quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal. 5 - Os Reais Motivos da Renúncia.

Passaram os primeiros impactos em que o mundo, atônito, recebeu a notícia da renúncia do papa Bento XVI. Ao longo da semana, especialmente os jornais italianos, começaram a revelar os reais motivos que levaram o papa a essa atitude quase extrema e praticamente inédita. Os fatos são estarrecedores e tem como principal fonte, as investigações policiais italianas.

Existem diferentes modos de olhar a instituição Igreja Católica e o Vaticano. Se a vejo com os olhos da própria fé católica, a vejo como uma instituição divina e, como tal infalível. O papa é o representante de Deus na terra e de acordo com a interpretação agostiniana ele é a única pessoa que lê e interpreta corretamente a palavra e os desígnios divinos. Por isso a sua palavra e as suas determinações dão origem à ortodoxia e, todos os erros que lhe são apontados, não passam de calúnias e difamações.

Outro modo de olhar é ver na instituição uma certa respeitabilidade histórica, mas lhe negar a legitimidade de seus poderes. Preservam uma visão religiosa, mas acreditam que a iluminação divina é dada a todas as pessoas. Esta visão é responsável pelos grandes cismas históricos que ocorreram, como a cisão da igreja ortodoxa (século XI) e da protestante (século XVI). Da mesma forma, certamente, ela é vista por outras confissões religiosas, não cristãs. 
A majestosa Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Também existe o olhar racional que a vê como uma instituição de poder qualquer e, que, por isso mesmo, obedece aos mesmos critérios das demais instituições. Neste sentido, ela é uma instituição social, histórica e cultural e sujeita a todas as vicissitudes das instituições humanas. É uma instituição de poder e, como tal, obedece a uma rede de intrigas e disputas, muito distantes das apregoadas virtudes cristãs. Assim, notícias que a envolvem em escândalos sexuais, de corrupção financeira e de intrigas políticas, não constituem nenhuma novidade e passam a ser vistos como absolutamente normais, inerentes às paixões humanas.

O Jornal italiano "La Repubblica" foi o primeiro a investigar e a publicar os fatos que efetivamente teriam levado o papa a renunciar. Segundo o jornal, Bento XVI teria recebido um relatório, de cerca de trezentas páginas, elaborado por três cardeais, da sua mais absoluta confiança, em que constavam os fatos que o levaram a abdicar do poder.  As principais acusações do relatório envolveriam malversação de dinheiro, intrigas e disputas internas de poder e relações sexuais homossexuais. E isto tudo, dentro dos limites do Vaticano, praticados por personagens da própria Cúria Romana. 

Este relatório deverá ser entregue ao próximo papa a ser eleito e, segundo o próprio Bento XVI, ele deverá "ser mais jovem, forte e santo para dar conta do trabalho que o espera". O relatório e a sua divulgação está recebendo o nome de Vatileaks, em alusão aos recentes episódios do Vitileaks.

  • Papa Bento XVI saúda multidão de fiéis presentes neste domingo durante a oração do Ângelus
Uma das últimas aparições de Bento XVI. Alguém mais "jovem, forte e santo" para enfrentar os problemas.

O "La Repubblica" ainda comenta caso ocorrido em 2010, em que um assessor de elite - Ângelo Balducci, um dos cavalheiros de sua santidade, que prepara a agenda de visitas importantes, teria sido flagrado pela polícia, dando instruções a um interlocutor sobre detalhes físicos de homens que gostaria que fossem levados a ele. Segundo a imprensa italiana este interlocutor era Thomas Ehiem, integrante do coral do Vaticano. Os dois foram afastados de suas funções. Ehiem ainda teria descrito um homem como tendo "dois metros, 97 quilos, 33 anos e completamente ativo". Em outro telefonema grampeado pela polícia, Balducci teria perguntado se ele "já falou com o seminarista", ao que ele (Ehiem) teria respondido: "Ele provavelmente está na missa ou algo assim".

As investigações da polícia italiana contra Balducci, com o grampeamento de seu telefone, ocorreram em função de uma investigação de corrupção contra ele, que não envolvia o Vaticano.Ainda de acordo com "La Repubblica" e tendo como fonte as investigações da polícia italiana, os encontros ocorriam em uma vila fora de Roma, em uma sauna, em um centro estético, no próprio Vaticano e em uma residência universitária.

Ontem (27.02) o papa em sua despedida oficial dos fieis na Praça de São Pedro, voltou a falar de problemas que ele teria enfrentado. Referindo-se aos oito anos de seu papado, referiu-se a "momentos de alegria e outros muito difíceis". O poder, por mais forte e majestoso que seja, ele sempre será uma teia de relações. Hoje, em reunião com os cardeais, o papa abdica do poder.

É evidente que, diante dessas revelações, cresce em muito a expectativa em torno do conclave que escolherá o novo papa e que ele seja realmente "mais jovem, forte e santo", para enfrentar os desafios que o esperam. Da minha parte, os augúrios da escolha de um novo papa, com o perfil de bondade e humildade, que caraterizaram João XXIII. Cinco cardeias brasileiros integram o colégio eleitoral deste conclave, composto de 119 eleitores. São eles:
D. Odilo Scherer, 63. Arcebispo de São Paulo.
D. Cláudio Hummes, 78. Ex arcebispo de São Paulo e Prefeito Emérito da Congregação para o clero.
D. Raymundo Damasceno, 76. Arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB.
D. João Braz de Aviz, 64. Ex arcebispo de Brasília e hoje exercendo funções no Vaticano.
D. Geraldo Majella Agnello, 79. Ex arcebispo e bispo emérito de Salvador. 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Quando UTI. vira caso de Polícia. - Uma Fuga Espetacular.

Quando soube da notícia de que uma médica do Hospital Evangélico estava envolvida em caso de morte na UTI. daquele hospital, imediatamente imaginei que se tratava de uma eutanásia caridosa que teria sido consumada. Fiquei simplesmente perplexo, quando vi que não se tratava, em absoluto, desta questão. Não tenho nenhum comentário a fazer a respeito. Lamentavelmente trata-se de um caso para a polícia resolver. Pelo volume das notícias e pelos envolvimentos múltiplos de acusação e defesa, dá para perceber que a questão não é pequena.

O que dá para imaginar é o que seja uma UTI. e o que se passa em seu interior. Seria uma ante-sala da morte? Em que situação já estão as pessoas que ali ingressam? Como é o cotidiano das pessoas que nela trabalham? Será que os seus condicionamentos psicológicos não são profundamente afetados pelo ambiente em que trabalham? Será que este tipo de trabalho também vira rotineiro e burocrático? É muito difícil fazer qualquer tipo de julgamento.
Darcy Ribeiro e as Confissões. Na parte final fala de suas doenças e sobre UTI. Chegou a fugir dela.

Quero trazer, isso sim, as palavras de Darcy Ribeiro, sobre uma fuga espetacular que ele fez de uma UTI e que, segundo a sua versão, ainda lhe manteve a vida por vários anos.É sabido que Darcy teve lances dramáticos em suas lutas contra o câncer. Primeiramente foi um pulmão que estava afetado e que este, depois de retirado, lhe permitiu ainda um longo tempo de vida e, diga-se de passagem, uma vida extremamente ativa. Posteriormente ele foi acometido de um câncer de próstata, numa situação mais grave, já em fase de metástase.

Do câncer no pulmão não se sabe exatamente o que o fez sofrer mais. Se foram os sentimentos trazidos pelo diagnóstico (dezembro de 1974) positivo, feito em Paris, ou a sua relação com a ditadura militar, que impedia que a cirurgia fosse feita no Brasil, como era de sua vontade. Darcy só foi autorizado a fazer a cirurgia no Brasil, depois que um hospital americano se prontificara a fazê-la. A cirurgia foi bem sucedida. Foi difícil metabolizar a reação da ditadura com relação a sua presença no Brasil que, mesmo nestas circunstâncias, mantinha sobre ele permanente vigilância. Vejam Darcy falando a respeito:

"O mais perturbador desse período foi a nota oficial do governo, comunicando o meu ingresso no país em razão de uma enfermidade grave, para ser submetido a uma cirurgia. O segredo do meu câncer, tão guardado até de mim, saía em letra de forma em toda a imprensa brasileira e foi repetido no estrangeiro, fazendo sofrer muita gente querida". Darcy fala do paradoxo da ditadura, que se arrogava de todo o poder do mundo e, ao mesmo tempo, morria de medo de uma criatura tão fragilizada como ele.

Em 1995, já como senador, recebe o diagnóstico de câncer na próstata. Ele mesmo comenta nas Confissões: "No Rio me entreguei aos médicos e soube logo depois que estava com câncer de próstata. Não dei bola. A próstata é um erro de Deus, que decidiu colocar no mesmo encanamento de esgoto a porra e a urina, coisas que nenhum engenheiro faria. Tinha mesmo que dar galho. Era só extirpar a dita para me livrar do câncer. O único inconveniente era que passaria a ejacular para dentro da bexiga, coisa que esconderia das mulheres" Vejam o humor, mesmo acometido pela doença. Este câncer o levou à UTI. Ele descreve as suas fantasias e alucinações no estado de terror que ali viveu. Culmina com uma descrição terrível, que, creio eu, enseja ponderadas reflexões:

"A ideia que tenho da UTI é do terror que me inspirava como casa da morte. Quem está ali, lá está para morrer. A meu lado, isso não era imaginação, dezenas de moribundos morriam sem parar. Todos enfermíssimos de doenças incuráveis, homens e mulheres, pelados. Deviam ser fétidos, mas isso eu não sentia, porque estava dopado. No quarteirão de uns seis leitos, entre os quais estava eu, mudavam sempre de doentes, quer dizer, os mortos saíam e entravam outros para morrer. Sobre todos nós reinava um grande computador pisca-pisca, escolhendo, matador, quem ia morrer". Terrível!

A fuga foi planejada. Contra a vontade dos médicos, conseguiu um dia de "folga", sob a ameaça de suicídio.Ordenou ao motorista do carro que o levava para casa, já substituído por gente de sua confiança, que em vez de ir ao seu apartamento, o levasse para a sua casa de praia em Maricá. Pelo caminho, como de hábito, mandou parar numa garapeira para tomar garapa com limão e... melhorou. Ele conta: "Tenho certeza de que a fuga da UTI, o canecão de caldo de cana com limão e o que Thereza me deu para comer lá na rede me salvaram a vida. Sem isso seria morte certa".

Assim Darcy adiou a vida até 17 de fevereiro de 1997, quando veio a falecer em Brasília. Aproveitou esse tempo, especialmente, para escrever o livro O Povo Brasileiro, reunindo seus estudos de antropologia e terminar as suas Confissões, donde extraímos as palavras aqui citadas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 4. Leonardo Boff.


Não é habitual um papa renunciar. É um fato raríssimo na história. Creio que todos buscam interpretações para este fato, da renúncia de Bento XVI. No caso brasileiro, um dos primeiros nomes que vem à lembrança, para a ilustração do fato é o de Leonardo Boff, em função da figura polêmica que ele representa e pelo convívio paradoxal que ele teve, tanto com o professor, quanto com o cardeal Ratzinger. Duas figuras diferentes, em sua opinião. Buscamos em suas entrevistas mais recentes, algo esclarecedor a respeito.

leonardo boff niemeyer veja idiota
O teólogo Leonardo Boff comenta o pontificado de Bento XVI e a sua renúncia.

As entrevistas mais recentes foram dadas à Agência Brasil e à Folha de S.Paulo. Ele reclamou bastante da Folha, pelo fato de ela não ter aproveitado quase nada de sua entrevista e por isso mesmo resolveu publicá-la na íntegra. As duas entrevistas se complementam. 

Ao falar do professor Ratzinger, ele o elogia muito. Gentil, inteligente e amigo são alguns dos adjetivos que aplica a ele. Destaca a sua qualidade como teólogo, bem como o seu desapego, como o demonstra o fato de doar metade de seu salário como professor, para os seus alunos da América Latina e da África. Pessoalmente, lembra o fato de que ele recebeu ajuda de um fundo, com a mediação do professor, de 14 mil marcos, para que pudesse publicar a sua tese.

A tonalidade da conversa, porém muda, quando fala do cardeal Ratzinger e do papa Bento VI. Os adjetivos passam a ser bem outros: autoritário, centralizador e sem misericórdia para quem discordasse de seu ponto de vista doutrinário.

Boff comenta que no papado de João Paulo II ele teve influência decisiva. Os dois moldaram a igreja em seu perfil conservador. Para dentro impuseram a rigidez e a repressão. Mais de cem teólogos foram punidos. Foram rígidos na doutrina, inflexíveis na moral sexual, na contracepção e com relação às questões homo-afetivas. Para fora apresentaram-se expansivos e procuraram o diálogo com as crianças e com os jovens. João Paulo II tinha carisma e gosto para fazer isso. Já Bento XVI, por sua profunda timidez, não tinha nenhuma familiaridade com as massas. 

Os problemas de Boff com a Igreja iniciaram em 1984, quando foi solicitado a comparecer ao Vaticano, perante a Congregação da Doutrina da Fé, ex inquisição, presidida pelo cardeal Ratzinger, a dar explicações sobre o seu livro Igreja Carisma e Poder. Por três horas se sentou na cadeira, onde antes já haviam se sentado Leonardo da Vinci e Giordano Bruno, para ser  inquirido. A pena que recebeu foi o chamado silêncio obsequioso, pelo qual ficava proibido de falar, escrever e publicar livros e de dar aulas. Foi um dos cem teólogos punidos.

A sua pena foi posteriormente anulada com a mediação do cardeal Arns. Deixou o sacerdócio, mas não rompeu com a Igreja. Continuou sendo professor na UERJ.

Com relação ao pontificado de Bento XVI faz a seguinte crítica: "Acho que o projeto dele era uma reforma da Igreja ao estilo do passado, voltada para dentro e tendo como objetivo político a reevangelização da Europa. Nós, fora de lá, consideramos este projeto como ineficaz e como opção pelos ricos. Projeto equivocado. Não é um papa que deixará marcas na história".
Leonardo Boff analisa os problemas enfrentados por Bento XVI ao longo de seu papado e comenta a sua renúncia.

Aponta como maiores dificuldades em seu papado a sua relação com a modernidade, no encontro com as outras culturas e religiões. Manteve o catolicismo como o único porta voz da verdade, o que em muito dificultou as suas relações com os judeus e com os muçulmanos. Outro problema remonta aos tempos de cardeal, aponta Boff, quando ele procurava interferir para que padres pedófilos, não fossem levados a julgamento nos tribunais civis. Atuou como cúmplice desses crimes.

Terminou cercado de inimigos por todos os lados, dos quais tinha que se defender, considera ainda o teólogo Leonardo Boff. Ele também fala de sua renúncia, num juízo brando: "Eu tinha certeza de que um dia, ele aproveitaria alguma ocasião sensata, como os limites físicos de sua saúde e menor vigor mental para renunciar. Embora mostrou-se um papa autoritário, não era apegado ao cargo de papa".

Também comenta sobre o futuro papa: "O perfil do próximo papa não deveria ser um homem do poder e da instituição. Onde há poder inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a situação moral, étnica e política".


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Os Vencedores do Oscar - 2013.

Enfim os filmes premiados com o Oscar. Primeiramente os resultados. Os comentários virão na sequência. Vamos conferir a lista;

Melhor Filme:Argo. Ben Afflek

Argo, o grande vencedor. Ver comentário postado em 03.12.2012.

Melhor Direção: Ang Lee. As Aventuras de Pi.
Melhor Ator: Daniel Day Lewis. Lincoln.
Melhor Atriz: Jennife Lawrance. O Lado Bom da Vida.
Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz. Django Livre.
Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway. Os Miseráveis.
Melhor Roteiro Original: Django Livre. Quentin Tarantino.
Melhor Roteiro Adaptado: Argo. Chris Terrio.
Melhor Filme Estrangeiro: Amor. Michael Haneke.
Melhor Animação: Valente. Mark Andrews e Brenda Chapman.
Melhor Trilha Sonora: As Aventuras de Pi. Mychael Danna.
Melhor Canção Original: Skyfall. 007 - Operação Skyfall. Adele Adkins e Paul Epworth.
Melhor Fotografia: As Aventuras de Pi. Cláudio Miranda.
Melhor Figurino: Anna Karenina. Jacqueline Durran.
Melhor Documentário: Searching for Sugar Man.
Melhor Curta Documentário: Inocente.Sean Fine e Andrea Nix Fine.
Melhor Edição: Argo. William Goldenberg.
Melhor Maquiagem e Cabelo: Os Miseráveis. Lisa Westcott e Julie Dartnell.
Melhor Direção de Arte: Lincoln. Rick Carter e Jim Erickson.
Melhor Curta de Animação: Paperman. John Kahrs.
Melhor Curta metragem: Corfew. Shwan Christensen.
Melhor Edição de Som: 007 - Operação Skyfall. Per Halberg e Jaren Baker Landers e A Hora Mais Escura. Paul Ottoson. Houve empate entre os dois.
Melhor Mixagem de Som: Os Miseráveis.Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayer.
Melhores Efeitos Visuais: As Aventuras de Pi. Erik-Jan De Boer e Ronald Elliott.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Indomável Sonhadora. - É Hoje.

Hoje é o dia da revelação do Oscar. Muita expectativa acompanha o evento. Filmes muito bons e com bons esquemas promocionais fazem com que ninguém, que minimamente gosta de cinema, permaneça alheio ao evento. Já falei que todo o entorno aqui de casa espera pelo sucesso de Django Livre e já, antecipadamente, protestam pelo fato de que  Tarantino não conste da lista dos indicados como melhor diretor.

Na sexta feira fui assistir a mais um filme, que achei interessante, entre os listados a ganhar Oscar. A Indomável Sonhadora, título brasileiro, não imune de críticas.(Beasts of the shoutern Wild, no original). Ele tem um apelo muito forte, que é a atuação de uma criança, uma menina de seis a oito anos, no papel principal e com indicação para melhor atriz, a Hushpuppy, ou simplesmente Puppy, interpretada por Quvenzhané Wallis.
 Cena do filme em que a pequena Hushpuppy atua ao lado de seu pai, Wink.


Alguns pressupostos precisam ser colocados para melhor ver o filme. Ele mostra a visão de mundo de uma criança, o que não é uma tarefa fácil. O diretor, também um estreante, Benh Zeitlin, penetra no subjetivo da criança, povoada de mitos e imagens, para a partir dela mostrar o mundo em caos. O que trabalha é o imaginário da criança. O filme, por isso mesmo, não tem uma linearidade e vi algumas pessoas se retirarem do cinema durante a sua exibição.

O furacão Katrina sobre a cidade de Nova Orleans é outra referência necessária para a sua melhor compreensão. O filme trata da perda de pessoas e de lugares. Puppy sente constantemente a ausência de sua mãe e mostra uma convivência amorosamente complicada com o seu pai, Wink (Dwight Henry) um homem destinado a morrer, destinado a mais uma perda na vida da menina. Os programas de evacuação das áreas atingidas por uma grande tempestade (Katrina), põem os personagens diante da perda de seus espaços, em que teimam permanecer.

Duas grandes forças estão presentes ao longo de todo o filme: a força da natureza e a denúncia de sua deterioração, oferecendo assim, belas lições de ecologia e as dificuldades materiais daqueles que teimam em permanecer em seus espaços, a tal da Banheira. É neste momento que são mostradas as cenas mais humanas do filme, com muita ternura e carinho e acima de tudo muita solidariedade. Vivem entre restos de casa e de trailers, na mais absoluta miséria, porém irmanados.As filmagens foram feitas em uma loja de conveniência abandonada às margens de um rio, na Louisiana. Os personagens recorrem até à explosão de uma barragem para que as águas voltassem ao seu normal, e assim poderem permanecer no local.

Uma das cenas mais emocionantes é a da menina ganhando um colo e falando da necessidade deste colo, seja ele, de quem for. Queixa-se, na sua amargura infantil, de que nunca  tivera colo ao longo de toda a sua vida de infância.A atuação da menina impressionou muito toda a crítica, que não lhe poupou elogios. Quanto ao diretor, o maior questionamento ao seu trabalho é feito, com relação ao imaginário da criança, a lançar o seu olhar sobre o mundo. Não seria, por acaso, uma visão já adulta?
Benh Zeitlin

Benh Zeitlin, o jovem diretor de A Indomável Sonhadora, seu primeiro longa.

O diretor, filho de folcloristas, tem formação em cinema e é visto como uma das grandes promessas dos novos tempos do cinema americano. Confere muito de literatura aos seus personagens. O filme tem quatro indicações a Oscar: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro adaptado e melhor atriz.

A concessão das estatuetas do Oscar tem em si muitas contradições. Uma delas, neste ano, está na escolha  da melhor atriz. Que critérios tem os eleitores para estabelecer comparações ou diferenças entre os trabalhos de Quvenhzané Wallis e de Emmanuelle Riva? Quais seriam os parâmetros de comparação e  de diferenciação? Tenho cá para mim que eles não existem. Tarefa difícil para decidir.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Brasileiros Votam na Escolha do Oscar?

O Oscar é um dos maiores eventos culturais do mundo. Ele vem acompanhado de muito charme e glamour e, muita publicidade, obviamente. Tudo começa com as indicações. Estas são feitas para 24 quesitos diferentes. Indicações são dadas para:
24 estatuetas deverão ser conferidas, em meio a um clima de muita festa.

-melhor filme. - geralmente dez indicações. Este ano são nove;
-melhor direção. Normalmente são cinco indicações para o restante dos quesitos;
-melhor ator e atriz;
-melhor ator e atriz coadjuvante;
-melhor roteiro original e adaptado;
-melhor animação;
-melhor filme estrangeiro. Também pode ser indicado como melhor filme;
-melhor trilha sonora;
-melhor canção original;
-melhor fotografia;
-melhor figurino;
-melhor documentário;
-melhor curta documentário;
-melhor edição;
-melhor maquiagem;
-melhor direção de arte;
-melhor curta animação;
-melhor curta metragem;
-melhor edição de som;
-melhor mixagem de som;
-melhores efeitos visuais.

O prêmio é concedido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Los Angeles, ou simplesmente Academia, que foi fundada em 1927, pelos homens do cinema. Ela é uma organização daqueles que lidam com ele, dominantemente americana, mas também aberta aos demais países. Hoje ela tem membros em 36 diferentes países. A instituição do prêmio, do Oscar, remonta ao ano de 1929. Existem várias interpretações sobre a origem do nome - Oscar.

Todas as pessoas indicadas a receber um Oscar passam a ser os eleitores para as suas escolhas futuras, dentro de suas áreas. Também podem ser escolhidas pessoas, a critério da Academia, que prestaram relevantes serviços ao mundo do cinema. Hoje o Colégio Eleitoral é composto por 5.800 eleitores. Neste ano de 2013, pela primeira vez estes eleitores puderam votar pela Internet. Imaginem o sistema de segurança que acompanha este processo de escolha. A lista dos eleitores não é disponibilizada.

As premiações ao Oscar 2013 já estão decididas. O processo eleitoral iniciou-se no dia 8 de fevereiro e encerrou-se na terça feira passada, 20 de fevereiro. Um forte esquema publicitário acompanha todo o processo. A Warner, responsável por Argo e a Disney, distribuidora de Lincoln, já teriam gasto dez milhões de dólares para promoverem os seus filmes. As nove indicações de melhor filme deste ano já faturaram mais de dois bilhões de dólares. É comum, entre os próprios membros da academia, a convicção de que nem sempre os melhores são os premiados. Neste ano a competição está mais acirrada nas escolhas de melhor filme (em meu círculo Django Livre é disparadamente o favorito), de melhor diretor e de melhor ator e atriz coadjuvante. Pelos temas abordados Argo e Lincoln despontam como reais favoritos.Coisas de americanos.
No meu entorno toda a preferência é dada para Django Livre, de Tarantino.

Mas, afinal de contas os brasileiros votam? Há brasileiros eleitores, sim! Vejam o critério. Quem já recebeu indicções é eleitor em potencial. Estão nesta condição, segundo consegui apurar, Walter Salles e Fernanda Montenegro, por Central do Brasil; Bruno Barreto, pelo Quatrilho e Fernando Meirelles por Cidade de Deus. Este filme também lançou Bráulio Mantovani (roteirista) e Daniel Rezende (editor), como eleitores. Bruno Barreto seria um duplo eleitor, pois também ganhou a indicação de melhor filme estrangeiro, com O que é Isso Companheiro, adaptado do livro de Fernando Gabeira.
O premiadíssimo filme brasileiro Cidade de Deus. Por ele três brasileiros teriam direito a voto para o Oscar.

Ocorre um porém. Para ser eleitor tem que estar em dia com a OAB, desculpem, com a Academia. A sua mensalidade gira em torno de duzentos e cinquenta dólares anuais, razão pela qual a maioria dos eleitores deixa de votar. Consta que entre os brasileiros o único a votar regularmente é o editor de Cidade de Deus, Daniel Rezende.

Quanto ao mais é só aguardar. Ontem teve estréia nacional de mais um dos filmes com indicações e com ineditismos. Trata-se de A Indomável Sonhadora, com quatro indicações: melhor filme, melhor direção, melhor roteiro adaptado e melhor atriz, Os ineditismos vão por conta da menininha, com seis (ou oito) anos de idade durante as filmagens, Quvenzané Wallis. É a mais nova pessoa, em termos de idade, com indicação a melhor atriz. O mesmo ocorre com o seu diretor, Ben Zeitlin, 30, também um novato. Aliás, no extremo oposto, concorre a atriz mais velha, Emmanuelle Riva, de Amour, com 85 anos. Proximamente estaremos comentando o filme. Por enquanto, vamos ficando nas expectativas e..., na torcida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 3. Dante Alighieri e a renúncia de celestino V.

Dante Alighieri (1265-1321) também era político. Era absolutamente a favor de que as pessoas assumissem posições com muita firmeza. Não cabia em sua mente a neutralidade. Envolveu-se profundamente nas brigas de seu tempo, que, por sinal, não eram pequenas. Viveu em tempos de crises profundas, em tempos de transição. O mundo moderno estava em seu alvorecer. O poder estava migrando - do poder espiritual/papal para o temporal, dos reis. Problemas de sucessão no Sacro Império Romano Germânico dividiram a Europa entre Guelfos (seguidores do papa) e Gibelinos (adeptos do poder temporal).
Busto em homenagem a Dante, na sua cidade de Florença, da qual viveu banido por quase toda a vida.

Dante, apesar de católico devoto era um fervoroso gibelino. Uma das coisas que ele mais odiava era a dita neutralidade. A leitura de A Divina Comédia é recomendada pela Igreja e posta em nível de igualdade com a leitura dos Evangelhos, pelos efeitos que ela produz sobre a alma de um cristão. Dante, no entanto, nunca foi proclamado como um santo da Igreja. Os motivos parecem óbvios.
A monumental obra de Dante Alighieri. Versão bilíngue da Landmark.

Creio que ninguém tem dúvidas sobre a superioridade da primeira parte da Comédia, em que é descrito o Inferno, sobre as demais partes, onde são descritos o Purgatório e o Paraíso, respectivamente. Assim como também, creio eu, ninguém tem dúvidas sobre o verso mais famoso desta primeira parte, bem como de todo o livro, é o início do canto terceiro, em que se encontra o verso inscrito no portal do inferno:

"Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até a eterna dor,
por mim se vai à perdida gente. [...]
Deixai toda a esperança, vós que entrais".

Este "deixai toda a esperança, vós que entrais" é a frase terrível com a qual Dante, guiado por Virgílio, inicia a sua viagem pelo Inferno, numa graduação dos pecados, dos menores para os maiores. A primeira parte é dedicada ao Inferno, mas não àquele propriamente dito e que é dividido pelo poeta em duas partes: o vestíbulo e já o primeiro círculo, o limbo. A estas partes são dedicados o terceiro e o quarto cantos. Nele iremos encontrar os ignaros (no ante-inferno, ou no seu átrio) e os virtuosos anteriores a Cristo e as crianças não batizadas (O limbo foi abolido pela Igreja, através de um documento da Comissão Teológica Internacional da Igreja e a sua publicação - e consequente validade - foi autorizada pelo papa Bento XVI, em 2007). Entre os virtuosos estão todos os grandes nomes da antiguidade clássica, inclusive o seu guia Virgílio. A escolha de Virgílio como guia, se dá em função da admiração que Dante lhe devota e por causa da Eneida, especialmente ao canto VI, Eneias no mundo das sombras, uma espécie de viagem precursora.
Em revista sobre a Divina Comédia, a apresentação dos primeiros círculos do Inferno e o seu vestíbulo, onde colocou o papa Celestino V, por ter renunciado ao pontificado.

O posicionamento político de Dante faz com que os seus personagens do Inferno tenham nomes. São os seus inimigos políticos. Pois bem. É aqui que entra a história do papa que renunciou. Trata-se de Celestino V, um monge da região do Abruzzo, de nome Pietro da Morrone, que através de uma série de manipulações dos cardeais, é eleito papa, sem nenhuma vocação para tal, renunciando cinco meses depois. Isso ocorre no ano de 1294. O mais grave disto, do ponto de vista de Dante é que isso proporcionou a ascensão do guelfo Bonifácio VIII ao papado, considerado por ele, como causa de todos os males que afligiam a Dante e a sua Florença. Dante coloca a Celestino V, nem no Paraíso e nem no Inferno. Não o quis Deus e nem o demônio. A renúncia ou a omissão fez com que não interessasse nem ao Bem e nem ao Mal. Não vai nem mesmo para o inferno, ficando na sua ante-sala.

Mas vamos ao papa rifiuto. Dante não é nada  generoso com o renunciante. Não o coloca no inferno propriamente dito, mas muito menos no Paraíso. Vamos aos versos do entorno,  Versos 33 ao 68.
"E co a cabeça de erros só cingida,
eu disse: Mestre, que ouço? pela dor, 
que gente é esta agora assim vencida?
E ele a mim: 'É o mísero valor
daquelas almas tristes em seu choro
que foram sem infância e sem louvor.
Vão misturadas ao molesto coro
dos anjos que não foram nem revéis
nem fieis a Deus, senão ao próprio foro.
Por mor beleza, o céu expulsa-os; eis
que a acolhê-los o inferno não se atreve:
seriam glória aos réus de eternas leis.
E eu: Ó mestre, o que é que tanto deve
neles pesar em tal lamento forte?
E ele disse: Te dou resposta breve.
Esperança não tendo em si de morte,
trazem tão baixa e cega a vista baça,
que têm inveja a toda a demais sorte.
Da fama não lhes fica ao mundo traça;
misericórdia justa os já despreza:
mas não falemos deles: olha e passa.
E uma bandeira vi, com tal surpresa,
que girava correndo em veloz jeito,
e à qual indigna pausa era defesa;
e atrás lá vinha longa fila a eito
de gente que eu jamais teria crido
que a morte tanta houvesse já desfeito.
Depois de haver alguns reconhecido,
vi, conheci, da sombra a lividez
que por vileza a mor escusa há tido.
Logo entendi e certo se me fez
ser a seita dos maus que são nocivos
a Deus e aos inimigos de uma vez.
De tão abjectos nunca foram vivos,
estavam nus e os bem espicaçavam
só vespas e moscardos, como crivos.
O rosto com o sangue lhes regavam,
e o sangue e mais as lágrimas, no chão,
lá repugnantes vermes os tragavam (Tradução de Vasco Graça Moura - Landmark - 2005)

Vejam o julgamento do renunciante nas palavras do próprio Dante: "Logo entendi e certo se me fez - ser a seita dos maus que são nocivos - a Deus e as inimigos de uma vez".
A biografia de Dante, de R.W.B. Lewis, da Objetiva e a revista Livros - Entre Clássicos, dedicada a Dante.

Não posso terminar este post, sem mencionar a renúncia de Bento XVI. É evidente que o julgamento de Dante não se aplica a ele. Em primeiro lugar porque o julgamento de Dante tem tempo e espaço definidos. Um papa que renunciou por uma ato de fraqueza e que proporcionou a ascensão do inimigo. É muito mais um lamento do que uma condenação, embora como condenação, pesadíssima. No dia de hoje(22.02.2013) repercutem no Brasil os dados publicados pelo jornal "La Repubblica" sobre os reais escândalos que teriam levado Bento XVI à renúncia. Oportunamente comentaremos.

É mais do que visível a debilidade física de Bento XVI. Li que ele tem sérios problemas de visão, de audição e de locomoção. Abdicar ao papado, nestas circunstâncias é acima de tudo um ato de humanidade e que assim deve ser entendido por todos. A longevidade de nossos tempos traz também as suas consequências. A sua renúncia, apesar de termos uma figura nova, um ex-papa, é plenamente justificável. Amanhã falaremos de Leonardo Boff.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 2. A Guinada Conservadora.

O Concílio Vaticano II praticamente ficou inconcluso. Temas como o celibato clerical, a contracepção e a participação feminina na hierarquia passaram em branco e até hoje são temas absolutamente polêmicos. Com a inesperada e aparentemente inexplicável morte de João Paulo I e a eleição de João Paulo II, a igreja volveu-se à direita. As questões sociais, se não ficaram ausentes, passaram a ocupar uma posição absolutamente secundária. Os teólogos da teologia da libertação foram praticamente sufocados e alijados da hierarquia. Dioceses com bispos democráticos e progressistas foram divididas, como aconteceu com a arquidiocese de São Paulo. Esta divisão nos é narrada pelo próprio Cardeal Arns, em seu belo livro de memórias Da esperança à Utopia - Testemunho de uma vida. Cerca de 100 teólogos foram punidos, entre eles, o brasileiro Leonardo Boff.

Sempre que abordei questões de religião em minhas aulas, sempre as fiz do ponto de vista cultural e nunca pelo da religião e da fé. Normalmente estas abordagens integravam um capítulo sobre a cultura ocidental, profundamente cristã e capitalista. A partir daí recompúnhamos a sua origem. O cristianismo sob este ponto de vista é possivelmente a mais sofisticada construção histórica e cultural que existiu. Do judaísmo herdou o monoteísmo e a Bíblia, como a palavra de Deus; dos gregos recebeu a racionalidade e a concepção individual. O mundo das idéias de Platão rapidamente se transformou no mundo das idéias divinas e, - dos romanos, com a fusão das heranças anteriores, foi acrescida a organização. Entre nomes e fatos apontaria São Paulo e o Concílio de Jerusalém, O Concílio de Niceia (Constantino e a ortodoxia) e Santo Agostinho, como aqueles, e com os quais, os pilares fundamentais da doutrina estavam lançados. No século IV e V, quando viveu Santo Agostinho, o cristianismo já tinha praticamente a sua configuração atual. É a primeira doutrina que visa a universalidade. Um enorme projeto de poder, portanto. E como tal, foi um enorme sucesso.
Um belo livro do historiador Paul Johnson, História do Cristianismo. Imago, 677 páginas.

Deixo aqui como recomendação de leitura, para quem se interessar mais de perto pelo tema, o extraordinário livro do conservador historiador inglês, Paul Johnson - História do cristianismo, uma publicação da Imago.

Para entender bem o espírito do cristianismo, na sua guinada conservadora, eu recorro a um texto, retirado do livro de João Paulo II, intitulado Memória e Identidade, que eu considero profundamente ilustrativo. Ele está no capítulo 2 - Ideologias do mal - Então, qual foi a origem das ideologias do mal? Quais são as raízes do nazismo e do comunismo? Como se chegou à sua queda?

A partir desta apresentação começa a interpretação papal. Vou assinalar a parte do texto que considero fundamental. Quem não o considera suficiente, recomendo o livro inteiro. É uma publicação da Objetiva. Vejamos. O que quero destacar está escrito na quarta página do capítulo. As anteriores são de introdução ao tema proposto:
Livro de João Paulo II, onde se encontra o texto transcrito abaixo.

[...] "A fim de ilustrar melhor este fenômeno, é preciso remontar ao período anterior ao Iluminismo, sobretudo à revolução operada no pensamento filosófico por Descartes. Aquele seu "cogito, ergo sum - penso logo existo" desencadeou uma reviravolta no modo de fazer filosofia: no período pré-cartesiano, a filosofia - e por conseguinte o cogito ou melhor, o cognosco - estava subordinado ao esse, que era visto como primordial. Aos olhos de Descartes, por sua vez, o esse aparecia secundário, enquanto ele considerava primordial o cogito; deste modo realizava-se não só uma mudança de direção no filosofar, mas decididamente abandonava-se o que tinha sido até então a filosofia e, mais concretamente, a filosofia de Santo Tomás de Aquino: a filosofia do esse. Antes tudo era interpretado na perspectiva do esse e procurava-se uma explicação de tudo dentro dessa ótica: Deus, Ser plenamente auto-suficiente (Ens subsistens), era considerado o suporte indispensável para todo o ens non subsistens, ens participatum, isto é, para todos os seres criados e, por conseguinte, também para o homem. O cogito, ergo sum implicava uma ruptura com essa linha de pensamento: tudo o que for esse - tanto o mundo criado como o Criador - permanece no campo do cogito como conteúdo do conhecimento humano. A filosofia ocupa-se dos seres enquanto conteúdo do conhecimento, e não como existentes fora dele".

Mais explícito é impossível. É a mais pura renovação da subordinação agostiniana, da razão à fé, da razão como uma serva da teologia. A razão é uma dádiva que os homens receberam de Deus, para melhor entender a palavra de Deus e, - nunca para suscitar dúvidas ou afastamento. E aí se encerra a discussão. Ou você crê ou não crê.É um pacote pronto, onde também está incluída a questão da infalibilidade do papa. Creio que isso é fundamental para entender as dificuldades que Bento XVI teve com os temas relacionados ao ecumenismo. Qualquer interpretação diferente disso será dar superioridade ao racional - o que é a inversão entre o esse, o ens subsistens e o cogito, o ens non subsistens. Não existe espaço para o diálogo. A doutrina é hermeticamente fechada. Não existe espaço para nenhum tipo de concessão. Temas novos são tratados  com a velha doutrina imutável.
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A foto de João Paulo II. Para dentro, a doutrina rígida, para fora, uma aproximação carismática.

Isto gera crises? É óbvio que sim. Isso é a fonte de toda a autoridade e poder intolerante, contra o qual não há argumentos. Ainda bem que vivemos em tempos mais abertos, em que foi se construindo uma sociedade mais aberta, mais plural e que caminhou a passos largos na consolidação de direitos civis, políticos e sociais. Amanhã continuarei com o tema.





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 1. João XXIII e o Concílio Vaticano II.

Todos somos profundamente cristãos. Mesmo não sendo seguidores ou praticantes, o cristianismo está entranhado em nós mais profundamente até, do que possamos imaginar. Ele está nas instituições a que temos de nos submeter, ele está na moral e nos costumes, no linguajar e no comportamento, na  timidez nos relacionamentos, na fala e especialmente na obediência, ou então, na dificuldade que temos, em assumir posições que exigem a tomada de decisões. Somos formados (a catequese), em um mundo de verdades e de valores eternos e imutáveis que nos apontam para o caminho da salvação. Isto está entranhado em nós, mesmo quando negamos essa realidade.

Eu nasci em Harmonia, mas em estado de pacífica beligerância. "Família que não tem um filho padre é família que não rezou o suficiente e, portanto, terá dificuldades em se salvar", pregava o Cônego Mallmann, vigário de Harmonia, por mais de cinquenta anos. Como eu era o mais novo entre cinco irmãos e nenhum deles seguiu a carreira, sobrou para mim. Todos os sonhos e desejos dos que me rodeavam se sintetizavam em um só: Esse menino tem que ser padre. O limite do nosso imaginário eram os céus de harmonia, que se conectavam diretamente com os céus do paraíso. E haja humildade, piedade, castidade, recolhimento e renúncia. E..., controle.

Menino de onze anos, fui para o seminário: Bom Princípio me acolheu. Fiz o quinto ano, a famosa admissão ao ginásio e o primeiro ano ginasial, indo então para Gravataí, onde completei o curso ginasial e o ensino médio. Depois fiz mais quatro anos de filosofia em Viamão. Depois fui para o mundo, onde estou e, espero  que, ainda por um longo tempo.

Hoje puxo as minhas memórias, para trazer ao presente o Concílio Vaticano II, possivelmente o primeiro grande impacto sobre a minha vida. Vamos contextualizá-lo. Ele foi convocado pelo Papa João XXIII, em janeiro de 1961, teve o seu início em outubro de 1962, também com João XXIII e o seu encerramento ocorreu em dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI. Fazendo a contagem regressiva, foi o tempo em que estava no ensino médio, pois me formei em 1968.

Me lembro perfeitamente que estudamos os concílios promovidos pela Igreja católica, por memorização de questionários. Fizemos uma maratona, com eliminatórias e a grande final. Um colega meu e eu fomos imbatíveis. Acertávamos tudo. Não erramos nenhuma. Os dois, fomos proclamados como os maiores entendedores de concílios, ao menos no seminário e pelo consagrado método do questionário. Como a memória é altamente seletiva, não me lembro mais absolutamente de nada.

Mas lembro do ambiente e dos impactos produzidos. Vou aqui reproduzi-los, juntando memória e alguma coisa a mais. A mais marcante de todas foi a de que João XXIII me cativou. Continua sendo meu ídolo. Me emocionei profundamente, quando no ano passado visitei a cidade de Bérgamo e lhe pude prestar reverência em seu túmulo, na catedral da sua cidade natal. O papa dos pobres. Único papa de origem humilde.
Homenagem ao papa João XXIII, na sua sepultura, na catedral de sua cidade natal, Bérgamo.

Hoje reflito sobre o gesto da convocação de um concílio e sobre o seu significado. Historicamente os concílios estão ligados a momentos de crise ou fragilidade do catolicismo e, quase todos eles terminavam por afirmação de dogmas, verdades absolutas, proclamadas pela igreja. Basta lembrar o Concílio de Trento, no século XVI, como reação à ameaça protestante e o próprio Concílio Vaticano I (1869-70) em que foi afirmado o dogma da infalibilidade do papa. No concílio Vaticano II não foi proclamado nenhum dogma. Foi discutido o "aggiornamento" da igreja ao giorno - dos complicados anos 60.

João XXIII não tinha uma formação mais refinada como, por exemplo, Bento XVI. Se caracterizava pela sua humildade e simplicidade e pelo eterno sorriso que estampava em seu rosto. Convocou o Concílio não para afirmar autoridade, mas movido por espírito democrático, debater e decidir sobre a renovação da igreja e a sua adaptação ao tempo presente. Isso feriu profundamente aos pregadores de verdades absolutas, eternas e imutáveis, aos conservadores, aos que acreditam na imutabilidade do tempo e da história.
Uma bela biografia do papa João XXIII de autoria de Thomas Cahill. Pela Objetiva. Nela Yves Congar retrata a personalidade do papa com uma frase muito simples: "Este foi o segredo de sua personalidade: amava mais as pessoas do que o poder".

João XXIII não levou teses prontas, como normalmente acontece em Congressos, para serem aprovadas. Creio que podemos comparar o Concílio com a realização de Congressos. Confiou profundamente numa iluminação mais coletiva do que individual, para a solução de problemas.

As principais decisões tomadas neste concílio estão relacionadas aos seguintes campos: Na pastoral. Remontam ao Concílio as diversas pastorais hoje em voga e que, em última análise, representam uma maior democratização da igreja, com a valorização de leigos, de pessoas antes, absolutamente fora da hierarquia religiosa (hieros - sagrado + archei - governo, ordem - hierarquia é, portanto, um governo ou uma ordem sagrada). Remontam também ao Concílio as mudanças na liturgia, com a maior aproximação do povo. A liturgia se tornou menos mistério e mais participação: língua vernácula e cerimonial voltado para o povo e este, a participar ativamente (Mas não os animadores de auditório dos dias de hoje). Merece também um profundo destaque a preocupação da igreja com as questões sociais, o que moveu a aproximação da igreja com as doutrinas marxistas e o nascimento da teologia da libertação e a bela encíclica de Paulo VI, a Populorum Progressio.

Creio, no entanto, que o maior avanço ocorreu com relação a atitude da Igreja. Ela já não mais se apresentava como o único caminho do bem e da salvação, abrindo assim espaços para as demais confissões cristãs, e também, aproximando-se dos outros credos religiosos. Isso mexe com a estrutura de poder. Isso é confissão de humildade nunca vista, sonhada ou imaginada. Também não tenho dúvidas de que a reação  interna, conservadora se centra neste quesito. É partilha de poder. E nenhuma personalidade autoritária, dogmática e portadora de verdades absolutas e imutáveis gosta da partilha de poder. É a abertura de uma fenda na infalibilidade.

Estes são os arquétipos que marcaram a minha formação e, dela guardo com muito carinho e cuidado a formação humanista - de solidariedade e não de caridade - que começou a se moldar em mim.

Os papas progressistas foram os dois do Concílio Vaticano II, João XXIII e Paulo VI e ainda o meteórico e enigmático papado de João Paulo I. Depois os conservadores tomaram o poder com o longo papado de João Paulo II e o atual, que agora renuncia, Bento XVI.  Ao que consta, estas disputas internas entre estes grupos é que teriam provocado grandes aborrecimentos ao papa. Veremos mais adiante.

Em tempo. Como estou lendo Darcy Ribeiro, vejam o que ele fala de três Joões de seu tempo, depois de ter sido convidado por JK para ser ministro da agricultura, no seu futuro governo.  Darcy fala o que segue: "Isso na boca de Juscelino, dito hoje, parece inverossímil. Mas naquele mundo dos três Joões que procuravam reformar-se a si mesmos e ao mundo, ganhando novos espaços para o progresso, tornou-se factível e foi o que Juscelino me disse. Efetivamente, vivia-se um tempo de exceção, cujas três figuras simbólicas eram os três Joões: João XXIII, de Roma, conduzia a Igreja a uma política lúcida, rompendo a aliança milenar com os ricos. John Kennedy, nos Estados Unidos, pelo menos aparentemente, comprometia-se com a democracia e com um novo trato com a América Latina, que permitisse um desenvolvimento socialmente responsável. E o próprio Jango, que também era João. A Guerra Fria matou meus três Joões e seus ideais de liberdade e solidariedade".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

No Rancho do Miro em Guaratuba.

Para quem não é de Curitiba ou do Paraná eu explico: Guaratuba é a maior praia do litoral paranaense. Os paranaenses tem um certo complexo de inferioridade, absolutamente injustificável, com relação ao seu litoral. Nele encontramos praias muito belas e uma baía de beleza inigualável, a baía de Paranaguá. Nela se encontram as famosas ilhas do Mel e a quase desértica Superagui. Na ilha de Superagui encontra-se um vegetal único no mundo, a cataia, da qual se aproveitam as folhas, que postas na cachaça, formam um dos melhores whiskys do mundo, o whisky caiçara. A baía de Guaratuba também é bonita, mas ainda é pouco explorada.

O complexo de inferioridade ao qual eu aludi, se dá em função da ampla preferência que os parananenses tem pelas praias catarinenses, especialmente Camboriú e Meia Praia. Devemos reconhecer que falta ainda muita infraestrutura para as praias do Paraná, especialmente no que se refere às rodovias. Em dias de movimento um pouco maior, os congestionamentos ocorrem com certeza absoluta. E eles são monumentais.
Vista da baía de Guaratuba.

Bem, quando o movimento maior do carnaval já tinha passado, fui com o meu filho para Guaratuba. Foi interessante.Tenho lá, junto com ele, um apartamento, o de número 14. Aproveito para convidar para uma passada por lá (Os curitibanos são famosos por convidarem as pessoas para que as visitem - mas nunca fornecem o endereço). E ... não esqueçam - o número do apartamento é 14. Eu ao menos dou o endereço. Aproveitamos para comer bastante camarão ao bafo, preparado de própria lavra. Este camarão é uma de nossas preferências.

Numa noite dessas fomos jantar no Rancho do Miro. Ele é conhecido como o seresteiro do litoral. Miro me lembra uma música gaúcha, da qual não me lembro o nome, que falava de um baile que só acabava, quando o gaiteiro repetisse música. Assim o baile durava a semana inteira e só terminava mesmo quando os estancieiros vinham buscar a peonada. Miro tem gravadas na memória mais de duas mil músicas. Miro está no litoral há muito tempo, tendo agora o seu próprio restaurante. A música dominante é a seresta. É uma fábula.

Numa das mesas estavam sentadas várias senhoras, que de imediato solicitaram músicas. É o costume da casa. O público pede e Miro canta as páginas musicais solicitadas. A primeira solicitação foi Altemar Dutra. Sentimental eu sou. Um largo sorriso se desenhou no rosto destas senhoras, o que comprova que o avançar dos anos não deforma rosto nenhum, quando este se reveste de um belo sorriso. As meninas se animaram e pediram mais música. Desta vez a solicitação foi para Cadeira Vazia. E lá veio este clássico do Lupicínio Rodrigues. Esta é a sua música que mais aprecio, obviamente que, depois do hino do Grêmio. Nada se iguala ao "Até a pé nós iremos".

Ouviram a música muito educadamente, mas ao seu final, mostrando um certo constrangimento, falaram que não era esta a cadeira vazia que queriam ouvir, que era outra. Aí foi um deus nos acuda e, não é que chegaram a um bom termo. A música que elas queriam ouvir era Naquela Mesa - a do Nelson Gonçalves. A lógica delas não estava errada. Se está faltando alguém naquela mesa..., poderia haver lá, uma cadeira vazia. Gostei. Fui beneficiado duas vezes.

E assim tivemos uma noite muito bonita, com a casa cheia e com boa música por um longo tempo. Locais assim são difíceis de se encontrar hoje em dia. Creio que não preciso dizer que os jovens lá não estavam. Estamos vivendo em outros tempos.
Busto em homenagem ao eterno seresteiro de Guaratuba, depois de ser chamado para cantar aos deuses.

Parece que Guaratuba gosta mesmo de seresta. Recebi do sr. Costa, da Bolão Imóveis, um convite para participar da inauguração de um busto, - na praça Cel. Alexandre Mafra, no domingo passado (17.02.2013) - de um eterno seresteiro Luizinho Cadedeia. No busto ele aparece com o seu violão e as inscrições são as seguintes: "Luiz Cunha Silveira "Luizinho" - Nascido nesta praça 17.02.1926 - Chamado a cantar aos deuses 01.07.1997. Homenagem do povo de Guaratuba ao nosso eterno "seresteiro". 17.02.2013". Bela homenagem. Isto é preservação da memória.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Navegação de Cabotagem. Jorge Amado.

Termino de ler o belíssimo livro Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado. Embora a afirmação do título, o livro soma um sem número de posts, que constituem as memórias do grande homem e do memorável escritor. Digo posts porque se trata de pequenos textos em que o escritor rememora fatos de sua vida, sem nenhuma linearidade. A obra, no entanto, nos dá uma contextualização extraordinária , tanto do Brasil, quanto do mundo, dos anos 30 aos anos 90.
Navegação de Cabotagem - Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado. Companhia das Letras. 508 páginas e mais de cem fotografias ou documentos históricos.

Internamente ele mostra o seu entusiasmo com o Partido Comunista, o Partidão, com a sua adesão plena, bem como os sofrimentos causados por essa sua opção. Praticamente toda a intelectualidade brasileira e o mundo literário era militante. Os que não eram comunistas, eram integralistas. No cenário externo havia todo o entusiasmo com os êxitos da União Soviética, especialmente, com os logrados ao longo da Segunda Guerra.

Internamente Jorge Amado destaca a sua atuação como parlamentar constituinte onde, segundo depoimento próprio, enaltece a sua atuação em favor da emenda que institucionalizou a liberdade religiosa. Fala também da decepção com a atividade parlamentar e da frustração com a colocação na ilegalidade, do seu partidão.

Um ponto alto nas narrativas de seu livro são as enormes vantagens que ele obtém com o fato de ser escritor comunista, os inúmeros encontros internacionais dos escritores pela paz, o que lhe concede encontros constantes com a intelectualidade mundial. Sartre e Simone de Beauvoir, Picasso e Pablo Neruda, Gabriel Garcia Marques eram companhias constantes, além de muitíssimos outros, nesse mesmo nível. Seu êxito maior foi ter conquistado o Prêmio Stálin, o maior prêmio de literatura dentro do mundo Soviético. Este prêmio, inclusive, lhe serviu como uma espécie de imunidade contra os expurgos que o stalinismo promovia contra os seus intelectuais. Este prêmio foi depois rebatizado com o nome de prêmio Lênin. Jorge não aceitou a troca, por uma questão de fidelidade histórica. A história não se muda.

O stalinismo é outro ponto forte do livro. No começo o entusiasmo, depois a decepção. As denúncias contra Stálin ocorridas no XX Congresso do PCUs. e as decepções com o sistema, que se seguem, ocupam outra parte importante do livro. Essa decepção se estende também ao Partidão, aqui no Brasil, com as suas hierarquias, dogmatismos e controles rígidos exercidos sobre os seus membros. Sem perder a fé nos ideais socialistas mas profundamente decepcionado com o socialismo real e o centralismo no PC brasileiro, abandona a militância, ainda em 1956.
Um encontro dos amigos: Niemeyer, Dorival Caymmi e o próprio. Foto de 1952.

Se o fato de ser comunista o aproximou da intelectualidade mundial, isso também lhe causou inúmeros sofrimentos. Não podia morar em Paris, era proibido simplesmente de entrar em Portugal, mesmo como turista e, por muitos anos, morou como exilado em Praga, onde, inclusive, nasce a sua filha Paloma.

Outro ponto de beleza constante ao longo do livro é a sua relação com Zélia Gattai. Jorge e Zélia mal se conhecem e já vão morar juntos, não importando as amarras com o casamento anterior de ambos. Jorge era filho de ricos fazendeiros do cacau e a sua vida de jovem, certamente não foi pautada pela vivência nas virtudes cristãs. Como comunista era materialista, mas sempre teve profunda admiração e veneração pelo candomblé. O admirava como uma religião concebida sem a culpa e sem o pecado. Uma religião "alegre e sem pecado". A riqueza da convivência com Zélia é simplesmente lindíssima.

Outro ponto alto é a sua convivência com os amigos. Carybé e Caymmi eram praticamente seus irmãos. Todos os músicos e os homens do cinema também faziam parte das amizades que constantemente se reuniam na casa do Rio Vermelho. Pregar peças e aprontar sacanagens entre os amigos eram atividades constantes no seleto grupo.
Com algum esforço dá para ler. Jorge Amado comunica a Sérgio Buarque de Holanda que João Gilberto quer casar com a sua filha. O lado casamenteiro do escritor.

Sensacional é o humor que acompanha o escritor. Tocado de profundos sentimentos ele os transfere para os seus personagens, personagens profundamente brasileiros e populares. E é isso que fez a grandeza de sua literatura. Não aborda muito os seus êxitos. Auto-elogios não são o seu forte. O humor e alegria estão onipresentes, tanto em sua vida, quanto em sua obra. Muito de Gilberto Freyre está em seus personagens.

Livro profundamente ilustrativo e agradável, que recomendo de uma maneira especial a todos. Já manifestei a minha simpatia por livros de memórias e de biografias. Mas este merece uma simpatia muito especial. Grande Jorge e grande Zélia. Aprendi muito a admirá-los e a sentir, até aquela santa inveja, que nada mais é do que admiração profunda, com a leitura desse livro.

O livro é acompanhado de um pósfácio, em que Ledo Ivo desmente o autor de Navegação de Cabotagem, e apresenta-o como Navegando em alto-mar. Um trabalho de qualidade. Acompanha ainda uma pequena e interessante cronologia. Jorge Amado continuará merecendo posts neste meu blog.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Os Dez Maiores Romances Brasileiros.

Gosto de rankings. Eles nos dão muitas informações, tanto úteis, quanto inúteis. Sempre nos dão uma ideia do que está se passando. Está fazendo furor agora, a relação da revista Forbes em que constam os pastores mais ricos do Brasil. Os Cristiano Ronaldos da pregação, como ouvi de um desses pastores, no programa da Marília Gabriela.(Eu mereço!) Me preocupa muito saber se Eike (nas rodas sociais - pronuncia-se Aike) Batista é, ou não, o mais rico entre os braisileiros e coisas assim. Mas, vamos elevar o nível.

Este ranking dos maiores romances da literatura brasileira foi publicado pela Revista Acadêmica, de periodicidade irregular. Seus números só saíam quando havia publicidade contratada para editá-la. Uma de suas maiores façanhas foi exatamente este, da publicação de um ranking dos dez maiores romances da literatura brasileira, de todos os tempos. Para chegar ao ranking foi realizada pesquisa, muito restrita por sinal, porém, qualificada.Votavam apenas esrcitores.

Machado de Assis foi o grande vencedor. Compareceu com duas obras: Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Quem nos apresenta o resultado, não se lembra direito da ordem, em sequência exata. Vai puxando a lista pela memória:

Dom Casmurro - Machado de Assis;
Iracema - José Alencar;
Memórias de um sargento de milícias - Manuel Antonio de Almeida;
 O Cortiço - Aluísio de Azevedo;
Os Corumbas - Amando Fontes;
Angústia - Graciliano Ramos;
Banguê - José Lins do Rego;
Caminhos Cruzados - Érico Veríssimo;
Macunaíma - Mário de Andrade;
Jubiabá - Jorge Amado.
O ranking dos dez mais e da conversa entre Jorge e Graciliano está neste maravilhoso livro de memórias de Jorge Amado. É da Companhia das Letras.

Agora eu contextualizo e dou a fonte. A fonte é Jorge Amado, em seu Navegação de Cabotegem, na página 268. A pesquisa é real. Mas é interessante observar a data. Ela é de 1939. Quantos desses escrirtores permaneceriam na lista? Com certeza que Jorge Amado e Érico Veríssmo continuariam lá como autores, mas se superaram em matéria de livros. Machado de Assis e Mário de Andrade continuariam com cadeira cativa e... mais não me arrisco a dizer, além de mais uma unanimidade, creio: Grande Sertão veredas. Graciliano está sendo redescoberto.

O anúncio do ranking vem acompanhado de conversa de Jorge com Graciliano. Sempre uma delícia. Aliás o livro é todo de conversas. Com Picasso, com Neruda, com Sartre... Querem mais? Mas vejamos as observações de Jorge Amado:

"O concurso foi acompanhado com interesse por escritores, agitou os meios literários, provocou debates na livraria José Olympio, no consultório de Jorge de Lima, na redação de Dom casmurro, mas ninguém contestou o resultado. Não sei tampouco de romancista que tenha cabalado voto, se o concurso dos dez mais acontecesse hoje ia ser um deus nos acuda com cabo eleitoral e leilão de sufrágios. Um detalhe para que se saiba como era malvista, na época, a literatura de Oswald de Andrade: o rebelde paulista só obteve um voto, dado por mim a Serafim Ponte Grande, meu e único".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sobre Carnaval - Máscaras e Tentações.

Recebo e-mail da Travessa. Me apresentam As Caras e as Máscaras. Gosto da Travessa, mais da real do que da virtual. Não interrompo nem mesmo o recebimento de seus e-mails.

As Caras e as Máscaras me faz lembrar que estamos no carnaval. Mas ao abrir o e-mail, estas caras e máscaras não me remetem ao carnaval, mas sim ao mensalão. Mais um livro sobre o Mensalão, de autoria de Merval Pereira e, absolutamente estranho, com prefácio de Carlos Ayres Brito. Não seria estranho se ele não fosse ministro do STF. O título do livro: Mensalão - O dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil, pela Record. Já vem com desconto de liquidação, no seu lançamento.

Teria sido o maior julgamento ou o maior espetáculo jurídico do país? Atores principais e coadjuvantes!Uma semi paralisação da maior instituição do judiciário brasileiro, se ocupando por meses, com um único caso. Quais foram as suas consequências? O que mudou na história política do País? Por que um tipo de mensalão é julgado e transformado no maior e no mais importante, e outros, não são nem mesmo levados a  julgamento?

Mas eu quero me ocupar de carnaval. Uma das festas mais belas de todos os tempos. Uma festa de Dionísio. Uma festa de Baco. Uma festa de fartura e de alegria. Uma festa de espantar tristeza, de mandá-la para longe. Uma festa de agradecimento e congraçamento do homem com a natureza. A bondade humana reverenciando a bondade da natureza, feita Pachamama. Festa em que os seres humanos se inebriarão com as dádivas generosas da natureza, com os seus melhores frutos. O maior presente de Dionísio, o deus amigo dos humanos, afinal, foi a uva, milagrada nos oderes e sabores do vinho.
Dionísio, o amigo dos homens. A maior dádiva que os humanos já receberam de uma divindade. E olhem a fartura de uvas.
Dionísio transformado em Baco e já inebriado de sua principal dádiva.

Ouço dizer que não existe mais carnaval. Que carnaval é coisa para turista e para a televisão. Já estive na Bolívia, mas não em Oruro. Ainda pretendo ir, não precisa nem ser no carnaval. Lá ele ainda existe. Ele é remanescente de milhares de anos de história. Festa de agradecimento à Pachamama, a mãe natureza, por suas generosas oferendas. Embora tenha sofrido inúmeras adaptações cristãs, mantem muito de sua originalidade e é declarada Patrimônio Oral e Imaterial da humanidade, pela UNESCO.
A Pachamama sendo reverenciada pela sedutora Carmen.
Mas cristianização lembra demonização. Dos carnavais de minha infãncia só lembro pregações. Tentações, festa da carne, pecados e os horreres do inferno. Passava depressa, para já na quarta feira receber as cinzas e nos lembrar da terrível realidade: Memento homo, quia pulvis es et in pulverem verteris. E com esta terrível advertência seguíamos adiante no caminho sem máculas, das virtudes cristãs.

Como recebi ao longo da minha vida muitas admoestações, também faço aqui a minha. É a minha mais séria admoestação para esta festa de carnaval. A encontrei no livrinho de reflexões sobre botecos, O Botecário, do hoje curitibano Dante Mendonça, que se considera o maior milagre já produzido por Nova Trento. Ele encontrou esta frase, que eu transformo nesta admoestação máxima para este carnaval, em Millor Fernandes:

"Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar". Por isso, muito cuidado com elas. Um ótimo carnaval para todos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sobre roteiros adaptados para o cinema e para a televisão.

Uma das mais belas páginas do livro Navegação de Cabotagem, o livro de memórias de Jorge Amado é aquela em que ele fala sobre a adaptação de seus romances para o cinema, rádio, teatro e televisão, já que os seus romances foram transformados em cenários para filmes, em peças para o teatro, novelas e séries para a TV e até para histórias em quadrinhos.
Os Miseráveis : poster
Um caso típico de adaptação. Do livro para um musical e do musical para o cinema. O que Victor Hugo teria a dizer?

Creio ser um belo momento para trazer esta página ao presente, neste momento, em que vemos tanta literatura no cinema, concorrendo inclusive a inúmeros prêmios. Creio que o caso que mais chama a atenção é o musical Os Miseráveis do gênio inigualável e inalcançável de Victor Hugo. Poucos são os roteiros originais que vemos nas telas. Poucos são os gênios que brincam de inventar ou transmutar realidades e a partir dela bolar novas histórias. Quentin Tarantino é um exemplo claro disso com o seu Django livre. Outros  conseguem coisas mais geniais ainda, que conseguem produzir tramas a partir da mais terrível realidade cotidiana. É o caso de Haneke e o seu filme Amor. Roteiros originais.

Mas voltamos a Jorge Amado. O que ele pensa disso. É um texto primoroso e que enseja belas reflexões. Primeiro ele se posiciona explicitamente contra, depois justifica. Vejamos porque é contra: "A adaptação de um romance para qualquer outro meio de comunicação é sempre uma violência contra o autor. Por melhor que seja a adaptação, haverá sempre algo fundamental que se modifica, diminui ou cresce, se deturpa ao ser transferido das páginas do livro para o palco ou para as telas". E explica: "É natural que assim suceda. Ao escrever um romance realizo trabalho artesanal, sou um artesão tentando alcançar a arte literária. Quando inicio um livro somos apenas eu, a máquina de escrever, o papel em branco". E o que acontece na transposição? Jorge dá a entender que esta produção artesanal vira cultura de massa.

Nas páginas 201 e202, deste seu livro de memórias, Jorge Amado fala da adaptação de seus livros para o cinema e para a televisão.

"Esse caráter artesanal desaparece quando o romance é adaptado: cinema, rádio, televisão são o oposto do artesanato, são indústria e comércio, o produto a ser oferecido, a ser visto ou ouvido (e não lido) deve corresponder às exigências do mercado. [...] da realização de um filme participa pequena multidão; o produtor, o diretor, o cenarista e o cenógrafo, os diretores de fotografia e de som, o compositor, os músicos, os intérpretes, os técnicos de toda espécie, de iluminação, de vestuário e bote gente nisso, um nunca acabar. Na televisão acresce a audiência, o público,os telespectadores que, sentados ante os vídeos assistem os episódios da novela e sobre ela, sobre a ahistória e os personagens exercem influência decisiva: um simples figurante se cai no gosto do público pode passar a personagem principal. O autor do romance sente-se agredido a cada instante, de repente não mais reconhece sua obra".

A seguir estabelece três motivos pelos quais permite a adaptação de suas obras: Primeiramente porque algo da obra efetivamente sobra: "algo permanece, se reafirma, quase sempre o essencial". Em segundo lugar ele alega o alcance. 20.000 livros são um best-seller. "Enquanto isso os filmes, as novelas e séries de televisão são vistos por milhões de espectadores, incluindo milhares e milhares de analfabetos sem possibilidade de acesso ao livro". O terceiro motivo ele acrescenta por uma questão de honestidade e por ser substancial: "Sou um escritor que vive exclusivamente dos direitos autorais. [...] Não tenho outra fonte renda".

Deixa ainda duas recomendações. Primeiro: receber os direitos autorais, sempre adiantados, e cobrando o mais caro possível e, segundo: nunca acompanhar os trabalhos de adaptação e nem mesmo vê-los, isso para não se aborrecer.

Eu, da minha parte, acrescentaria um quarto motivo para permitir as adaptações. A televisão ou o cinema também leva para a leitura. A curiosidade que o cinema ou a televisão provocam em torno da obra, levam diretamente para a sua leitura. É bom lembrar o enorme sucesso de Jorge Amado, tanto no cinema, quanto na televisão, mas concordo inteiramente com ele, quanto ao trabalho artesal do autor, ao escrever o livro e do leitor ao lê-lo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Darcy Ribeiro. Sua Formação Universitária.

No post anterior sobre Darcy Ribeiro vimos a literatura e o cinema moldando a sua persona. Hoje vamos ver um pouco de sua formação universitária. Novamente recorremos às suas Confissões para alcançarmos o nosso intento. Isso aconteceu com a sua ida para Belo Horizonte. Sua mãe e ele próprio queriam que o menino se tornasse médico. Darcy particularmente se inspirava em seu tio, o tio Plínio, aquele que o colocou em contato com os livros, o homem mais culto de Montes Claros.

Darcy nos relata como ele chegou em Belo Horizonte: "Ia incompleto e muito mal acabado, sobretudo ingênuo, sem ter a menor noção disso. Era realmente um moção tolo de dezessete anos". Nos confessa que fora totalmente catequizado pelo DIP e que tinha um verdadeiro horror dos comunistas. A literatura católica lhe chegava pela sua mãe, por uma revista pia, Ave Maria. Por ela ficou sabendo que os "comunistas tinham o mau gosto de estuprar freiras".
Mais relatos sobre as leituras e a formação de Darcy Ribeiro, a partir de suas Confissões. 

Assim chegou ao curso de pré médico, do qual ele gostou bastante. Só não gostava da matemática e teve aí a percepção de que ela exerce uma ditadura sobre todo o conjunto da educação, sempre arrogando para si uma superioridade que não possui. Afirma que a maior descoberta deste período foi a de que ele poderia frequentar as aulas dos outros cursos e, muito mais importante do que isso: "Inventei então a universidade dos meus sonhos, que busquei implantar mundo afora".

Nas aulas de filosofia se encantava com os professores que versavam sobre Kant, Schopenhauer ou Freud e mais: "Ali se davam aulas de tudo. Todas nesse diapasão declamatório. Uma maravilha, de que eu fruía contentíssimo, livre da matemática e dos cadáveres". O que ainda lhe faltava, ele buscava na faculdade de direito "melhor, ainda que mais contida". Ali se encantou com aulas de política sobre o governo inglês. Nem poderia ser diferente, pois ali estão os principais fundamentos, tanto da política, quanto do direito. O resto era completado com as aulas de filosofia do direito. Eu creio que já deu para perceber que o curso de medicina não era a sua praia. Trocou depois, fazenda tamanho sesmaria, pelo curso de ciências sociais da Universidade de São Paulo.

Bares e conversas com os amigos também eram espaços formativos importantes. Com o amigo Hélio Pelegrino, católico de confissão e comunhão, discutiu religião e lhe propôs fundar uma religião mais racional. De Hélio recebeu a resposta de que ela já existia e que no Rio de Janeiro existia até uma igreja. Referia-se ao positivismo. E lá se foi Darcy para o Rio de Janeiro, conhecer esta religião. Se decepcionou com o retrato de Clotilde de Vaud, a grande paixão de Augusto Comte, substituindo a imagem de Nossa Senhora. Gostou, no entanto, dos muitíssimos santos representados pelas estátuas de Aristóteles, Platão, Newton e Descartes, entre outros.

A sua vida seguia uma rotina. De dia as aulas de sua devoção e não as da obrigação. De noite, os debates nos bares. Ali aprendeu que Getúlio era um horrível ditador e soube da luta da democracia contra os países do eixo. E, de novo, a beleza da literatura, descobrindo agora: "a grandeza de Romain Rolland e a beleza dos romances de Thomas Mann, Faulkner, Pirandello, que nos desprovincializavam. A nova literatura nacional de Jorge Amado, José Lins e Graciliano Ramos me encantou. Passei meses com eles nos cacauais da Bahia, nos engenhos decadentes e no nordeste seco".

Os entornos da política também ajudaram, pois ela fervilhava. Belo Horizonte era governada por JK. Niemeyer começava a expor o seu gênio na Pampulha e o governador Benedito Valadares lançava a pedra fundamental da UFMG. Darcy afirma que ele era muito requisitado: "Passei a ser disputado pelos integralistas e pelos comunistas". Os integralistas andavam mais equipados, sempre com as mãos cheias de livros novedosos, nacionalistas e anti-imperialistas enquanto que os comunistas não tinham esta literatura. Só tinham áridas teses. Darcy encontrou o comunismo na obra de Jorge Amado, O Cavaleiro da Esperança, retratando a vida de Prestes. Também foi alargando seus horizontes com mais e mais leituras: "Textos sobre Heckell, Spencer, Marx, Freud, Nietzsche, Schopenhauer me empolgaram e me deram um novo discurso".

Termino este post com uma revelação que considero bastante importante. Vejamos o relato de Darcy: "Ainda tenho um volumezinho histórico para mim, A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, que eu tentei reescrever quarenta anos depois com o meu O Processo Civilizatório. Darcy entrou depois numa célula comunista. Também considero interessante o seu  depoimento a respeito de pessoas que seguem ideologias com absolta fidelidade, pelas quais manifesta o seu maior respeito: "Meus caminhos foram outros, afortunadamente, mas ainda me lavo naquelas águas. Não sou comunista, nem marxista sou, mas sou discípulo, herdeiro de Marx, que vejo espantado como denominador comum de todas as ciências do homem, que é o que explica a atualidade de Marx".

Bem, quem quiser rastrear os caminhos percorridos para a formação de gênios, está aqui mais um, o de Darcy Ribeiro. Já mostramos as leituras de Niemeyer e muitas outras ainda serão mostradas. Quando eu vejo estas coisas, eu vou descobrindo cada vez mais a precariedade da minha formação. Mas isso também tem uma compensação. Com muitas dessas leituras eu vou preenchendo o meu tempo nos dias de hoje.







terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Literatura e o Cinema na Formação de Darcy Ribeiro.

Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em outubro de 1922. Jorge Amado afirma, categoricamente, que Montes Claros não fica em Minas Gerais, - mas sim, na Bahia. Darcy explica: a cidade estava muito mais ligada à Bahia do que a Minas Gerais. Isso naquele tempo.

Existe algo intrigante em mim e que me acompanha a muito tempo. Eu sofro de uma sadia curiosidade em torno da formação dos gênios. Como eles se formaram e quais os caminhos que eles percorreram para chegarem a essa condição? Agora eu estou debruçado sobre As Confissões, não as de santo Agostinho, mas as de Darcy Ribeiro. A resposta à minha curiosidade remete aos anos de formação, aos anos de menino, destes futuros gênios. Darcy nos conta de sua formação muito explicitamente, numa espécie de post (ainda vou falar disso) no livro, com um título: destino, que ele abre assim: "Sei bem que não nasci em branco".
As belas Confissões de Darcy Ribeiro. Companhia de Bolso.

Falando de Montes Claros, a sua MONC, das vertentes familiares, das duas redes de genes, a dos Ribeiro (gente poderosa) e a dos Silveira, que constituíram a sua persona, Darcy vai explicitando como "resultei ser eu mesmo, menos por opção que por pendores inelutáveis e por propensões a que obedeci". Vamos então ver o que aconteceu com esse menino de Montes Claros.

Pus agora recentemente a frase de Einstein, na abertura deste meu blog: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original", com a exata intenção de flagrar, o quanto de bloqueios existem, para que este abrir-se esteja hermeticamente fechado. Darcy fala bastante sobre isso, mas fala também das primeiras janelas que se abriram em sua vida, para lhe mostrar o mundo. O abrir dessas janelas se deu com a literatura e com o cinema como veremos: "Algumas janelas prodigiosas se abriram à minha frente, mostrando o mundo. A primeira delas foi a literatura. Li os livros que andavam de mão em mão em Montes Claros".

Mas o que Darcy lia e como teve acesso a esses livros? Ele responde: "Romances de muitos volumes ou de muitíssimas páginas: Alexandre Dumas, Michel Zevaco, Ponson du Terrail, Victor Hugo, Rocambole, tantos outros" e continua: "O que me eriçou mesmo, me lembro bem, os nervos do meu espírito, inclusive me politizou, foi a leitura de Os Miseráveis, que reli incansável. Vivi anos encarnado em Gavroche. Antes era D'Artagan. Muito depois, já em Belô, passei a ser Jean Christophe (Agora uma confissão meio envergonhada minha: procurei e achei, - Jean Christophe é um romance de Romain Rolland, em dez volumes, inspirado na vida de Beethoven).

Também relata as suas primeiras leituras em espanhol, Flores del Fango, de Vargas Vila, e uma revista argentina, Pan, que lhe chegou por forasteiros hospedados na cidade, pela qual tomou conhecimento da guerra civil espanhola. Também a literatura local o tocou, a poesia que cantava "os rinchados dos carros de boi, a beleza prateada da lua cheia e os amores do sertão". MONC também tinha os seus Catulo.

Vejam agora como se abriu a segunda janela: "Outra janela esplendorosa foi o cinema, que me ofertou todos os prodígios que o mundo oferecia. Nele vi com meus olhos como a vida pode variar, as mil formas de ser do amor, da desgraça, do drama, do gozo e da dor. Aquela parede vagabunda com sua tela, arrombada pelas luzes e sombras ordinárias, se transmutava, recuando no tempo e no espaço, para versar e mostrar os temas mais desencontrados e mais encantadores". E agora vejam que bonito, os impactos destas janelas abertas sobre o menino. "O rapazinho ingênuo que eu era ali ficava, olhos abertos de pasmo, diante de seres que se tornavam mais importantes para mim que qualquer pessoa vivente de ao redor".

E vejam agora, o que o menino via: "Carlitos, O Gordo e o Magro, os heróis de faroeste, a dramática Greta Garbo, a boazuda Mae West, peitudíssima. Como não contá-la entre meus amores mais amados?" E vejam agora as duas, a literatura e o cinema agindo sobre a mente do menino que crescia: " Minha máquina de pensar foi montada com esses componentes. A vida mesma que observava ali, ao meu redor, espiando, bisbilhotando, era muito menos expressiva que a literatura me dando, revivida em palavras, destinos muito mais impressionantes. O cinema exibindo beldades, feiuras, sublimidades, horrores, aventuras, amores, enredos mil vezes mais vivos e cativantes que os que aconteciam na minha pobre MOC. Tudo misturado na minha imaginação para ser meu retrato do mundo e do humano".

É bonito demais para não transcrever mais um parágrafo: "Sem a livralhada de tio Plínio eu não seria quem sou. Livros são os tijolos de que são feitos os intelectuais. Sem eles, eu teria sido o fazendeirão que Filomeno insinuava. Outro gênero qualquer de gente. Bem diferente do que vim a ser. Um consumidor insaciável de papel impresso, um escrevedor que não resiste nem mesmo ao desejo de converter-se em livro nesta biografia". "Leitura é a carne do meu espírito"... "Meu mundo é o da escritura, das ideias e da representação. Nisso é que eu realmente vivo, apenas saindo em fugas para atender a urgências fisiológicas ou mercar palavras com outras pessoas."

Mesmo assim, vejam o que ele diz de si, quando chega em Belo Horizonte, moço de dezessete anos: "Ia incompleto e muito mal-acabado, sobretudo ingênuo, sem ter a menor noção disso era um meninão boboca de pequena cidade do interior, precisando ser desfeito para ser refeito".

Amanhã veremos a formação universitária do menino. Nasce já neste período a concepção de universidade em Darcy. Está aí a gênese da futura universidade de Brasília.