou a Harmonia, rumando para Porto Alegre, passando por São Sebastião do Caí. Conheço bem Tupandi, onde mora um irmão meu e algumas cidades do vale do rio Caí. O DVD foi produzido em Estrela, já no vale do rio Taquari. Sei também da vocação para a musicalidade da cidade de Teutônia, que possui uma orquestra de altíssimo nível.
Vista da rua principal da cidade de Harmonia. Ela é pequena mas é bem organizada. Já foi considerada a cidade brasileira com o menor número de pobres.


O que me encantou no DVD foi o culto e a preservação da tradição alemã. Além desse valor em si, esse culto também ajuda no turismo, divulgando as festas tradicionais da região, além de dar o maravilhoso presente para as crianças, que é o de falar uma segunda língua. Eu mesmo fui alfabetizado dentro da língua alemã e, em casa, eu lia para a minha mãe o suplemento em alemão do jornal A Nação e a revista alemã Skt. Paulusblatt, que, salvo engano, circula até os dias de hoje.

Mas vamos ao DVD. Ele tem dois discos e foi produzido por Airton Grave e fabricado por Al Music, em Estrela. Dou e-mail para contato:diego.almusic@gmail.com  Na capa o DVD é apresentado e na contracapa se lê: A música, o Canto e a Dança do nosso jeito, ou então Musik, Gesang und Tanz auf unsere Art. Como se vê existe a música, o canto e a dança. A música é apresentada por pequenas orquestras, com destaque para os inconfundíveis instrumentos de sopro, tão próprios da música alemã. O canto é apresentado pelos corais, normalmente corais comunitários, e as danças são apresentadas por grupos de danças, com as diferentes invernadas, já usando o termo gauchesco, como a infantil, juvenil e adulta, ainda com subdivisões. 
  Tupandi, onde mora um irmão meu. Tupandi tem o mais alto índice de renda per capita da região.


A minha grande alegria foi a de constatar a presença de um grupo de Harmonia e também de Tupandi. No disco 1 encontramos as seguintes músicas, grupos e o município a que pertencem. Pela ordem:
1. Pout-purri: "Mölltaler Gold" (Der Alphornzauber/Begrüssungspolka/ Ohne Meier, keine Feier/ A Flasche Bier/ Unser neues Mott/ Heut'ist ein Feiertag/ Ja die Musik/ Gold, Platin und Diamant) Mayer Hubert. Michele e Banda Prosit. (Teutônia).
2. Ein Bisschen Frieden (B. Meinunger/R. Siegel). Clara (Forquetinha).
3. Pout-Purri:Polkas - Lichtensteinerpolka/ Aneliese/ Schwartzbraun ist die Haselnuss/ Rosamunde/ Lore/ Ein Prosit. Show musical Tupandi.
4. Chiantiwein. Coral Municipal de Colinas e instrumental.
5.Maratá in Fest. Corais e Banda Musical de Maratá. Tanzgruppe Vollerschwung.
6. Millionen Sterne lügen nicht. Cristel&Dalva. Teutônia.
7. Wilkommen, liebe Leuten. Joseane. Roca Sales.
8. Tanzgruppe 50 Jahre. Estrela.
9. Stern Polka. Instrumental de Forquetinha.
10. Pout-purri: Die Toroler sind lustig/ Jetzt kommen die Lustige Tage/ Drinke noch ein Tröpfchen/ Ein Prosit. Corais de Teutônia.
11. Familienlied. Lucas&Luciane. Teutônia.
12. Pout-purri: Polkas. Soni und seine Mundharmonika.
 Esta cascata em Maratá é bem famosa. Nesta cidade mora uma madrinha minha.

Já no segundo disco encontramos:

1. Fliegerlied. Banda Municipal de Brochier, corais e grupos de danças.
2. Jetzt gehet's Los. Orquestra e vocal de São José do Hortêncio. Portugieserschneis Volkstanzgruppe.
3. Herz-Schmerz. Coral e Banda Municipal de Poço das Antas. Musikfreunde Tanzgruppe.
4. Pout-purri: Schön ist die Liebe im Hafen/ Matrosenlied/ Friesenlied. Coral Lira. Teutônia.
5. Der Sommer kommt wieder. Orquestra de sopros da ACEFH e Lustige Harmonietanzgruppe.
6. Heimatlos. Orquestra de Linha Nova.
7. Hip-Hop Polkas: Anelise/ Schützenliesel/ Ziegeunerleben. Orquestra de Travesseiro.
8. Holzhackermarsch. Grande Orquestra de 250 instrumentistas da 2ª Edição de Sons do Outono. Colégio Teutônia.
9. An Deiner Seite gehehn. Coral do Município de Westfália.
10. Henrique Uebel. Homem Orquestra e sua obra.
11. IHU - Instituto Henrique Uebel.
12. Das Leben erneuert sich für mich.  Airton Grave. 
Em Estrela este DVD foi produzido. Estão de parabéns todos os envolvidos no belo trabalho.

Na contracapa também encontramos os objetivos pelos quais este DVD foi produzido:"Neste trabalho
queremos mostrar um pouco da cultura alemã na nossa região (Taquari e Caí). Valorizar os grupos musicais, vocais e corais bem como a dança folclórica alemã. Ao mesmo tempo mostrar algumas paisagens e construções que embelezam as nossas comunidades, valorizando também o turismo. Tenho certeza de que, quem é descendente alemão e também admiradores desta cultura vão gostar. Agradecimentos a todos que se dedicaram e participaram, entre eles, músicos, cantores, dançarinos, regentes, maestros, figurantes e autoridades. Apreciem.  É do nosso jeito".
Eu fiquei extremamente curioso com relação ao homem orquestra. Ele aparece no vídeo em filme gravado na Alemanha em 1960. Ele tocava sete instrumentos simultaneamente.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Marco Polo e sua maravilhosa viagem à China.

Este é mais um livro paradidático da Jorge Zahar, para crianças e jovens. Como sou jovem, não tive dúvidas. O livro tem muitas coisas que, velhinhos como eu, não sabiam. É muito bom entrar em contato com o livro que incendiou imaginações e abriu as portas de novos mundos, naquela época distante. O autor é Janis Herbert, que também tem um livro sobre Leonardo da Vinci para crianças. http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/04/leonardo-da-vinci-para-criancas.html
Livro extraordinário e inteligente. É destinado a crianças e jovens, mas não tem contraindicações.


Vamos começar situando e datando o grande aventureiro. Ele nasceu em Veneza em 1254 e morreu na mesma cidade, em 1324. Veneza era, na época, o maior centro comercial da Europa. As datas nos indicam os alvores do humanismo renascentista, que mais tarde agitaria a Itália e transformaria o mundo inteiro. O maior feito de Marco Polo foi ter escrito a sua viagem ao reino de Kublai Khan, o rei mongol que dominou, praticamente todo o oriente, menos o Japão. O livro foi escrito em parceria com Rutischello de Pisa, que como Marco, também estava preso em Gênova. A viagem descrita durou 24 anos e incendiou a imaginação europeia na busca de riquezas.

Marco Polo viveu sob a influência de seu pai, Niccolo e de seu tio, Maffeo. A mãe morreu muito cedo. Eles deixaram o menino Marco em Veneza, partindo para o oriente, quando ele tinha 6 anos e voltaram quando ele já tinha 15. Em Veneza o menino andava entre os comerciantes e os navios, em meio a sedas e especiarias, entre pigmentos, sal e lã, esperando a volta do pai e do tio. Marco ficou encantado com a narrativa.
Uma versão brasileira do livro de Marco Polo, com comentários de Carlos Heitor Cony, da Ediouro.


Foi uma viagem de 9 anos e a comitiva foi recebida pelo Kublai Khan, o imperador mais poderoso do mundo. Foram muito bem recebidos e trocaram muitas informações. O Khan mandou presentes para o papa e pediu a vinda de sábios para trocarem experiências. Foram os primeiros venezianos na China. Logo prepararam nova comitiva, contando com a companhia de Marco. Foram também acompanhados por dois frades, mensageiros do papa, que também mandava presentes. A viagem foi longa e difícil. Os frades desistiram no meio do caminho.

O livro faz interessantes descrições dos locais por onde passavam, fazendo um bela recomposição histórica dos povos e detalhando a geografia dos locais e os costumes dos povos. Marco anotava tudo. A passagem pelo monte Ararat, o da Arca de Noé, os países, as formas de governo e o domínio mongol, também com a recomposição histórica deste povo, chegando até Gengis Khan e depois a Kublai Khan, neto de Gengis. Marco se encantou com a Pérsia, atual Irã, tudo sob o império mongol. Observou  a religião do zoroastrismo. Tudo isso é narrado no primeiro capítulo, uma viagem do ocidente para o oriente.
O mapa das viagens. Do ocidente para o oriente. Rotas sempre envolvidas em guerras.


O segundo capítulo tem por título No reino de Kublai Khan. Neste capítulo é narrada a difícil travessia da chamada rota das sedas, sempre sob disputa. Passam pelo Afeganistão e pela China, para chegarem a cidade do Khan, nas proximidades de Pequim. Se encanta com a caça, os cavalos e os falcões treinados. Recebem mensagem do Khan, pedindo para apressarem a viagem, para, finalmente se encontrarem o poderoso imperador, onde muitas festas os aguardavam. Isso depois de terem percorrido 9.656 quilômetros e terem demorado por mais de três anos e meio.

Marco rapidamente se adaptou no império mongol. Foram recepcionados com honra e com muitas festividades. O Khan reinava absoluto e permitia a liberdade religiosa. Ele mesmo se convertera ao budismo, mas apreciava também elementos de Confúcio e de Lao Tse. O fausto da corte o impressionou muito, assim como o hábito do banho diário. Marco se tornou um dos favoritos do Khan e a ele, logo foram confiadas missões diplomáticas junto às províncias do reino. Isso está narrado no terceiro capítulo, Dragões e dinastias.
O Kublai Khan. Dono do maior império do oriente. Apenas o Japão não foi dominado.


O quarto capítulo, Os olhos e ouvidos do Khan se ocupa dos 17 anos em que Marco ficou viajando pelas províncias do império mongol, a pedido do Khan. Visitou todas as províncias e continuava as suas anotações. No Tibet observou o Dalai Lama (oceano de sabedoria), foi para Myanmar e para o sul da China. Observou a condição social e a educação escolar recebida pelas crianças, a vida familiar e as grandes cerimônias e festividades.



O quinto capítulo é dedicado a viagens em barco de junco, em que foram empreendidas viagens por mar por toda a região, procurando porém, não se aproximar do Japão, país que o Khan nunca conseguiu dominar, em função da força, das lendas e dos mitos. Havia o Kamikase (vento divino) que provocava tsunamis e derrotava todos os exércitos. Nestas viagens conheceu a Indonésia, Sumatra, Sri Lanka e a Índia, sempre na qualidade de embaixador do Khan. Na Índia observou os monges e, conforme o livro, admirou os números que nós chamamos de arábicos.

Está contada a história é o sexto e último capítulo do livro. Ali se contam os preparativos da viagem de volta e a própria viagem. O Khan não consentia na volta e os acumulava de riquezas para que permanecessem por mais tempo. A oportunidade surgiu quando levaram uma princesa, prometida em casamento, até a Pérsia. A viagem foi feita por mar, uma vez que as guerras a impediam por terra. Depois de cumprida essa missão continuaram no rumo de Constantinopla e Veneza. Foram assaltados, mas ainda lhes restava dinheiro para alugarem barcos e assim chegarem a Veneza, a cidade de origem da partida. Depois de 24 anos de viagem e Marco, agora com 39 anos de idade, estavam de volta, tendo inclusive dificuldades em serem reconhecidos. Ofereceram um banquete e contaram a história. Pouca gente acreditou.
A viagem e a sua narrativa em livro incendiaram a imaginação europeia em busca de mercados e riquezas.


As guerras entre as cidades italianas levou Marco à prisão em Gênova. Lá encontrou o escritor Rustichello de Pisa, que se encantou com a narrativa e pediu permissão para escrevê-la, tendo como referência as anotações e a memória de Marco. O livro recebeu o nome de A Descrição do Mundo. Marco voltou para Veneza, se casou e continuou a sua vida de rico comerciante de artigos de luxo. O seu livro chegou à corte de reis e bibliotecas de poderosos. Um de seus leitores foi Cristóvão Colombo. O livro ficou conhecido como o livro que abriu as portas para o novo mundo, pelo sonho com novos mercados e novas fortunas.

Depois houve a morte do Khan  e o esfacelamento do império e a tomada de Constantinopla. Em seu leito de morte, Marco era aconselhado por amigos para confessar as mentiras que contara e até o padre o advertia em sua última confissão "para não morrer sem confessar a mentira". Mas, ao padre Marco dizia: - "Não contei a metade do que vi". Era o ano de 1324.

O livro é acompanhado de contextualizações e de sugestão de atividades. Didaticamente é daqueles livros que dão muita importância ao processo de aprender, o que praticamente é esquecido nos dias de hoje, focando apenas os resultados.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Leonardo da Vinci. Para crianças.

Com a chegada dos netos e aproveitando as promoções da Jorge Zahar Editor, comprei e li Leonardo da Vinci para crianças. Faço, antes de mais nada, uma afirmação muito importante. Os adultos que lerem o livro não levarão qualquer tipo de prejuízo e não correm nenhum risco de se infantilizarem, ou assim serem considerados. O livro é simplesmente maravilhoso. A autoria é de Janis Herbert. O livro vem acompanhado de 23 atividades práticas, envolvendo a criança nos caminhos trilhados pelo grande pensador e cientista.
O maravilhoso livro de Janis Herbert. É para crianças, mas não há contraindicações. Ótima leitura.


Leonardo nasceu em Vinci, na bela Toscana. Caterina, sua mãe era uma camponesa pobre e era considerada muito bela. Já Piero, o pai, era rico e aprendiz de tabelião. Seus pais nunca foram casados, fato que causou inúmeras restrições ao menino. Até a idade dos doze anos, praticamente, ficou no campo em companhia dos avós e de um tio, nas propriedades da família. Foi alfabetizado por um padre e era um exímio observador da natureza. A sua idade dos porquês foi muito bem explorada, junto ao tio, a quem se afeiçoara imensamente.

A cena urbana em sua vida aconteceu com a sua mudança para a cidade de Florença, para conviver com o pai. Este o colocou no atelier do mais famoso pintor florentino da época, Verrochio. Estes ateliers ou estúdios eram grandes centros de efervescência cultural. Leonardo começou a trabalhar na limpeza e na confecção de pinceis. Cedo percebeu que a obra do artista ia da concepção à execução, indo até a sua colocação no devido lugar. Poderíamos dizer que se exercitava na práxis. Passou também pela fabricação de tintas e, também, logo percebeu que o trabalho do artista não era um trabalho fragmentado.
 Estudos sempre antecediam as suas pinturas. Não era apenas pincel, tinta e tela.

Florença foi a cidade perfeita para o jovem aprendiz. Ela era um grande centro comercial, próspero e incentivador das artes. O espírito de Leonardo o levava de suas observações para o traçado de esboços e da imaginação para os seus papeis de anotações. Via as asas dos pássaros, e nela imaginava as asas dos anjos e, para mais além, projetava voos. Os seus primeiros trabalhos foram uma retratação da natureza e já eram vistos como obras primas. Depois de sete a oito anos de aprendiz foi elevado à condição de mestre. Florença também era uma cidade de muitas festas e o jovem adorava a cidade em festa.

A família Sforza o levou para Milão. Sob a proteção da rica família, o gênio de Leonardo explode em todas as direções. Ao chegar a Milão, levou para Ludovico um alaúde de presente e o tocou. Ele era de fabricação sua. Em Milão, o agora homem em volta de seus trinta anos, se tornou muito mais um engenheiro militar do que um artista da pintura. A época era de guerras e a segurança da cidade exigia armas e fortificações. Também expandiu ainda mais as suas observações, atingindo os campos do som, da harmonia, da astrologia e da anatomia. Tornou-se também um urbanista, cuidando do saneamento das cidades, evitando a propagação das pestes. Hoje diríamos que se preocupou com o saneamento básico. Na pintura inovou em suas técnicas.
 A Santa Ceia. Retratos do corpo e expressões da alma. Uma de suas melhores obras.


Em Florença recebeu de seu protetor uma encomenda para celebrar o seu esplendor. Um homem à cavalo. Isso exigiu novas observações e estudos. Mas a cidade já estava profundamente envolvida em guerras contra o reino de Nápoles e contra a França. Neste período adotou um menino pobre, que lhe deu muitos problemas. Ele o chamava de o pequeno diabinho, que comia por dois e fazia molecagens por quatro. Tornou-se também montanhista para observar  a vista, a partir do alto. Os voos sempre estiveram em sua perspectiva. Fiação, tecelagem, moinhos e eclusas também ocuparam espaços de seu tempo.

Nesta época recebeu a encomenda daquilo que seria uma de suas pinturas mais famosas. A Santa Ceia. Nela procurou retratar corpo e alma. Estudava as expressões de rosto e demorou muito até encontrar, em meio aos presos, um retrato para Judas. Não terminou o cavaleiro Sforza, pois, o bronze ganhara outra prioridade: a confecção de canhões. O rei Luís da França, quando viu a pintura da Ceia, quis levar toda a parede, onde estava a pintura, para a França, tal o seu encanto. Depois de dezoito anos em Milão, as guerras o obrigam a buscar uma nova cidade, mas assim que chegava, as guerras vinham atrás. Assim morou em Mântua e em Veneza. Na volta a Florença encontra-se com César Bórgia, o famoso filho do Papa Bórgia, Alexandre VI (1492-1503). Apesar de considerar a guerra como algo bestial, o espírito inventivo o levava à dedicação da engenharia militar. Em sua pintura chega, inclusive, a retratar batalhas.
 Esta foto eu fui buscar no museu do Louvre, em Paris. O pequeno quadro, o mais famoso.

Aos 55 anos divide a sua vida entre as cidades de Florença e Milão. É deste período a sua obra mais famosa, a Mona Lisa. É um pequeno quadro, que por anos sempre levou consigo. A modelo ficou sob absoluto sigilo. Este é também o período em que ficou muito amigo de um rico jovem, amizade que o acompanhou até o fim de sua vida. A fase final desta sua vida será na França, sob a proteção de Francisco I, como o primeiro pintor, engenheiro e arquiteto do rei. Morre  em dois de maio de 1519, aos 67 anos, deixando os seus bens distribuídos entre os amigos, por testamento.

O livro é extraordinário. É acompanhado de 23 atividades que retratam a trajetória de Leonardo e que são um convite para percorrer os mesmos caminhos. Traz ainda belos quadros explicativos deste rico período da história, que chamamos de Renascimento. Existe ainda uma bela linha do tempo e um quadro com a localização atual das principais obras do artista. Uma riqueza para o estudo e a formação das crianças.
Para contextualizar o momento histórico do renascimento é muito interessante ver a série Os Bórgias, do papa Alexandre VI.  http://www.blogdopedroeloi.com.br/2015/04/os-borgias-primeira-familia-criminosa.html

Uma observação final. Terminei de ver recentemente a série Os Bórgias - A primeira família criminosa, que retrata a vida do papa Alexandre VI e de seus filhos César e Lucrécia. O papado de Alexandre foi de 1492- 1503. Portanto, contemporâneo de Leonardo. Eles, Leonardo e César, inclusive, tiveram vários encontros. É também o tempo de Maquiavel. A série é uma fantástica recomposição e contextualização desta importante época da história. 






quinta-feira, 9 de abril de 2015

Estes traíram os trabalhadores. PL 4330 e a terceirização total.

Na história das relações de trabalho, o dia 8 de abril será inscrito como um dia trágico, um dia em que as leis trabalhistas foram absolutamente precarizadas e em que praticamente a Consolidação das Leis Trabalhistas, a nossa histórica CLT, na qual nem a ditadura militar ousou mexer, foi praticamente anulada. Em 8 de abril foi aprovado o PL 4330/2004, de autoria do deputado Sandro Mabel, do PMDB de Goiás, que permite a terceirização total nas relações de trabalho. Pela legislação anterior, apenas as atividades meio podiam sofrer essa precarização.

A Câmara dos deputados, aproveitando a fragilidade política da presidente Dilma, com uma pressa incrível de seu presidente, dep. Eduardo Cunha (PMDB-RJ.) pôs o projeto para tramitar e ser votado pelo plenário. E, inacreditável, o grande articulador para a sua aprovação foi um trabalhador, um líder sindical, o Paulinho, da Força Sindical, central que, mais do que nunca, merece o seu nome pejorativo de Farsa Sindical.
Duas figuras sinistras da política brasileira. Paulinho da Força Sindical e Eduardo Cunha. Os grandes articuladores da aprovação do PL 4330.


No blog do Sakamato, do mesmo dia, estão relacionados 9 itens que, segundo ele, constituem os temores com relação ao projeto. Diminuição dos salários; queda no número de empregos; maior risco de acidentes; fomentação de preconceitos contra uma nova categoria de trabalhadores; negociações salariais mais difíceis e mais fragmentadas; multiplicação do trabalho escravo; impunidade para os maus patrões; maior corrupção na terceirização de serviços públicos e uma diminuição geral na arrecadação de impostos e contribuições, com implicações para o SUS, em virtude do aumento do número de acidentes. Todos esses dados são acompanhados por estatísticas e fontes.

O meu objetivo com este post é mostrar como votaram os deputados paranaenses. A adjetivação que eles merecem eu deixo por conta da sua indignação; só peço que sejam adequados ao ato de barbárie cometido. Tirei a lista do VIOMUNDO (O que você não vê na mídia), que o retirou do site da CUT, em lista elaborada pela Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Segue a lista dos deputados que aprovaram a precarização das relações de trabalho e, portanto, inimigos da classe trabalhadora e também a dos que a recusaram.

Votaram a favor do projeto:

Alex Canziani                     PTB
Alfredo Kaefer                    PSDB
Diego Garcia                       PHS
Dilceu Sperafico                 PP
Evandro Rogério Roman    PSD
Hermes Parcianello             PMDB
Leandre                               PV
Luciano Ducci                     PSB
Luiz Carlos Hauly               PSDB
Luiz Nishimori                    PR
Osmar Bertoldi                    DEM
Osmar Serraglio                  PMDB
Ricardo Barros                    PP
Rossoni                               PSDB
Rubens Bueno                    PPS
Sandro Alex                        PPS
Sérgio Souza                       PMDB

Votaram contra o projeto:

Aliel Machado                    PCdoB
Assis do Couto                    PT
Christiane S. Yared             PTN
Enio Verri                            PT
João Arruda                         PMDB
Leopoldo Meyer                  PSB
Marcelo Belinati                  PP
Nelson Meurer                     PP
Toninho Wandscheer            PT
Zeca Dirceu                          PT

São 27 votos. Houve três ausentes na sessão. Confesso que fiquei surpreso com a lista, com alguns deputados. Algumas constatações. O PV está se tornando um partido de direita, todo o PSDB votou a favor do projeto e alguns deputados do PP votaram contra. Creio que esta votação também nos daria uma imagem de como o país seria governado, se Aécio Neves, do PSDB tivesse ganho as eleições. Fica o registro para as próximas eleições e para posteridade. E lembrando, ainda, que a democracia burguesa nada mais é do que as leis e as instituições com as quais a burguesia exerce o poder.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os Bórgias. A Primeira Família Criminosa.

Os Bórgias - A Primeira Família Criminosa - é uma produção fantástica da SHOWTIME, em associação com a TAKE5PRODUCTIONS e OCTAGON FILMS JEREMY IRONS "THE BORGIAS".  A série possui três temporadas. A primeira é composta de 9 episódios. O disco contém diversos extras. Possui um total de 465 minutos de exibição. A segunda é composta de 10 episódios e o disco também tem extras, num total de 519 minutos e a terceira, a chamada temporada final, também tem 10 episódios, além dos extras, com 503 minutos. O total são mais de 25 horas, o que requer muito tempo de quem se dispõe a assisti-lo em sua íntegra. Tarefa fácil para mim, na qualidade de "administrador de tempo livre".
Os Bórgias. A série completa. Um dos momentos mais importantes da história da humanidade. A construção da modernidade


Os episódios da primeira temporada tem os seguintes títulos: o cálice envenenado; o assassinato; o mouro; o casamento de Lucrécia; os Bórgias apaixonados; o rei francês; morte em um cavalo amarelo e nessuno (ninguém). Nos extras é apresentado o elenco e a escolha dos personagens.
Primeira temporada. Começando quente com cenas de envenenamento, casamento por interesse e...

Os episódios da segunda temporada tem os seguintes títulos: o touro Bórgia; Paolo; o belo engodo; cães vadios; a escolha; dias de cinzas; o cerco em Forli; verdades e mentiras; mundo de maravilhas e a confissão. Nos extras é apresentado o mundo dos Bórgias, a arte da esgrima, instrumentos de tortura e o veneno Bórgia.
Segunda temporada. Continua quente. No centro estão Rodrigo, César e Lucrécia. Todos Bórgias.

Já os 10 episódios da temporada final aparecem sob os títulos de: a face da morte; o expurgo; irmãos; o banquete das castanhas; o lobo e o cordeiro; relíquias; o estratagema de Lucrécia; lágrimas de sangue; a conspiração da pólvora e o príncipe. Nos extras é mostrada a nossa refeição diária, a ascensão de César, Rúfio - uma sombra, o reinado de Rodrigo (Alexandre VI), examinando uma cena: a tentativa de assassinato, bastidores e são mostradas cenas inéditas.
Terceira temporada ou temporada final. As relíquias sempre foram uma grande farsa.


Os Bórgias tem um subtítulo forte - A primeira família criminosa. E é esta primeira família criminosa que ocupa a centralidade da série. Os personagens desta família são o papa Alexandre VI, que é o Rodrigo Bórgia, a sua cortesã Vannozza dei Cattanei e os quatro filhos que teve com ela, César, Lucrécia, Juan e Gioffre. A série também dá grande destaque para Giulia Farneze, a amante do papa Alexandre VI, durante o pontificado.

Se tivéssemos que dar um outro subtítulo à série, certamente não cometeríamos erro se escolhêssemos "as tramas do poder", com o foco no papa Alexandre e nos filhos César e Lucrécia. Rodrigo Bórgia é espanhol, nascido na cidade de Valência. Tornou-se papa após vários escrutínios, num colégio eleitoral composto por 23 cardeais. Os principais adversários foram os cardeais Ascânio Sforza e Giulliano della Rovere. O primeiro, ele o trouxe para junto de si e o segundo tornou-se um conspirador permanente. Alexandre VI foi o papa de número 214 e governou entre 1492 e 1503. Pela data do seu pontificado dá para ter uma noção de sua importância histórica.
Os atores e os personagens. Um elenco de primeiríssima qualidade. Destaque especial para Rodrigo.


A trama, além das conspirações diárias entre as grandes famílias italianas dá destaque para a família dos Sforza: Ascânio, o cardeal, Giovanni, o marido do primeiro casamento de Lucrécia, Ludovico, de Milão e a poderosa Caterina, a do castelo de Forli. Junto com o cardeal della Rovere foram os mais implacáveis inimigos de Alexandre VI. Caterina só foi vencida quando Alexandre VI confiou ao filho César a força de seus exércitos. As tramas também envolvem o reino da França e o de Nápoles, onde Lucrécia teve o seu segundo casamento por interesses do pai.
Bem simbólico. O cálice e a serpente. O sagrado e o diabólico profundamente entranhados.


Uma das datas que eu guardo na memória é a de 1517, a data ligada à reforma protestante, preconizada por Lutero. Este não aparece na série, mas sim o espírito desta época, através do monge revoltoso de Florença, o dominicano Girolamo Savanarola, executado em Florença em 1498. A reforma protestante estava se desenhando. Mas, ainda apontando para a data do pontificado de Alexandre VI ( 1492 -  1503), enxergamos toda a formação do mundo moderno com os descobrimentos marítimos e a grande revolução comercial, bem como todo o movimento do renascimento. Tudo isso está muito presente nessa série.

Outro ponto que eu teria para destacar é a presença de Maquiavel. Ele aparece várias vezes, inclusive confabulando e tramando com César. A admiração entre eles era mútua. Vendo a série dá para entender facilmente a preocupação de Maquiavel com o exercício do poder e de sua unificação, bem como a sua admiração por homens fortes e dotados de determinação. A fortuna só sorri para os homens dotados da "virtù", ou seja da virilidade. O fim das desavenças entre as famílias dos reinados italianos só se daria com a unificação italiana.
O meu primeiro contato mais aprofundado com Os Bórgias foi por este Best Seller de Mário Puzzo.


Em suma, foram 25 horas muito bem aproveitadas ao assistir a série. Reconstituição histórica muito bem feita e com uma reconfiguração de época extraordinária. Os grandes instrumentos de poder do papa eram o casamento, para a formação de alianças entre as grandes famílias, a investidura, quando o papa coroava os reis, a anulação, pela qual o papa consentia na anulação de casamento para aliados seus, a excomunhão, pela qual os adversários eram banidos do céu na vida eterna e o assassinato ou a eliminação física de adversários indesejados. Tudo isso constitui a trama dessa maravilhosa série.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O Tempo e as Jabuticabas. Rubem Alves.

Em meus arquivos encontrei esta crônica do Rubem Alves. Não sei dar a fonte, mas a folha com a crônica tem uma dedicatória, com uma letra belíssima, do meu amigo Ruy. Ela é datada de 26 de novembro de 2011. Não costumo fazer comentários quando publico alguma coisa do Rubem Alves, para não estragar a beleza do texto. E sendo assim, vamos direto ao assunto.
Estas jabuticabeiras carregam uma vez por ano, mas enchem baldes e mais baldes. São da chácara.

O Tempo e as Jabuticabas.

"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, roi o caroço.

Já não tenho tempo para mediocridades.
Não quero reuniões, onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir o que eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.
Já esta dá frutos várias vezes por ano e também bacias cheias. Esta é do condomínio onde moro.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo".
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir dos tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão-somente andar ao lado do que é justo.
O final da vida era tema recorrente nas crônicas de Rubem Alves. Ele o sentia chegando. Poucas jabuticabas lhe restavam na bacia e sorveu-as com gosto e vontade.

Caminhar perto das coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena".