sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Sucessão Papal 3. Dante Alighieri e a renúncia de celestino V.

Dante Alighieri (1265-1321) também era político. Era absolutamente a favor de que as pessoas assumissem posições com muita firmeza. Não cabia em sua mente a neutralidade. Envolveu-se profundamente nas brigas de seu tempo, que, por sinal, não eram pequenas. Viveu em tempos de crises profundas, em tempos de transição. O mundo moderno estava em seu alvorecer. O poder estava migrando - do poder espiritual/papal para o temporal, dos reis. Problemas de sucessão no Sacro Império Romano Germânico dividiram a Europa entre Guelfos (seguidores do papa) e Gibelinos (adeptos do poder temporal).
Busto em homenagem a Dante, na sua cidade de Florença, da qual viveu banido por quase toda a vida.

Dante, apesar de católico devoto era um fervoroso gibelino. Uma das coisas que ele mais odiava era a dita neutralidade. A leitura de A Divina Comédia é recomendada pela Igreja e posta em nível de igualdade com a leitura dos Evangelhos, pelos efeitos que ela produz sobre a alma de um cristão. Dante, no entanto, nunca foi proclamado como um santo da Igreja. Os motivos parecem óbvios.
A monumental obra de Dante Alighieri. Versão bilíngue da Landmark.

Creio que ninguém tem dúvidas sobre a superioridade da primeira parte da Comédia, em que é descrito o Inferno, sobre as demais partes, onde são descritos o Purgatório e o Paraíso, respectivamente. Assim como também, creio eu, ninguém tem dúvidas sobre o verso mais famoso desta primeira parte, bem como de todo o livro, é o início do canto terceiro, em que se encontra o verso inscrito no portal do inferno:

"Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até a eterna dor,
por mim se vai à perdida gente. [...]
Deixai toda a esperança, vós que entrais".

Este "deixai toda a esperança, vós que entrais" é a frase terrível com a qual Dante, guiado por Virgílio, inicia a sua viagem pelo Inferno, numa graduação dos pecados, dos menores para os maiores. A primeira parte é dedicada ao Inferno, mas não àquele propriamente dito e que é dividido pelo poeta em duas partes: o vestíbulo e já o primeiro círculo, o limbo. A estas partes são dedicados o terceiro e o quarto cantos. Nele iremos encontrar os ignaros (no ante-inferno, ou no seu átrio) e os virtuosos anteriores a Cristo e as crianças não batizadas (O limbo foi abolido pela Igreja, através de um documento da Comissão Teológica Internacional da Igreja e a sua publicação - e consequente validade - foi autorizada pelo papa Bento XVI, em 2007). Entre os virtuosos estão todos os grandes nomes da antiguidade clássica, inclusive o seu guia Virgílio. A escolha de Virgílio como guia, se dá em função da admiração que Dante lhe devota e por causa da Eneida, especialmente ao canto VI, Eneias no mundo das sombras, uma espécie de viagem precursora.
Em revista sobre a Divina Comédia, a apresentação dos primeiros círculos do Inferno e o seu vestíbulo, onde colocou o papa Celestino V, por ter renunciado ao pontificado.

O posicionamento político de Dante faz com que os seus personagens do Inferno tenham nomes. São os seus inimigos políticos. Pois bem. É aqui que entra a história do papa que renunciou. Trata-se de Celestino V, um monge da região do Abruzzo, de nome Pietro da Morrone, que através de uma série de manipulações dos cardeais, é eleito papa, sem nenhuma vocação para tal, renunciando cinco meses depois. Isso ocorre no ano de 1294. O mais grave disto, do ponto de vista de Dante é que isso proporcionou a ascensão do guelfo Bonifácio VIII ao papado, considerado por ele, como causa de todos os males que afligiam a Dante e a sua Florença. Dante coloca a Celestino V, nem no Paraíso e nem no Inferno. Não o quis Deus e nem o demônio. A renúncia ou a omissão fez com que não interessasse nem ao Bem e nem ao Mal. Não vai nem mesmo para o inferno, ficando na sua ante-sala.

Mas vamos ao papa rifiuto. Dante não é nada  generoso com o renunciante. Não o coloca no inferno propriamente dito, mas muito menos no Paraíso. Vamos aos versos do entorno,  Versos 33 ao 68.
"E co a cabeça de erros só cingida,
eu disse: Mestre, que ouço? pela dor, 
que gente é esta agora assim vencida?
E ele a mim: 'É o mísero valor
daquelas almas tristes em seu choro
que foram sem infância e sem louvor.
Vão misturadas ao molesto coro
dos anjos que não foram nem revéis
nem fieis a Deus, senão ao próprio foro.
Por mor beleza, o céu expulsa-os; eis
que a acolhê-los o inferno não se atreve:
seriam glória aos réus de eternas leis.
E eu: Ó mestre, o que é que tanto deve
neles pesar em tal lamento forte?
E ele disse: Te dou resposta breve.
Esperança não tendo em si de morte,
trazem tão baixa e cega a vista baça,
que têm inveja a toda a demais sorte.
Da fama não lhes fica ao mundo traça;
misericórdia justa os já despreza:
mas não falemos deles: olha e passa.
E uma bandeira vi, com tal surpresa,
que girava correndo em veloz jeito,
e à qual indigna pausa era defesa;
e atrás lá vinha longa fila a eito
de gente que eu jamais teria crido
que a morte tanta houvesse já desfeito.
Depois de haver alguns reconhecido,
vi, conheci, da sombra a lividez
que por vileza a mor escusa há tido.
Logo entendi e certo se me fez
ser a seita dos maus que são nocivos
a Deus e aos inimigos de uma vez.
De tão abjectos nunca foram vivos,
estavam nus e os bem espicaçavam
só vespas e moscardos, como crivos.
O rosto com o sangue lhes regavam,
e o sangue e mais as lágrimas, no chão,
lá repugnantes vermes os tragavam (Tradução de Vasco Graça Moura - Landmark - 2005)

Vejam o julgamento do renunciante nas palavras do próprio Dante: "Logo entendi e certo se me fez - ser a seita dos maus que são nocivos - a Deus e as inimigos de uma vez".
A biografia de Dante, de R.W.B. Lewis, da Objetiva e a revista Livros - Entre Clássicos, dedicada a Dante.

Não posso terminar este post, sem mencionar a renúncia de Bento XVI. É evidente que o julgamento de Dante não se aplica a ele. Em primeiro lugar porque o julgamento de Dante tem tempo e espaço definidos. Um papa que renunciou por uma ato de fraqueza e que proporcionou a ascensão do inimigo. É muito mais um lamento do que uma condenação, embora como condenação, pesadíssima. No dia de hoje(22.02.2013) repercutem no Brasil os dados publicados pelo jornal "La Repubblica" sobre os reais escândalos que teriam levado Bento XVI à renúncia. Oportunamente comentaremos.

É mais do que visível a debilidade física de Bento XVI. Li que ele tem sérios problemas de visão, de audição e de locomoção. Abdicar ao papado, nestas circunstâncias é acima de tudo um ato de humanidade e que assim deve ser entendido por todos. A longevidade de nossos tempos traz também as suas consequências. A sua renúncia, apesar de termos uma figura nova, um ex-papa, é plenamente justificável. Amanhã falaremos de Leonardo Boff.


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